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Américo

17 fev

Com assinatura do cineasta Alex Santos, o curta-metragem de ficção “Américo – falcão peregrino” (2015) presta uma mais que oportuna homenagem ao tão pouco lembrado poeta paraibano Américo Falcão.

Nascido em Lucena, em 1880, quando esse povoado pertencia ao Município de Santa Rita, o poeta de “Auras” foi nome de estaque na capital paraibana. Diretor da Biblioteca Pública do Estado, foi amigo de figuras importantes da época, como o poeta Augusto dos Anjos, o artista Santa Rosa, e o fotógrafo e cineasta Walfredo Rodriguez. Aliado ao governo na Revolução de Trinta, foi co-autor do hino a João Pessoa, mas, evidentemente, o que mais o imortaliza é a sua produção literária.

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Como homenagear um poeta? Tentando ser poético. É o que faz a dupla Alex Santos (diretor e roteirista) e Manoel Jaime Xavier (co-roteirista) e a primeira medida parece ter sido o descarte do gênero documental ou biográfico. Ao invés disso, os autores se entregam a um vôo imagético, onde a liberdade de criação dita a regra. Ludicamente inspirado no sobrenome do poeta, o filme começa com as imagens de um falcão em voo livre, mas a analogia entre nome e ave não fica só nisso: ao longo de filme, vê-se o poeta sempre caminhando pelas ruas da cidade e essa locomoção quase constante reforça a associação com a ave de seu sobrenome, e o faz muito bem.

Oportunamente, essa itinerância também serve a outro fim: o de vislumbrarmos a João Pessoa (Parahyba) da época, com seus casarões, seus bondes e suas ruas estreitas – verdadeiro “roteiro sentimental de uma cidade”. Nesse sentido, mais que louvável é a reconstituição de época, empreendida – nós calculamos – com enorme esforço de pesquisa e produção (o rádio, a mobília, a indumentária, o carro antigo, etc) e muita habilidade em driblar os signos da atualidade, como postes, automóveis, fios, letreiros, etc.

Cena de "Américo - falcão peregrino".

Cena de “Américo – falcão peregrino”.

A essa reconstituição se somam fatos que foram importantes na época, como a passagem do dirigível Zeppelin, refeita com perícia e criatividade. Por outro lado, toda a Revolução de Trinta é sintetizada numa elipse, com a simples substituição, na sala da Biblioteca Pública, da fotografia de João Pessoa, pela do próximo governante, Gratuliano Brito.

Para não dizer que nada é documental no filme, há o breve depoimento de uma das filhas do poeta, D. Marlinda, de 93 anos de idade, depoimento usado com sabedoria pela direção, que o distribui em duas partes: na abertura do filme D. Marlinda conta coisas miúdas e privadas sobre o genitor; no fechamento, seu comentário é comovente: “Meu pai – diz ela, entristecida – eu sabia tanta coisa sobre meu pai, mas o tempo parece que apaga tudo”.

Ao longo do filme inteiro, trechos dos poemas do autor são recitados por uma voz extradiegética, sempre com relação às imagens mostradas. Seja o poema dedicado a esposa morta, ouvido diante de seu retrato; seja aquele outro sobre a morte do amigo Augusto dos Anjos, escrito, em sua caderneta, ao lado de uma edição do EU. A religiosidade do poeta vai aparecer no interior de uma igreja, onde se escuta aquele poema sobre a força de sua crença. Já uma mera vela doméstica vai provocar a evocação dos seus versos mais conhecidos: “Não há tristeza no mundo…”.

O diretor Alex Santos.

O diretor Alex Santos.

Em que pese à tristeza do personagem, o filme se caracteriza por certa ludicidade. O voo imagético com o sobrenome do poeta já foi mencionado, mas, o espectador precisa ficar atento a mais. Por exemplo: em certa ocasião se mostram alguns livros na estante do poeta. Um deles é “O falcão maltês” de Dashiel Hammett (1929) e a razão não é outra senão – de novo – o sobrenome do poeta. Ao lado dele está o “Moby Dick” de Herman Melville e o espectador vai lembrar as cenas da pesca da baleia, exibidas anteriormente, no documentário de Walfredo Rodriguez, a que Américo Falcão assiste, com ar meio desolado. Ele mesmo escrevera as legendas para esse documentário, ele, que afinal de contas, era um amigo dos animais, como se comprova em várias cenas em que acaricia o gato caseiro.

Se é fato que o filme descarta o biográfico, não o faz de todo.  E nisso, do espectador se cobra atenção redobrada a pequenos detalhes que recompõem a vida do poeta de forma metonímica. Um exemplo, entre tantos: passeando pela sala de visita, a câmera revela uma iconografia de Santa Rosa, para nos lembrar a amizade dos dois artistas.

De forma sistemática o filme é fotografado em preto-e-branco nas cenas do passado, e em cores, nas cenas do presente, estas abrindo e fechando a projeção, com as belas imagens da praia de Lucena, como se sabe, uma paixão de Américo Facão. No papel do protagonista, o ator Ricardo Moura está impecável, mas, um capricho adicional é a sensível trilha musical, composta para o filme pelo cantor e compositor Adeildo Vieira.

O médico Manoel Jaime é co-roteirista de "Américo - falcão peregrino".

O médico Manoel Jaime é co-roteirista de “Américo – falcão peregrino”.

Cineastas de um filme só

11 jun

Em literatura, arte essencialmente individual, ninguém estranha que escritores como Emily Brontë ou Augusto dos Anjos tenham escrito um único livro.

Em cinema é diferente. Atividade de equipe que implica um alto nível de conhecimento técnico e envolvimento empresarial, é muito raro que um profissional da área experimente a direção uma só vez.

Mas, que acontece, acontece.

Na maior parte dos casos, que citaremos aqui, são atores ou atrizes com carreiras formadas, que, um belo dia, decidiram que podiam muito bem dirigir, por que não? O mistério, porém, não é que tenham decidido dirigir e o tenham feito: o mistério maior é que nunca tenham repetido o experimento. Sobretudo quando o filme que fizeram é reconhecidamente muito bom.

Acho que dois casos assim, pela qualidade das realizações, merecem destaque.

O tenebroso Robert Mitchum em The night of the hunter

O tenebroso Robert Mitchum em The night of the hunter

O primeiro é “O mensageiro do diabo” (“The night of the hunter”), excelente noir impressionista que o grande ator Charles Laughton dirigiu em 1955. Misturando atmosfera de conto de fada com temática sombria de thriller, o filme contava a estória de um ex-presidiário que perseguia duas crianças na zona rural americana, e isto ao meio de uma paisagem que é toda remissão fotográfica a pinturas do século dezenove. Em todos os aspectos, o filme demonstrava que o novato possuía um extraordinário talento para a mise-en-scène e, no entanto, a realização fílmica de Laughton parou aí. Por que parou até hoje ninguém sabe ao certo.

O outro caso nessa categoria, digo, de alta qualidade, é o filme “Para que os outros possam viver” (“Time limit”), excelente drama de guerra dirigido pelo ator Karl Malden em 1957.  Na estória, um ex-prisioneiro na guerra da Coreia do Norte é acusado de traição e admite a culpa, sua posição de culpado assumido tornando-se um mistério nas investigações posteriores, que, pela lógica, o conduziriam à Corte Marcial… Até que, à revelia do próprio réu, o surpreendente desvendamento do mistério inverte a situação. Dois anos depois, Malden ainda foi responsável por um pequeno trecho do faroeste “A árvore dos enforcados” (Delmer Daves, 1959), mas sequer recebeu créditos por isso.

Cena dramática em Para que os outros possam viver.

Cena dramática em Para que os outros possam viver.

Vejamos outros casos de atores famosos que uma única vez experimentaram a direção. Infelizmente, não posso dizer que a qualidade estética seja a mesma dos dois casos citados acima.

Em 1951 Peter Lorre (sim, aquele mesmo de “O vampiro de Dusseldorf”) assumiu a direção de “Der Verlorene”, (´A perda´) produção alemã, nunca exibida comercialmente entre nós. Em 1957 James Cagney rodou “Atalho para o inferno” (“Short cut to Hell”). Em 1965 foi a vez de Frank Sinatra tentar a direção com o filme “Os bravos morrem lutando” (“None but the brave”).

Um que renegava a sua atividade por trás das câmeras é Anthony Quinn que, em 1958, dirigiu o filme de aventura “Corsário sem pátria” (“The buccaneer”) e gostou tão pouco do resultado que, em entrevistas, costumava fingir que o esquecera. Quando esteve no programa de Jo Soares foi preciso que o outro entrevistado da noite, o paraibano Ivan Cineminha, lhe lembrasse.

Mais dois atores que estiveram na direção uma única vez são: Barbara Loden, que cometeu o drama “Wanda” (1970) e Dom de Luise, que fez a comédia “Três super-tiras” (“Hot stuff”, 1979).

Anthony Quinn e um filme aparentemente esquecido...

Anthony Quinn e um filme aparentemente esquecido…

Há outros casos, que não cito, por estarem os atores ou atrizes ainda vivos e podendo, portanto, fazer novas tentativas a qualquer momento, vindo a quebrar a regra da nossa pauta que é: ´um filme só´.

Por exemplo: Robert De Niro foi ´diretor de um filme só´ (“Desafio no Bronx, 1993) por um tempo – treze anos exatamente – até rodar “O bom pastor” em 2006, e perder a posição. O mesmo se diga de Anthony Hopkins, que fez “Outono de paixões” em 1996, e mais tarde esse “Slipstream” (2007).

Mas, claro, nem só atores tentaram a direção cinematográfica. Na França, por exemplo, o escritor André Malraux rodou o seu “A esperança” (“L´espoir”) em 1945… e nunca mais rodou mais nada.

No Brasil, seria o caso de citar o clássico “Limite” (1931) de Mário Peixoto, que – não esqueçamos – também foi escritor. Só acrescentando que Peixoto tentou outras filmagens, e por razões várias, não teve sucesso e ainda hoje é conhecido como “cineasta de um filme só”.

Em tempo: a pesquisa sobre o tema eu a devo ao amigo cinéfilo Joaquim Inácio Brito.

Até A Voz dirigiu um filme, uma vez...

Até A Voz dirigiu um filme, uma vez…