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Nascida para o mal

14 nov

Não tem jeito: quando fico de saco cheio do cinema de hoje em dia, volto-me para o passado e vou me refugiar em algum velho clássico preto-e-branco dos anos 30, 40 ou 50.

Esta semana foi a vez de “Nascida para o mal” (“In this ou life”), produção da Warner de 1942, que o então jovem John Huston dirigiu, aliás, sua segunda experiência no métier – a primeira, vocês lembram, havia sido “Relíquia macabra” (1940).

Estamos no seio de uma problemática família sulista, onde a distinção entre afeto e interesse pessoal não é coisa lá muito clara. Para começo de conversa, as duas irmãs, – ninguém sabe por quê – têm nomes masculinos: Stanley (Bette Davis) e Roy (Olivia de Havilland) – talvez para indicar que a estória a ser contada não é propriamente convencional.

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Enjoada da vida que leva, ou por alguma outra razão insondável, Stanley descarta o noivo e seduz o marido da irmã Roy. Um atropelo que a família não entende, mas aceita, seguido de outro complicador – ou seria apaziguador? – : mais tarde o noivo descartado e a irmã solitária vão se encontrar e formar novo par amoroso. E está formado o quatrilho familiar.

Mas, claro, o enredo do filme não se limita a isso. O comportamento estabanado e inconseqüente da personagem de Bette Davis vai crescendo cada vez mais, até atingir proporções – digamos – social e/ou politicamente inaceitáveis.

Não vou contar os detalhes, mas cabe dizer que “Nascida para o mal” é um filme fundado em cima de uma personagem, no caso a Stanley de Bette Davis, a propósito, um dos papéis que mais contribuiu para conceder à atriz a sua ´fama de má´ – conforme aparece, aliás, na re-intitulação que o filme recebeu em terra brasileira. O título original é o mesmo do romance, “In this our life” (/nessa nossa vida/), mas, sintomaticamente, a propaganda do press-release da estreia chamava a atenção do espectador para a protagonista e rezava: “No one is as good as Bette when she is bad”, traduzindo livremente, ´Ninguém é tão boa quanto Bette quando ela é má´.

Bette Davis, nascida para o mal.

Bette Davis, nascida para o mal.

O filme não é um noir, mas, está perto disso. Seu lado gótico, perverso, maldoso o aproxima do gênero, tanto temática como plasticamente.

Vejam o caso da relação ambígua e meio escabrosa entre Stanley e seu tio idoso e rico (Charles Coburn), à certa altura – numa cena de paroxismo dramático – declarada como erótica, apenas mais um dos pequenos escândalos da família. Um escândalo familiar a mais, aliás nada pequeno, é o do racismo… E isso, vejam bem, num tempo – 1942 – em que o código hollywoodiano de auto-censura desaconselhava a abordagem de questões raciais na tela.

Enfim, um filme em que o inquieto e nada convencional John Huston estava em casa.  E como estava!

De alguma maneira, nele já está prometida a tão anti-americana temática do fracasso que perpassaria toda a filmografia de Huston – no caso presente, o fracasso sendo uma decorrência da personalidade avassaladora e destrutiva de Stanley/Bette Davis que, no desenlace, optará (ou não se tratou de opção?) por uma saída meio suicida.

“Nascida para o mal” era o único Huston que desconhecia e vê-lo só confirma o que dele penso: ser um dos maiores cineastas do século XX.

John Huston, em idade madura.

John Huston, em idade madura.

Já toquei no assunto e não resisto em tocar mais uma vez: em toda a história mundial da crítica cinematográfica, a maior mancada de que se tem notícia foi, com certeza, a deliberada e maldosa não inclusão de Huston na galeria dos grandes cineastas americanos dos anos cinquenta – erro, na época, perpetrado pelos autores da super prestigiada revista Cahiers du Cinéma. E pensar que os críticos equivocados eram François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol…

Coisa que, ainda bem, o tempo corrigiu.

Mas, para voltar a “Nascida para o mal”, uma curiosidade sobre o seu enredo – pelo menos para nós brasileiros – está indicada no resumo que fiz acima. Sim, em parte sua estória (dois casais que revezam pares) é a mesma de “O quatrilho”, filme de 1995 em que Fábio Barreto adaptou para a tela o livro do escritor gaúcho José Clemente Pozzenato, por sua vez, uma publicação de 1985.

O filme de Huston adaptava o romance “In this our life” da escritora Ellen Glasgow, publicação do ano anterior à realização do filme, 1941. Para quem gosta de curiosidade de bastidores, fica a pergunta tardia: o gaúcho Pozzenato conhecia o livro de Glasgow (aliás, Prêmio Pulitzer no mesmo ano!) e/ou o filme de Huston? Ou a estória de “O quatrilho” é apenas coincidente?

Quem quiser que cheque.

"O Quatrilho" (1995), mesmo enredo de "Nascida para o mal" (1942).

“O Quatrilho” (1995), mesmo enredo de “Nascida para o mal” (1942).

 

Revisitando “A malvada”

10 out

O que é um clássico? Não sei ao certo, e nem Ítalo Calvino me ensinou bem isso. Só sei que não existem clássicos que não sejam revisitáveis.

Esta semana revisitei um, o extraordinário “A malvada” (“All about Eve”, 1950), e o fiz junto com um grupo de amigos cinéfilos que me ajudaram a descobrir mais detalhes no filme de Joseph Mankiewicz do que eu vira em leituras anteriores.

all about eve

Digamos de início que o filme dá uma aula sobre como, em cinema, imbricar duas construções: a do personagem e a do roteiro. Do ponto de vista narrativo e ao mesmo tempo descritivo, é a estória dessa Eve do título original, uma jovem ambiciosa cujo sonho é conquistar os aplausos da ribalta da Broadway e do mundo, e que, para tanto, passa por cima de todos, e mais que isso, passa por cima de si mesma, digo, de sua própria integridade moral. Na mesma medida em que vamos conhecendo as etapas do seu astuto acesso ao mundo do teatro, vamos nos aprofundando na sua psicologia, até, no final, mais que todos os outros personagens da estória, sabermos – como mantém o título – ´tudo sobre Eve´.

Uma maestria a mais está no desenvolvimento do ponto de vista. Vejam que a estória de Eve começa a ser narrada em três pontos de vista limitados (o do crítico DeWitt, o da esposa do dramaturgo LLoyd, Karen, e o de Margo, a atriz “engolida” por Eve), para depois os abandonar e tomar a forma mais poderosa da narração onisciente, que cumula no desenlace.

Trata-se de um filme sobre teatro… que não é teatral. O espectador pode achar que há diálogo demais, porém, em nenhum momento este parece excessivo, tão adequado é o seu uso para demonstrar o nível de cinismo e sarcasmo envolvido nas caracterizações. As falas são pérolas de ironia que, aliás, ficaram – algumas – para a história do cinema, como aquela em que a amarga Margo (Bette Davis) anuncia, antes da festa de aniversário do seu companheiro e diretor: `apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências´

Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências

Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências

Trata-se de um filme com mensagem… e que, no entanto, não é moralista. Refiro-me à famosa cena final em que, depois do sucesso conquistado, Eve se depara com essa intrusa, de nome Phoebe; na cena, a multiplicação da imagem dessa candidata à ribalda, ostentando o vestido de Eve nos espelhos da casa, quer nos dizer que Eve é só um item dentro de uma série, porém, ao invés de soar como moralismo quadrado, resulta num comentário visual mais do que apropriado, genial.

O nível de contundência psicológica é alto para a época e o filme nos parece, ainda hoje, moderno. Essa contundência está por toda parte, mas, para ilustrar, me reporto pontualmente àquela cena, quase final, em que o crítico DeWitt (George Sanders) abre o jogo com Eve (Anne Baxter), revelando a sua natureza malsã, coincidente com a dele. Segundo ele mesmo grita a uma Eve em prantos: “nós somos iguais; temos o mesmo desprezo pela humanidade, a mesma incapacidade de amar ou ser amado e o mesmo… talento”.

Margo (Bette Davis) aprendendo com a camareira (Thelma Ritter)

Margo (Bette Davis) aprendendo com a camareira (Thelma Ritter)

Como estamos no mundo do teatro, o Cinema é, no diálogo, frequentemente criticado como um entretenimento menor, coisa do Oeste bronco e brega, em contrapartida à sofisticação da Broadway e adjacências. Dentre os personagens, Bill, o diretor da peça em andamento e marido de Margo, é o único a responder a um ou outro chamado de Hollywood, o que é visto por todos os outros como um desperdício de talento. Esse generalizado “rebaixamento” da Sétima Arte nos diálogos de “A malvada” não impediu que o filme viesse a receber onze indicações ao Oscar, das quais levou seis, incluindo os Oscar de melhor filme e de melhor diretor. Não impediu, ou talvez tenha mesmo contribuído…

O elenco todo está excelente, onde destaco a eterna coadjuvante Thelma Ritter, no papel da empregada de Margo, a primeira a lhe abrir os olhos para o comportamento perigoso de Eve. Os dois coadjuvantes com estatuto de narradores são Celeste Holm (como Karen, esposa do dramaturgo LLoyd) e George Sanders (como o crítico teatral Addison DeWitt), este último levando o Oscar nesta categoria. Em começo de carreira, Marilyn Monroe faz uma ponta como uma starlet à cata de oportunidades, pequeno papel que, ironicamente, a conduziria ao estrelato na vida real.

O que está exposto em “A malvada” são as feias e ensanguentadas entranhas do Teatro, assim como Billy Wilder expusera as entranhas do Cinema em “Crepúsculo dos deuses” (mesmo ano, 1950), e assim como Alexander MacKendrick exporia, alguns anos depois, as entranhas do Colunismo social, em “A embriaguez do sucesso” (1957).

Aliás, três clássicos isotópicos dos anos cinquenta, seja lá o que for que a palavra ´clássico´ signifique.

A bela Anne Baxter (Eve) em grande desempenho

A bela Anne Baxter (Eve) em grande desempenho

Risos de terceira idade

2 maio

Um asilo para idosos seria, em princípio, um lugar triste. E um filme sobre o assunto, idem. Em “Cocoon” (1985), por exemplo, fez-se necessária uma interferência interestelar para que os velhinhos se animassem, e, por tabela, os espectadores.

Pois bem, em “O quarteto” (“Quartet”, 2012), recentemente exibido entre nós, não há propriamente clima ´para baixo´ e a razão é simples: todo mundo nesse asilo especialíssimo é ligado a essa coisa maravilhosa que se chama música, e só está lá por isso. Na verdade, o lugar funciona como um Conservatório bastante privilegiado, já que cada participante traz uma história musical por trás de si. E, além do mais, a direção vive a programar eventos que neles reacendam o talento porventura adormecido. O que, no momento, está para ocorrer é a celebração anual do aniversário de Verdi.

Quartet 1

Três dos hóspedes, dois senhores e uma dama, já se movimentam para formar um conjunto cantante, quando chega ao local essa nova hóspede, uma famosíssima Prima Donna do canto lírico, hoje devidamente aposentada – ideal para ser o quarto elemento de um quarteto a executar o “Rigoleto” de Verdi. Ocorre que um dos dois senhores havia sido, num passado remoto, casado com ela e a separação, ocorrida muito tempo atrás, não fora nada tranqüila, deixando sequelas que ainda magoam.

Não conto o resto da história, mas devo dizer apenas que o enredo é simples, lembrando – e eu diria mesmo, seguindo – aquelas velhas comédias do cinema clássico em que divorciados se reencontravam e, no casual reencontro, a chama do amor, por muito tempo apagada, miraculosamente reacendia, no modelo, se vocês quiserem, de “Cupido é moleque teimoso” (Leo McCarey, 1937), “Jejum de amor” (1940), e “Núpcias de escândalo” (George Cukor, 1940). Sim, tais filmes seguiam um esquema narrativo análogo em que o reencontro trazia à baila, em pontos estratégicos e espaçados do roteiro, os maus e os bons momentos da relação antiga, até o casal dar-se conta de que – para citar uma canção brasileira – os momentos felizes tinham deixado raízes…

Pauline Collins e Maggie Smith em cena do filme

Pauline Collins e Maggie Smith em cena do filme

Um detalhe contextual importante em “O quarteto” é que quase todo o enorme elenco é formado de pessoas que, na vida real, foram profissionais da área musical, maestros, compositores, instrumentistas, cantores, etc… e, nos créditos finais isto é indicado em detalhes. O que concede ao filme um certo charme documental.

Por ironia, a exceção fica com os que, no final do filme – e depois de muitos percalços, drásticos, patéticos e engraçados – vêm a formar o ansiado quarteto do título, que são Maggie Smith, Tom Courtenay, Billy Connoly e Pauline Collins.

Esses quatro dão desempenhos excelentes e o filme de alguma maneira é, centralmente, sobre seus personagens e o seu polêmico e planejado “quarteto”, que só abre a boca para executar Verdi no imediato pós-tela. No papel da orgulhosa e intocável Prima Donna Jean Horton, Maggie Smith está ótima, assim como Tom Courtenay, no papel de seu rancoroso ex-esposo, Reggie. (Lembram dele, quase meio século atrás, em “Dr Jivago”, como o irmão mais novo de Lara, entregando folhetos revolucionários nas ruas de São Pittsburgo?).

Billy Connoly é hilário como Wilf Bond, o velhinho tarado que só pensa naquilo, embora o seu “aquilo” hoje só lhe sirva para fazer pipi, e, aliás, com uma freqüência indesejada, porém, admitamos, – no que se refere a manter a linha cômica do filme estirada – quem rouba a cena é a engraçadíssima Pauline Collins, no papel de Cissy, essa adorável velhinha com um começo de esclerose, que esquece quase tudo, mas lembra muito bem quem foi que disse aquela frase fundamental, para a vida e para o filme: “Old age is not for sissies” (´a velhice não foi feita para molengas´). Com certeza, o leitor lembra dela num papel e filme chave dos anos oitenta: “Shirley Valentine” (1989), estória daquela coroa que enche o saco da fleumática Inglaterra e vai-se embora para a Grécia, a fim de aventuras mais cálidas.

Pauline Collins, Tom Courtenay, Billy Connoly e Maggie Smith: o quarteto.

Pauline Collins, Tom Courtenay, Billy Connoly e Maggie Smith: o quarteto.

Enfim, se o “deus ex machina” de “Cocoon” era extraterrestre e vinha do espaço sideral, o de “O quarteto” é humano e está entre nós – esse bem universal que é a música. Sem dúvida, é ele que permite que o filme possa dispensar os momentos de baixo astral atinentes ao tema, e possa ser, ele mesmo, fluente como uma composição, e, como se não bastasse, divertido, para cima, engraçadíssimo mesmo, acho que para espectadores de todas as idades.

Uma surpresinha a mais está nos créditos – a autoria da direção é de ninguém menos que Dustin Hoffman, sim, ele mesmo, assumindo, pela primeira vez, a mise-en-scène, nos seus setenta e quatro anos de idade. E se dando bem, muito bem. Uma pena que, em João Pessoa, o filme tenha saído de cartaz tão rápido. Quem não viu que espere pelo DVD. Vale a pena.

Em tempo: quem disse a frase “a velhice não foi feita para molengas” foi uma que entendia do assunto: Bette Davis.

Marinheiro de primeira viagem: Dustin Hoffman dirigindo "O Quarteto"

Marinheiro de primeira viagem: Dustin Hoffman dirigindo “O Quarteto”