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Eu sempre tive nove anos

21 ago

Eu era criança quando fui apresentado aos filmes de Jerry Lewis (1926-2017).

Morávamos na Rua Alberto de Brito, no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, e eu era aluno do Grupo Escolar Sto Antônio, vizinho ao saudoso Cine Teatro Sto Antônio. Aos domingos, éramos obrigados pela direção da Escola a assistir à missa matinal (às 7:00), na também vizinha Igreja do Rosário. Na ida ou na volta da missa, eu passava na calçada do cinema e já checava o cartaz da matinal.

Pois muitas vezes o cartaz era de um filme com Jerry Lewis…

A sessão era de 9:30 e dava tempo, muito bem, de correr para casa, tomar banho, tomar café, trocar-se de novo e correr para comprar o ingresso.

De sua fase com Dean Martin já peguei o final, e o Jerry Lewis que mais lembro é de filmes em que ele esteve solo, com suas caretas e suas trapalhadas infindáveis, a maior parte deles – soube muito tempo depois – dirigida por Norman Taurog ou Frank Tashlin.

O que eu pensava de Jerry Lewis naquela época é difícil saber, mas hoje, reconsiderando-o na perspectiva da minha experiência de espectador, acho que ele se alinhava no conceito de anti-herói que já assimilara com Carlitos e com o Gordo e o Magro. Um conceito que, na minha cabecinha de menino, se opunha ao do heroísmo nos faroestes da vida. Sim, Roy Rogers, Hapolong Cassidy ou Billy Eliot, com seus cavalos velozes e seus gatilhos relâmpagos, eram figuras altaneiras, admiradas, porém inatingíveis.

Atabalhoados, precários e ridículos os anti-heróis pareciam comigo. Ao rir deles, eu também ria de mim mesmo.

Jerry Com Dean Martin

Não sei até onde foi minha identificação com Jerry Lewis, mas sei dizer que o curti com muito gosto, e não perdi nenhuma de suas comédias localmente exibidas: “O rei do circo” (1954), “O meninão” (1955), “O bamba do regimento” (1957), “Bancando a ama seca” (1958), ”O rei dos mágicos” (1958), “O mensageiro trapalhão” (1960), “O terror das mulheres” (1961), “O mocinho encrenqueiro” (1961), “O professor aloprado” (1963), “O otário” (1964)…

Ainda hoje sinto prazer em revê-lo. Em “Bancando a ama seca”, por exemplo, que revi há pouco, ele é, nessa cidadezinha pequena, o técnico desajeitado de antenas de televisão que um dia encontra, na soleira da sua porta, nada menos que três bebês chorões, os quais ele – sem saber a quem pertencem – se vê forçado a adotar. Os trigêmeos eram, na verdade, filhos de uma ex sua, hoje grande atriz de Hollywood, que não podendo se dar ao luxo de estragar a carreira criando trigêmeos, tivera a ideia de os enviar ao ex-namorado sempre bondoso. O melhor do filme são, naturalmente, as trapalhadas de um ama seca para fazer uma tarefa dessas, completamente inusitada. Claro, algumas cenas nos fazem lembrar Carlitos criando “o garoto”.

Em “Bancando a ama seca”

Sem coincidência, na medida em que eu crescia suas comédias se sofisticavam, sobretudo naquela fase – já começo dos anos sessenta – em que ele assumiu, por conta própria, a direção de seus filmes. Fase em que o casamento de mímica e mise-en-scène fica cada vez mais feliz.

Lembro, por exemplo, o meu estranhamento ao ver “O terror das mulheres”. Bem, no primeiro contato foi só estranhamento, mas, com o passar do tempo – e o consequente aprendizado sobre os mistérios da sétima arte – fui me dando conta de que o que estava feito ali, em plena convencional Hollywood, era puro surrealismo.. e surrealismo dos bons, que mais tarde eu associaria a um Buñuel ou a um Salvador Dali. Vejam bem: uma enorme mansão repleta de jovens belíssimas, e lá trabalhando um único empregado, um pobre coitado que sofrera decepção amorosa e, por isso, tinha horror a mulheres. Um desmonte dos códigos machistas e, por tabela, do American way of life…

Já em idade madura, Jerry Lewis disse uma vez essa frase singela, com que intitulo esta matéria : “Eu sempre tive nove anos”.

Lendo isso – como não? – reportei-me a mim mesmo, aos nove anos, saindo da Igreja do Rosário, ansioso para ver seus filmes na tela do Cine Sto Antônio.

 

Em tempo: esta matéria é dedicada ao jornalista e crítico de cinema Sílvio Osias.

Lewis como o professor aloprado… Um dos seus melhores trabalhos.

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Shakespeare, o cinema e eu

31 jul

Neste 2016 celebra-se o aniversário de morte – 400 anos – do maior escritor de língua inglesa e um dos maiores em qualquer língua: William Shakespeare (1564-1616).

Calcula-se que seja Shakespeare o escritor com a maior fortuna crítica do mundo, em outros termos, é aquele sobre quem mais se escreveu. Sabe-se com segurança que sua obra constitui o segundo maior intertexto do mundo, só perdendo para a Bíblia. O que significa dizer que, depois do livro sagrado, é o autor mais citado em obras alheias.

Segundo assegura um certo crítico e estudioso apaixonado, foi Shakespeare quem inventou o humano, e eu acredito.

Entrando no clima da celebração, não penso aqui fazer análises, nem revisões críticas. Quero apenas dar um depoimento de ordem pessoal da minha relação com a obra do Bardo de Stratford-upon-Avon. Só isso.

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É claro que os meus primeiros contatos com Shakespeare foram através do cinema. Eu tinha cerca de onze anos de idade quando assisti, no saudoso Cinema Sto Antônio, em Jaguaribe, João Pessoa, a uma versão cinematográfica de “Otelo”, filme russo, ou melhor, soviético, meio tenebroso que, na ocasião, não entendi muito bem, e que era dirigido – soube tempos depois – por Sergei Yutkevich. A estória do Mouro que mata a esposa inocente eu só a entenderia bem, anos mais tarde, lendo o texto da peça.

Nessa mesma época, no mesmo Sto Antônio, vi “Romeu e Julieta” do Renato Castellani, que inaugurara o cinema dos padres da Igreja do Rosário e, que foi depois reprisado. A tragédia do casal de Verona ficou bem clara para os meus onze anos e nunca esqueci suas imagens, mesmo depois de conhecer o texto original e suas muitas outras versões fílmicas.

Creio que o meu terceiro contato fílmico com Shakespeare foi o “Júlio César” de Joseph Mankiewicz, que é de 1953, mas deve ter chegado a João Pessoa atrasado de anos. Ou o vi em reprise? Não sei. Só sei que quando o vi, eu já era mais crescidinho e lembro que me impressionei com a cena do assassinato no Senado, e com as interpretações de James Mason (Brutus) e Marlon Brando (Marco Antonio).

Foi por esse tempo – final dos anos cinquenta – que vi uma reprise do fordiano “Paixão dos fortes” e, claro, passei batido na cena em que Doc Holiday (Victor Mature) recita trecho de Hamlet. Eram palavras cultas para um faroeste cheio de balas: foi só o que pude notar, e isso já foi muito.

Paixão dos fortes - Doc Holiday recitando Hamlet.

Paixão dos fortes – Doc Holiday recitando Hamlet.

Até então eu nunca havia lido Shakespeare e, na medida em que assistia às adaptações de sua obra, as citadas e as outras que foram chegando, ia construindo na minha cabeça uma visão essencialmente cinematográfica de seu universo, assim como se Shakespeare fosse um roteirista de cinema.

No dia em que, pela primeira vez, li as suas páginas tive uma grande surpresa. Ao contrário do que via no cinema, os cenários eram irrelevantes e tudo dependia dos diálogos: estes construíam o enredo, os personagens e a atmosfera. Claro, era teatro, mas que teatro poderoso, perturbador e poético!

De início li traduções, mas foi o AI-5 que me propiciou a leitura dos originais. Explico-me.

O que ocorre é que, até então, eu escondia que falava inglês, língua que aprendi na adolescência, digo, escondia dos companheiros de luta contra a ditadura, com receio de ser tomado por um pelego do capitalismo. Com o estouro do AI-5, no final dos anos sessenta, o clima – vocês lembram – passou a ser de desolação generalizada. Não era mais viável encontrar os amigos, conversar nas esquinas, ou nos bancos de praça, pois tudo parecia suspeito: de repente, ficou cada um na sua, isolado no seu mundo particular. Foi aí que comecei a ler autores ingleses no original, e Shakespeare entrou na fila. Com o AI-5 vigente, não havia mais condição de combate, sequer de contatos, e então, eu pude me entregar ao delicioso pecado solitário de fazer uso de meu inglês para ler anglo-americanos, sem qualquer patrulhamento ideológico.

O sombrio Rei Lear de Peter Brook, 1971.

O sombrio Rei Lear de Peter Brook, 1971.

Onde conseguia esses originais? Fácil: na residência do amigo Archidy Picado (pai), na época, defronte ao Colégio Sagrada Família, também em Jaguaribe, uma verdadeira biblioteca de literatura estrangeira da melhor qualidade, cujas estantes repletas a gente avistava só de passar na calçada. Thanks, Archidy!

Logo depois fui fazer os cursos de Letras na universidade (Português, Inglês e Francês) e pude estudar Shakespeare com mais afinco, sob orientação docente. Vitória Lima foi minha primeira professora de Shakespeare, e mais tarde, Dr. Michael Smith e Dra Letícia Niederauer. Em 1977, já na condição de professor, entrei no Mestrado de literatura anglo-americana e defendi dissertação sobre o “Rei Lear”. A partir daí, passei a ensinar literatura inglesa com foco no Renascimento, e Shakespeare virou pauta das aulas que ministrei na graduação de Letras… durante trinta anos (ufa!), até a aposentadoria.

Em semestres letivos sucessivos, estudei, com turmas diferentes, quase todas as tragédias shakespearianas, embora sempre reservasse um tempo especial para os 154 sonetos, dos quais só dava para ver seis ou sete com cada turma. Tanto mastiguei, com os alunos, os seus pentâmetros jâmbicos que alguns desses sonetos aprendi de cor, e ainda hoje os recito, como se estivesse cantando. Aliás, para os alunos com dificuldade em metrificação, sugeria que cantassem o soneto estudado com a música do Hino Nacional brasileiro, pois os decassílabos deste coincidiam perfeitamente com os pentâmetros shakespearianos, compostos de cinco pés, cada pé com duas sílabas).

Obviamente, quanto mais me familiarizava com Shakespeare, mais crítico me tornava dos filmes que o adaptavam à tela. Por outro lado, ou pelo mesmo, não perdia um. A quantos assisti? Impossível dizer, até porque, a essa altura dos acontecimentos, a lista já é quilométrica.

O Lear de Kurosawa.

O Lear de Kurosawa.

O livro Guiness de Recordes registra 410 adaptações de Shakespeare para o cinema, mas, se o número parece alto, o IMBD (Internet Movie Data Base) afirma que 1.158 filmes já tiveram seus roteiros baseados em obras de Shakespeare.

No geral, os enredos das peças são respeitados, embora, claro, ninguém se livre das operações que são inevitáveis em toda e qualquer adaptação literária para o cinema. Como indico em meu livro “Literatura no cinema” (São Paulo: Unimarco, 2006), vai sempre haver cortes, adições, deslocamentos, transformações, simplificações e ampliações, e isto nos três níveis: dos personagens, do enredo e da linguagem propriamente dita.

Como já disse, aqui não pretendo proceder a análises, muito menos das adaptações shakespearianas, mesmo porque não haveria espaço para tanto, porém, pode ser interessante lembrar alguns casos, sobretudo os que fugiram às convenções.

Um caso até certo ponto estranho, por exemplo, é o de Baz Lurhmann, em seu “Romeo + Julieta” (1997) que traz a estória do casal infeliz para Miami, e, no entanto, mantém a linguagem arcaica da peça, tal como foi escrita pela mão do Bardo – deixando o anacronismo para o espectador resolver.

West Side Story: um amor proibido por gangues

West Side Story: um amor proibido por gangues

Caso bem conhecido é o do musical “West Side Story” (“Amor sublime amor”, 1961) em que Jerome Robbins e Robert Wise transportam o drama de “Romeu e Julieta” para a zona mais pobre de Nova Iorque, os dois amantes agora pressionados, não mais pelas nobres famílias, mas por gangues de rua antagônicas.

Em “Prospero´s Books” (“A última tempestade”, 1991) Peter Greenaway mantém o cenário idílico de “A tempestade”, mas o enredo e a encenação são tão pessoais/experimentais que fica difícil para o leitor/espectador estabelecer as relações com o original.

Em “Ran” de Akira Kurosawa (1985) as três filhas do rei (Lear em Shakespeare) passam a ser homens, e o conflito com o pai idoso e auto-destronado ocorre no Japão medieval. Uma mudança e tanto, e contudo, o tom trágico é o mesmo.

Uma das experiências mais curiosas é a que fez Al Pacino com “Ricardo III”. Ao invés de proceder à adaptação da peça, rodou um filme sobre a impossibilidade de filmá-la, uma espécie de ensaio cinematográfico em que se justapõem cenas da peça original com os bastidores das filmagens e entrevistas com atores e diretores de Shakespeare, além de discussões sobre a linguagem do teatro e do cinema.

"Hamlet", de Kenneth Branah

“Hamlet”, de Kenneth Branah

E nem sempre são as peças que se adaptam. Em “Diálogos angelicais” (“The angelic conversation”, 1985) o cineasta Derek Jarman prefere inspirar-se nos Sonetos shakespearianos, especialmente naqueles do início, em que o interlocutor do eu lírico é o belo e jovem mancebo, o ´handsome young man´ da crítica e historiografia.

Estes são casos especiais, mas acho que vai haver reclamações dos leitores se eu não citar as adaptações canônicas, aquelas referenciadas pela crítica internacional e pela academia. Destas cito dez, em ordem cronológica:

“Romeu e Julieta” (George Cukor, 1936); “Hamlet” (Laurence Olivier, 1948), “Macbeth” (Orson Welles, 1948); “Otelo” (O. Welles, 1952); “Júlio César” (Joseph Mankiewicz, 1953); “Trono manchado de sangue” (Akira Kurosawa, 1957); “Romeu e Julieta” (Franco Zeffirelli, 1968); “Rei Lear” (Peter Brooks, 1971); “Macbeth” (Roman Polanski, 1971); “Hamlet” (Kenneth Branah, 1996).

Voltando ao Shakespeare literário, não posso encerrar este depoimento sem uma referência aos seus leitores. Sim, porque tão fascinante quanto Shakespeare são, às vezes, os shakespearianos.

Solha (de barba) ao tempo em que o conheci...

Solha (de barba) ao tempo em que o conheci…

O shakespeariano mais fascinante que conheço chama-se W. J. Solha. Uma das cenas indeléveis da minha vida foi o dia em que o conheci, lá por volta de 1981. Eu havia publicado no Correio das Artes uma matéria sobre o Bardo, chamada “Bakhtin e o carnavalesco em Shakespeare” – resumo de minha dissertação de mestrado – que Solha leu, e sem me conhecer, pediu a Sérgio de Castro Pinto, o editor, para lhe passar o número do meu telefone. Conversamos e um dia fui visitá-lo ali no Banco do Brasil, agência do Centro.

Entrei na sala do primeiro andar e lá estava ele, alto, alvo, simpático, falastrão, rodeado de papéis e números que, ao me ver, abandonou, e me abriu um sorriso largo de quem encontrava um cúmplice de paixão shakespeariana. E foi me bombardeando com cenas, citações e temas, discorrendo sobre os personagens das muitas peças de Shakespeare como se fossem seus vizinhos, ou amigos de longa data.

Ao longo de minha vida acadêmica participei de muitos seminários e colóquios literários, e estive em contato com scholars que dominam a fortuna crítica e os vastos conceitos sobre a poética de William Shakespeare, porém, nunca conheci ninguém que tivesse do Bardo o conhecimento empírico que Solha tem. Se precisássemos de prova, uma seria o seu belo Painel dos personagens shakespearianos, em exposição perene na reitoria da Universidade Federal da Paraíba. Aliás, prova também de seu assombroso talento.

Enfim, fecho esta matéria com o clichê inevitável. É impressionante como, quatrocentos anos após sua morte, a obra de William Shakespeare continua pulsando em nossas veias. Em um de seus dísticos ele mesmo o previra: “So long as men can breathe or eyes can see, so long lives this…” O verso refere-se ao Soneto 18, mas, claro, vale para a obra inteira.