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Últimas conversas

27 maio

Quando, em fevereiro do ano passado, soube da morte de Eduardo Coutinho, lembrei-me logo de seu último filme, “As canções” (2011), ao qual dediquei texto comovido que chamei de “Músicas e lágrimas”.

E claro, senti-me bem em haver homenageado, em sua derradeira realização, o maior documentarista brasileiro de todos os tempos e lugares.

Agora, me deparo com a novidade: “As canções” não foi exatamente o último filme de Eduardo Coutinho. Antes da tragédia que o levou, o cineasta estava rodando um documentário com estudantes do ensino médio de uma escola pública do Rio de Janeiro.

O cineasta Eduardo Coutinho

O cineasta Eduardo Coutinho

Embora com 32 horas de gravação já feitas com 28 estudantes, o filme ficara incompleto. Ou melhor, teria ficado, se amigos de Coutinho não tivessem decidido que a metragem gravada merecia uma compleição – um filme póstumo que seria uma homenagem.

E assim fizeram o cineasta João Moreira Salles e a montadora Jordana Berg, que tinham a vantagem de possuir filmagens dos bastidores da produção, onde o próprio Coutinho falava do filme que estava rodando e dos problemas que estava enfrentando. Juntaram esse material autobiográfico com as gravações de nove estudantes que Coutinho já escolhera como definitivas e editaram o documentário “Últimas conversas” (2015), no momento em cartaz na cidade, e no país.

O crédito de direção é de Eduardo Coutinho, porém, o espectador familiarizado com sua obra pode se indagar até que ponto “Últimas conversas” é um filme seu. Sim, porque há diferenças entre este filme e a obra de Coutinho, pequenas mas marcantes.

A primeira é que nele Coutinho desfruta de um bom tempo de tela, coisa inexistente em seus filmes anteriores. E, nesse tempo de tela, aparece falando de si mesmo. Aliás, no filme todo, ele fala muito mais do que o habitual, interferindo nos depoimentos dos entrevistados, como nunca fizera antes. Cheio de tempos mortos e cortes bruscos, o filme não possui o seu conhecido cuidado de edição. Em alguns casos, são demorados os trajetos da porta à cadeira em que os depoentes se acomodam, em outros, o depoente já aparece em close, sem trajeto. A rigor, foram à tela vários elementos dos bastidores, alguns acidentais, como aquele momento em que o fotógrafo pergunta a Coutinho se ele está fumando, e ele responde que está terminando o cigarro.

jovens depoentes: revelações comovidas

jovens depoentes: revelações comovidas

Mas, atenção: não entendamos isso como defeito. Apenas estamos diante do filme póstumo possível, e a dupla Salles e Berg foi sábia em manter o equilíbrio entre o estilo Coutinho e um Coutinho inventado ad hoc, e à revelia de si mesmo. Nisso “Últimas conversas” é um filme que mostra suas entranhas, em vários sentidos da palavra.

“É melhor não fazer do que fazer um filme de 70 minutos em que você não acredita”: a fala de Coutinho é toda pessimista e passa a ideia de estar trabalhando por obrigação, sem inspiração e sem garra. Foi bom que essa fala desencantada tenha sido posta no início do filme, pois, o que se vê em seguida nega as palavras do autor e comove o espectador, tanto quanto – ouso dizer – nos comoveram outros filmes de Coutinho.

Escolhidos a dedo, os jovens entrevistados dão depoimentos fortes que, se for o caso, fazem o espectador revisar seu conceito de juventude.

jovens depoentes: racismo e outros males

jovens depoentes: racismo e outros males

Vejam o caso daquela jovem que, contando sua difícil relação com a família, perde o controle e chora diante da câmera, ao tratar da frieza da mãe, que a vida toda a sustentara com bens materiais, mas nunca manifestou qualquer expressão de afeto. Essa mesma mãe que preferiu acreditar no companheiro, quando soube, da boca da filha, que este costumava assediá-la sexualmente.

Ou daquela aluna negra que diz não acreditar em preconceito racial e, no entanto, relata que os irmãos, mais alvos que ela, a rejeitavam na presença dos amigos. E, mais grave ainda, no dia em que vai estudar em colégio particular, as alunas da turma, lhe pregam uma peça de mau gosto em que ela, a única negra da classe, é comprada como se fosse um objeto.

Se o espectador habitual de Coutinho por acaso surpreendeu-se com a cena inicial em que ele é entrevistado, uma segunda surpresa é deixada para o final. Quebrando a regra do projeto (entrevistas com estudantes de Ensino Médio), a última entrevistada é uma garotinha de seis anos de idade – faixa etária inédita em Coutinho! – com quem o cineasta parece estar bem mais à vontade do que com os outros depoentes.

Tão à vontade que sai do foco repetindo a frase da menina “Deus é um homem morto” e confessando, animado, que o que devia fazer era um filme só com crianças.

Quem sabe? Talvez fosse o próximo.

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Em tempo: você encontra a minha matéria sobre o filme “As canções” neste blogue: é só digitar acima, no setor de BUSCA, o seu título MÚSICAS E LÁGRIMAS.

Estudantes do Ensino Médio contam suas estórias

Estudantes do Ensino Médio contam suas estórias

 

Músicas e lágrimas

27 dez

Pode não acontecer com todo mundo, mas muita gente traz consigo, em sua memória afetiva, uma música especial, uma que mudou sua vida. Foi em cima desse pressuposto que o documentarista Eduardo Coutinho concebeu e rodou “As canções” (2011), filme em exibição na cidade.

Mas como rodar um documentário desses? Quem poderiam ser as pessoas a depor: famosos ou anônimos? Feita a segunda opção, a produção pôs-se nas calçadas do Rio de Janeiro com a faixa de chamada: “Se você tem uma música que mudou sua vida, cante e conte sua estória”.

Nada menos de 237 pessoas toparam a parada e, rodadas as tomadas iniciais, procedeu-se a uma primeira seleção – já que o filme não poderia ficar tão longo – e 195 foram eliminados. Dos 42 restantes, o próprio Coutinho cortou mais 24 e montou as cenas definitivas com apenas 18 depoentes.

Variando de sexo, profissão, grau de instrução e faixa etária (dos 20 aos 80 anos), os entrevistados fazem, diante da câmera, o que a faixa de chamada pedia: cantam uma canção amada e contam por que ela o é. O cenário é sempre o mesmo – uma cadeira em um palco, vendo-se por trás as cortinas de um azul escuro e mais nada. Os “cantores” por vezes desafinam, ou eventualmente erram uma palavra ou outra das letras, mas, com pouco movimento de câmera e poucos cortes, Coutinho mantém tudo, como se a resguardar a verdade do momento.

Sensível, emotivo, empolgante, ao mesmo tempo dolorido e delicado, o filme só faz confirmar o extraordinário talento de um consagrado documentarista brasileiro que já nos deu tantas obras primas no seu gênero, porém, a mim, a primeira impressão que ocorreu foi a de como cada estória contada consistia em um verdadeiro roteiro de cinema a filmar. Possivelmente como filme ficcional, mas tudo bem.

Vejam o caso daquela senhora idosa que cantou o samba-canção de Fernando César “Do ré mi”, aquele que começa assim: ´Eu sou feliz, tendo você sempre ao meu lado / e sonho sempre com você, mesmo acordado´ (lembram?).

A tal senhora nos conta que, muito jovem,em sua Minasde origem, ficou mãe solteira e foi destratada pela família e deportada para o Rio, com a filha pequena. Pobre, sem muita instrução e sem apoio familiar, a vida na cidade grande era tão difícil que um dia, desesperada, decidiu matar a filha e suicidar-se. Tomou um trem para consumar o gesto fatal bem distante, mas, o que ocorre? Ainda no trem, um rapaz a observa e os dois trocam olhares. Ao descer, pensando em como executar o que tinha planejado, tem sua atenção chamada pela menina, que lhe diz: “Mãe, o moço que estava no trem está atrás da senhora e parece que quer lhe falar”. Ela se vira e pergunta o que ele quer dela, e ele responde com a letra da canção referida. Resultado: o suicídio é esquecido, os dois começam a namorar, logo casam e são felizes para o resto da vida, uma vida longa, tranquila e apaixonada, tão apaixonada que, todo dia, ao acordar, antes de qualquer coisa, os dois solfejavam o “do re mi”, até ficarem velhinhos e ele falecer.

Eu sei, pode ser que haja um certo grau de invenção na estória contada, mas, que importa? O roteiro está dado: é só escrevê-lo e rodar, se você gosta de filme com final feliz.

Se você prefere finais infelizes, é o que mais tem em “As canções”, e, aliás, foi por isso que intitulei esta matéria que se lê de “músicas e lágrimas”, ao mesmo tempo uma referência – como o leitor talvez percebeu – ao clássico de Anthony Mann (1953), sobre a vida e morte do músico Glenn Miller, cujo título brasileiro foi quase este, apenas a primeira palavra no singular: “Música e Lágrimas”

Sim, quase todas as estórias narradas pelos depoentes de Coutinho são relatos tristes com desenlaces disfóricos. Alguns dos “cantores” chegam a chorar, descontrolados perante a câmera, como aquela mulher que canta “Minha namorada”, de Vinicius, ela que passou a existência inteira amando de longe o homem que não pôde ser seu, nem marido, nem amante, nem namorado. Ou aquela outra, abandonada pelo esposo, que nos canta “Retrato em branco e preto” de Chico. Ou ainda aquela outra que descobriu, arrasada, que a canção romântica que ela e o marido alimentavam como tema amoroso, não o era: chegando um dia em casa de surpresa, ele está cantando a tal canção – o “Olha” de Roberto Carlos – no telefone para a amante. 

O impressionante é que, em nenhum momento, o filme descamba para o sentimentalismo ou a breguice, embora os personagens sejam, em sua maioria, sentimentais e bregas. Milagres da mão e olho experientes de Coutinho.

Não é a primeira vez que Coutinho leva os seus entrevistados a cantar, porém, aqui, pela primeira vez, é a música que domina o enfoque e todos a ela se rendem: cineastas, personagens e público.

Claro, saí do cinema comovido e pensando em que música mudou minha vida. Ainda não decidi, e por enquanto, transfiro a tarefa ao leitor que, se ainda não viu, não pode perder esse belo exemplo de como o documentário pode ser tão imaginativo quanto a ficção.