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O PRIMEIRO WIM WENDERS

15 abr

Sabe aquele filme que você conhece de referência, mas nunca assistiu? Meu caso com “O medo do goleiro diante do pênalti” (1972) que só agora vejo, esta semana, uma cortesia do Canal Arte 1.

Embora não curta futebol, o título sempre me intrigou, o mesmo em alemão, “Die Angst des Tormanns beim Elfmeter”, e mais ainda por ser a primeira realização de um cineasta que tanto admiro, o grande Wim Wenders.

A rigor, ele já era, na época, autor de uma série de curtas e de um trabalho de curso desconhecido, chamado de “Summer in the city”, e co-autor (com mais oito cineastas) do misterioso “Kaspar Hauser”, mas nada que lhe houvesse dado identidade fílmica – de modo que se pode dizer que “O medo do goleiro diante do pênalti” é o primeiro Wim Wenders.

O cineasta alemão Wim Wenders

O primeiro, e mesmo assim, só veio a público atrasado no tempo. Ocorre que o filme tinha uma rica trilha musical, com canções de, entre outros, Rolling Stones e Elvis Presley, e as gravadoras não autorizaram a distribuição. Em nova cópia, Wenders foi obrigado a mudar essa trilha musical, e claro, em detrimento da qualidade.

E de que trata o filme? Baseado em livro de Peter Handke, conta uma história de uma hora e quarenta minutos com um mínimo de ação.

Na Viena da época, o goleiro Josef Bloch engole uma bola, briga com o juiz, e é despedido. Depois disso, fica vagando por aí meio sem rumo. Conhece uma bilheteira de cinema, com quem sai, e… a mata. Em seguida, se desloca pra uma cidade vizinha, onde se hospeda na pensão de uma conhecida, e passa o tempo fazendo coisas indefinidas até o filme terminar. Uma das coisas que faz é ler jornal. Num deles, o caso da bilheteira estrangulada é mostrado, mas o assassino não foi identificado e nunca será… e assim o filme termina.

A última cena mostra Bloch assistindo a uma pelada, e explicando a um senhor ao lado, que na hora de uma cobrança perigosa, todo mundo olha a bola, mas ninguém presta atenção ao goleiro. Deve ser verdade, mas o filme não deixa claro por que a jovem bilheteira foi estrangulada por esse goleiro frustrado… E, suponho, o espectador tem, ao final, uma árdua tarefa de preencher as lacunas semânticas e temáticas com que o filme o abandona.

O ator Arthur Brauss, que faz o papel do goleiro Josef Bloch.

Tudo bem, aqui já estão alguns dos traços que entrariam no estilo Wim Wenders que veio a ser conhecido depois: a alienação, o comportamento antissocial, o vagar sem destino, a dificuldade de comunicação entre as pessoas, o vazio da existência, o gosto pela cultura americana (presente nas músicas), etc, mas de todo jeito, não posso dizer que o filme tenha me conquistado. Se o tivesse visto na época, não adivinharia, nele, o Wim Wenders dos belos “Paris, Texas” e “Asas do desejo”.

Bem ou mal, visto ou apenas noticiado, “O medo do goleiro diante do pênalti” deve ter entrado no clima do movimento de cinema, surgido então, e que foi, mais tarde, chamado pela crítica de “O novo cinema alemão”, do qual também fizeram parte importante Volker Schlondorff, Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog.

Enfim, não sei se, com a trilha musical original, “O medo do goleiro diante do pênalti” faria outro efeito. Nem sei e, pelo jeito, nem ninguém jamais saberá…

CREPÚSCULO DOS DEUSES – setenta anos

22 mar

Há filmes que são maiores que o cinema. Filmes que são grandes, não apenas na história da sétima arte, mas na historia da Arte como um todo. Acho que é o caso de “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950), que por sinal está, neste ano de 2020, completando setenta anos.

E de sobra é também um filme sobre a história do próprio cinema, ou ao menos uma parte dela. Conta o drama de uma grande estrela da era muda, há muito aposentada, Norma Desmond (Gloria Swanson), que, nos seus cinquenta anos de idade, ou seja, no auge do cinema falado, amarga a solidão, o oblívio e a decadência. Decadência que ela atribui, não a si mesma, mas ao cinema falado: “Eu sou grande – diz ela – os filmes é que ficaram pequenos”.

Ora, o acaso lhe põe dentro de casa (digo, dentro de sua luxuosa mansão do sofisticado bulevar Sunset) um jovem roteirista de Hollywood, e, de repente, ela vê nele a esperança de um retorno retumbante às telas. Eufórica com a alternativa desse retorno, ela literalmente compra esse jovem roteirista em dificuldade financeira, que deve transformar uma mirabolante estória, escrita por ela mesma, num brilhante roteiro de filme que deverá ser um sucesso de crítica e público.

Gloria Swanson é Norma Desmond

Mesmo a contragosto, ele, Joe Gillis (William Holden) passa a residir na mansão de Norma Desmond, que o mima com luxos que ele nunca conhecera. O rapaz, por sua vez, entra em crise no dia em que percebe que não é mais, para a velha estrela, apenas um empregado, e sim, um suposto amante. Numa noite de vinho e tango, os dois quase a sós na velha mansão, ele recusa esse amor, e o corolário inevitável é, da parte dela, uma tentativa de suicídio.

A partir daí, a situação se torna insustentável e o pior está por vir. Mas, ora, esse pior já nos havia sido mostrado na abertura do filme: o corpo de um jovem roteirista, boiando na piscina com três tiros nas costas. A cena é plasticamente impressionante, pois vemos tudo de baixo pra cima como se estivéssemos, nós espectadores, no fundo da piscina. E tem mais, como em Machado de Assis, quem nos conta a estória toda, em seus mínimos detalhes é esse cadáver.

Brilhante.

Billy Wilder e Charles Brackett escreveram o roteiro juntos, roteiro que vagamente se baseou num boato criminal antigo, do tempo do cinema mudo, em que a atriz Norma Talmage estaria, ou não, envolvida no assassinato do cineasta William Desmond Taylor. A estória do filme ficou diferente, porém, de todo jeito, o nome da protagonista – Norma Desmond – veio da mistura dos dois envolvidos nesse caso obscuro.

Holden e Swanson em cena do filme

A primeira ideia da dupla era começar o filme com uma cena numa mortuária, com dois cadáveres conversando, um contando sua morte ao outro. Por sorte, desistiram e bolaram a cena da piscina, que aliás, deu um trabalho danado ao diretor de arte, John Mehen, já que a câmera não poderia se molhar, e ele teve que usar de criatividade para inventar uma tomada dentro de um tanque, com a câmera envolta em vidro.

Tempos depois da consagração universal do filme, Wilder disse à imprensa que era para ter sido uma comédia, com Mae West e Marlon Brando no elenco, mas, pessoalmente, não acredito: Wilder, como se sabe, era mestre em gozações.

Na verdade, o elenco primeiramente pensado era outro. O primeiro nome para fazer Joe Gillis não tinha perfil de cômico, Montgomery Clift, que, por motivos pessoais, desistiu antes de as filmagens começarem. O papel de Norma Desmond era para ter sido de Greta Garbo, ou Mary Pickford, ambas estrelas do passado que recusaram, mas hoje ninguém tem dúvidas que a escolha de Gloria Swanson – ela também uma diva do passado mudo – deu muito certo. Seu desempenho apropriadamente afetado foi perfeito, e muitas de suas cenas se tornaram antológicas, a exemplo, da sempre citada tomada do final, em que a velha atriz enlouquece de vez e, na chegada da polícia (foi ela quem atirou nas costas de Joe Gillis, na borda da piscina) pensa estar sendo filmada pela Paramount e, arrebatada pelas luzes, solta sua frase definitiva: “Estou pronta, Mr DeMille, para o meu close up”. (Referia-se ao cineasta da Paramount Cecil B. DeMille).

Depois desse papel, Gloria Swanson realmente decaiu e praticamente não filmou mais. Os personagens que lhe ofereciam, depois disso, eram derivações canhestras de Norma Desmond, que ela, felizmente, teve a sensatez de recusar.

Já Billy Wilder e Charles Brackett brigaram furiosamente sobre o modo de efetuar a montagem, este tentando amenizar o sentido mórbido do filme (lembram o velório do macaco?) e aquele enfatizando justamente isso.  E nunca mais trabalharam juntos.

Mas, a glória de “Crepúsculo dos deuses” está aí, pra quem quiser comprovar. Depois de setenta anos, parece cada vez mais forte, mas definitivo e mais tragicamente belo.

LÁGRIMAS TARDIAS

19 fev

 

Quem iria ver um filme de um tal de Byron Haskin? Ninguém.  E se o filme for de 1949, com Lizabeth Scott, Arthur Kennedy e Dan Duryea? Nada disso ajuda muito e se você vai ver “Lágrimas tardias” (“Too late for tears”) é porque – como eu – é doido por filmes noir. Vai ver e não se arrepende.

A estória já lhe prende do início. Nos arredores de Los Angeles, esse casal que dirige em uma rodovia à noite toma um susto com um carro que vem em sentido contrário e quase abalroa. Depois do susto, notam que o motorista lhes jogou uma maleta preta. Curiosos abrem e, pasmos, constatam que a maleta está repleta de dinheiro. Pelo menos uns sessenta mil dólares.

O marido Alan Palmer (Arthur Kennedy) pensa em entregar esse tesouro à polícia, mas a mulher, Jane (Lizabeth Scott) não quer nem ouvir falar disso. Concordam que guardarão a maleta misteriosa por uma semana, tempo para pensar, conversar e decidir. Isso é só o comecinho do filme, e, pergunto, quem conseguiria parar aí?

Logo cedo, as concordâncias conjugais vão desaparecendo: “Não vê – pergunta Jane ao marido – que esse dinheiro foi literalmente jogado nas nossas mãos?” Ao que Alan responde: “Não percebe, Jane, que isso é uma bolsa de dinamites, algum pagamento indevido, provavelmente de chantagem?”

Assídua no gênero noir, Lizabeth Scott faz muito bem a típica femme fatale. Não que seja bonita, mas, ambição (e maldade) é o que não lhe falta e, claro, um certo cínico poder feminino de sedução.

Até o gangster Danny Fuller, feito pelo típico vilão de filmes noir Dan Duryea, ela consegue até certo ponto ludibriar. Ele que só confia, desconfiando. O apelido que ele lhe dá é perfeito: “tigresa”. Aquele beijo que os dois trocam, quando as más intenções recíprocas já estão bem postas, entra muito bem na galeria dos “beijos malvados” que um dia pretendo aditar e enviar de presente aos amigos cinéfilos.

Cada um tem seu instante de fraqueza, mas, isto é coisa pontual. Danny despencando pra embriaguez no momento de – sugestão de Jane para eliminar a cunhada Kathy, que dela desconfiava – comprar veneno pra uma segunda vítima, e Jane desmaiando ao constatar que o ticket que guarda a maleta do dinheiro na Estação Rodoviária fora substituído por um cartão em branco.

O enredo não é novidade (tudo girando em torno de uma maleta de dinheiro) nem precisa ser. O noir era feito disso – de um amontoado de clichés, cuja mistura sempre funcionava às maravilhas. Como se sabe, ajudavam muito nesse efeito, as angulações distorcidas, os jogos de luzes e sombras, e em particular a trilha sonora. Não esqueçamos: eram filmes baratos, realizados às pressas, para preencher o programa da semana, sem fiscalização das produtoras, e nunca foram feitos para ganhar Oscar. Nem ganharam. Sem a cobrança dos Estúdios, os diretores, menores ou maiores, se sentiam à vontade para rodar o filme do jeito que quisessem. É o caso desse Byron Haskin aqui.

Revendo “Lágrimas tardias” hoje, depois de tanta água rolada, dá pra notar como a tal maleta cheia de grana era um mero pretexto para pôr a estória em andamento e para revelar as características pessoais dos protagonistas, em termos modernos um autêntico “macguffin” – invenção genial do teórico da narrativa Alfred Hithcock.

Sim, há alguns turning points que conduzem a um final relativamente imprevisível, mas o núcleo da maleta perdura. Um desses turning points é o aparecimento súbito e inexplicável desse Don Blake (Don Defore), um suposto amigo do marido de Jane (este agora desaparecido, e, a gente sabe, morto).

O envolvimento de Blake com Kathy, a cunhada e vizinha de Jane, é o que vai dar ao espectador a esperança de que o mundo não é só dos malvados. A presença e ação do casal é que vão levar à revelação do passado criminoso de Jane/Lizabeth Scott e à solução do problema. Inevitavelmente, a tese é a de que “o crime não compensa”.

Mais um clichê, mas quem se importa?