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“Relatos selvagens”: o superego que se dane!

28 nov

Só agora me chega às mãos e aos olhos este “Relatos selvagens” do argentino Damian Szifron (2014). Perdi-o, quando foi exibido por aqui, embora, na ocasião, não tenha escapado dos muitos comentários – aliás, extremamente favoráveis – de amigos que o haviam visto e curtido.

De fato, o filme de Szifron é empolgante e faz jus à fama que já detém, há muito tempo, a boa – para não dizer, excelente – cinematografia argentina. Conta seis estórias, cada uma independente das outras, salvo pelo fato do que está sugerido no título: a selvageria que, em instantes de crise, faz os personagens agirem de modo inesperado para as convenções socialmente recomendadas. Se pensarmos em Freud, algo assim como ´mandar o superego para a p que pariu´…

Na primeira estória, “Pasternak”, um aviador que foi um dia um músico frustrado decide pôr no mesmo voo, todos os seus desafetos, para, a turma toda junta, espatifar-se lá embaixo numa espetacular queda suicida. Vejam que um dos desafortunados passageiros é o psiquiatra de Pasternak, de forma que não estou chutando quando, acima, me refiro a Freud.

Na segunda estória, “Os ratos”, uma garçonete se vinga de um freguês que, no passado, arruinara sua família e o procedimento é um eficiente envenenamento… Em “O mais forte”, terceira estória, dois motoristas se digladiam na estrada, dois duelistas insanos que ganham o mesmo fim ensanguentado. Já “Bombinha”, quarta estória, relata os pormenores de como um engenheiro de demolições, é moral e psicologicamente “demolido” pela burocracia… e revida com moeda própria. O quinto episódio, “A proposta”, trata o caso de um filhinho do papai que, em acidente de automóvel, mata uma mulher grávida: os pais acertam que o jardineiro da família, assumiria o crime, com a compensação de 500 mil dólares, mas, o problema é que contrapropostas vão surgindo e o pai do rapaz decide tomar uma decisão inesperada.

Embora sempre dentro de um mesmo cenário – uma festa de casamento – a última estória é a mais longa e envolve um número maior de personagens, embora, claro, o centro sejam os noivos. Em “Até que a morte nos separe” ela, a noiva, descobre que está sendo traída e, enfurecida, opta pelo menos esperado: um radical, penoso e constrangedor “barraco”.

Em cada estória está tudo perfeito: do roteiro à direção de atores – passando por fotografia, música e montagem – está tudo bem equilibrado e o filme demonstra como se faz cinema com talento e criatividade. Em todas elas, estão bem dosadas as pitadas de drama e humor. Os personagens parecem reais, mesmo quando vão perdendo o controle de seus respectivos egos. E mesmo nos auges caricatos, assim permanecem: reais. Vejam o caso da última estória. Considerem que encenar “um barraco” não é nada fácil, sobretudo com a duração que este tem. O perigo de cair no ridículo (o mesmo ridículo que está sendo encenado) é grande. Szifron consegue esse milagre, e o faz com perfeição. A imagem final, em close, dos bonecos do bolo, no chão, recebendo os efeitos colaterais da selvagem cópula do casal… merece palmas do espectador. Em suma: quanto mais desequilibrados os personagens, mais equilibrado o filme.

No geral, o filme parece fazer a pergunta: até onde o ser humano vai quando sua sobrevivência (psicológica, moral, física, seja qual for) se vê ameaçada? O que ainda temos dos animais, aqueles que aparecem na tela, ao lado dos nomes de cada integrante da equipe de filmagens? O argumento inicial, que deu origem ao roteiro, pode ter sido só uma brincadeira, mas, que deu certo, deu.

Um lugar comum da crítica é que o melhor do bom cinema argentino de atualmente está nos roteiros. “Relatos selvagens” confirma esta verdade. As estórias são inventivas e originais, o que, no entanto, não impede que nelas encontremos ecos de outros filmes e outros autores.

Por exemplo: “Os ratos” nos lembra, de modo bem direto, aqueles filmes curtos que Alfred Hitchcock fez para a televisão americana nos anos 50 e 60, dentro da série “Hitchcock Apresenta”. Sintam como a cozinheira que, à revelia de sua colega medrosa, se empolga com a ideia de pôr o veneno na comida do freguês – e o faz – é um tipo hitchcockiano bem óbvio. Na verdade, no grosso, o filme tem o espírito desesperado (e a temática) de “Um dia de fúria” (Joel Schumacher, 1993), mas talvez o seu eco particular mais ostensivo para o cinéfilo seja o da estória dos dois duelistas na estrada, remontando, desde o primeiro fotograma, ao delicioso “Encurralado” de Steven Spielberg (1971).

Enfim, o filme de Szifron me chegou tardiamente, mas isto não tem importância alguma. Alguns filmes que me chegaram em tempo eu já os esqueci. Este, eu vou demorar a esquecer, ou, quem sabe, talvez não esqueça nunca.

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Macbeth in Brazil

19 nov

Está em cartaz na cidade “A floresta que se move” (2015), filme brasileiro que adapta ao nosso tempo e espaço o enredo da peça shakespeariana “Macbeth” (1606).

Dirigido pelo global Vinicius Coimbra, o filme faz do protagonista um executivo ambicioso que mata o presidente da Empresa para ocupar o seu posto. Em Shakespeare, vocês lembram, o personagem título é, na Escócia dos anos 1400, um vassalo do Rei Duncan, que ouve umas profecias de três bruxas, todas favoráveis à sua ascensão, e nelas acredita.  No filme de Coimbra, é só uma bordadeira que dá a dica a esse Elias ambicioso, e ele, como Macbeth, faz o resto acontecer.

Convenhamos que adaptar ao mundo atual texto tão remoto não deve ter sido fácil. E, de fato, os problemas aparecem. Um deles é o seguinte: até certa altura da projeção, o filme tem feição de um mero thriller, como os que vemos tanto hoje em dia. Um casal ambicioso assassina o presidente da Empresa para que o marido ocupe o seu cargo. Esfaqueia-o, joga o corpo num lago, e fica esperando pelo resultado. Que, naturalmente, não vai ser bom.

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Esse jeitão de thriller nos afasta do clima trágico da peça original, e a ele só voltamos, bem mais tarde, quando o casal assassino oferece um jantar ao corpo executivo da Empresa, e no meio da janta, o fantasma de Banquo, digo, de César (a segunda vítima do ambicioso Elias), aparece, todo ensanguentado. E o desenrolar do filme vai assim: ora thriller, ora tragédia, sem equilíbrio entre as duas coisas.

Fico pensando como receberão o filme, as pessoas sem familiaridade com a peça de Shakespeare. As que têm essa familiaridade eu sei, pois “Macbeth” acontece de ser um dos meus Shakespeares favoritos. Acho que posso dizer que aquelas primeiras vão estranhar a psicologia fantasmagórica, enquanto que estas segundas estranham o investimento no gênero policial. E ninguém sai satisfeito do cinema. Sobretudo, como já disse, por causa da falta de equilíbrio entre os dois tons.

Apesar da ação constante e dos crimes hediondos, “Macbeth” é uma tragédia reflexiva, psicológica, onde a construção dos personagens tem um peso enorme. Não tanto quanto “Hamlet”, mas é. Um exemplo, o assassinato de Duncan é todo circundado dos delírios culposos de seu algoz que, antes do crime, vê adagas no ar guiando ao quarto da vítima, e, depois do ato feito, gasta um tempão atormentado com a ideia de que “assssinou o sono” e nunca mais vai conseguir dormir.

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Não é sem razão que Shakespeare fez com que tudo, no destino dos protagonistas, dependesse das predições das três bruxas, investindo assim na fantasia (ou fantasmagoria), e por tabela, no psicológico, em detrimento do meramente factual. Como em todas as suas peças, o bardo de Stratford foi atrás das fontes históricas, porém, no caso presente, ele deu esse empurrão maior ao fantasioso, e dizem que o fez por interesse. É que o Rei da Inglaterra, James I – sem coincidência o patrono da sua companhia, “The King´s Men” – era apaixonado por bruxaria, e Shakespeare não hesitou em inventar as motivações sobrenaturais para o destino do tirano Macbeth. Se foi mesmo bajulação, foi tão bem feita que virou o melhor da peça.

No filme, os personagens parecem rasos, sem a grandeza trágica do original. Um ou outro trecho da peça vem a suas bocas (´nunca pensei que o velho tivesse tanto sangue´, sussurra e depois escreve Clara, a esposa do empresário), mas o conjunto não funciona a contento. Cheio de investigações e interrogatórios policiais (coisas inexistentes na época de Shakespeare), o filme, como já dito, se afasta temporariamente do espírito da peça, e o que dela tem, quando o tem, não é suficiente para compor uma obra uníssona e fluente. Esforços são feitos neste sentido, mas não diria que com bons resultados. A mim, me veio a ideia de acochambro.

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Dou um exemplo. No filme, uma certa frase de Macbeth (“ela podia ter morrido outra hora”) provoca um erro de montagem. O espectador sai da cena mais dramática, aquela em que o marido Elias, desesperado, encontra o corpo da esposa na banheira, e passa, imediatamente, para um Elias eufórico, no escritório, surpreendendo a secretária – e a nós – com a tal frase, como se feliz da vida. Ele faz isso porque tivera notícias alvissareiras da bordadeira, mas, a mudança brusca no comportamento do personagem é, no mínimo, inverossímil.

Em alguns casos, sente-se mesmo que a infidelidade ao original teria sido melhor opção, caso da famosa cena do porteiro (na peça, o da Fortaleza, no filme, o do Banco), ridiculamente inoportuna na diegese do filme.

Enfim, devo recomendar “A floresta que se move”, ou não? Não sei. Fica a seu critério. Agora, se você está interessado no assunto, não deixe de checar como foi que três “bruxos” geniais trataram a peça de Shakespeare: pela ordem, Orson Welles em “Macbeth, reinado de sangue”, 1948; Akira Kurosawa em “Trono manchado de sangue”, 1957; e Roman Polanski em “Macbeth”, 1971.

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Um filme que doi

10 abr

Que os Estados Unidos foram determinantes no golpe militar brasileiro de 64 todo mundo sabe. Eu, por exemplo, sei, mas se me pedissem as provas, eu, evidentemente, não as detenho. Li, em 1981, o livro de René Dreyfuss “1964: a conquista do estado”, mas nem sei mais por onde andam as suas setecentas ou oitocentas páginas.

Pois bem, se provas porventura faltassem – o que não é o caso – quem nos exibe as mais decisivas, indiscutíveis e esclarecedoras é este mais que oportuno documentário de Camilo Tavares “O dia que durou 21 anos”, em cartaz na cidade.

Kennedy e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon

Kennedy e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon

 Fruto de anos de pesquisa nos arquivos secretos do Departamento de Estado Americano, na Casa Branca, e mesmo na CIA, o filme exibe documentos que, de uma forma incontestável, comprovam o completo envolvimento dos governos de Kennedy e Lyndon Johnson na desmontagem da gestão João Goulart e na maquinação do golpe militar brasileiro. Notável é como a equipe do filme conseguiu registros de gravações telefônicas em que os presidentes americanos tratam diretamente do assunto.

A essas provas incontestes se somam depoimentos de historiadores e/ou envolvidos que explicam em detalhes como a coisa toda aconteceu. Instrutivos são os depoimentos de americanos como James Green, da Brown University, e Peter Korn Bluh, do Arquivo de Segurança Nacional, porém, a lição mais clara de história acho que vem do professor brasileiro Carlos Fico, da UFRJ, sem coincidência aquele a quem se deu mais tempo de tela: sua fala é uma aula no melhor sentido da palavra.

O “enredo” americano da história é simples, ou assim parece: apavorado com a revolução de Castro e a aparente ascensão do comunismo no hemisfério ocidental, o Governo americano temia que o Brasil se transformasse numa imensa Cuba, e, por isso, fica, desde 1959, de olho no “país mais importante da América Latina”, e, quando a situação se avulta, não hesita em planejar, em caso de necessidade, um ataque naval, com desembarque previsto para o Porto de Santos – esquema secretamente apelidado – não sem ironia – de “Brother Sam”. Como, na hora do pega pra capar, Jango foge para o Uruguai, o golpe militar brasileiro ficou tão fácil que esse ataque naval foi descartado, e o apoio à ditadura implantada em primeiro de abril de 1964 pôde continuar sendo, embora decisivo e substancial, mais discreto.

Lincoln Gordon, um pivô no esquema intervencionista

Lincoln Gordon, um pivô no esquema intervencionista

Para quem não está assim tão por dentro da história é interessante saber que um pivô na coisa toda foi o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, uma figura mais paranóica que os próprios Kennedy e Johnson. Foi, por exemplo, iniciativa dele, fazer Kennedy convidar Jango para visitar a base militar de Nebraska – espécie de aviso diplomático com ameaça velada. Mostrada no filme com expressões sintomáticas sublinhadas, a troca de memorandos entre Gordon e os presidentes americanos é uma preciosidade e um dos trunfos do filme.

Se o golpe foi fácil, os desdobramentos – que nós brasileiros conhecemos na pele – de jeito nenhum. Para não falar na primeira fase da ditadura (cassações em massa, perseguições políticas, dissolução dos partidos), quando, em 68, veio o famigerado AI-5 e suas seqüelas, consta que conselheiros americanos – além de Gordon, o adido militar Verner Walters – teriam sugerido à presidência americana “a golden silence”, um silêncio dourado. Referindo-se às torturas e assassinatos do período Médici, um dos depoentes afirma que os Estados Unidos não previram o horror que estava saindo da “caixa de Pandora” (sic) e, estrategicamente, mantiveram o ouro do silêncio.

Jango defendendo suas reformas de base

Jango defendendo suas reformas de base

A direção do filme tem o cuidado de incluir depoentes brasileiros do lado do golpe, entre os quais o ex-diretor do SNI, o Cel Newton Cruz que, em sua truculência, não deixa de criticar a longevidade da ditadura, uma das mais duradouras da América Latina: “A Revolução era para arrumar a casa – diz ele – ninguém passa vinte anos para arrumar uma casa”.

O único problema do filme de Camilo Tavares é ser curto (77 minutos) para o tamanho do problema que enfrenta, e a rigor não cobre os vinte e um anos de que fala o seu título. Por exemplo, os papeis do IPES e IBAD, institutos tão importantes na preparação do golpe, ficam resumidos e, mais tarde, as gestões dos presidentes que se seguiram a Castelo Branco, aparecem como notícias breves.

O filme se fecha com a chegada à cidade do México dos quinze presos políticos brasileiros, como se sabe, trocados, em 69, pelo embaixador Charles Elbrick, este seqüestrado pelos militantes do MR-8. Entre esses presos, que corajosamente denunciaram as torturas do governo Médici à imprensa internacional, estava Flávio Tavares, pai do autor do filme e seu co-roteirista.

Ao decidir escrever sobre “O dia que durou 21 anos” pensei em fazer um texto de tom subjetivo sobre minha experiência pessoal com os anos da ditadura. Desisti, mas, digo apenas que saí do cinema perturbado e comovido.

Em vários sentidos, um filme que doi.

os presos políticos libertados no México

os presos políticos libertados no México