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Chocolate

17 jun

 

Mais uma vez o público pessoense tem a oportunidade de assistir ao Festival Varilux de Cinema Francês, com a exibição alternada, nos cinemas do Mag Shopping, de 16 produções de boa qualidade.

A abertura do Festival deu-se com a pré-estreia de “Chocolate” (2016), excelente realização do cineasta Roschdy Zem, sobre o primeiro palhaço negro na França.

Na verdade, estamos na França da Belle Époque, onde e quando tudo tinha aparência de festa. As feiras livres e os circos eram as grandes diversões populares; o cinema estava nascendo e o teatro era coisa de gente abastada e culta.

Chocolat_Omar Sy

É nesse contexto que surge Chocolate, que vinha de um circo do Interior onde fazia o papel de um canibal assustador, e foi resgatado pelo palhaço Footit, com quem passou a fazer dupla, de tanto sucesso que não demorou para serem, os dois, contratados pela maior Companhia circense de Paris.

Um negro fazendo sucesso na Paris do início do Século Vinte? É claro que isso vai ter um preço a ser pago, e é esse preço o que, com talento e aisance, nos mostra o filme de Zem.

A prisão de Chocolate em pleno sucesso, denunciado por desafetos como imigrante sem documentos, é um turning point importante na estória, porém, antes disso, o drama já se configurava.

Esse drama já estava nas próprias performances da dupla Chocolate/Footit, sempre com vantagens óbvias para este segundo, Chocolate sempre na condição inferior de ´escada´; em outros termos, na condição de negro que faz o público branco rir de sua suposta burrice e ignorância. Com o tempo, o palhaço negro começa a se sentir injustiçado, o que é reforçado pelos conselhos politizados de um seu ex-companheiro de cela, e claro, pelas suas lembranças de semi-escravo na sua África de origem, quando via o pai, empregado de mansão rica, ser humilhado pelos residentes brancos.

Chocotat e Footit, no picadeiro.

Chocotat e Footit, no picadeiro.

Para o protagonista e para nós, uma cena perturbadora é aquela da visita à Exposição Colonial, em que o famoso Chocolate, muito bem vestido e acompanhado de sua namorada branca, depara-se com a representação dos territórios franceses em solo africano e  é violentamente admoestado por um conterrâneo, em língua nativa, que não entendemos, mas, dos gestos e do olhar, deduzimos o seu grau de acusação agressiva.

Complexo de inferioridade, insegurança, revolta, dilema interior, crise existencial e ideológica, alcoolismo, jogo de azar, empréstimos a agiotas, etc, vão minando o equilíbrio de Chocolate, até a completa decadência, física e moral.

Seu sonho de superar-se e tornar-se um grande artista no palco desmorona quando, tendo sido aceito para fazer o “Otelo” de Shakespeare, decide abandonar o picadeiro, e é, apesar do bom desempenho, estrondosamente vaiado no palco pela intelligentsia parisiense.

O ator Omar Sy, de Chocolat a Otelo...

O ator Omar Sy, de Chocolat a Otelo…

O filme se prende aos fatos reais, e nisso a recriação da época é perfeita. Por exemplo, sua última imagem é a de um filmezinho rodado pelos irmãos Lumière, mostrando as peripécias da dupla Chocolate e Footit, os verdadeiros. Pois antes disso, essas filmagens foram reconstituídas, e o espectador pôde assistir ao momento em que os Lumière as produziram, com o seu precário e barulhento cinematógrafo. Para quem não lembra os irmãos Lumière são os inventores do cinema.

Acho que posso dizer que, até a primeira metade, o filme não parece prometer tanto, porém, cresce consideravelmente quando a situação do protagonista vai mudando, de vedete ascendente para uma figura malsinada, condenada pelas circunstâncias à tragédia, assim como o Otelo que, no final interpreta.

Num filme em que a pantomima tem tanta importância, e mais que isso, é decisiva, um ponto alto é, com certeza, o elenco. Chocolate é muito bem feito pelo ator negro Omar Sy, sim, aquele mesmo que sempre tem aberto o Festival Varilux em João Pessoa, primeiro – vocês lembram – como o enfermeiro improvisado de “Intocáveis” e depois como imigrante de “Samba”.

Os reais Chocolat e Footit, filmados pelos irmãos Lumière.

Os reais Chocolat e Footit, filmados pelos irmãos Lumière.

Já o seu parceiro Footit é interpretado pelo grande ator James Thierrée, aliás, neto de Charles Chaplin, e incrivelmente parecido com o avô, sobretudo o Chaplin mais maduro de “Mr Verdoux” e “Luzes da ribalta”.

Enfim, “Chocolate” é um bom exemplo de qualidade do cinema francês atual, infelizmente tão mal conhecido do público brasileiro. Nesse sentido, o Festival Varilux é, como já disse, uma chance rara, que só nos resta aproveitar. O Festival acontece, simultaneamente, em 52 cidade brasileiras, e João Pessoa tem a sorte de ser uma delas. Vamos lá, dar uma espiada, pois a programação se estende até o dia 22 deste mês.

E não esquecer: sábado, dia 18, às 18:45 horas, o clássico de Claude Lelouch “Um homem e uma mulher” (“Um homme et une femme”, 1966), para reviver os anos sessenta…

Um cinema tosco

8 jul

Neste ano de 2008 está fazendo cem anos que foi lançado o primeiro filme ficcional brasileiro em metragem padrão e a data me remete ao Cinema Mudo Brasileiro, este desconhecido de todos nós.

Embora o nosso primeiro filme falado seja de 1929 (“Acabaram-se os otários”, de Luiz de Barros), os historiadores concordam em que, somente a partir de 1933 o emprego do som se sistematizaria no cinema brasileiro. De modo que, o que aqui chamo de o Cinema Mudo Brasileiro seria, a rigor, o período que vai de 1908 (como dito, data do primeiro filme ficcional de metragem padrão) até o ano de 1932.

Sendo a filmografia da época de difícil acesso, recorro em parte a historiadores que porventura a conheceram mais de perto, ou que, como nós, basearam-se em fontes históricas para reconstituir o período em questão. Nesse sentido, obras como as de Paulo Emílio Salles Gomes, Alex Viany, Carlos Alberto de Souza, Fernão Ramos, Jean-Claude Bernardet e Jurandyr Noronha, entre outros, são preciosas.

De qualquer forma, comecemos do começo.  Se foi em 28 de dezembro de 1895 que, em Paris, os irmãos Lumière expuseram ao público, pela primeira vez, o seu invento, o cinematógrafo, menos de um ano depois disso, no Brasil já acontecia a primeira sessão pública de cinema, numa rua do Rio de Janeiro, segundo consta, em oito de julho de 1896. E no ano seguinte, 1897, já se inaugurava a primeira sala exibidora, na Rua do Ouvidor, 141. Foi por esse mesmo tempo – para ser exato, a 19 de julho de 1896 – que se rodou a primeira metragem de película em solo brasileiro, quando Affonso Segreto filmou, de um navio que retornava da Europa, a paisagem da Baía da Guanabara.

A partir de então inúmeros pequenos filmes passaram a ser rodados no país, tantos e tão pequenos que o seu registro se perdeu no tempo. Segundo os historiadores, a maior parte dessas películas de poucos minutos de duração, eram documentários dando conta de fatos políticos, ou de eventos familiares, ou então, eram os chamados na época de “cantantes”, filmes com números musicais, de óperas ou de canções populares, que os atores-cantores, por trás ou ao lado da tela, performatizavam.

O nosso primeiro filme de ficção um pouco mais longo foi um média-metragem de 1906. “Os estranguladores”, de Antônio Leal tratava de um horrendo assassinato acontecido na cidade, e era o nosso primeiro “filme posado”, expressão da época para definir uma película não-documental. Esse lance mercadológico de ficcionalizar crimes verídicos pegaria e vários outros filmes desse período primitivo de nosso cinema apelaram para ele, como – dois exemplos citados ao acaso – “O crime da mala” (Francisco Serrador, 1909) e “Noivado de sangue” (Antonio Leal, 1909).

Com a inauguração da Usina Ribeirão das Lajes, em 1907, a cidade do Rio de Janeiro passou a dispor de energia elétrica em escala industrial, e isso estimulou consideravelmente a atividade cinematográfica, tanto na exibição, como na produção. De 1908 a 1911 vai se ter o que os estudiosos do assunto chamam de a “belle époque” do cinema brasileiro, período em que se realizaram, “posados” ou não, nada menos que 42 filmes de metragem padrão (mais de uma hora de projeção), isto para não se falar dos filmezinhos curtos que continuavam sendo feitos.

Assim, no primeiro ano da “belle époque”, 1908, estão registradas cinco produções, uma delas – não se sabe exatamente qual – teria sido o nosso primeiro longa de ficção. “O comprador de ratos”, de Antônio Serra, era uma comédia sobre o Rio do passado, quando a Secretaria da Saúde, para fins higiênicos, pagava à população por ratos mortos ou vivos. “Telegrama número nove”, de Eduardo Leite, era uma farsa sobre um episódio diplomático entre a Argentina e o Brasil. “O triunfo de Nero” era um drama dirigido por Júlio Ferrez, e “Viúva alegre”, um musical de Giuseppe Labanca, com os atores cantando nas sessões; um sucesso repetido pelo mesmo Labanca, agora com um protagonista masculino em “Viúvo alegre”.

Contudo, o período “belle époque” foi curto, pois, a produção carioca já começava a sentir os efeitos da concorrência dos Estados Unidos. Em 1911, a americana Vitagraph já inaugurava, na cidade, o circuito Avenida, para exibição exclusiva de filmes americanos. Com o advento da Guerra, em 1914, a situação piorou, já que a matéria prima para filmagens, vinda da Europa, começou a escassear, até desaparecer de todo.

A produção cinematográfica nacional só vai retomar o fôlego na década de vinte, quando, seguindo o exemplo dos cariocas, empresários ou simples aventureiros paulistas, passaram a se interessar por cinema. Em 1925, por exemplo, chegou-se a rodar 38 filmes de metragem padrão em um ano só, um número que – diga-se de passagem – está acima da média brasileira no século, que é de 35 filmes por ano. Dessa década, além dos filmes “sanguinários sobre crimes verídicos” e “musicais” com perfomances in loco, que continuaram sendo rodados, fazem parte as freqüentes adaptações de romances brasileiros, principalmente de José de Alencar.

Não apenas no eixo Rio-São Paulo se fez cinema nessa época muda, mas também em outras capitais brasileiras, como Manaus, Belém, Porto Alegre, Recife e, como sabemos, João Pessoa. Um verdadeiro pólo cinematográfico surgiria, na segunda metade dos anos vinte, em Cataguazes, Minas Gerais, com a intensa atividade de Humberto Mauro.

Bem, a essa altura, creio que vale a pena perguntar o que, para a posteridade e em termos qualitativos, ficou desse cinema mudo brasileiro. Os historiadores são cautelosos sobre o assunto. Segundo a maioria, tratou-se de um cinema casual, esporádico, doméstico, artesanal que nunca conquistou um público de modo definitivo, e que nunca foi capaz de pular do nível do artesanato caseiro para a indústria. Nas palavras do competente e lúcido Paulo Emílio Salles Gomes. “um cinema tosco”

Normalmente, os elogios dos historiadores e críticos restringem-se aos filmes de Humberto Mauro (atenção: na fase muda, apenas cinco) e ao caso excepcional de “Limite” (Mário Peixoto, 1931), uma realização ímpar, vanguardista, hermética e impopular, que destoa de tudo que se fez na época, e mesmo depois. Excetuados estes dois casos, não parece existir a grande obra que, em dimensão de qualidade, represente o cinema mudo brasileiro, e que possa ser dada como fundante de nossa cinematografia. Pelo visto, não fizemos o nosso “Nosferatu”, ou o nosso “Encouraçado Potemkin”, ou o nosso “Metropolis”, ou o nosso “A general”, ou o nosso “Em busca do ouro”, ou, muito menos ainda, o nosso “Nascimento de uma nação”.

Em suma, o Cinema Mudo Brasileiro é um desconhecido do brasileiro, porém, nada casual, esse desconhecimento parece ser sintomático.