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Cinco graças

12 maio

Em Porto Alegre, ao tempo do Festival de Gramado, acontece um festival paralelo, chamado de “Os desgramados”, onde se exibem justamente os filmes que, ou não foram selecionados, ou que não ganharam o kikito.

Fico pensando se em Los Angeles não existiria um festival assim, dos “desoscarizados”.

Se houvesse, lá estaria este “Cinco graças” (“Mustang”, 2015), filme da cineasta franco-turca Deniz Gamze Ergüven, que concorreu como estrangeiro e, apesar da qualidade, perdeu.

O cenário é uma província ao norte da Turquia onde moram, com a avó, cinco adolescentes órfãs: Lale, Nur, Selma, Ece e Sonay. Brincalhonas e cheias de vida, levam a vida normal que é permitida a mulheres num país parcialmente fundamentalista e machista, até que, como diz a menor Lale, “num piscar de olho, tudo mudou”.

mustang 1

Mudou no dia em que, ao sair do colégio, as cinco irmãs, e mais uns rapazes, colegas de turma, vão se divertir um pouco na praia, caminho de casa. Entram no mar e ficam fazendo estrepolias e dando risadas ao meio das ondas, e, naturalmente, chegam em casa ensopadas.

Espiadas pela vizinhança, são ´denunciadas´ à avó e ao tio, e é aí que o bicho pega. De garotas inocentes e descontraídas, passam a ser vistas como depravadas e indignas.

Logo a casa vira uma prisão, com grades nas janelas e chaves escondidas. Computadores e celulares, e outros objetos perigosos, são confiscados ou destruídos. Além da instituição do cárcere doméstico, a família tem mais dois cuidados: abafar o escândalo – e, claro, o espectador pergunta ´que escândalo?´ – e cuidar de casar as meninas, antes que seja tarde. Imediatamente providenciados em série, os casamentos, evidentemente, são arranjados entre as famílias do lugar, sem que os noivos sequer se conheçam. Como, de novo, diz a pequena Lale, “a casa transformou-se em uma fábrica de esposas”.

Quanto mais pressionadas aos ditames da família, mais as garotas se revoltam e a estória termina em suicídio e fuga.

mustang 2

O que falta ao meu resumo é o que mais o filme enfoca: a indomável vitalidade das meninas, só dobradas pela força das circunstâncias. Essa vitalidade está no título original do filme, “Mustang”, como se sabe, termo associado ao aspecto selvagem e indomável de certos cavalos. A reintitulação brasileira tem seu charme intertextual, porém, esconde a força das caracterizações.

Autora de alguns curtas, este é o primeiro longa da jovem (37 anos) diretora Deniz Gamze Ergüven, que quase não realiza o filme, pois, ainda na pré-produção, descobre-se grávida e os co-produtores, julgando incerto rodar um filme nessas circunstâncias, quiseram retirar-se do projeto. Ergüven, que já tinha tido um projeto anterior recusado, insiste e o filme é feito.

Na ocasião da estreia internacional, alguns dias depois da exibição e da aclamação, emocionada, ela confessa à imprensa, que de um filme assim pessoal só esperava os aplausos de praxe e nada mais; no dia seguinte, supunha, “Cinco graças” seria esquecido. Não foi e, de público, ela revela sua surpresa com o sucesso.

De fato, “Cinco graças” é um filme intimista, que passa claramente a visão particular da cineasta sobre a condição feminina, especialmente sobre essa condição no seu país de origem, a Turquia, onde a misoginia é um comportamento generalizado. Embora conte a estória de cinco mocinhas, o foco narrativo é doado a uma delas, a menor de todas e também a mais rebelde, Lale, com quem visivelmente a cineasta se identifica.

Um banho de mar pode ser perigoso...

Um banho de mar pode ser perigoso…

Uma ideia apenas implícita, e, no entanto, importante no filme é a de como a educação poderia ajudar a superar o obscurantismo comportamental da tradição.

Vejam que a primeira cena do filme é a da despedida da pequena Lale da professora do Colégio, a qual está se mudando para Istambul. Esta cena é quase esquecida ao longo da projeção, porém, muito bem relembrada na última cena do filme, onde se mostra o reencontro em Istambul, depois que Lale, bravamente, foge de casa com a irma Nur, em busca da liberdade. O abraço da professora e da aluna, que se reveem, agora em situação tão dramática, nos faz lembrar a figura e as ideias de uma Malala, e, por tabela, o filme sobre esta jovem educadora paquistanesa que há pouco comentei, nesta coluna.

Qual será o paradeiro de uma garota de catorze anos que fugiu de casa? Como em clássicos que nem “Os incompreendidos” (1959), o filme deixa isso em aberto, mas o espectador não tem dúvidas: a ex-professora foi procurada porque, em atuação de sala  de aula, deve ter dado lições de liberdade…

Lale, a menor e mais rebelde, cortando os cabelos.

Lale, a menor e mais rebelde, cortando os cabelos.

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Confinados

18 fev

Se você viveu, como eu, os anos cinqüenta no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, conhece a estória. Foi na rua Alberto de Brito, um pouco acima da esquina com a Coremas, sentido Centro, numa casinha pobre do lado esquerdo da rua.

Nessa casinha foi descoberta uma coisa horrível, que chocou a população: uma moça fora criada em cativeiro pela avó, desde pequena trancada num quarto escuro, sem nenhum contato com o mundo exterior. Não lembro como nem quem descobriu o cativeiro, mas sei que a moça, com cabelos desgrenhados, unhas enormes, esmolambada e mal cheirosa, grunhindo sons estranhos, parecia um bicho. Segundo a avó amalucada, o nome dela era Amorosa. A imprensa noticiou, e se você for atrás dos jornais da época com certeza vai ver o fato registrado, talvez com fotos.

w room poster

Mas, por que estou tratando disso? É que acabei de assistir a esse “O quarto de Jack” (“Room”, 2015) e, inevitavelmente, lembrei-me de Amorosa. Tudo bem, criado até os cinco anos dentro de um quarto em companhia da mãe, o garoto do filme, não chega a ter o aspecto horrendo de Amorosa, porém, o tema do confinamento é o mesmo.

Concorrendo ao Oscar, o filme de Lenny Abrahamson é bom, mas, para dizer a verdade, o seu primeiro efeito é nos fazer lembrar outros filmes com a temática; e como o conceito de confinamento é amplo, os filmes são muitos, sem importar, obviamente, os motivos pelos quais as vítimas foram confinadas, ou por quanto tempo assim permaneceram.

O primeiro que me veio à mente foi “Muito além do jardim” (Hal Ashby, 1979). Em seguida lembrei “O show de Truman” (Weir, 1998). Nestes filmes, os confinados são adultos, mas os pontos comuns com “O quarto de Jack” são muitos, a começar pelo lance da televisão. Em “Muito além”, o confinado, como o Jack de agora, só conhece o mundo lá fora pelo aparelho de TV. Em “Truman”, o protagonista está dentro da própria engrenagem da televisão, e não sabe. O terceiro filme que me ocorreu foi “O colecionador” (Wyler, 1965), já que o motivo do confinamento é o mesmo, um sequestro que devia valer para a vida toda.

x mãe e filho no quarto

O impacto do menino confinado, ao ser exposto ao mundo fora de seu quarto, traz à tona “O garoto selvagem” de Truffaut (1970), e o mais radical “O enigma de Kasper Hauser” de Herzog (1974).  Mas também nos faz pensar em “A mulher da areia” (Teshigahara, 1964), e em todos os confinamentos entre quatro paredes, como em “Um condenado à morte escapou” (Bresson, 1956) ou “O homem de Alcatraz” (Frankenheimer, 1962).

Uma coisa boa no filme de Abrahamson é que se chame “Room”, deste jeito: palavra única com letra maiúscula. (o título brasileiro estraga tudo). Vejam que depois de libertado, o menino fala que estava, “in Room”, como se estivesse dizendo ´in Canada´, ou ´in Ireland´ (no Canadá ou na Irlanda). Essa maneira de expressar-se sugere a verdade dele: a de que o quarto era o seu universo, um universo paralelo e bem diferente do que ele conhece agora. Libertado e encontrando a mãe também liberta, a primeira coisa que pede é para voltarem à cama, “in Room”. Sim, porque esse país chamado ´Room´ (´Quarto´), mesmo fisicamente limitado, prescindia de uma série de problemas com que ele se depara aqui fora. E, claro, nesse momento, o espectador inevitavelmente faz a associação com a ideia de útero. Um útero estranho, é verdade, pois abrigava ambos, filho e mãe.

Outra coisa interessante no filme são suas gritantes lacunas: ninguém sabe o motivo do sequestro, nem o paradeiro do sequestrador. Sequer a presença dos avós da criança esclarece, muito menos a polícia… Claro, é uma opção autoral, mas uma opção interesseira, que tem a serventia de enfatizar o lado simbólico da situação.

z olhando a claraboia e imaginando o mundo lá fora

Ao espectador atento não deve ter escapado que Jack só supera o trauma de seu confinamento na ausência da mãe. Naquele momento em que ele declara o seu amor à avó, sente-se que deu adeus ao país chamado `Room´. Nem precisava o adeus do desenlace. Também é interessante que o ponto de vista narrativo seja o de Jack (e não o da mãe). É a ele que é dado mais tempo de tela, e até a narração em voz over (supostamente onisciente) é dele. Dentro dessa lógica é que nós, espectadores, permanecemos, na primeira metade do filme, também confinados no quarto e só divisaremos a paisagem lá fora no instante futuro em que Jack a divisar.

As sequelas de Jack são basicamente psicológicas, mas há um traço físico que traz do confinamento: os cabelos longos que, mais tarde, serão cortados e presenteados à mãe, para lhe dar força. Agora de cabelos curtos, Jack está pronto para enfrentar e vencer esse segundo Mundo, paralelo a Room.

Cá comigo, fico imaginando qual terá sido o destino da nossa Amorosa. Se enfrentou e se porventura venceu o nosso Mundo não sei, mas que sua estória também dá filme, dá. Atenção, cineasta paraibanos!

O ator Jacob Tremblay como o confinado Jack.

O ator Jacob Tremblay como o confinado Jack.

Hud, o “car boy”

11 mar

Foi nos anos 1950 que o filme faroeste amadureceu, e tanto que, no processo, gerou uma espécie de parente agregado: o filme que tinha o mesmo cenário, o Oeste, mas o tempo era outro; era o presente, contemporâneo às filmagens. Nesse novo modelo de ´western´, o cavalo cedeu lugar ao automóvel, e o ´mocinho´, subtraído de seu mítico heroísmo de cowboy – bem que poderia ser chamado de ´car boy´.

Não sei dizer quem foi, na cronologia, o primeiro “parente agregado” do faroeste, mas, lembro pelo menos três filmes nesse modelo: “Assim caminha a humanidade” (George Stevens, 1956), “Os desajustados” (John Huston, 1960) e “Hud, o indomado” (Martin Ritt, 1963). hud poster Sobre os dois primeiros já escrevi alhures, e aqui me atenho a “Hud, o indomado”, recentemente circulando na programação da televisão paga, um filme de boa qualidade que teve cinco indicações ao Oscar e levou três.

Nessa fazenda de gado, no Oeste americano de hoje em dia (ou seja, de 1963) vivem três homens de faixas etárias diferentes: o proprietário e idoso Homer, seu filho Hud e o neto adolescente Lon. De pais falecidos, este último é sobrinho de Hud, de forma que a única presença feminina na casa fica por conta da empregada, a simpática e atraente Alma Brown.

O velho Homer representa o passado e todos os seus valores; nele o espectador pode ler claramente o perfil de todos os rancheiros ou criadores de gado dos velhos faroestes e, por tabela, a bravura dos que conquistaram o Oeste bravio.

Já no cínico e inescrupuloso Hud, seu filho, ao contrário, divisamos o novo western man, – o nosso “car boy” – aquele que dirige seu cadillac em alta velocidade, que namora todas as mulheres casadas do lugar, que enche a cara nos prostíbulos da cidade, e que pensa em vender a fazenda para escavação de petróleo, algo bem mais rentável do que a atividade pecuária. É o novo tempo chegando, com sua nova moral, ou seria mais apropriado dizer, falta de moral.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Entre os dois personagens, e também entre os dois modelos éticos, se equilibra o adolescente Lon, aquele a quem a câmera concede mais tempo de tela. Para dramatizar o contraste entre passado digno e presente corrupto, dois lances de roteiro são básicos.

O primeiro é a doença – em si mesmo simbólica – que acomete o gado. Quando morre a primeira rês, Hud sugere ao pai que venda a manada toda e repasse o problema para outrem, o que, naturalmente, deixa o genitor indignado – e se for o caso, também o espectador – com a sugestão de contaminar o gado no país inteiro, meramente por conta do lucro. Ponto dramático que completa as caracterizações dos personagens e define o caminho actancial da narrativa, o segundo lance de roteiro a que me refiro é a cena em que Hud tenta estuprar a emprega, e só não o faz porque o sobrinho interfere.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Trata-se, evidentemente, de um filme contundente, só possível depois de estar fora de validade o Código Hays de censura, aliás, extinto para sempre no ano seguinte, 1964. Seu diretor, Martin Ritt, era um dos jovens novatos, como Sidney Lumet ou Sam Peckimpah, com vontade explícita de quebrar barreiras e impor novos conceitos, estéticos e de outra ordem. Por exemplo, numa data em que a cor já era praxe, o seu preto e branco impressiona, especialmente pelos criativos dotes fotográficos do grande mestre James Wong Howe, sem coincidência, um dos três Oscars recebidos.

Um comentário obrigatório sobre o filme de Martin Ritt diz respeito ao elenco. No papel do imoral e “indomado” Hud, Paul Newman está ótimo, e melhor ainda está a sempre soberba Patricia Neal, como a empregada Alma, vítima de suas garras, mas não de todo inocente: quando ela decide ir embora do rancho, uma alegação é a de que não resistiria por muito tempo aos sedutores ombros largos de Hud.

No terraço: avô, neto e filho...

No terraço: avô, neto e filho…

Mas, quero me referir a dois atores cujas simples presenças trazem, para o filme, significações adicionais. Sim, para o espectador da época (e se for o caso, para o de hoje também) Melvyn Douglas, como o velho rancheiro deprimido com o seu legado carnal, era o símbolo da Hollywood clássica, anos 30 e 40, agora decadente como a vida no Oeste. (Lembram dele como o galanteador de Greta Garbo em “Ninotchka”, 1939?).

E, do mesmo modo, Brandon De Wilde simbolizava o auge do gênero faroeste, aquele adolescente que todo mundo lembrava como o garotinho amigo de Shane em “Os brutos também amam” (1953): e sintam a ironia intertextual, na infância seu amigo era não apenas um herói, mas a encarnação de todos os mitos do faroeste; agora, na adolescência, seu “amigo” não passa de um cínico e devasso que enterra o Oeste, como o velho Homer foi obrigado a, literalmente, enterrar uma manada inteira, contaminada por uma doença – repito – simbólica em vários sentidos.

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro...

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro…