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Thanks, Mr. Allen (an English version of the previous post)

2 abr

After the showing of Woody Allen´s Midnight in Paris, some people decided they had the right to have their nostalgic dream and publicize it.

Well, I am also a son of God and had my dream as well, only, in it, it was not midnight and the city was notParis.

It was my own town, João Pessoa, Brazil, in between afternoon and evening, on some indefinite date in the early Fifties, and, just like the character in Wild strawberries, I did not know whether, within this magic dimension of time, I was old or still a child.

Who was it that took me by the hand into this remote period of my life? I wonder if it was Dante´s Virgil, or Charles Dickens´ three Christmas ghosts, or maybe Frank Capra´s angel Clarence…

I only know that, of all a sudden, there I was in front of Astoria Movie House, on República Street, close to the old Sanhauá Factory, not far from the bridge with the same name, the one that connects João Pessoa to next town, Bayeux. The movie showing was Beau Geste, but I had no chance to buy the ticket.

Making sure I had contemplated the façade of the old Astoria, my guide – whoever he was – made me walk up the street, heading for the Praça da Pedra (Stone Square) and, there, we turned right, and went on, along that narrow and curving street, São Miguel, to the old São Pedro Movie House, and the film on was Walt Disney´s Fantasia.

We took a look at the movie posters, saw the boys exchanging comics in the sidewalk, and proceeded in the direction, not of the cemetery – thank God – but back to Praça da Pedra; from there, we went on República Street up to the end. At the point this street meets General Osório St, there it was what I knew was there: the façade of Filipeia Movie House, full of posters, the biggest one being that of My darling Clementine, the film showing that day.

Do you think we stayed for the afternoon show with Henry Fonda? Not at all. My guide dragged me General Osório St downward, as far as Guedes Pereira St, where we turned left to Brazil Movie House.

I was crazy to see the movie on, the hitchcockian Shadow of a doubt, but, again, my guide did not allow. We moved back to General Osório, now going up in the opposite direction. Next corner, the guide did not even need to point to: we turned right to Peregrino de Carvalho St and, soon, there we were, in front of the grand and beautiful Rex Cinema where, with some display, it was being shown Samson and Dalilah

I hardly had time to admire, in the posters, Hedy Lamarr´s perfect face and Victor Mature´s swollen chest, we went down Duque de Caxias St, turned left at Ponto de Cem Reis Square, and there we were, standing before the not less grand and beautiful Plaza Cinema, where a long line extended as far as the sidewalk of the neighboring Pronto Socorro Hospital, waiting to see nothing less than Gilda.

Impatient with my delayed appreciation of Rita Hayworth daring pose, my guide took me by the arm and we followed through 1817 Square. We then crossed João Pessoa Square, took Trincheiras St and walked a long way ahead, until we got to Capitão José Pessoa St, already in the Jaguaribe Neighborhood. There we turned and went straight ahead to Jaguaribe Movie House, which was showing King Solomon´s mines, with Deborah Kerr and Stuart Granger.

From there we went on through Capitão José Pessoa St, and, next corner, turned left to Floriano Peixoto St and got – do I need to say? – to São José Movie House, where the film showing was The Robe. As known, it was the first cinemascope and lots of people were waiting to see the novelty.

But not us. We took back Floriano Peixoto St and, always in straight line, crossed several corners, until we got to Primeiro de Maio Avenue, where we turned right, and, following close the long high wall of Cabo Branco Sport Club, crossed Vasco da Gama St and stopped at the frontal yard of Santo Antonio Movie House. I felt like getting rid of my guide and getting in to see Debbie Reynolds and Gene Kelly Singing in the rain, but it was not possible. In my guide´s impatient face it was clear that there were still other movie houses to visit. Yes, I knew there were at least four more, Gloria, Bela Vista, Metropolis and Torre.

Why see so many Cinema façades without getting in to what really mattered? I must have opposed my guide´s incomprehensible purpose with some vehemence, and, for sure, it was such opposition that gave a sudden end to the dream.

I woke up nostalgic, realizing that, for decades, none of these movie theaters existed any more. Nostalgic and confused, unable to have decoded my vague and mysterious guide´s message.

Dante, the poet, Scrooge, Dickens´ old man, and George Bayley, Capra´s honest househusband, did understand their respective guides and profited from it. Not me.

  Anyway, as the dream of the Midnight in Paris character does have sequels, I am waiting to dream again. If I do, I promise to tell.

Meanwhile, I thank Woody Allen for the motivation.

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Obrigado, Mr Allen

25 mar

Depois da estréia de “Meia noite em Paris”, de Woody Allen, muita gente boa se viu no direito de ter o seu sonho nostálgico e relatá-lo.

Pois eu, que também sou filho de Deus, tive o meu e, vejam lá, nem era meia noite, nem a cidade era Paris.

Era João Pessoa mesmo, entre tarde e noite, só que em alguma data indefinida na década de cinqüenta, e, como o personagem de “Morangos silvestres”, eu não sabia se, nessa dimensão mágica do passado, estava velho ou se ainda era criança.

Quem me tomou pela mão e me guiou por esse tempo antigo não sei se foi o Virgílio de Dante, ou os três espíritos de Charles Dickens, ou o anjo Clarence de Frank Capra.

Só sei que, de repente, lá estava eu às portas do Cinema Astória, ali no comecinho da Rua da República, quase vizinho à extinta Fábrica Sanhauá, não muito longe da ponte do mesmo nome, aquela que liga João Pessoa a Bayeux. O filme que estava em cartaz era “Beau Geste”, mas nem comprei ingresso.

Certificado de que eu contemplara a fachada do velho Astória, o meu guia, fosse quem fosse, me fez subir a rua em direção à Praça da Pedra, e lá, dobrou comigo para o lado direito, e seguimos por aquela rua estreita e curva, a São Miguel, até o Cinema São Pedro, que estava exibindo – vi logo – o “Fantasia” de Walt Disney.

Olhamos o cartaz, cubamos o movimento da garotada trocando gibis na calçada do cinema, e nos mandamos, não em direção ao cemitério – graças a Deus – mas, de volta à Praça da Pedra, de onde continuamos subindo a Rua da República, até o seu final. No encontro desta rua com a General Osório, lá estava o que eu já sabia que ia encontrar – a fachada do Cine Filipéia, cheia de cartazes vistosos, dos quais o maior era o de “Paixão dos fortes”, o filme do dia.

Pensam que ficamos para a matinée com Henry Fonda? Que nada, o meu guia me arrastou Beaurepaire Rouhen abaixo, até a esquina dos antigos Correios, onde dobramos e fomos subindo a calçada da Guedes Pereira até o Cine Brasil.

Fiquei louco para ver o filme do dia, o hitchcockiano “A sombra de uma dúvida”, mas, de novo, o meu guia não permitiu. Demos alguns passos subindo a rua e dobramos à esquerda, General Osório acima. Na primeira esquina, o guia nem precisou sinalizar: tomamos a Peregrino de Carvalho e logo estávamos na frente do belo e grandioso Cine Rex que, com algum alarde, exibia naquele dia “Sansão e Dalila”.

Mal deu tempo de me embevecer com, no cartaz, o rosto perfeito de Hedy Lamarr e os peitos estufados de Victor Mature, descemos a rua Duque de Caxias, viramos à esquerda no Ponto de Cem Réis, e eis-nos diante do não menos belo e grandioso Cine Plaza, onde uma fila enorme se estendia até a calçada do vizinho Pronto Socorro, esperando para ver nada menos que “Gilda”.

Com certa impaciência perante o meu demorado deslumbramento com a pose audaciosa de Rita Hayworth, o meu guia me puxou pelo braço e seguimos pela Praça 1817. Antes disso, eu supusera que prosseguiríamos pela Visconte de Pelotas, na direção do Cine Municipal, mas lembrei-me que, de fato, nesse tempo, esse cinema ainda não existia.

Cruzamos em diagonal a Praça João Pessoa, tomamos a rua das Trincheiras e fizemos uma longa caminhada, até encontrarmos a rua Capitão José Pessoa, já no bairro de Jaguaribe; aí dobramos e formos ter com o Cine Jaguaribe, que entre um seriado e outro, exibia “As minas do rei Salomão”, Deborah Kerr e Stuart Granger no cartaz.

Daí seguimos a Capitão José Pessoa e na próxima esquina, à esquerda, Rua Floriano Peixoto, dobramos e nos dirigimos – precisa dizer? – ao Cine São José, onde o filme do dia era “O manto sagrado”. Tratava-se, como se sabe, do primeiro cinemascope e muita gente esperava para ver a novidade.

Mas nós, não. Retornamos pela mesma Floriano Peixoto, e, sempre em linha reta, cruzamos várias esquinas do bairro de Jaguaribe, até chegar à Av. Primeiro de Maio, onde tomamos a direita e, ladeando o muro alto do imenso e imponente Clube Cabo Branco, atravessamos o calçamento da Vasco da Gama, e nos detivemos no pátio frontal do Cine Teatro Sto Antônio. Tive ânsias de me livrar do meu guia e entrar para ver Gene Kelly e Debbie Reynolds “Cantando na chuva”, mas não foi possível. Pela resistência que ofereceu, estava visível em seu rosto impaciente que ainda havia outros cinemas a visitar. Sim, eu saiba que havia pelo menos mais quatro, em Cruz das Armas, o Glória e o Bela Vista, e na Torre, o Metrópole e o Cine Torre.

Por que ver tantos cinemas sem entrar para o que interessava? Devo ter me oposto com certa veemência ao incompreensível propósito do guia, e, por certo, foi essa oposição que desfez o sonho.

Acordei nostálgico, me dando conta de que, havia décadas e décadas, nenhum desses cinemas existia mais. Nostálgico e um pouco perplexo, sem ter decifrado a mensagem do meu vago e misterioso guia.

 O poeta Dante, Scrooge, o velho sovina de Dickens, e George Bailey, o honesto pai de família de Capra, entenderam os seus respectivos guias e lucraram com isso: eu não.

De todo jeito, como os sonhos do personagem de “Meia noite em Paris” têm “continuações”, estou aguardando sonhar de novo. Se sonhar, prometo que relatarei. Enquanto isso, agradeço a Woody Allen pela motivação.