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Ave, César

17 out

Fã dos irmãos Ethan e Joel Coen como sou, me ocorreu perder “Ave, César” (2016) quando foi exibido localmente e só agora o vejo no Netflix.

Concordo com a crítica em que “Ave, César” não é um grande Coen, mas, sabe como é, um Coen menor já é alguma coisa. De minha parte, o fato de a estória se passar no seio da Hollywood clássica já foi um estímulo.

Estamos no começo dos anos cinquenta e Eddie Mannix (Josh Brolin) é o diretor executivo dessa grande companhia cinematográfica, a Capitol Pictures, que rivaliza com a Metro e todas as outras. Como se imagina, o seu dia a dia é um inferno, quando tem que lidar com todo tipo de problema, do mais comum ao mais inusitado, do mais simples ao mais sério, problemas seus e alheios que se tornam seus.

Como convencer um conceituado cineasta que está rodando um drama sério para o estúdio, a aceitar um ator canastrão que só sabia pular do cavalo e laçar os adversários com nós complicados? Como arrancar apoio dos representantes das comunidades religiosas – judeus, católicos e evangélicos – para a divulgação de uma superprodução sobre a vida de Jesus? Como se livrar das fofocas da colunista social mais poderosa de Hollywood, sempre disposta a publicar os escândalos mais escabrosos?

Estas são questões do métier que podem ser resolvidas com alguma artimanha ou simplesmente no grito, mas há as mais pessoais que às vezes requerem um confessionário. Por exemplo: Como seguir o conselho da esposa e parar de fumar? Como resistir a oferta de compra da Capitol por uma poderosa empresa que acha cinema um lixo – e ir viver uma aposentaria tranquila e bem paga?

O dia de Mannix se complica um pouco mais quando o astro Baird Whitlock (Georges Clooney) desaparece e deixa interrompidas as filmagens do grande épico “Hail Caesar” (“Ave, César”), um enorme investimento artístico da Capitol. Para a imprensa a alegação de um tornozelo quebrado não convence, mas é o que melhor lhe ocorre. Mannix não sabe, mas Baird foi sequestrado por um grupo de comunistas que tentam convencê-lo da verdade contida no “Capital” de Karl Marx. Pregações à parte, para o resgate do astro, o grupo exige uma quantia alta, dinheiro que irá enriquecer mais ainda o “ouro de Moscou”. A cena do submarino soviético vindo à tona para arrecadar a grana e a maleta do dinheiro caindo na água por causa de um cachorrinho não é apenas hilária como remete a um certo final de um filme noir de Kubrick.

Claro, o filme inteiro é uma sátira a Hollywood da época, como também o é à própria época. Da comédia ao épico, do musical ao drama, do policial à estória de amor, todos os gêneros são parodiados, assim como os seus personagens e/ou atores e atrizes. No meio destes, é possível reconhecer as caricaturas, por exemplo: da dançarina Esther Williams, do western man John Wayne e da brasileira Carmem Miranda. Esta última, aliás, encarnada na figura latina de uma tal de Carlotta Valdez – para quem lembra, o mesmo nome de uma certa personagem fantasmática de Hitchcock, que, por sinal, nada tem a ver com musicais ou comédias.

Uma sátira particularmente debochada vai para os musicais do tipo “Um dia em Nova Iorque” (Stanley Donen e Gene Kelly). Numa das filmagens nos estúdios da Capitol, mostram-se marinheiros dançando e cantando uma canção que fala sobre a lamentável ausência das mulheres, quando eles estiverem no mar. Aos poucos, porém, na letra e nos gestos, essa ausência feminina vai sendo compensada pela presença dos companheiros que, farão então o papel delas. E aí os passos da dança indicam claramente a homossexualidade assumida, num tempo em que ela não ousava dizer seu nome.

Um recurso ardiloso é o de misturar ficção e realidade, digo, as cenas das filmagens ocorrendo no set da Capitol com o que ocorre fora dele. Por exemplo: Baird é drogado com uma solução química posta na sua taça por um extra em pleno set, durante as filmagens de “Hail Caesar”, e será, mais tarde, resgatado do sequestro pelas astúcias do ator canastrão dos faroestes.

A própria Hollywood clássica costumava, de vez em quando, se mirar no espelho da tela e autocriticar-se. Isso está em grandes filmes como “Crepúsculo dos deuses” (1950), “Assim estava escrito” (1952) e “Nasce uma estrela” (1954).

Em “Ave, César” o espelho é retroativo e, como convém ao gênero satírico, deformador das imagens, feito um espelho de parque de diversão.

De todo jeito, gostei de ver.

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Estrelas de cinema nunca morrem

24 abr

O título desta matéria é uma metáfora cara aos cinéfilos, mas não é só isto: é também a denominação brasileira de um filme americano recém lançado (2017) que conta os últimos anos da vida de uma grande atriz de Hollywood, a inesquecível Gloria Grahame.

O título original do filme é, na verdade, mais prosaico: “Film stars don´t die in Liverpool”, (“Estrelas de cinema não morrem em Liverpool”) e a referência à cidade inglesa dá-se porque é aí que vamos encontrar Gloria Grahame, entre 1979 e 1981, decadente e enferma, hóspede numa modesta pensão de bairro. Sua carreira desandara desde os anos sessenta, com filmes cada vez mais raros e mais irrisórios. No momento, está em Liverpool ensaiando a peça “The glass menagerie” (“À margem da vida”), num teatro de segunda categoria.

Baseado em fatos reais, o filme do jovem diretor escocês Paul McGuigan nos conta como, aos 57 anos de idade, Gloria Grahame se apaixona pelo jovem filho dos donos da pensão, Peter Turner (28 anos, ele também ator) e como vive, no curto período de menos de três anos, uma grande e bela estória de amor, no caso, a última de uma longa série na sua vida conturbada.

Anette Bening faz uma Gloria Graham convincente e, bem conduzido, o filme de um modo geral emociona, e, em certos momentos, até eleva, especialmente naquela cena em que o namorado recita com uma Gloria enferma, no palco de um teatro vazio, o trecho do encontro entre Romeu e Julieta – a peça shakespeariana que Gloria sonhava interpretar e nunca o fez.

Desconfio, porém, que perde parte do prazer de assistir a “Estrelas de cinema nunca morrem” o espectador que nunca ouviu falar de Gloria Grahame. Loura, sensual e sedutora, não teve a fama de Marilyn Monroe, mas teve, sim, seu fã clube. No julgamento da crítica, Gloria Grahame é considerada uma atriz competente, determinada, honesta, espontânea, curiosa e criativa.

Anette Bening é Gloria Grahame.

De minha parte, sempre fui seu fã e a ponho na minha galeria de imagens amadas. Filha da atriz de teatro Jean Grahame, Gloria começou sua vida no cinema em 1944, aos 21 anos de idade, no filme “Blonde Fever”, mas, minha primeira lembrança dela é como a mocinha sapeca a quem George Bailey (James Stewart) ajuda em “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946).

Depois vem toda uma gama de filmes noir, gênero em que ela, com seu charme meio vamp, se saía muito bem. “Rancor” (Edward Dmytryk) é de 1947, porém, o auge dessa fase noir – como aliás, o auge de sua carreira cinematográfica – vai acontecer nos anos cinquenta. Cito alguns, todos grandes filmes, assinados por grandes cineastas: “No silêncio da noite” (Nicholas Ray, 1950), “Precipícios d´alma” (David Miller, 1952), “Macao” (Joseph von Sternberg, 1952), “Os corruptos” (Fritz Lang, 1953), “Fúria assassina” (Jerry Hopper, 1954), “Homens em fúria” (Robert Wise, 1959).

Ainda nesta década de cinquenta, vamos vê-la em grandes dramas, como: “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli, 1952) que, por sinal, lhe deu o Oscar de coadjuvante; “Os saltimbancos” (Elia Kazan, 1953); “Paixões sem freios” (Minnelli, 1955) e “Não serás um estranho” (Stanley Kramer, 1955).

Jamie Bell e Anette Bening em cena do filme.

É possível que o espectador a lembre em filmes de maior sucesso comercial. Se for o caso, como a atriz circense que trabalha com elefantes, em “O maior espetáculo da terra” (Cecil B DeMille, 1952), ou – quem sabe – no épico musical de Fred Zinneman “Oklahoma” (1955) onde ela aparece cantando e dançando.

Sua vertiginosa decadência nos anos sessenta, vale dizer, coincidiu com a decadência geral da Hollywood clássica. No caso de Gloria, motivada ou não, pelos escândalos familiares.

Em 1960 ela casa com o enteado Anthony Ray – filho do seu primeiro esposo, o cineasta Nicholas Ray. Esse casamento faz todo mundo – especialmente, os colunistas sociais – lembrar que, oito anos atrás, Ray (o diretor de “Juventude transviada”, para quem não lembra) pedira divórcio com a alegação grave de que a havia encontrado na cama com o mesmo Anthony, então um garoto de apenas treze anos de idade.

“Estrelas de cinema nunca morrem” toca de leve nessas questões, mas o seu mérito está mesmo em, além de contar uma comovente e trágica estória de amor, resgatar a imagem de uma atriz que – como quer o título do filme – nunca vai morrer na lembrança dos cinéfilos da vida.

Gloria Grahame nos anos cinquenta.

O futuro não se vê

9 nov

Com o filho de dez anos, Hank, o casal McKenna está de férias em Marrocos. Residentes em Indiana, Estados Unidos, ele é médico e ela, ex-cantora, hoje dona de casa.

A viagem teria sido ótima, se não tivesse havido aquele pequeno incidente, no ônibus. Num movimento brusco do veículo, Hank, sem querer, arrancou de uma passageira árabe, o seu intocável véu facial, e isso deu confusão, que foi contornada por um desconhecido de sotaque francês, o qual se fez amigo do casal americano.

À noite, no quarto do hotel, enquanto o pai se apronta, a mãe e o garoto solfejam e dançam, juntos, aquela cançãozinha cuja letra faz perguntas sobre o tempo por vir, com o refrão “Que será, será…”. E tudo parecia normal. Parecia mas não estava. Saberemos no dia seguinte, quando o casal e o garoto vão passear no mercado árabe e presenciam um assassinato. Antes de morrer, a vítima agonizante confidencia uma informação no ouvido do Sr McKenna, e…

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Não vou contar o resto da estória, mas, é claro que o leitor, homem ou mulher, sabe demais de que filme estou falando. Sim, é isso mesmo: “O homem que sabia demais” (“The man who knew too much”, 1956, de Alfred Hitchcock).

No elenco estão James Stewart (o pai), Doris Day (a mãe), e Daniel Gélin (o homem morto no mercado) mas – pergunta de gaveta que faço ao leitor cinéfilo – quem é o ator que desempenha o papel do garotinho Hank? Faço a pergunta porque esta matéria pretende ser sobre ele.

Se você não sabe, não se preocupe. Pouco tempo depois de atuar nesse filme inesquecível, esse ator mirim desaparecia do cenário cinematográfico… E nunca mais ninguém ouviu falar dele.

Christopher Olsen – este é o seu nome – nasceu em 1946, em Los Angeles, e aos dois anos de idade já aparecia na tela. Era o bebê, filho de Dana Andrews, no sombrio noir sobre a guerra fria “Cortina de ferro” (William Wellman, 1948).

Entre 1948 e 1958, Olsen apareceu na tela várias vezes, na maior parte dos casos em pontas não creditadas, em filmes menores.

Mãe e filho cantando "Que será, será".

Mãe e filho cantando “Que será, será”.

Eventualmente, também esteve em alguns poucos filmes de mais destaque, por exemplo: em 1952 foi o filho de Barry Sullivan no drama “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli); em 1956 esteve no faroeste de Russell Rouse “Gatilho relâmpago”; no mesmo ano foi o filho de James Mason em “Delírios de loucura”, de Nicholas Ray; e em 1957 foi o filho de Robert Stack em “Almas maculadas”, de Douglas Sirk.

Mas nada que lhe tenha dado a visibilidade que conseguiu em “O homem que sabia demais”. É verdade que a canção “Que será, será” ajudou, até porque é com ela que o desenlace se organiza para o ansiado final feliz, mas, além disso, a figura de Olsen é cativante, com seu cabelo louro, seus olhos azuis, e seu jeito despachado de garoto típico americano.

Ora, com essa visibilidade toda, o esperado era que sua carreira ascendesse e ele viesse, mais tarde, com mais idade, a se tornar um galã das décadas seguintes.

Tal não aconteceu. Seu último filme, “Return to Warbow”, um faroeste de segunda categoria, não exibido entre nós, foi rodado e lançado em 1958, e, depois disso, nunca mais o mundo cinematográfico teve notícia de Christopher Olsen.

Perto do desenlace ansiado em "O homem que sabia demais".

Perto do desenlace ansiado em “O homem que sabia demais”.

No seu país, foi ator infantil de televisão e esteve em vários seriados, como “Cheyenne”, “Lassie”, “The millionaire”, mas, em 1960 também encerrou sua carreira na telinha… definitivamente.

Depois dessa data, o que é feito de Christopher Olsen? Ninguém sabe, ninguém viu. Nem o Google dá conta do seu paradeiro. Nos muitos sites de cinema da internet, o único dado sobre ele é que está vivo, já que, em nenhum deles, consta data de sua morte. Se é vivo, estaria, portanto, com setenta anos de idade, completados no dia 09 de setembro deste ano.

Por que esse vazio de informação sobre sua vida, mesmo que fora das telas? Não assumiu porventura uma outra profissão que fizesse constar seu nome nas enciclopédia eletrônicas de hoje em dia? Ou teria havido um recolhimento de ordem ideológica, desejado e assumido?

E vejam que dois irmãos de Olsen estiveram no show business. Seu irmão mais velho, nascido em 38, Larry Olsen foi ator de cinema, normalmente coadjuvante, com 25 filmes rodados, carreira também bruscamente encerrada em 1954, no filme “A lenda dos beijos perdidos”. Sua irmã mais nova, nascida em 61, Susan Olsen, foi atriz de televisão.

A canção do filme de Hitchcock – vocês lembram – afirma que ´o futuro não se vê´. No caso particular de Christopher Olsen, a frase ganha contornos semânticos adicionais.

Christopher Olsen em "Delírios de loucura", 1956, com James Mason.

Christopher Olsen em “Delírios de loucura”, 1956, com James Mason.

Alô, quem fala?

23 jan

Na maior parte dos casos, o aparelho telefônico aparece, no cinema, como um mero elemento da diegese, igual a outro qualquer – uma cadeira, uma janela, um carro – e, em princípio, não haveria razão para lhe dar destaque.

Acontece, porém, que certos filmes o destacam como um fator importante da trama. Justamente por se tratar de um canal comunicante, muito pode se investir na sua função semiótica e, se bem usado, seu rendimento pode vir a ser particularmente dramático, ou cômico, ou trágico, ou patético, ou poético, além de propiciar, aos atores, performances especiais.

É neste sentido que pergunto ao leitor: nos filmes que lembra, que cenas de telefone foram marcantes para a sua experiência pessoal com o cinema?

Desconfio que meio mundo de cinéfilos vai citar aquele telefone fora do gancho, pendurado e balançando no ar, do qual sai uma voz masculina histérica querendo confirmar se a capital francesa havia sido incendiada. Vocês lembram muito bem: era o final da Segunda Guerra Mundial, a sala ficava num edifício da Paris tomada pelos nazistas, a voz era de Hitler, e o filme – do francês René Clément – se chamava justamente: “Paris está em chamas?” (“Paris, brûle-t-il?”, 1966).

Cena de The Cameraman, 1928

Cena de The Cameraman, 1928

Pois é, a pergunta que fiz ao leitor, também fiz a mim mesmo, e aqui passo a mencionar, em ordem cronológica e com comentários, algumas das ´cenas de telefone´ que, por razões diversas e de modos e graus diversos, me emocionaram.

Começo com um Buster Keaton de 1928. Em “The Cameraman”, mero fotógrafo de rua, ele finge ser um grande repórter, para poder conquistar a sua musa, que era atriz de cinema. No dia em que a moça liga para a modesta pensão onde reside, o que faz ele? Ao ouvir as primeiras palavras no telefone, seu entusiasmo é tal que deixa o fio do aparelho pendurado e já sai correndo feito um louco cidade a fora; enquanto a moça fala para ninguém, ele, em velocidade estúpida, corta ruas e mais ruas da cidade, até, completamente sem fôlego, chegar à residência de sua musa, no momento exato em que esta, só agora notando que falara para o vazio, desliga; espantada, a moça o vê a sua frente, sem entender o que acontecera. Acontecera o amor, mais veloz que uma ligação telefônica, mas só mais tarde ela entenderá isso.

A minha segunda cena é dos anos trinta e está em “Ziegfield, o criador de estrelas” (Robert Z. Leonard, 1936), sobre o grande profissional do show business do título e suas aventuras teatrais e amorosas. Quase final e altamente dramática, a cena é feita pela atriz Louise Rainer, no papel sofrido da ex-esposa de Ziegfield. A extensão e densidade da cena (ao ex-marido, ela fala durante um longo e dolorido tempo, sem que se veja o outro lado da linha) deram à atriz o Oscar do ano.

O terceiro caso está em “Silêncio nas trevas” (“The spiral staircase, 1945, de Robert Siodmak) onde a jovem mudinha Dorothy McGuire está ameaçada de morte por um serial killer cujas presas preferidas são, justamente, mulheres com algum tipo de deficiência física. Várias haviam sido assassinadas e pistas sugerem que Dorothy, que reside nessa sombria mansão com a escada em espiral do título original, será a próxima vítima. No momento do ataque, o telefone se torna a única possibilidade de salvação e, com o aparelho à mão, a muda precisa… falar. Tome suspense.

Morta por um fio de telefone: Curva do Destino

Morta por um fio de telefone: Curva do Destino

O telefone foi muito funcional nos filmes noir, mas, será que houve algum em que ele constituísse a própria arma do crime? Por incrível que pareça, sim. Em “Curva do destino” (“Detour, 1945, Edgar G Ulmer) o protagonista e narrador da estória (Tom Neal) involuntariamente estrangula uma moça com o fio do telefone. Como? Estavam os dois discutindo, ela ameaçando chamar a polícia, e ele, que tinha culpa no cartório, tentando impedir. Num momento em que ele se distrai, ela agarra o aparelho telefônico, corre para o compartimento vizinho e se tranca, ficando o fio por debaixo da porta. Desesperado, ele puxa esse fio com toda a sua força e… sem querer nem saber, a mata, pois, o fio ficara enrolado no pescoço da moça.

Cena impactante também está em “A dama do lago” (“Lady in the lake”, 1947), adaptação que Robert Montgomery fez do romance de Raymond Chandler e filme curioso por ter sido todo rodado em câmera subjetiva. Acidentado na estrada, o protagonista Phillip Marlowe se arrasta, com extrema dificuldade, até a cabine telefônica mais próxima, põe uma moeda e, para a telefonista, balbucia o número que deseja. Uma voz feminina atende e ele, sempre ofegante, diz onde está e pede ajuda, em seguida, sem mais força, desabando no chão, ficando o fone pendurado, do qual se ouve uns gritos de “alô, alô, alô…” O detalhe é que, como em todo o filme, o espectador não vê o rosto, nem o corpo de Marlowe, somente o que ele vê: sua própria mão e o aparelho telefônico.

O próximo exemplo, também um noir, já traz referência ao telefone no título, tanto o original (“Sorry, wrong number” / ´Desculpe, número errado´), como o brasileiro (“Uma vida por um fio”). Dirigido por Anatole Litvak em 1948, o filme conta a estória dessa esposa inválida (a insuperável Barbara Stanwyck) que, ao tentar uma ligação telefônica, cai numa linha cruzada em que dois homens acertam o planejamento de um crime. Já seria grave se a vítima fosse outrem, mas, pior que isso, a vítima é ela mesma, e o mandante, quem? Sim, o marido, Burt Lancaster.

Três ao fone em Assim estava escrito

Três ao fone em Assim estava escrito

Depois disso me ocorre aquela cena final em “Assim estava escrito” (“The bad and the beautiful”, 1952, de Vincente Minnelli) em que uma atriz, um diretor e um roteirista são convidados, por telefone, para voltar a trabalhar, os três juntos, com um certo produtor maquiavélico (Kirk Douglas), de quem já haviam sido vítimas, os três, cada um em seu turno. Reagem os três negativamente, e, no entanto, no momento mesmo em que a voz do Maquiavel formula o convite, os três, juntos, aproximam o ouvido do telefone, como se fosse impossível resistir ao fascínio do Mal. Genial.

Outro filme que tem referência a telefone já no título é o hitchcockiano “Disque M para matar” (“Dial M for murder”, 1954). Vocês lembram: o marido (Ray Milland) contrata assassino para dar fim à esposa (Grace Kelly) em seu apartamento, e a deixa para o ataque é o momento em que o telefone tocar e ela, sozinha em casa à noite, se levantar para atender. Ele mesmo, o marido, fará a discagem, o que lhe servirá de álibi. Na ocasião, porém, a coisa se reverte: com uma tesoura doméstica, a vítima mata o agressor, e o marido é, a partir daí, obrigado a apelar para um plano B.

Grace Kelly discando M para...

Um telefonema para Grace Kelly : Disque M para matar

O meu próximo exemplo é uma comédia romântica que Michael Gordon dirigiu em 1959, “Confidências à meia noite” (“Pillow talk”) e que conta o caso engraçado de como uma linha telefônica comum pode trazer transtornos para duas pessoas, principalmente se se trata de adversários que se detestam, e ainda mais, de sexos opostos, no caso Rock Hudson e Doris Day. Foi “Confidências” que deu início à série de filmes com esta dupla no elenco, mas, sem dúvida, é o melhor de todos.

Obviamente numa lista destas tinha que haver um filme em que a protagonista tivesse a profissão de telefonista, caso da Judy Holliday em “Essa loura vale um milhão” (“The Bells are ringing”, 1960, Minnelli), comédia semi-musical em que a nossa telefonista se apaixona por uma certa voz masculina, e parte do roteiro vai ser sobre como voz e corpo se unirão num mesmo ser.

Eu vi que foi você: o trote fatal

Eu vi que foi você: o trote fatal

Um elemento do universo do telefone é o trote, que está no suspense-terror de William Castle “Eu vi que foi você” (“I saw what you did”, 1965). Nele, duas adolescentes desocupadas se divertem ligando para desconhecidos, pronunciando a frase do título. Dão boas risadas das reações dos interlocutores, até o dia em que o cara no outro lado da linha (John Ireland) era mesmo assassino e passa a procurá-las.

Já em “Sonhos de um sedutor” (“Play it again, Sam”, 1972, Herbert Ross), quase ubíquo, o telefone aparece de modo esquisito. O desajeitado Woody Allen começa um romance com a mulher (Diane Keaton) de seu melhor amigo. O casal adúltero tem mil afinidades, enquanto o marido traído é pintado com atitudes estapafúrdias – uma delas é viver, o tempo inteiro, tratando de negócios e, como o celular ainda não havia sido inventado, a todo lugar que vai, ele faz inúmeras ligações, seja de telefone caseiro ou público, sempre deixando os números para contato, os do momento e os próximos – isto durante o filme todo. Um saco.

Cena de Por um fio: tudo numa cabine telefônica

Cena de Por um fio: tudo numa cabine telefônica

O filme mais diretamente ligado ao assunto se chama mesmo “O telefone” (“Telefon”, 1977, de Don Siegel), e é um drama ´guerra fria´ em que um espião russo (Charles Bronson) está encarregado de brecar plano de compatriota que, por telefone, hipnotiza pessoas comuns e as induz a sabotagem nos Estados Unidos. A frase hipnotizante é um belo verso de um poema de Robert Frost: “I have promisses to keep / And miles to go before I sleep” (´Tenho promessas a cumprir e milhas a percorrer antes de adormecer´).

Mas, com certeza, uma das cenas mais curiosas, envolvendo telefone, está em “Era uma vez na América” (“Once upon a time in America”, 1986, de Sergio Leone), até porque não se vê o aparelho, ninguém atende, e ele toca, toca, toca… e seu som transcende a cena de modo completamente anti-diegético. Da sala de ópio onde a chamada começa, passa-se a outros locais sem que o telefone pare de tocar, e claro esse soar ininterrupto é um símbolo sem o qual o filme não pode ser interpretado – provavelmente um indicador da consciência pesada do protagonista Robert DeNiro, que havia traído os amigos e…

Encerro a minha lista com “Por um fio” (“Phone booth”, 2002, Joel Schumacher), filme de extremo suspense onde, ao entrar numa cabine telefônica e tirar o fone do gancho, um cidadão comum (Colin Farrell) vai ser alvo da arma de um franco atirador que, de uma janela de edifício à distância, o obriga a ali permanecer por um tempo que vai coincidir com o do filme inteiro. O roteiro é de Larry Cohen, mas, com certeza, nasceu de uma tirada de Hitchcock: em sua famosa entrevista a Truffaut nos anos sessenta, disse o mestre do suspense exatamente isto: “eu adoraria fazer um filme que se passasse inteiramente dentro de uma cabine telefônica”.

No cinema, como na vida real, nem sempre a articulação das palavras “Alô” ou “Quem fala?” implica grandes estórias. Os casos citados – algumas cenas, como visto, sem palavra nenhuma pronunciada! – são bons exemplos de como um roteirista criativo, um fotógrafo competente, atores talentosos e um diretor visionário podem dar dimensão maior a um mero e prosaico telefone.

Enfim, deixo ao leitor a oportunidade de completar a lista com seus filmes preferidos.

Doris Day e Rock Hudson em Pillow Talk: Confidências à meia noite

Doris Day e Rock Hudson em Pillow Talk: Confidências à meia noite