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Fest-Aruanda

13 dez

Começa hoje, dia 13, sexta-feira, o Fest-Aruanda, em sua oitava versão, e se estende até o dia 19, com uma rica e vasta programação, a acontecer, desta vez, nas salas de cinema do Mag Shopping, (João Pessoa, Paraíba) e – cuidado para não errar o endereço! – não mais no Hotel Tambaú.

Apesar do lapso do ano passado, quando não foi possível realizá-lo, o FestAruanda é um festival de cinema paraibano que vem crescendo a passos largos, inclusive, desta vez com dois dias a mais de atividade.

Não vou especificar a programação, que está devidamente divulgada na imprensa, escrita, falada e virtual, mas gostaria, sim de dar uns destaques.

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

Parece-me que a versão deste ano tem um certo peso político especial, com o tema recorrente “50 anos de ditadura militar no Brasil pelo olhar do cinema brasileiro”, com mostra retroativa de filmes que trataram do assunto, como PRA FRENTE BRASIL (Roberto Farias, 81), JANGO (Silvio Tendler, 88), BARRA 68 (Vladimir Carvalho, 2000), BOILESEN (Chaim Litewski, 2009) e O DIA QUE DUROU 21 ANOS (Camilo Tavares, 2012). Este último, em apoio ao Festival, é assunto da minha coluna semanal no jornal CONTRAPONTO.

O mesmo tema, digo A ditadura militar brasileira, será assunto de uma mesa redonda, com presença de alguns dos autores dos filmes mostrados e de outros documentaristas, além de jornalistas paraibanos e brasileiros, com mediação de Maria do Rosário Caetano.

Como é de praxe, o FestAruanda costuma prestar homenagens a figuras proeminentes do mundo cinematográfico ou cultural do país. Este ano os homenageados especiais serão o cantor Ney Matogrosso, o ator Lázaro Ramos, o documentarista Sílvio Tendler e o crítico Jean-Claude Bernardet, homenagens mais que merecidas.

E fecho este meu comentário com um pouquinho de Paraíba. Na primeira noite do Fest-Aruanda, hoje, portanto, logo após a solenidade de abertura, e em homenagem à memória do cinema paraibano, será exibido um curta-metragem curioso (12 min) que se chama O MURAL QUE O VENTO LEVOU, de autoria da dupla Wills Leal e Mirabeau Dias, sobre um certo encontro de cineastas paraibanos no dia 28 de dezembro de 1995, dia em que o Cinema completou 100 anos. O encontro foi na famosa e desejada casa de Leal, em Manaíra, João Pessoa, em cuja parede externa pintores paraibanos pintaram cenas cinematográficas, tudo seguido de uma monumental farra. Eu, claro, estava lá.

No mais, leitores deste blog que gostam de cinema, é ficar atento à programação e comparecer, que o FestAruanda é gratuito.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Rock Brasília

21 mar

Depois de “Conterrâneos velhos de guerra” (1991) e “Barra 68”(2000), o cineasta Vladimir Carvalho completa a sua documental trilogia brasiliense com o filme “Rock Brasília: era de ouro” (2011).

Para quem conhece o autor de “O país de São Saruê”, esse candango paraibano que carrega consigo a cultura e o imaginário do Nordeste brasileiro, não deixa de ser curioso vê-lo tratar de rock, especialmente este – como relatado pelos depoentes no filme – de assumida origem britânica, bem Punk, bem the Clash, bem Sex Pistols. De qualquer modo, um isótopo é, com certeza, a cidade de Brasília ela mesma, cenário do rock tratado e segunda paixão do cineasta.

Em forma de entrevistas sequenciadas com os envolvidos, o filme conta a estória de toda uma geração brasiliense de músicos que despontou nos anos oitenta/noventa e revolucionou o cenário da MPB. A figura central talvez seja Renato Russo, mas o filme dá voz a toda uma vasta comunidade musical brasiliense, incluindo os respectivos parentes, amigos e profissionais de alguma maneira ligados à música.

Acompanha-se a formação de bandas como a incipiente e pouco conhecida Aborto Elétrico, e as famosas Legião Urbana, e mais tarde Capital Inicial, além de Plebe Rude e Paralamas do Sucesso, com depoimentos esclarecedores de seus integrantes.

Renato Russo (em entrevista inédita de 1988, mais entrevista de 1994 para a MTV), Fê Lemos, Flávio Lemos, André Mueller, Bi Ribeiro, Dinho Ouro Preto, Dado Villa-Lobos, Philipe Seabra, Marcelo Bonfá, Carlos Marcelo: a turma toda está lá, além de “periféricos” como Hermano Vianna, Herbert Vianna e Caetano Veloso.

Para o espectador, o documentário é um bom exemplo de como são necessariamente árduos, aleatórios, e as vezes selvagens os caminhos do show business musical, especialmente se os seus componentes são jovens idealistas sem costas quentes em que se amparar – e isto numa cidade historicamente nova e, portanto, sem grande tradição de música, ou de outra forma de arte.

Mas acho que o que mais ressalta, no filme de Carvalho, é a dimensão política desse “movimento musical” (se assim puder ser chamado) e, neste sentido, a canção “Que país é esse?” passa a ser emblemática dos dois, digo, do movimento e do filme. Aquele momento em que Renato Russo desabafa o seu desencanto com a situação política do país, listando cronologicamente os fracassos, de Tancredo a Collor, é um momento chave.

Aliás, suponho mesmo que – depois do motivo Brasília – deve ter sido essa dimensão política o que mais atraiu o nosso Vladimir Carvalho que, diga-se de passagem, nunca, que se saiba, lidara cinematograficamente com música, salvo para escolher trilhas sonoras para seus filmes.

Mas, claro, “Rock Brasília” não é só política. Embora o politicamente inquieto Russo seja uma figura de destaque, e os depoimentos de sua mãe e irmã, completem um quadro comovente de sua breve existência, o filme abre e fecha com o pessoal do Capital Inicial, o pai, Briquet de Lemos, e os dois filhos, Flávio e Fê. A cena final em que, de propósito, se repõem os três lado a lado e se pede, do pai, uma impressão, diz tudo, e esse tudo soma, à dimensão política, a existencial. Não vou descrever os detalhes, porém, a tomada daquela cadeira vazia enquanto os créditos do filme sobem é uma das melhores sacadas que conheço no cinema documental brasileiro dos últimos tempos.

Sim, é verdade, há pouco tempo de tela para as performances dos cantores, e o espectador, fã dos grupos de rock ou não, sente falta de música ao longo da projeção. No geral, as performances musicais ou são breves, ou se centram num outro problema, como o famoso quebra-quebra no show do Estádio Mané Garrincha em 1988. Ou, se for o caso, no show na Esplanada, a reação da platéia inteira, respondendo a pergunta “que país é esse?” com uma frase só: “é a bosta do Brasil”.

Se for para dar uma impressão pessoal, a minha é a de que o filme é – para o bem ou para o mal – a cara de seu autor, sem, curiosamente, deixar de ser a cara do movimento rockeiro de Brasília. Questões culturais e imaginárias à parte, nessa interface – de alguma forma, misteriosamente resolvida – reside a sua integridade, e não adianta ir procurar elementos fora disso.

Enfim, ao mesmo tempo informativo, curioso, engraçado, triste, nostálgico, questionador e emocionante, “Rock Brasília: era de ouro” nos oferece uma instigante revisão, artística e política, dos sofridos anos oitenta – tempo em que o Brasil, depois de longa trégua, deu, como se sabe, os seus primeiros, incertos e perigosos passos na direção da democracia.

Em tempo: prêmio de melhor documentário no Festival de Paulínea em 2011, “Rock Brasília: era de ouro” está lançado em DVD e, para quem perdeu sua estreia nos cinemas, disponível nas lojas do ramo.