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PÁSSAROS DE VERÃO

8 out

Com certeza, um dos mais belos filmes latino-americanos dos últimos tempos é este “Pássaros de verão” (“Pájaros de verano”, 2018) dos colombianos Cristina Gallego e Ciro Guerra, em exibição no Cine Banguê.

Com base na realidade, a sua poética narrativa nos conta a saga de uma família da Etnia Wayúu, na península Guajira, norte da Colômbia. Conta-nos como era um povo preso às suas belas tradições e como, por um percalço atrás do outro, foram levados a abrir mão disso tudo e de tanto mais… inclusive da vida.

Tudo começa lá por 1968, numa festa da comunidade em que a família da jovem Zaida a apresenta como núbil. O jovem Rapayet é quem se insinua como pretendente, mas a nada simpatizante mãe da moça, Ursula, exige dele um dote inviável para o seu modesto trabalho de cultor local de café: “30 bodes, 20 vacas e 5 colares”.

No esforço de conseguir a grana para o dote exigido, Rapayet dá início a um comércio perigoso, até então inexistente na região. Passa a vender a erva do lugar, maconha, aos jovens missionários da Peace Corp americana. Simples e inocente em si mesma, essa iniciativa deslancha uma cadeia de acontecimentos com dois efeitos dependentes: o rápido enriquecimento da comunidade Wayúu.. e a sua literal exterminação.

Os Peace Corps estão ali para prevenir os colombianos do perigo comunista. “No to comunism” é o lema exposto nas suas camisas, o que faz o amigo e sócio de Rapayet, Moisés, sugerir, em uma boutade franca e cínica, um amplo “sim” ao capitalismo. E é isso o que, daí em diante, vai fazer Rapayet…

Não convém contar os sangrentos detalhes do enredo, mas acho que é interessante apontar o belo e extremamente efetivo, do ponto de vista estético, intertexto da literatura clássica.

Vejam que a história inteira é, liricamente, narrada por um pastor cego que a “canta”, feito Homero. Sem coincidência alguma, os capítulos do filme são, como na Odisseia, chamados de “Cantos”. Cada “Canto”, com uma numeração, um subtítulo e, para marcar o caráter documental do narrado, uma indicação temporal: 1. “Erva selvagem” (1968), 2. “Tumbas” (1971), 3. “Prosperidade” (1979), 4. “A guerra” (1980) e 5. “Limbo” (1981).

Não seria demais dizer que o filme tem igualmente os ecos, bastante visíveis, aliás, de uma tragédia grega. Embora retrate a comunidade Wayúu como um todo, o protagonista da história é este Rapayet, com todos os elementos do herói aristotélico, inclusive com sua fundamental “falha de caráter”, no caso, a de haver se seduzido pela união com Zaida, ao ponto de corromper-se moralmente e entregar-se a uma segunda sedução: a do dinheiro fácil – tão fácil que, a partir de certo ponto da história, não ser mais contado, e sim, pesado.

Tudo bem, “Pássaros de verão” tem, claramente, a feição de um certo gênero cinematográfico, no modelo “saga criminosa”,  e pode fazer o espectador lembrar de outras sagas afins, como “O poderoso chefão” ou “Era uma vez na América” ou “Scarface”… Mas, creio eu, nele o equilíbrio entre as convenções de gênero e a força lírica tem um resultado estético todo particular.

Com certa razão, alguns críticos o têm comparado a “Bacurau”. E de fato, a comparação faz algum sentido. Primeiramente, pela qualidade cinematográfica de ambos; depois pela tensão entre contexto cultural e gênero (e o “western” vale para ambos), porém – não vamos esquecer – uma diferença essencial se encontra na linha tímica, ascendente no filme brasileiro, decrescente no colombiano.

E para não dizer mais nada sobre “Pássaros de verão”: um filme que recomendo… de coração e de mente.

BACURAU

4 set

Acho que ninguém sai incólume de “Bacurau” (2019). Eu não saí.

O tão esperado filme da dupla Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, premiado em Cannes, e até o momento com oito pontos na avaliação dos usuários do IMDB, nos inquieta com seu enredo estranho – nada que se tenha visto até agora na cinematografia brasileira.

No oeste de Pernambuco, um vilarejo está ameaçado de extinção. A razão ninguém sabe ao certo, mas, a ameaça vem de um misterioso grupo de americanos, tecnologicamente bem equipados e apoiados (isso se saberá mais tarde) pelo prefeito do município.

O que pode uma população pobre e sem recursos (nem de água dispõem) contra esse poderio estrangeiro e estranho que a quer fora do mapa? Fora do mapa mesmo, pois virtualmente já está.

História estranha. Lembra um western, mas não é. Parece science-fiction, mas não é. Sugere um horror movie, mas não é. Seria um filme de ação, ou um drama? Seja qual for o gênero – ou a recusa (ou a mistura) de gêneros – um filme forte, concebido para provocar impacto. E desse impacto a violência gráfica é só um detalhe.

Só para lembrar o namoro do filme com um dos gêneros mencionados – o western – esse enredo (a luta de uma comunidade pobre contra um poder de fora) nos faz pensar nos camponeses vitoriosos de “Sete homens e um destino” (John Sturges, 1960) ou, antes disso, na sua fonte, “Os sete samurais” de Akira Kurosawa. O problema é que o filme inteiro nos faz pensar em tantos outros…

Ao menos uma coisa nele é clara: a sua estrutura tripartite, a mesma da tragédia clássica, ou a da fantasia infanto-juvenil mais inocente, para não falar do mais tradicional roteiro hollywoodiano, com suas três partes distintas: (1) exposição (2) conflituação e (3) resolução.

Assim, na primeira parte do filme tem-se a descrição da vida em Bacurau, depois da chegada da ex-residente, para o enterro da matriarca Carmelita. Na segunda parte somos apresentados ao inimigo e sua sanha sanguinária. E finalmente, na terceira parte, vem o tão esperado revide da população e a mais que ansiada vitória. Quase que dá para falar em final feliz.

Disse acima que ninguém sabe ao certo a razão da programada erradicação de Bacurau, o vilarejo. Quem são os terríveis inimigos e por que tramam exterminar justamente esse vilarejo perdido no meio do sertão nordestino? Li comentários que reclamavam desse mistério e, inevitavelmente, lembrei-me de Hitchcock e seu conceito de macguffin.

Sim, revejam seus filmes e chequem o conceito. Em “O homem que sabia demais”, por exemplo, duvido você dizer quem é a “entidade” (ponho entre aspas, de propósito) que quer assassinar o Ministro, e pior, a que país pertence esse Ministro. Não há no filme nada que lhe dê pistas, e esse vazio diegético – esse desligamento da realidade conhecida – é o que Hitchcock chama de macguffin. Faça a mesma busca em “Intriga internacional”. Que “entidade” persegue o personagem de Cary Grant? Ela é somente o macguffin que põe a narrativa a andar, mas que, em si mesma, não precisa ter uma existência no mundo real. Um terceiro exemplo hitchcockiano, este ainda mais radical, seria o de “Os pássaros”.

Penso que para o espectador cinéfilo de “Bacurau” essa associação com o conceito de macguffin é bastante rentável do ponto de vista estético, tornando o filme mais intrigante do que já é. Por outro lado, e como todo macguffin é, a rigor, um vazio, o espectador mais político, e talvez menos cinéfilo, vai ler a invasão a Bacurau de modo mais mimético, dentro do contexto ideológico que (é verdade) está insinuado em certos elementos da estória, assim como outros há que insinuam o recurso do macguffin. Por exemplo: se a figura ridícula do prefeito corrupto conduz à mimese, a abertura interestelar do filme – sonora e visualmente – conduz ao macguffin.

Comentei acima a irresolução dos gêneros em “Bacurau”, o que nos remete a um outro aspecto interessante no filme, que é a questão das influências. Respondendo à pergunta sobre que outros cineastas estariam por trás de seus filmes, o diretor Kleber Mendonça, em entrevista recente à imprensa, explica que, de um modo geral, as influências podem não ser conscientes para quem cria um roteiro ou dirige um filme, e acrescenta que muitas vezes são os espectadores – críticos profissionais ou não – que o fazem ver que certos cineastas, de fato, embasaram seus filmes, num nível que ele mesmo não notara.

Influenciadores admitidos, ou apontados, são John Carpenter, Brian De Palma e Glauber Rocha. Carpenter é praticamente um homenageado, se você lembrar que a escola no povoado de Bacurau se chama “João Carpinteiro”. Quanto a De Palma e Rocha, acho que são duas influências bem sintomáticas para os dois modelos de espectador que imaginei há pouco: De Palma sustentaria a leitura do macguffin (como sabemos, ele foi um recriador assumido de Hitchcock) e Rocha, a leitura mimética, ideológica.

Essa tensão entre macguffin e ideologia, entre o abstrato e o documental, o filme a contém e é ela que mais o enriquece. Portanto, não precisamos resolvê-la, e sim, usufruí-la.