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O HOMEM DE FERRO

18 set

Não curto esporte, mas gostei de ver o documentário “1932 – a medalha esquecida” (Ernesto Rodrigues, 2017), sintomaticamente (re)apresentado no Canal Brasil, no dia 7 de setembro deste ano.

Entre documental e ficcional, o filme reconstitui a história da participação brasileira nas Olimpíadas de Los Angeles de 1932, com tudo que teve ela de patético e heroico.

Estávamos então no Brasil de Vargas, um país falido, com a queda da bolsa de Nova Iorque, queda que trouxe a desvalorização do nosso principal produto de exportação – o café, e, por tabela, a revolução constitucionalista de São Paulo.

Para Los Angeles segue a comitiva brasileira, no navio cargueiro Itaquicê, com falsa fachada de navio de guerra, escondendo, no subsolo, nada menos que 55 mil sacas de café e muita cachaça.

A falsa fachada bélica era para ganhar isenção da obrigatória taxa de travessia do Canal de Panamá, porém, a polícia local descobre a tramoia e a taxa tem que ser paga de qualquer jeito. As sacas de café eram para ser vendidas no percurso, para pagar a taxa de desembarque no Porto de Los Angeles, porém, que país da igualmente pobre América Central teria grana pra bancar tanto café? E em L. A. o nosso falso navio de guerra fica detido sem poder fazer o devido atracamento.

A corrupção brasileira vem de longe, diz a voz narrativa do filme, e para provar dá mais exemplos: a comitiva japonesa levou para L. A. 200 atletas e apenas dois técnicos. Já a comitiva brasileira foi com 80 atletas e cerca de 120 acompanhantes que pouco ou nada tinham a ver com esporte. Como a narração faz questão de mencionar, a cantora Carmem Miranda (ainda no Rio e ainda sem fama internacional) perde um namorado, pois o rapaz embarca na turma do oba oba para L. A.

O Itaquicê não atraca no Porto de Los Angeles, mas isto não impede que, lá onde estava, se transforme numa espécie de paraíso etílico-erótico, com farras monumentais que entraram para o anedotário da Califórnia. Em plena lei seca, os americanos não podiam tomar whisky em solo pátrio, mas, se entupiam de cachaça nas dependências do navio brasileiro, e isto, ao som do samba mais animado, executado por uma orquestra que fazia parte da tripulação.

Uma figura, no entanto, destoou dessa zorra toda, e nela o filme se centra: o atleta-marinheiro Adalberto Cardoso, que deixou sua marca na corrida de dez mil metros – não ganhando, e sim, perdendo, mas perdendo de forma heroica.

Ocorre que, junto com parte dos atletas, Adalberto fora instalado em São Francisco e, no dia em que devia competir, foi obrigado a fazer a difícil viagem num carro velho de São Francisco a L. A., uma viagem cheia de atropelos (carro quebrado no meio da estrada, fome, cansaço). De modo que, esgotado e mal nutrido, vestindo uma roupa emprestada de última hora (pois a pressa o fizera esquecer a farda no automóvel) enfrenta o desafio e vai sofrer o que poderia perfeitamente chamar-se de “o calvário na pista”.

Na corrida de dez mil metros, fragilizado e ofegante, fica atrás desde o início, porém, em sua posição de último lugar, corre – ou melhor dizendo, se arrasta – até o final, mesmo depois de o anúncio do nome vitorioso já haver sido devidamente divulgado pelos amplificadores. No seu penoso e demorado arrastado, sofre, como Cristo, três quedas e, diferentemente de Cristo, quanto mais se arrasta e mais cai, mais aplausos recebe das comovidas plateias americanas, boquiabertas diante de tão grande sacrifício inútil. No diante seguinte, os jornais de L. A. mal citam o Brasil: em seu lugar só dá “The iron man”, “o homem de ferro”, epíteto que honrosamente lhe concede a imprensa americana.

Em “Retratos da vida”, o cineasta francês Claude Lelouch conta uma história comovente que se inicia com uma derrota – a bailarina russa que não consegue o primeiro lugar no concurso do balé Bolshoi.

“Derrota” também é o tema no filme de Rodrigues, mas nele, a palavra é – em vário sentidos – mais grave.

 

Em tempo: esta matéria é dedicada ao jornalista e pesquisador Edônio Alves.

Sochi, Rússia.

7 nov

Em fevereiro de 2014, eu estava convalescente de um problema de saúde, e, com locomoção reduzida, não havia muito a fazer. O que fiz muito foi ver televisão. Por coincidência, estavam começando os jogos Olímpicos na Rússia, em Sochi, e eu, que nem ligado a esportes sou, me entreguei a acompanhar o espetáculo todo, belo espetáculo que celebrava a paz e a convivência entre os povos. Quanta saúde, quanta beleza, quanta democracia!

Democracia? Bem, agora, três anos depois, me chega este documentário “To Russia with love” (Noam Gonik, 2014), contando os bastidores de um evento esportivo que já foi problemático e tenso… bem antes de se acender a tocha inaugural.

Acontece que, em um tempo estratégico entre a escolha da Rússia pela COI e o início dos jogos, as autoridades russas decidiram, sem mais nem menos e meio às escondidas, passar uma lei que proibia aos participantes do Evento, estrangeiros ou nativos, a “propaganda de relações sexuais não-tradicionais”.

Ora, estrangeiros ou não, os atletas diretamente atingidos (os gays ou LGBT) se viram em um impasse perigoso: denunciar a lei discriminatória ou calar? Alguns dos atletas suíços, canadenses, australianos eram gays já assumidos em seus países de origem, e a situação começou a ficar estranha para eles; estranhamento menor para os russos, acostumados a silêncios obrigatórios.

Nos dias que precederam os Jogos, chegou a haver indagações se a escolha da Russia para sediar as Olimpíadas teria sido sensata, mas o fato é que, a essa altura dos acontecimentos, a escolha estava consumada, e não havia nada mais a fazer, salvo participar… ou não. Todos participaram e – para o bem ou para o mal – não houve manifestação pública de protesto. Houve, porém, muitas, individuais e sentidas, que o filme, rodado in loco, captou e editou, dando ao conjunto uma forma orgânica e pulsante.

O governo Obama ainda teve o cuidado de enviar, como representante, a Secretaria de Esportes, Billie Jean King, um mito do tênis, hoje idosa, mas sempre uma defensora das liberdades homoafetivas, ela mesma, desde sempre lésbica assumida. Medalhas de outro como Mark Tewksbury (nado), Jason Collins (Tenis) e Greg Loganis (mergulho), todos gays assumidos de longa data, participaram das filmagens de “To Russia with love”, porém, em nível mais privado que público.

Billie Jean King, ícone do tênis, enviada a Sochi como secretária de esportes.

Bem, e aí o filme vai se centrando em casos pessoais, que são muitos. Uma atleta canadense iria estar junto de sua companheira suíça, também atleta premiada… O dançarino do gelo, o russo Johnny Weir iria aparecer com suas roupas extravagantes… Iria haver problemas? Tudo indicava que não, contanto que não se fizesse referência à homossexualidade.

Uma das declarações das autoridades russas à imprensa foi que – ao cidadão de maior no país é permitido fazer suas escolhas sexuais à vontade, e concluía com uma grande conjunção adversativa: “mas, por favor, deixem nossas crianças em paz”. Visivelmente, homossexualidade, para eles, se confunde com pedofilia – e usam o argumento com ênfase.

De tal forma que um caso difícil é o do jovem russo que por ventura se descobre homossexual antes dos 18 anos de idade. Caso desse Vladislav Slavsky, 17 anos e aluno do Escola Secundária,  que, não sendo propriamente atleta, entra no filme pelo seu ímpeto ativista. Massacrado na escola pelos colegas, e mesmo pelos professores, Vlad aproveita a ocorrência das Olimpíadas na sua cidade, Sochi, para protestar. A americana Billie Jean King toma conhecimento do seu caso, e Vlad, termina ganhando passaporte para os Estados Unidos, onde irá estudar na Universidade da Califórnia.

O dançarino do gelo, Johnny Weir.

Já o Presidente russo da Liga LGBT de Esportes come o pão que o movimento Nazi amassou, mas, nem por isso, desmorona… nem pensa em deixar o seu país, por nada na vida. Talvez com mais amargura, o skater Weir passa uma visão menos encantada da Rússia. Diz ele: é como se fosse sua avó; você a ama, mas sabe muito bem que ela é alienada e vive do passado.

Um dos casos mais tocantes no filme é, com certeza, o daquele pai americano que viaja a Sochi só para dar apoio aos atletas LGBT: perdera o filho gay, vítima de violência homofóbica.

O filme termina melancolicamente, com os atletas estrangeiros, em seus respectivos países de origem, falando das Olimpíadas em Sochi como algo já passado. Mas a gente sabe, não tão passado. A atleta canadense de esqui rápido, por exemplo, se indaga se, ao abraçar sua companheira suíça, diante das câmeras de televisão russa, não devia tê-la beijado na boca. O fato é que não o fez.

Enfim, belo filme: suave e delicada lição de cidadania e também de cinema.

Olimpíadas em Sochi, 2014,