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Ida

24 mar

Um amigo polonês certa vez me contou que, na Polônia dos tempos comunistas, o ato mais revolucionariamente corajoso que os jovens cometiam era casar na Igreja, de véu e grinalda, com hino nupcial e tudo mais.

É que, sendo o país de tradição católica, o regime comunista lhe impunha, na força, um ateísmo mal vindo. Assim, enquanto, no mundo capitalista dos anos, digamos, cinquenta/sessenta, a rebeldia juvenil consistia em beber, fumar, dançar rock e fugir de casa, na Polônia de então casar na Igreja era o grande gesto de extrema coragem para jovens insatisfeitos com o status quo.

E por que estou falando disso?

É que acabei de ver “Ida” (2014), o filme polonês que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, e que, de alguma forma, tem a ver com a situação evocada por meu amigo.

A atriz polonesa Agatha Trzebuchowska no papel de Ida.

A atriz polonesa Agatha Trzebuchowska no papel de Ida.

Em 1962, nesse convento afastado, vive a noviça Anna, que, junto com outras noviças, está prestes a receber os votos que a tornarão uma freira. Antes disso, ela é enviada pela madre superiora à cidade, para passar uns dias com uma tia que nunca vira, nem sabia que existia, pois, nos seus documentos de noviça do convento, constava que fosse órfã e sem parentes nem aderentes.

Meio alcoólica e de vida libertina, a tia Wanda mostra a uma Anna surpresa, fotos de seus pais, judeus exterminados pela guerra. Anna – agora identificada como Ida – termina sendo convencida pela tia a ir ao encalço do que restou da família, numa aldeia no campo, uma velha casa, onde hoje residem outras pessoas.

É no estábulo dessa casa que Anna vai ver os vitrais coloridos que, segundo a tia Wanda já lhe contara, a mãe colocara nas janelas, para as vacas se sentirem mais alegres. Um pequeno detalhe que dá à moça uma ideia de quem havia sido a sua genitora, uma figura certamente anti-convencional, criativa e cheia de vida. Indaga daqui, indaga dali, as duas mulheres são finalmente conduzidas, no meio de floresta densa e úmida, a uma verdade dolorosa, que prefiro não revelar ao leitor que ainda não viu o filme.

Tia e sobrinha partilhando dores

Tia e sobrinha partilhando dores

Deixem-me só dizer que retornando ao convento depois do choque, Anna dá-se conta de que não está preparada para os votos. Volta à cidade, para os funerais da tia, e decide que deve experimentar a vida como ela é. Põe os sapatos de salto e o vestido sensual da tia, fuma e se embriaga como ela fazia e se entrega sexualmente ao rapaz que conhecera no percurso.

Ainda na cama, o rapaz lhe sugere que fujam juntos, e ela pergunta “E depois?”. O rapaz responde que casariam e teriam filhos, e ela repete “E depois?”. E o rapaz, sem saber o que mais dizer, responde: “Sei lá, a vida”.

Cometidos todos os “pecados”, Ida repõe calmamente seus trajes de noviça e volta ao convento para toda uma existência de reclusão religiosa, e o filme se conclui com seu corpo em marcha e, bem frontal, seu rosto decidido a não ter “a vida” de que o rapaz falara…

Tirando o capuz de noviça

Tirando o capuz de noviça

Neste sentido, parece irônico – ou seria o contrário? – que o filme tenha recebido o título de “Ida”, e não de “Anna”.

De todo jeito, é bom frisar que estamos, neste filme, muito longe de qualquer esquema maniqueísta que, esquizofrenicamente, separe Anna de Ida. Por isso, no parágrafo anterior, tive o cuidado de por a palavra “pecados” entre aspas.

Acho que assistindo a “Ida” todo mundo vai lembrar-se de “Uma cruz à beira do abismo” (“The nun´s story”, 1959), filme que também narra a estória de uma freira (Audrey Hepburn), em certo momento, hesitante entre a fé e o mundo. No filme americano de Fred Zinneman, a freira escolhe o mundo; aqui a escolha é outra, mas, as semelhanças persistem.

Com exceção de Andrzej Wajda, Roman Polanski e krzysztof Kielowski, o cinema polonês é pouco conhecido entre nós. Sobre o primeiro escrevi, aqui, há pouco tempo, a respeito do seu filme “Walesa”, e quanto aos outros dois, como sabemos, são mais atuantes fora que dentro de seu país.

Na cama, mas...

Na cama, mas…

A direção de “Ida” é de Pawel Pawlikowski,  e a jovem atriz Agatha Trzebuchowska, que faz a personagem-título, o faz muito bem. Dou destaque, porém, à belíssima fotografia em preto-e-branco (Lucasz Zal), uma escolha cromática que, mui apropriadamente, faz o espectador recordar os muitos tons de cinza do cinema de arte europeu da época ficcional do filme em questão, final dos anos cinquenta, começo dos sessenta. Filmes como “Os incompreendidos”, “Acossado”, “Rocco e seus irmãos”, “A doce vida”, “Oito e meio”, “Os companheiros”, “Persona”, e tantos outros…

Esta matéria é dedicada a Jack Slosky, meu amigo polonês, hoje residente nos Estados Unidos. ida 1

Tudo sobre Holly

4 jan

Não. Não se trata de Hollywood. É Holly mesmo, aquela mocinha magricela, de sobrenome Golightly, que veio do Interior para Nova Iorque, fazer a vida fácil, e que tem o costume de comer sanduíche nas calçadas da joalharia Tiffany´s, de madrugadinha. Aquela que nasceu da cabeça perversa de Truman Capote e que, das páginas de seu romance, pulou para as telas do cinema, nas poucas carnes de Audrey Hepburn. Ok, tudo bem, termina sendo Hollywood, sim.

Quem conta tudo sobre Holly Golightly é o jornalista e crítico americano Sam Wasson, no seu divertido livro “Quinta Avenida, cinco da manhã” (Zahar, 2011). E isto, desde o surgimento de Holly nas páginas de Capote, até o seu ressurgimento no filme de Blake Edwards, “Bonequinha de luxo” (“Breakfast at Tiffany´s”, 1961).

Mas, se o livro de Wasson é um duplo making of do livro e do filme, não fica nisso. Pesquisando em arquivos e entrevistando envolvidos, o autor reconstitui todo o contexto da escritura de um e da produção do outro, e, inevitavelmente, pinta um quadro do que foi o cinema americano entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta. Sem contar que ilustra a contento, os bem ou mal resolvidos conflitos entre literatura e cinema – um bom estudo de caso para o que se chama de adaptação.

Dos mais centrais aos mais periféricos, Wasson abarca praticamente todos os envolvidos na concepção de “Bonequinha”, para cada um reservando capítulos biográficos que explicam suas relações com a feitura do livro e do filme.

Os centrais são, naturalmente, Truman Capote, Blake Edwards e Audrey Hepburn. E o leitor fica sabendo: que mulheres teriam sido as inspiradoras da protagonista Holly, ganhando de sobejo a pintura do mundo society da Nova Iorque da época; o quanto Edwards, então um diretor sem grande projeção, se empenhou em fazer uma obra que se equilibrasse entre o código de censura de Hollywood e a libertinagem do romance original; como Audrey, ao ser convidada, recusou um papel que supostamente mancharia sua imagem, e o quanto a equipe pelejou para convencê-la.

Uma vez que se trata em parte de adaptação, uma figura também chave é o roteirista George Axelrod, que lutou – e venceu – para transformar o baixo astral literário de Capote em uma estória de amor, eliminando o homossexualismo do amiguinho de Holly e, disfarçando, tanto quanto possível as suas respectivas profissões: ela, uma prostituta de luxo, ele um garoto de programa também de luxo.

E há as figuras que começaram periféricas e terminaram centrais, caso de Henri Mancini, que foi contratado pelos produtores sem convicção, e que terminou levando, junto com Johnny Mercer, os únicos Oscar do filme. Acompanhar essa dupla na confecção da melodia e depois da canção, que Mercer chamou de “Blue River” e Mancini mudou para “Moon River”.é emocionante – principalmente se você, como eu, ainda a tem na cabeça.

E há os centrais que terminaram periféricos, caso da toda poderosa figurinista Edith Head (35 indicações ao Oscar!), que perdeu terreno para o estilista francês Givenchy, o escolhido para vestir a Sra Hepburn com o seu “preto básico”, ficando a magoada Head com os figurinos secundários.

Por sugestão do próprio Capote, o filme foi todo pensado para Marilyn Monroe e só não a teve no elenco por motivos de força maior. Pensou-seem Debbie Reynolds, Doris Day, Elizabeth Taylor e Sandra Dee, as musas da época, e, por sorte, houve entraves para cada caso.

O ator George Peppard foi imposto pelos estúdios ao diretor Blake Edwards que, depois de assistir a um de seus filmes, literalmente ajoelhou-se na calçada do cinema, perante os produtores e implorou que não o contratassem… e perdeu. Além de mal elencado, Peppard se revelou um megalomaníaco que massacrou toda a equipe, inclusive a suave e delicada Audrey. Como, no livro adaptado, o seu personagem é o narrador da estória, ele botou na cabeça que o filme fora concebido para ele. Nada a ver.

Outro problema para a produção foi o marido de Audrey, o ciumento e intolerável Mel Ferrer, se revelando um frustrado com o sucesso da esposa, tanto é que se separariam logo depois do estrondoso sucesso do filme.

Mas, claro, o livro transcende os mexericos e o show business em vários aspectos, o melhor deles sendo mesmo o sociológico. O seu melhor argumento é demonstrar como “Bonequinha de luxo”, o filme, funcionou como um termômetro para as mudanças que estavam por vir, na década que começava – mudanças de toda ordem, sobretudo as comportamentais e as estéticas.

Com o código Hays de censura em crise, os roteiristas já não precisavam fazer os contorcionismos narrativos que o mesmo George Axelrod fora obrigado a fazer cinco anos atrás, em “O pecado mora ao lado” (1955), para por na tela uma peça onde o adultério era um fato consumado e a consumir. Aliás, mulheres diferentes do padrão ´dona de casa´ já estavam nas telas do momento, por exemplo, a Elizabeth Taylor de “Disque butterfield8”e a Shirley MacLaine de “Se meu apartamento falasse”, ambos de 1960.

Apesar da assunção do gênero romântico, a protagonista Holly Golightly aparecia como uma representação da nova mulher emergente, até certo ponto livre, dona de seus caminhos. A mera aceitação do público da princesinha Audrey (lembrar de “A princesa e o plebeu”, 1953, e “Sabrina”, 1955) no papel de uma prostituta já era o sintoma de muitas mudanças. Tanto assim que o subtítulo do livro de Wasson é: ´Audrey Hepburn, Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna´.

Ao mesmo tempo criativo e informativo, o livro de Wasson está dividido em oito capítulos cujos nomes são verbos que expressam gestos ou atitudes humanas (´querer´, ´ver´, etc), o que é seguido de um roteiro da Nova Iorque de Holly Golightly´, com direito a um precioso mapa da cidade. Não poderia faltar uma seção iconográfica onde se vê uma foto histórica de Audrey Hepburn obedecendo às ordens da prefeitura para manter a cidade limpa, depositando o papel de sanduíche (o que Holly comeu na frente da Tiffany´s?) numa lata de lixo. Só faltou um detalhe, ao menos na edição brasileira: o cartaz original do filme, a cuja confecção, afinal de contas, se dedica um capítulo inteiro. Nada é perfeito.

Só para lembrar Audrey

26 maio

Estávamos no comecinho dos anos sessenta. Kennedy ainda não tinha ido a Dallas, as mulheres ainda não tinham queimado os sutiãs, os estudantes franceses ainda estavam em sala de aula, e os hippies ainda não haviam se agrupado.

Com elegância aristocrática e ao som do suave “Moon River” de Henry Mancini, essa mocinha magra desce de um carro numa rua de Manhattan e, em frente à milionária joalharia Tiffany´s, se detém, por um tempo, espiando as jóias nas vitrines. É madrugada e ela mastiga um frugal sanduíche, depois de uma noite de…

A cena – creio que vocês recordam – é de “Bonequinha de luxo”, filme que, neste 2011 em que estamos, completa – quem diria? – cinquenta anos. Nos Estados Unidos, estreou (chequei) em outubro de 1961, e no Brasil, logo depois, em novembro do mesmo ano. Não sei quando chegou a João Pessoa, mas, ainda hoje me vejo, enfiado numa cadeira do Cine Municipal, deslumbrado com o seu tecnicolor, esquecido do mundo e da vida…

O título brasileiro faz referência eufemística à profissão da protagonista, enquanto que o original, “Breakfast at Tiffany´s” (´Café da manhã na Joalharia Tiffany´), indica a cena de abertura, acima descrita. Livremente baseado no romance homônimo de Truman Capote, foi, sem dúvida, uma dos filmes emblemáticos dos múltiplos e confusos anos sessenta, mas, não é dele que quero tratar aqui. Tomo-o como pretexto para falar de sua atriz-títular, uma das musas do cinema que mais me encantou e que continua me encantando, cada vez que revisito seus filmes.

Pois é, vamos lembrar Audrey Hepburn (1929-1993)?

Embora de ascendência nobre, Audrey não foi sempre a figura leve e delicada que imaginamos haver sempre habitado um mundo de bem-aventurança: na realidade, passou por momentos difíceis na sua juventude.

Filha de banqueiro inglês com baronesa holandesa, nasceu em Bruxelas, Bélgica, onde, ainda muito jovem, testemunhou o terror nazista e passou maus pedaços. Chegou a ser assistente de enfermeira durante a guerra, período em que conviveu com tanto sofrimento que, muitos anos depois, quando já estava em Hollywood e famosa, recusou-se a interpretar, na tela, a garota Anne Frank (aquela do diário), alegando que não suportaria reviver o passado.

Depois da guerra, e com a separação dos pais, mudou-se para Londres onde estudou balé e música. Para o cinema britânico atuou em sete ou oito filmes pequenos, em papéis irrisórios, quase sempre de garçonete ou recepcionista de hotel.

Sua vida deu uma virada quando foi indicada para fazer o papel-título da peça “Gigi” nos palcos da Broadway, uma indicação da própria Colette, autora da peça, que a vira em algumas de suas pontas nas telas. O estrondoso sucesso teatral de “Gigi” conduziu-a diretamente às câmeras de Hollywood.

Contracenando com Gregory Peck, estreou em “A princesa e o plebeu” (1953), filme onde, mui apropriadamente, ela faz a princesa do título, cansada da sufocante “noblesse” que “oblige”. Impressionado com o seu talento, Peck – treze anos mais velho que ela e já consagrado havia muito – insistiu, junto aos produtores, em que o nome dela tivesse, nos créditos, a mesma dimensão do seu, pois apostava que o Oscar de melhor atriz do ano iria para essa novata no cinema americano. E foi.

Com um Oscar nas mãos, as coisas se tornaram mais fáceis. Embora ainda ganhando pouco (cerca de 15 mil dólares) foi escalada pela Paramount para o papel-título de “Sabrina” (1954), uma comédia romântica, baseada na peça de Samuel Taylor e também sucesso na Broadway. O nada romântico Billy Wilder dirigiu o filme, os nada cômicos Humphrey Bogart e William Holden atuaram e ela, a princesa premiada, ganhou o papel de filha de motorista da mansão Larrabee. Pode?

Bem, de filha de motorista (vocês lembram, não é?) ela vira senhora Larrabee no final – o filme foi um sucesso e definitivamente consolidou a sua carreira de estrela do cinema. No próximo ano, casada com o colega Mel Ferrer, ela já estava no elenco da superprodução “Guerra e Paz” (King Vidor, 1956) como a delicada Natasha, e, daí em diante, a sua fama, junto com os honorários, não parou mais de subir.

Quando, dirigida por Blake Edwards, fez o nosso “Bonequinha de luxo” para a Paramount, o seu salário já estava perto de um milhão, e já era conhecida como uma das mulheres mais elegantes do mundo, encarnando uma espécie de elo icônico entre cinema e moda, sempre (desde “Sabrina”) vestida pelo mestre e amigo Givenchy.

Apesar do tema geográfico da letra, o compositor Henry Mancini não escondia que compôs a melodia de ´Moon River´ pensando nela – o que deu (tomara que vocês lembrem!) uma das imagens mais amadas na história da sétima arte: na janela do seu apartamento, uma Audrey melancólica dedilha e solfeja a bela canção de Mancini, espiada de longe pelo seu vizinho, jovem escritor em crise de criação. Contam que, depois do filme montado, os executivos da Paramount quiseram, por motivos mercadológicos, cortar a cena, e ela, categórica, teria respondido: “só se for por cima do meu cadáver”.

Qual o melhor filme de Audrey? Nem todo mundo acha que seja “Bonequinha”. Uns citam o drama religioso “Uma cruz à beira do abismo” (Fred Zinnemann, 1959); outros apontam o faroeste “O passado não perdoa” (John Huston, 1960); outros preferem o suspense “Um clarão nas trevas” (Terence Young, 1967). Há até quem mencione “A flor que não morreu” (1959), filme mal sucedido de crítica e público que o marido, Mel Ferrer, dirigiu, com base no romance de William Henry Hudson…

Talvez por influência de “A princesa e o plebeu”, Audrey fez, com freqüência, o papel de mocinha apaixonada por um cara mais velho. Para citar alguns exemplos, além de “A Princesa” e “Sabrina” (Bogart tinha 55 anos então), lembremos: “Amor na tarde” (Gary Cooper, perto dos 60 anos), “Cinderela em Paris” (Fred Astaire idem), “Charada” (Cary Grant idem), e – uma de suas mais impressionantes interpretações – “My fair lady”, com o quase sexagenário Rex Harrison.

Mas, evidentemente, não foi isso que a caracterizou. Caracterizaram-na o seu talento, a sua elegância, a sua finesse, e, last but not least, a sua beleza.

“Com o rosto que tenho, nunca pensei que fosse parar no ramo do cinema” dizia Audrey de si mesma.

Como estava enganada. Treze anos depois de sua morte, em 2006, foi eleita pela equipe da Revista “New Woman”, a mulher mais bela de todos os tempos.

Como se os fãs de Audrey Hepburn precisassem de eleições…!

Noblesse oblige

4 abr

Nada como se acomodar na poltrona para rever um clássico. Esta semana me acomodei para rever “A princesa e o plebeu” (William Wyler, 1953). Não é um filme que agrade a intelectuais, mas, no mágico território da cinefilia, quem se importa com intelectuais?

Passeei pelas ruas de Roma, andei de lambreta, tomei sorvete, botei a mão na boca da verdade, fiz um pedido impossível, dancei, me meti em brigas, e, evidentemente, acabei apaixonado por Audrey Hepburn… Finda a sessão, fiquei pensando no roteiro, que, aliás merecidamente, ganhou o Oscar de estória original.

Fiquei imaginando como tudo teria começado na cabeça do roteirista Ian Hunter. Não acho nada improvável que o ponto de partida tenha sido aquela frase feita que a gente usa, toda vez que está diante de uma obrigação a cumprir: “noblesse oblige”. O genial foi Hunter haver remontado ao sentido literal do clichê (´a nobreza obriga´) e, a partir daí, haver concebido uma pessoa da corte, de saco cheio com protocolos, querendo escapar das obrigações reais.

Talvez de início tenha lhe ocorrido um príncipe fugindo da corte, mas, essas estórias de nobres cavalheiros passando por plebeus já era batida na época. Assim, era melhor inverter os sexos e fazer uma princesa ter uma crise nervosa e escapulir do palácio para se meter com o povo na rua. E isso onde? Não poderia ser no seu próprio país, pois ela seria facilmente identificada. Assim, inventou-se uma tournée diplomática. A cidade poderia ter sido qualquer uma, mas, claro, nada mais excitante do que Roma, onde tudo é tão anti-protocolar. E cuidado, aquela gag inicial, em plena cerimônia oficial, em que se mostra, por debaixo do vestido da princesa, o sapato fora do pé, e depois reposto, não é nada gratuita: se você prestar bem atenção, ela contém a estória inteira do filme.

Como o filme era produção de Hollywood, tinha que haver um repórter americano, perseguindo a princesa fugitiva e, inevitavelmente, se apaixonando por ela, ao ponto de, no romântico desenlace, renunciar ao furo. A existência desse repórter, além de produzir o conflito necessário e garantir o gênero, tinha a vantagem de remeter a um outro clichê, igualmente reformulado: o “príncipe encantado” das mocinhas, virando “a princesa encantada” dos homens. O final é tão idealista e sublime que não admira que Capra, antes de Wyler, tenha querido fazer o filme.

O papel da princesa foi pensado para Elizabeth Taylor, mas, ainda bem, Wyler insistiu nessa novata, que fizera o teste para a produção. Em seu primeiro papel principal, Audrey se saiu tão maravilhosamente bem que ganhou o Oscar, o seu único.

Adoro aquela cena em que ela, sob o efeito do sedativo, entra no minúsculo apartamento de Gregory Peck e pergunta se estamos no elevador. Antes de deitar-se repete a frase que, na condição de princesa, costumava emitir aos seus súditos: ´você tem minha permissão para retirar-se´. Estas eram dicas de sua realeza (que, nem inconsciente, ela perdia), mas Peck, julgando-a apenas bêbada, estava longe de desconfiar. Na verdade, ele começa a ter uma idéia de que aquela mocinha perdida nas ruas de Roma não era nada vulgar, quando ela recita os versos de Shelley, embora supondo ser Keats: “Aretusa ergueu-se do seu leito de neve…” Sim, mas era cedo para adivinhar a sua posição na pirâmide social.

A ficha cai, para ele, no dia seguinte, ao ver a foto da princesa estrangeira no jornal. É aí que ele, jornalista espertinho, monta o seu plano de ganhar dinheiro em cima do caso, porém, mais interessante para o espectador seria o exercício de identificar, no andamento do filme, o exato momento em que ele desiste do plano. Teria sido no beijo ensopado que o casal troca, depois do mergulho forçado no rio? Ou um pouco adiante, na despedida dentro do carro? Uma outra pergunta gostosa a fazer seria: em que momento da estória ela ficou sabendo que ele sabia de tudo?

Naturalmente, estas perguntas são só pretextos para o cinéfilo ver o filme mais uma vez.