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Super 8

17 set

Faço aqui minha pequena homenagem ao grande Harry Dean Stanton (1926-2017), falecido dia 15 de setembro de 2017. O texto que se lê abaixo está no meu livro “Um beijo é só um beijo” (Ed. Manufatura, 2002) e se chama “Super 8”. Trata-se de um miniconto que, ficcionalmente, reproduz o enredo de um dos melhores filmes desse ator extraordinário, “Paris, Texas” (Wim Wenders, 1984).  No miniconto, a voz narrativa é de Travis, justamente o personagem de Harry Dean Stanton.

Harry Dean Stanton com Nastassia Kinski, na obra prima de Wim Wenders, “Paris, Texas”.

SUPER 8

E agora, para onde me dirijo? Devolvo o carro a Walt e me recolho a meu silêncio? Ainda faz sentido buscar um ponto no mapa, o terreno onde fui concebido nesse país, o local em que meus pais copularam nove meses antes de eu nascer?

Não sei exatamente o que faz sentido ou não, mas sei que foi bom ter entregue Hunter a Jane. Eu não sabia disso antes, mas, com certeza, era o que queria fazer desde sempre.

Sempre? Quatro anos de torpor e vazio… Quando Walt me encontrou no deserto, fora de mim, mal o reconheci, até porque havia quatro anos eu mal me reconhecia. A sua paciência de irmão e o carinho de Anne é que foram me trazendo de volta a mim mesmo. Contudo ninguém me puxou mais para mim mesmo do que Hunter.

No começo, ficou hostil com aquele pai desgrenhado, sujo e esquisito que, saído do deserto, se intrometia no seu tranquilo e limpo cotidiano pequeno-burguês; por ironia, acho que foi essa sua hostilidade de menino indignado que me arrancou do meu vazio interior e me fez querer me “vestir de pai”. No dia em que fui apanhá-lo na Escola todo pronto e ele, afinal, aceitou vir para casa a pé, caminhando pelo outro lado da rua, senti o meu retorno ao normal, senti que estava voltando a experimentar sentimentos.

Conversar mesmo de pai para filho, lhe dizer as verdades doídas que escondo, isso nunca pude fazer cara a cara. Fiz isso através do walkie-talkie, já aqui em Houston, depois de haver achado sua mãe. Engraçado como só foi possível resolver as coisas de modo indireto, através de algum meio técnico que intermediasse o contato. Eu mesmo não entendo essa necessidade de artifícios, porém com Hunter foi o walkie-talkie que me salvou, e com Jane, o telefone do peep-show. Sinto que frente a frente, a compreensão não teria brotado, nem teríamos, juntos, conseguido mergulhar na dor do passado, para apaziguá-la.

E até o primeiro passo do meu retorno ao real foi promoção de um meio indireto. Foi assistindo à felicidade de nossa família, felicidade de quatro anos atrás, filmada pela câmera Super 8 de Walt, que comecei a sair do meu torpor e a saborear um vago desejo de tornar a viver.

Claro, não vou ter, provavelmente nunca mais, aquela felicidade que está impressa na película Super 8 de meu irmão, mas já foi muita coisa ter vencido o torpor, me resgatado do nada, e mais que isso, haver promovido o encontro de Jane e Hunter.

Se não tiver mais nada de bom nessa minha vida sem perspectiva, vou ter o conforto de saber os dois juntos, se amando como mãe e filho. Não importa o que possa me acontecer: isso me basta.

Isso devia me bastar.

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Eu sempre tive nove anos

21 ago

Eu era criança quando fui apresentado aos filmes de Jerry Lewis (1926-2017).

Morávamos na Rua Alberto de Brito, no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, e eu era aluno do Grupo Escolar Sto Antônio, vizinho ao saudoso Cine Teatro Sto Antônio. Aos domingos, éramos obrigados pela direção da Escola a assistir à missa matinal (às 7:00), na também vizinha Igreja do Rosário. Na ida ou na volta da missa, eu passava na calçada do cinema e já checava o cartaz da matinal.

Pois muitas vezes o cartaz era de um filme com Jerry Lewis…

A sessão era de 9:30 e dava tempo, muito bem, de correr para casa, tomar banho, tomar café, trocar-se de novo e correr para comprar o ingresso.

De sua fase com Dean Martin já peguei o final, e o Jerry Lewis que mais lembro é de filmes em que ele esteve solo, com suas caretas e suas trapalhadas infindáveis, a maior parte deles – soube muito tempo depois – dirigida por Norman Taurog ou Frank Tashlin.

O que eu pensava de Jerry Lewis naquela época é difícil saber, mas hoje, reconsiderando-o na perspectiva da minha experiência de espectador, acho que ele se alinhava no conceito de anti-herói que já assimilara com Carlitos e com o Gordo e o Magro. Um conceito que, na minha cabecinha de menino, se opunha ao do heroísmo nos faroestes da vida. Sim, Roy Rogers, Hapolong Cassidy ou Billy Eliot, com seus cavalos velozes e seus gatilhos relâmpagos, eram figuras altaneiras, admiradas, porém inatingíveis.

Atabalhoados, precários e ridículos os anti-heróis pareciam comigo. Ao rir deles, eu também ria de mim mesmo.

Jerry Com Dean Martin

Não sei até onde foi minha identificação com Jerry Lewis, mas sei dizer que o curti com muito gosto, e não perdi nenhuma de suas comédias localmente exibidas: “O rei do circo” (1954), “O meninão” (1955), “O bamba do regimento” (1957), “Bancando a ama seca” (1958), ”O rei dos mágicos” (1958), “O mensageiro trapalhão” (1960), “O terror das mulheres” (1961), “O mocinho encrenqueiro” (1961), “O professor aloprado” (1963), “O otário” (1964)…

Ainda hoje sinto prazer em revê-lo. Em “Bancando a ama seca”, por exemplo, que revi há pouco, ele é, nessa cidadezinha pequena, o técnico desajeitado de antenas de televisão que um dia encontra, na soleira da sua porta, nada menos que três bebês chorões, os quais ele – sem saber a quem pertencem – se vê forçado a adotar. Os trigêmeos eram, na verdade, filhos de uma ex sua, hoje grande atriz de Hollywood, que não podendo se dar ao luxo de estragar a carreira criando trigêmeos, tivera a ideia de os enviar ao ex-namorado sempre bondoso. O melhor do filme são, naturalmente, as trapalhadas de um ama seca para fazer uma tarefa dessas, completamente inusitada. Claro, algumas cenas nos fazem lembrar Carlitos criando “o garoto”.

Em “Bancando a ama seca”

Sem coincidência, na medida em que eu crescia suas comédias se sofisticavam, sobretudo naquela fase – já começo dos anos sessenta – em que ele assumiu, por conta própria, a direção de seus filmes. Fase em que o casamento de mímica e mise-en-scène fica cada vez mais feliz.

Lembro, por exemplo, o meu estranhamento ao ver “O terror das mulheres”. Bem, no primeiro contato foi só estranhamento, mas, com o passar do tempo – e o consequente aprendizado sobre os mistérios da sétima arte – fui me dando conta de que o que estava feito ali, em plena convencional Hollywood, era puro surrealismo.. e surrealismo dos bons, que mais tarde eu associaria a um Buñuel ou a um Salvador Dali. Vejam bem: uma enorme mansão repleta de jovens belíssimas, e lá trabalhando um único empregado, um pobre coitado que sofrera decepção amorosa e, por isso, tinha horror a mulheres. Um desmonte dos códigos machistas e, por tabela, do American way of life…

Já em idade madura, Jerry Lewis disse uma vez essa frase singela, com que intitulo esta matéria : “Eu sempre tive nove anos”.

Lendo isso – como não? – reportei-me a mim mesmo, aos nove anos, saindo da Igreja do Rosário, ansioso para ver seus filmes na tela do Cine Sto Antônio.

 

Em tempo: esta matéria é dedicada ao jornalista e crítico de cinema Sílvio Osias.

Lewis como o professor aloprado… Um dos seus melhores trabalhos.

Montgomery Clift

15 ago

Catando filme velho por aí – não digo onde – encontro, esta semana, esse “Talvez seja melhor assim” (Raoul Levy, 1966), um filmezinho sem importância de um diretor idem.

E por que me dei ao trabalho de vê-lo? Só porque foi o último filme do ator americano Montgomery Clift (1920-1966), e não resisti a curiosidade de espiá-lo em seu derradeiro papel. Clift morreria nesse mesmo ano, em 23 de julho.

A estória se passa nos dois lados do muro de Berlim, com a guerra fria no auge, e o filme é bem típico da época, com todos aqueles ingredientes de espionagem, perseguições, micro-filme roubado, deserção, CIA, etc… Mas claro, sem a qualidade de “O espião que saiu do frio”, ou coisas assim…

Porém, não foi ao filme que assisti: assisti a Montgomery Clift, um dos meus atores preferidos, no tempo da Hollywood clássica, um ator cuja carreira acompanho desde sempre. Em “The defector” (título original do filme) ele está irrisório, burocrático, decadente, mas que importa? Por contraste, o filme serviu para eu remomorar sua brilhante carreira, antes e depois do acidente de automóvel, em 1956, que quase deformou o seu belo rosto.

E, na minha mente de cinéfilo viciado, fui relembrando os seus filmes, ao menos os que mais amei.

Lembrei o filho adotivo rebelde que ele foi em “Rio Vermelho”, contracenando com o pai durão John Wayne, nesse faroeste inesquecível de Howard Hawks, de 1948.

Veio-me à mente o seu papel em “Tarde demais” (Willliam Wyler, 1949) como o rapaz ambicioso que, com seu charme discreto, planeja um ´golpe de baú´ em cima da feiosa Olivia de Havilland, e quebra a cara, primeiro pela astuta oposição do futuro sogro, e depois, por um motivo bem mais desolador…

Com Liz Taylor em “Um lugar ao sol”.

Como esquecê-lo, ao lado de Elizabeth Taylor, em “Um lugar ao sol” (George Stevens, 1951), como o jovem Eastman, parente pobre dessa família rica, com ajuda da qual pensa ascender socialmente. E assim seria, se não tivesse engravidado uma das empregadas da empresa… e, vocês lembram, a estória dá em tragédia grega.

E ele como o padre Logan que, no confessionário, ouve uma confissão criminosa, e vai viver tolhido entre o dever sagrado do silêncio e a obrigação civil da delação? No hitchcockiano “A tortura do silêncio” (“I confess”, 1953) está um dos seus grandes desempenhos.

Em “Quando a mulher erra” (1953) ele faz um amante romano de quem a americana, casada, Jennifer Jones, não consegue se despedir na “Statioze Termini” (título original). Na verdade, não gosto muito desse filme de Vittorio De Sica, mas o elenco o salva.

Um dos seus desempenhos mais lembrados pelo grande público é, com certeza, o do melancólico soldado meio auto-destrutivo de “A um passo da eternidade”, drama de Fred Zinnemann sobre o ataque japonês a Pearl Harbor.

Em “De repente no último verão” (1959) ele faz o médico cirurgião que é quase comprado pela patriarca (Catherine Hepburn), para que ele proceda a uma lobotomia na sobrinha (Elizabeth Taylor) que vive tendo lembranças desagradáveis da morte do primo, filho da patriarca…

Em Tennessee, a construção de uma barragem vai inundar a ilha onde reside essa senhora idosa, mas firme e determinada a não se mudar (Jo Van Fleet): e Clift faz o papel do administrador que deve convencer a senhora a abandonar o local, em “Rio violento”: grande drama de Elia Kazan, 1960.

Com Donna Reed, em “A um passo da eternidade”.

Junto com Clark Gable e Eli Wallach, ele é, em “Os desajustados” (John Huston, 1960), um dos cowboys modernos que, com Marilyn Monroe metida em um caminhão, vão caçar cavalos selvagens no ensolarado deserto de Nevada.

Quem pode esquecer o seu testemunho em “Julgamento em Nuremberg” (Stanley Kramer, 1961), como o débil mental, vítima do nazismo, justamente por causa da debilidade? Seu desempenho é um exercício de interpretação que impressiona sempre.

E encerro a lista com o seu papel como o famoso psiquiatra austríaco, em “Freud além da alma” (John Huston, 1962), tratando, pela primeira vez, histeria feminina com hipnose e, noutra ocasião, com um paciente do sexo masculino, acidentalmente descobrindo o complexo de Édipo.

Montgomery Clift não rodou muitos filmes, apenas 17. Antes do cinema, trabalhou em teatro e foi ator destacado do afamado Actors Studio. Algum tempo depois de sua morte, a imprensa internacional incluiu-o no rol dos muitos astros clássicos que haviam sido homossexuais, mas, essa é outra estória que aqui não interessa.

Interessam o seu talento e o legado que deixou na tela.

Meio século sem Paul Muni (da série: Grandes atores do cinema clássico)

16 maio

Nascido no ano do cinema, 1895, ele tinha três meses de vida quando os irmãos Lumière fizeram sua primeira exibição pública do cinematógrafo, em Paris. Quem diria que, tão distante da Paris dos Lumière, aquele bebê, gerado na longínqua província da Galícia, região do então Império Austro-Húngaro – hoje Ucrânia – iria, no futuro, tornar-se um grande ator dessa arte nascente, a ser denominada mais tarde de sétima.

A família era judia, falava Yiddish, e a criança recebeu o nome de Meshilem Meier Weisenfreund. Aos sete anos, porém, em 1902, migraram para os Estados Unidos e o menino foi criado nas ruas de Chicago. Nas ruas? Até certo ponto: como os pais eram atores, o garoto, desde cedo, abraçou o métier, e daí a pouco, já se destacava na escola, e fora dela, pelo talento interpretativo, sendo cedo conduzido ao Teatro Yiddish de Chicago, como uma grande promessa.

A promessa cumpriu-se e não demorou para o jovem ator chegar à Broadway, agora já usando a língua inglesa no palco, em papéis da dramaturgia americana. E, claro, não com o seu impronunciável nome Yiddish, mas com um nome artístico mais digerível para as plateias americanas: Paul Muni. O primeiro nome pode ter sido gratuito, porém, o sobrenome teve uma motivação curiosa: é que, desde a adolescência, ele carregava o apelido, imputado pelos amigos, de “Moony” (mais ou menos: ´aluado´, ´distraído´, ´pensativo´), o que foi, graciosamente, transformado em “Muni”.

Paul Muni (1895-1967)

Consagrado no teatro, aos 36 anos Paul Muni (1895-1967) foi convidado a fazer cinema. Cedeu a Hollywood, mas seu primeiro filme, “The valiant” (1929), não fez grande sucesso, embora tenha lhe valido, já, uma indicação ao Oscar de melhor ator em papel principal. Prosseguiu atuando nas telas, e sua fama – junto com o prestígio crítico – não demoraria: estourou com dois filmes do mesmo ano, 1932, ambos envolvendo o submundo do crime: “Scarface, a vergonha de uma nação” (“Scarface”, de Howard Hawks) e “O fugitivo” (“I am a fugitive from a chain gang”, de Melvyn Leroy), filmes que alguns asseguram haver inaugurado o gênero noir.

No total, Paul Muni rodou 22 filmes, com seis indicações e um Oscar de melhor ator. Mas, sem sombra de dúvida, o auge de sua carreira acontece na segunda metade dos anos trinta quando, exigente com os papéis, escolhe interpretar três figuras históricas de grande envergadura moral, formando uma espécie de trilogia: “A história de Louis Pasteur” (1936), “A vida de Emile Zola” (1937) e “Juarez” (1939), este último sobre o grande líder revolucionário mexicano Benito Juarez. Foi por sua impressionante interpretação de Pasteur que recebeu o Oscar de melhor ator do ano.

O sucesso dessas cinebiografias levou Muni a querer filmar a vida de Alfred Nobel. Iniciou as pesquisas, mas, desistiu, depois de tomar conhecimento de que o cientista sueco que dá nome ao prêmio mais cobiçado do mundo, havia sido homossexual. Muni não era ingênuo e sabia que, naquela época – ainda final dos anos quarenta – nenhum produtor apoiaria um projeto fadado a ser descartado pelo Código Hays de Censura.

Ainda permeando a trilogia citada, há um grande desempenho de Muni, como o camponês Wang que, ao longo da vida, enfrenta penúrias, secas, revoluções e tempestades de gafanhoto, saga empolgante com base no romance da escritora Pearl S. Buck, “The good Earth”. No Brasil, o filme chamou-se “Terra dos deuses” (1937).

Muni como Scarface, 1932.

No final dos anos cinquenta Paul Muni abandona o cinema. Sua última película é “Rebeldia de um bravo” (“The last angry man”, 1959, de Daniel Mann), sobre um médico idealista que é absorvido pelo mundo da televisão.

Teria sido interessante vê-lo na tela como o advogado Henry Drummond da peça “Inherit the Wind” (“O vento será tua herança”), papel que ele fizera brilhantemente nos palcos da Broadway, entre 55 e 56, e que lhe dera o prêmio maior do teatro americano, o Tony Award. Esse papel, como vocês sabem, foi para Spencer Tracy, no filme homônimo de Stanley Kramer, de 1960.

Universalmente reconhecida é a sua capacidade camaleônica de transmudar-se nos personagens mais distintos, em muitos casos fazendo recurso ao uso de maquiagem que o envelhecia ou o rejuvenescia, a depender da estória narrada, mas sempre convencendo pela sua força dramática. Nem feio, nem bonito, Paul Muni nunca entrou na galeria dos astros de Hollywood, talvez por isso pouca gente o lembre hoje em dia.

Em “A história de Louis Pasteur”, 1936.

De minha parte, lamento não ter tido a chance de ver Paul Muni na tela grande. Devo ter assistido, lá pelos anos 50, à reprise de “À noite sonhamos” (“A song to remember”, 1945), mas aí ele foi apenas coadjuvante, no papel do professor de Chopin, compositor cuja vida é contada nesse filme de Charles Vidor.

Vim a conhecê-lo melhor já no tempo do VHS, quando saiu a selagem de “Scarface”. Achei o filme de Hawks tão empolgante que o incluí no vídeo que editei para a festa do Centenário do Cinema, em 1995. Dele escolhi a cena em que, caçado pela polícia, o protagonista comete seus últimos desatinos e é atingido, desabando sem vida no calçamento frio da rua.

Aos poucos é que fui me introduzindo a sua filmografia. Indicado por um amigo, “Terra dos deuses” foi uma surpresa agradável, por várias razões; uma delas é que conhecia o livro de Pearl Buck, leitura da juventude, feita quando ensaiava meus primeiros passos na língua inglesa. No filme de Sidney Franklyn, a tempestade de gafanhotos, com o velho camponês se arrastando ao meio, é coisa que nem Cecil B. DeMille faria tão bem.

Com relação à trilogia histórica (Pasteur, Zola, Juarez), que vejo e revejo sempre, não sei dizer onde Muni está melhor. E provavelmente não há como dizer, pois são desempenhos saídos do âmago. Só sei que são grandes filmes, infelizmente muito pouco referidos pelos cinéfilos da atualidade. Por isso mesmo é que redijo este texto, homenagem tardia a esse ator superior que foi Paul Muni, falecido exatamente meio século atrás, em 25 de agosto de 1967.

Muni na pele do escritor francês Émile Zola.

Life – um portfólio de James Dean

3 mar

As melhores fotografias de James Dean, aquelas que, junto com os seus três filmes, ajudaram a construir a sua mitologia pessoal, foram tiradas quando ele ainda não era famoso. Eis o curioso argumento do filme “Life” (2015).

Mas vamos à estória. No inverno de 54/55 Dean já tinha feito seu primeiro filme, “Vidas amargas”, mas, a estreia ainda não acontecera, e, portanto, nos meios cinematográficos, ele ainda era um ilustre desconhecido. Embora namorasse a famosa Pier Angeli, ninguém em Hollywood sabia quem era aquele rapazinho meio esquisito que a acompanhava. Por exemplo, na badalada estreia de “Nasce uma estrela” (George Cukor, 1954), a que os dois comparecem, ao meio dos aplausos para ela, ele é sistematicamente ignorado pelo público presente.

Life 3

Foi então que Dean conheceu o fotógrafo da revista “Life”, Dennis Stock. O encontro casual foi na casa de Nicholas Ray, numa festa que o cineasta estava dando para o elenco de “Juventude transviada”, filme a ser rodado dentro em breve. Meio sem convicção, Dean convida Stock a ir à pré-estreia de “Vidas amargas”, e, só depois de ver o desempenho do ator na tela, é que o fotógrafo decide que ele vai ser seu próximo portfólio.

A partir daí, convencido de estar na presença de uma sui generis personalidade do cinema, Stock não lhe sai mais do encalço. Uma breve mas intensa amizade brota entre os dois, que passam a se ver com frequência, viajando juntos a Nova Iorque, e de lá, à terra natal do ator, a pequena Fairmount, no Estado de Indiana, onde o fotógrafo se hospeda na casa dos tios de Dean. Desse contato e dessas viagens é que surgirá o famoso ensaio fotográfico, publicado pela revista “Life” com o título sintomático de “Moody new star”, mais ou menos: /melancólico novo astro/.

Do portfólio de Dennis Stock...

Do portfólio de Dennis Stock…

Só para refrescar a memória do leitor, e já que o ensaio fotográfico de Stock é a precípua motivação do filme de Anton Corbijn, algumas dessas fotos, todas em belo preto-e-branco, mostram poses acidentais: James Dean sentado numa cadeira de barbeiro, todo embrulhado em lençol branco, aparando o cabelo numa barbershop de Nova Iorque. Outra o mostra caminhando numa calçada da cidade, agasalhado por um sobretudo escuro, num dia de inverno rigoroso. A essas tomadas urbanas, se somam as fotos rurais, em Indiana, numa paisagem coberta de neve, com cavalos, bois, porcos e tratores.

Para o espectador é interessante ver ficcionalizada essa fase pré-fama de James Dean, mas, infelizmente, o filme de Anton Corbijn tem problemas.

Um desses problemas é justamente que o roteiro ficou preso demais ao portfólio de Dennis Stock, e é possível perceber que muitas das cenas – às vezes sequências inteiras – não passam de “arrumações” previamente concebidas para que se batam as fotos do personagem, as conhecidas no ensaio da “Life”, ou outras menos divulgadas. Um caso bem óbvio é aquela foto, nada acidental, na fazenda da família, em Indiana, com o trator e o gado por trás. Em momentos assim, e durante algum tempo, o espectador tem a sensação de que nada está acontecendo: a estória não anda e ninguém sabe exatamente por quê.

Mais portfólio...

Mais portfólio…

Para fazer um pouco de justiça ao filme, essa escassez narrativa é motivada pelo próprio argumento, já referido acima: é que, na verdade, em poucos meses de convívio entre os dois personagens, de fato, praticamente nada aconteceu, salvo as fotos, fotos que o filme decidiu privilegiar.

O outro problema do filme tem a ver com o elenco. Se porventura Robert Pattinson está razoável como o talentoso, perseverante e problemático fotógrafo Dennis Stock, quem estaria talhado para ser James Dean? Consta que o ator Dane Dehaan, antes de assinar contrato com a produção, recusou, indeciso, o convite seis ou sete vezes, e teve razão para tal hesitação: sua interpretação não convence muito e seu James Dean, não sei como o verão os espectadores do filme, mas, a mim me pareceu inócuo.

Cena em "Life" (2015).

Cena em “Life” (2015).

Um certo efeito nostálgico se consegue com a recitação dos belos versos de James Whitcomb Riley – poeta conterrâneo do ator –  naquele momento final em que Dean, no avião de volta a Hollywood, deixa a sua Indiana de origem – e nós sabemos, para nunca mais voltar. O refrão de Riley diz justamente o contrário disso: “We must get home / We must get home again” (´devemos voltar à casa´), porém, nem esse efeito salva a construção do personagem. A sua mítica amargura rebelde em nós perdura dos filmes em que atuou, e não deste.

Enfim, “Life” entra na fila dos muitos filmes americanos atuais sobre figuras proeminentes do cinema clássico, como Marilyn Monroe (“Sete dias com Marilyn”, 2011), Walt Disney (“Walt nos bastidores de Mary Poppins”, 2013) e Dalton Trumbo (“Trumbo- listra negra”, 2015). Entra na fila, sim, porém, qualitativamente falando, fica lá no fim.

Dean em "Vidas Amargas", de Elia Kazan.

Dean em “Vidas Amargas”, de Elia Kazan.

Anthony Quinn

22 out

Neste 2015, se vivo fosse, Anthony Quinn teria completado cem anos de idade. Acho que o fato merece nota e convido o leitor a recordar esse que foi um dos maiores atores do Século XX.

E começo com Umberto Eco. Falando de rostos em um de seus “Diários Mínimos”, Eco relata que estava um dia em Nova Iorque, numa beira de calçada apinhada, tentando atravessar a rua, quando estira a cabeça para um lado e, lá adiante, divisa o rosto de uma pessoa que fizera o mesmo. Era o rosto de um desconhecido, que, no entanto, lhe pareceu incrivelmente familiar. Segundos adiante, a rua atravessada, lhe cai a ficha: era o rosto de Anthony Quinn, tão perdido no meio da multidão quanto ele.

O teórico da semiótica e o ator de cinema nunca se conheceram, mas, quem é que, tendo vivido o Século XX, não retém na mente as feições de Anthony Quinn?

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Esse mexicano, descendente de irlandês pelo lado paterno, nasceu em Chihuahua, em 21 de abril de 1915. Durante a revolução mexicana seu pai foi soldado de Pancho Villa, mas, finda a revolução, em situação financeira difícil, a família muda-se para Los Angeles, onde o pai vai trabalhar de cameraman nos Studios Selig. Acompanhando o pai no trabalho, chega a conhecer e ficar amigo de mitos do faroeste primitivo, como Tom Mix.

Contudo, não foi nessa época que o cinema o pegou. Órfão aos nove anos, Quinn teve que lutar pela sobrevivência em muitos sub-empregos, como pregador de rua, magarefe, açougueiro e, mais tarde, boxeur. Tentou a escola, sem muito sucesso, e só muito tempo depois, já adulto feito, experimentou um curso de arquitetura.

No cinema começou em pontas, geralmente no papel de índio em filmes faroeste. Ao desposar, em 37, a filha do afamado diretor Cecil B. DeMille, sua carreira toma rumo mais regular, apesar de o sogro nunca ter simpatizado com seu lado latino. Para se ter uma idéia, até 1947, aos 32 anos, Quinn ainda era um imigrante mexicano, sem cidadania americana.

Seu prestígio de ator só veio mesmo nos anos cinquenta, depois de ter passado pela Broadway, onde impôs um nome, substituindo Marlon Brando no papel de Kowalski na peça “Um bonde chamado desejo”. O sucesso teatral de Quinn criou uma rivalidade entre Brando e ele, e contam que foi motivado por essa rivalidade que o cineasta Elia Kazan colocou os dois juntos em “Viva Zapata” (1952), filme que deu a Quinn o seu primeiro Oscar.

Quinn em "Vida Zapata" (Kazan, 1952)

Quinn em “Vida Zapata” (Kazan, 1952)

Depois disso vai morar na Itália, onde vem a filmar o felliniano “La strada” (1954). A rigor, fica revezando-se entre Europa e América, mas sua preferência era clara. “Na Europa um ator é um artista; em Hollywood, se você não estiver trabalhando é chamado de vagabundo”: chegou a desabafar. Um exemplo típico dessa mistura de continentes está em “Sede de viver” (1956), filme hollywoodiano sobre Van Gogh, onde ele faz o papel de Gauguin, e arrebata o seu segundo Oscar.

Foi essa internacionalização profissional que o levou ao ápice de sua carreira, no início dos anos sessenta, com sua inesquecível participação em “Lawrence da Arábia”, e no que até hoje é o seu filme mais cultuado pelos cinéfilos: “Zorba, o grego” (1964).

Nenhum ator de cinema americano revezou tão bem papéis principais e de coadjuvante, mas, a mim, o que me ocorre é que ninguém assumiu, na tela, tantas nacionalidades diferentes. Repassem a extensa carreira de Quinn (cerca de 137 filmes) e confiram suas muitas etnias fílmicas: esquimó, índio, mongol, ucraniano, huno, espanhol, francês, italiano, irlandês, americano, judeu, havaiano, grego, filipino, inglês, chinês, basco, árabe, e, naturalmente… mexicano.

No felliniano "La strada" (1954)

No felliniano “La strada” (1954)

Para fechar a homenagem, faço seguir, sem contar os filmes já mencionados no texto, uma lista de dez títulos em que Anthony Quinn, como ator principal ou coadjuvante, brilhou:

 

O corcunda de Notre-Dame (Jean Delannoy, 1957)

A fúria da carne (George Cukor, 1957)

A orquídea negra (Martin Ritt, 1958)

Minha vontade é lei (Edward Dmytryk, 1959)

Duelo de titãs (John Sturges, 1959)

Sangue sobre a neve (Nicholas Ray, 1960)

Retrato em negro (Michael Gordon, 1960)

Os canhões de Navarone (J. Lee Thompson, 1961)

A visita (Bernard Wicki, 1964)

A voz do sangue (Fred Zinnemann, 1964)

 

Em "Zorba, o grego" (1964), o ápice de sua carreira.

Em “Zorba, o grego” (1964), o ápice de sua carreira.