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Nascida para o mal

14 nov

Não tem jeito: quando fico de saco cheio do cinema de hoje em dia, volto-me para o passado e vou me refugiar em algum velho clássico preto-e-branco dos anos 30, 40 ou 50.

Esta semana foi a vez de “Nascida para o mal” (“In this ou life”), produção da Warner de 1942, que o então jovem John Huston dirigiu, aliás, sua segunda experiência no métier – a primeira, vocês lembram, havia sido “Relíquia macabra” (1940).

Estamos no seio de uma problemática família sulista, onde a distinção entre afeto e interesse pessoal não é coisa lá muito clara. Para começo de conversa, as duas irmãs, – ninguém sabe por quê – têm nomes masculinos: Stanley (Bette Davis) e Roy (Olivia de Havilland) – talvez para indicar que a estória a ser contada não é propriamente convencional.

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Enjoada da vida que leva, ou por alguma outra razão insondável, Stanley descarta o noivo e seduz o marido da irmã Roy. Um atropelo que a família não entende, mas aceita, seguido de outro complicador – ou seria apaziguador? – : mais tarde o noivo descartado e a irmã solitária vão se encontrar e formar novo par amoroso. E está formado o quatrilho familiar.

Mas, claro, o enredo do filme não se limita a isso. O comportamento estabanado e inconseqüente da personagem de Bette Davis vai crescendo cada vez mais, até atingir proporções – digamos – social e/ou politicamente inaceitáveis.

Não vou contar os detalhes, mas cabe dizer que “Nascida para o mal” é um filme fundado em cima de uma personagem, no caso a Stanley de Bette Davis, a propósito, um dos papéis que mais contribuiu para conceder à atriz a sua ´fama de má´ – conforme aparece, aliás, na re-intitulação que o filme recebeu em terra brasileira. O título original é o mesmo do romance, “In this our life” (/nessa nossa vida/), mas, sintomaticamente, a propaganda do press-release da estreia chamava a atenção do espectador para a protagonista e rezava: “No one is as good as Bette when she is bad”, traduzindo livremente, ´Ninguém é tão boa quanto Bette quando ela é má´.

Bette Davis, nascida para o mal.

Bette Davis, nascida para o mal.

O filme não é um noir, mas, está perto disso. Seu lado gótico, perverso, maldoso o aproxima do gênero, tanto temática como plasticamente.

Vejam o caso da relação ambígua e meio escabrosa entre Stanley e seu tio idoso e rico (Charles Coburn), à certa altura – numa cena de paroxismo dramático – declarada como erótica, apenas mais um dos pequenos escândalos da família. Um escândalo familiar a mais, aliás nada pequeno, é o do racismo… E isso, vejam bem, num tempo – 1942 – em que o código hollywoodiano de auto-censura desaconselhava a abordagem de questões raciais na tela.

Enfim, um filme em que o inquieto e nada convencional John Huston estava em casa.  E como estava!

De alguma maneira, nele já está prometida a tão anti-americana temática do fracasso que perpassaria toda a filmografia de Huston – no caso presente, o fracasso sendo uma decorrência da personalidade avassaladora e destrutiva de Stanley/Bette Davis que, no desenlace, optará (ou não se tratou de opção?) por uma saída meio suicida.

“Nascida para o mal” era o único Huston que desconhecia e vê-lo só confirma o que dele penso: ser um dos maiores cineastas do século XX.

John Huston, em idade madura.

John Huston, em idade madura.

Já toquei no assunto e não resisto em tocar mais uma vez: em toda a história mundial da crítica cinematográfica, a maior mancada de que se tem notícia foi, com certeza, a deliberada e maldosa não inclusão de Huston na galeria dos grandes cineastas americanos dos anos cinquenta – erro, na época, perpetrado pelos autores da super prestigiada revista Cahiers du Cinéma. E pensar que os críticos equivocados eram François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol…

Coisa que, ainda bem, o tempo corrigiu.

Mas, para voltar a “Nascida para o mal”, uma curiosidade sobre o seu enredo – pelo menos para nós brasileiros – está indicada no resumo que fiz acima. Sim, em parte sua estória (dois casais que revezam pares) é a mesma de “O quatrilho”, filme de 1995 em que Fábio Barreto adaptou para a tela o livro do escritor gaúcho José Clemente Pozzenato, por sua vez, uma publicação de 1985.

O filme de Huston adaptava o romance “In this our life” da escritora Ellen Glasgow, publicação do ano anterior à realização do filme, 1941. Para quem gosta de curiosidade de bastidores, fica a pergunta tardia: o gaúcho Pozzenato conhecia o livro de Glasgow (aliás, Prêmio Pulitzer no mesmo ano!) e/ou o filme de Huston? Ou a estória de “O quatrilho” é apenas coincidente?

Quem quiser que cheque.

"O Quatrilho" (1995), mesmo enredo de "Nascida para o mal" (1942).

“O Quatrilho” (1995), mesmo enredo de “Nascida para o mal” (1942).

 

Revisitando “A malvada”

10 out

O que é um clássico? Não sei ao certo, e nem Ítalo Calvino me ensinou bem isso. Só sei que não existem clássicos que não sejam revisitáveis.

Esta semana revisitei um, o extraordinário “A malvada” (“All about Eve”, 1950), e o fiz junto com um grupo de amigos cinéfilos que me ajudaram a descobrir mais detalhes no filme de Joseph Mankiewicz do que eu vira em leituras anteriores.

all about eve

Digamos de início que o filme dá uma aula sobre como, em cinema, imbricar duas construções: a do personagem e a do roteiro. Do ponto de vista narrativo e ao mesmo tempo descritivo, é a estória dessa Eve do título original, uma jovem ambiciosa cujo sonho é conquistar os aplausos da ribalta da Broadway e do mundo, e que, para tanto, passa por cima de todos, e mais que isso, passa por cima de si mesma, digo, de sua própria integridade moral. Na mesma medida em que vamos conhecendo as etapas do seu astuto acesso ao mundo do teatro, vamos nos aprofundando na sua psicologia, até, no final, mais que todos os outros personagens da estória, sabermos – como mantém o título – ´tudo sobre Eve´.

Uma maestria a mais está no desenvolvimento do ponto de vista. Vejam que a estória de Eve começa a ser narrada em três pontos de vista limitados (o do crítico DeWitt, o da esposa do dramaturgo LLoyd, Karen, e o de Margo, a atriz “engolida” por Eve), para depois os abandonar e tomar a forma mais poderosa da narração onisciente, que cumula no desenlace.

Trata-se de um filme sobre teatro… que não é teatral. O espectador pode achar que há diálogo demais, porém, em nenhum momento este parece excessivo, tão adequado é o seu uso para demonstrar o nível de cinismo e sarcasmo envolvido nas caracterizações. As falas são pérolas de ironia que, aliás, ficaram – algumas – para a história do cinema, como aquela em que a amarga Margo (Bette Davis) anuncia, antes da festa de aniversário do seu companheiro e diretor: `apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências´

Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências

Apertem os cintos: esta vai ser uma noite de turbulências

Trata-se de um filme com mensagem… e que, no entanto, não é moralista. Refiro-me à famosa cena final em que, depois do sucesso conquistado, Eve se depara com essa intrusa, de nome Phoebe; na cena, a multiplicação da imagem dessa candidata à ribalda, ostentando o vestido de Eve nos espelhos da casa, quer nos dizer que Eve é só um item dentro de uma série, porém, ao invés de soar como moralismo quadrado, resulta num comentário visual mais do que apropriado, genial.

O nível de contundência psicológica é alto para a época e o filme nos parece, ainda hoje, moderno. Essa contundência está por toda parte, mas, para ilustrar, me reporto pontualmente àquela cena, quase final, em que o crítico DeWitt (George Sanders) abre o jogo com Eve (Anne Baxter), revelando a sua natureza malsã, coincidente com a dele. Segundo ele mesmo grita a uma Eve em prantos: “nós somos iguais; temos o mesmo desprezo pela humanidade, a mesma incapacidade de amar ou ser amado e o mesmo… talento”.

Margo (Bette Davis) aprendendo com a camareira (Thelma Ritter)

Margo (Bette Davis) aprendendo com a camareira (Thelma Ritter)

Como estamos no mundo do teatro, o Cinema é, no diálogo, frequentemente criticado como um entretenimento menor, coisa do Oeste bronco e brega, em contrapartida à sofisticação da Broadway e adjacências. Dentre os personagens, Bill, o diretor da peça em andamento e marido de Margo, é o único a responder a um ou outro chamado de Hollywood, o que é visto por todos os outros como um desperdício de talento. Esse generalizado “rebaixamento” da Sétima Arte nos diálogos de “A malvada” não impediu que o filme viesse a receber onze indicações ao Oscar, das quais levou seis, incluindo os Oscar de melhor filme e de melhor diretor. Não impediu, ou talvez tenha mesmo contribuído…

O elenco todo está excelente, onde destaco a eterna coadjuvante Thelma Ritter, no papel da empregada de Margo, a primeira a lhe abrir os olhos para o comportamento perigoso de Eve. Os dois coadjuvantes com estatuto de narradores são Celeste Holm (como Karen, esposa do dramaturgo LLoyd) e George Sanders (como o crítico teatral Addison DeWitt), este último levando o Oscar nesta categoria. Em começo de carreira, Marilyn Monroe faz uma ponta como uma starlet à cata de oportunidades, pequeno papel que, ironicamente, a conduziria ao estrelato na vida real.

O que está exposto em “A malvada” são as feias e ensanguentadas entranhas do Teatro, assim como Billy Wilder expusera as entranhas do Cinema em “Crepúsculo dos deuses” (mesmo ano, 1950), e assim como Alexander MacKendrick exporia, alguns anos depois, as entranhas do Colunismo social, em “A embriaguez do sucesso” (1957).

Aliás, três clássicos isotópicos dos anos cinquenta, seja lá o que for que a palavra ´clássico´ signifique.

A bela Anne Baxter (Eve) em grande desempenho

A bela Anne Baxter (Eve) em grande desempenho

Risos de terceira idade

2 maio

Um asilo para idosos seria, em princípio, um lugar triste. E um filme sobre o assunto, idem. Em “Cocoon” (1985), por exemplo, fez-se necessária uma interferência interestelar para que os velhinhos se animassem, e, por tabela, os espectadores.

Pois bem, em “O quarteto” (“Quartet”, 2012), recentemente exibido entre nós, não há propriamente clima ´para baixo´ e a razão é simples: todo mundo nesse asilo especialíssimo é ligado a essa coisa maravilhosa que se chama música, e só está lá por isso. Na verdade, o lugar funciona como um Conservatório bastante privilegiado, já que cada participante traz uma história musical por trás de si. E, além do mais, a direção vive a programar eventos que neles reacendam o talento porventura adormecido. O que, no momento, está para ocorrer é a celebração anual do aniversário de Verdi.

Quartet 1

Três dos hóspedes, dois senhores e uma dama, já se movimentam para formar um conjunto cantante, quando chega ao local essa nova hóspede, uma famosíssima Prima Donna do canto lírico, hoje devidamente aposentada – ideal para ser o quarto elemento de um quarteto a executar o “Rigoleto” de Verdi. Ocorre que um dos dois senhores havia sido, num passado remoto, casado com ela e a separação, ocorrida muito tempo atrás, não fora nada tranqüila, deixando sequelas que ainda magoam.

Não conto o resto da história, mas devo dizer apenas que o enredo é simples, lembrando – e eu diria mesmo, seguindo – aquelas velhas comédias do cinema clássico em que divorciados se reencontravam e, no casual reencontro, a chama do amor, por muito tempo apagada, miraculosamente reacendia, no modelo, se vocês quiserem, de “Cupido é moleque teimoso” (Leo McCarey, 1937), “Jejum de amor” (1940), e “Núpcias de escândalo” (George Cukor, 1940). Sim, tais filmes seguiam um esquema narrativo análogo em que o reencontro trazia à baila, em pontos estratégicos e espaçados do roteiro, os maus e os bons momentos da relação antiga, até o casal dar-se conta de que – para citar uma canção brasileira – os momentos felizes tinham deixado raízes…

Pauline Collins e Maggie Smith em cena do filme

Pauline Collins e Maggie Smith em cena do filme

Um detalhe contextual importante em “O quarteto” é que quase todo o enorme elenco é formado de pessoas que, na vida real, foram profissionais da área musical, maestros, compositores, instrumentistas, cantores, etc… e, nos créditos finais isto é indicado em detalhes. O que concede ao filme um certo charme documental.

Por ironia, a exceção fica com os que, no final do filme – e depois de muitos percalços, drásticos, patéticos e engraçados – vêm a formar o ansiado quarteto do título, que são Maggie Smith, Tom Courtenay, Billy Connoly e Pauline Collins.

Esses quatro dão desempenhos excelentes e o filme de alguma maneira é, centralmente, sobre seus personagens e o seu polêmico e planejado “quarteto”, que só abre a boca para executar Verdi no imediato pós-tela. No papel da orgulhosa e intocável Prima Donna Jean Horton, Maggie Smith está ótima, assim como Tom Courtenay, no papel de seu rancoroso ex-esposo, Reggie. (Lembram dele, quase meio século atrás, em “Dr Jivago”, como o irmão mais novo de Lara, entregando folhetos revolucionários nas ruas de São Pittsburgo?).

Billy Connoly é hilário como Wilf Bond, o velhinho tarado que só pensa naquilo, embora o seu “aquilo” hoje só lhe sirva para fazer pipi, e, aliás, com uma freqüência indesejada, porém, admitamos, – no que se refere a manter a linha cômica do filme estirada – quem rouba a cena é a engraçadíssima Pauline Collins, no papel de Cissy, essa adorável velhinha com um começo de esclerose, que esquece quase tudo, mas lembra muito bem quem foi que disse aquela frase fundamental, para a vida e para o filme: “Old age is not for sissies” (´a velhice não foi feita para molengas´). Com certeza, o leitor lembra dela num papel e filme chave dos anos oitenta: “Shirley Valentine” (1989), estória daquela coroa que enche o saco da fleumática Inglaterra e vai-se embora para a Grécia, a fim de aventuras mais cálidas.

Pauline Collins, Tom Courtenay, Billy Connoly e Maggie Smith: o quarteto.

Pauline Collins, Tom Courtenay, Billy Connoly e Maggie Smith: o quarteto.

Enfim, se o “deus ex machina” de “Cocoon” era extraterrestre e vinha do espaço sideral, o de “O quarteto” é humano e está entre nós – esse bem universal que é a música. Sem dúvida, é ele que permite que o filme possa dispensar os momentos de baixo astral atinentes ao tema, e possa ser, ele mesmo, fluente como uma composição, e, como se não bastasse, divertido, para cima, engraçadíssimo mesmo, acho que para espectadores de todas as idades.

Uma surpresinha a mais está nos créditos – a autoria da direção é de ninguém menos que Dustin Hoffman, sim, ele mesmo, assumindo, pela primeira vez, a mise-en-scène, nos seus setenta e quatro anos de idade. E se dando bem, muito bem. Uma pena que, em João Pessoa, o filme tenha saído de cartaz tão rápido. Quem não viu que espere pelo DVD. Vale a pena.

Em tempo: quem disse a frase “a velhice não foi feita para molengas” foi uma que entendia do assunto: Bette Davis.

Marinheiro de primeira viagem: Dustin Hoffman dirigindo "O Quarteto"

Marinheiro de primeira viagem: Dustin Hoffman dirigindo “O Quarteto”

Troca de elenco

16 jul

Uma amiga minha não sabia que as atrizes hollywoodianas Bette Davis e Joan Crawford eram, na vida real, inimigas figadais. Ao saber, me conta ela que, agora, toda vez em que assiste a um filme com Davis, fica imaginando como seria esse filme se fosse com Crawford, e vice-versa.

Que tal “Johnny Guitar” com Bette Davis? Ou “A carta” com Joan Crawford? Conversando sobre o assunto, concordamos em que, se aleatoriamente generalizada, a troca de elenco dos filmes da vida bem que daria uma matéria engraçada para divertir os cinéfilos.

Mas, ora, uma coisa curiosa é que, para fazer tal matéria nem precisamos fantasiar muito.

Ocorre que normalmente, ao longo do convulso processo de produção, os filmes não tiveram o elenco que exibem depois de prontos. Na verdade, coisa caótica e sem controle, o “engarrafamento” de nomes a contratar e a contratação de última hora do elenco foram sempre a regra, pelo menos na Hollywood clássica, e os fatores que determinavam quem ia trabalhar em que eram tantos que seria cansativo listá-los. De repente, um ator, ou atriz, escalado para uma produção podia ser barrado pelos estúdios, ou eventualmente optar por outro projeto mais rentável, ou não gostar do papel, ou adoecer, ou o diretor podia não ir com cara dele/dela, ou ele/ela podia ser recusado pelo produtor, ou pela companhia distribuidora, etc, etc, etc…

Nesse sentido, e para não perder o gancho que minha amiga me deu, passo a listar uma série de filmes, consumados e consumidos, cujos elencos nos parecem os mais perfeitos, e que, no entanto, por muito pouco não tiveram outros nomes em seus créditos.

Um caso famoso é o de “Um corpo que cai”. Se porventura é difícil imaginar alguém mais perfeito do que a maravilhosa Kim Novak na carne e no espírito da misteriosa Madeleine, na verdade o papel não foi concebido para ela. Junto com seu roteirista, Hitchcock concebeu o papel, com o maior carinho, para Vera Miles, uma de suas louras preferidas. Nos preparativos das filmagens, Vera aparece grávida e, aí, os estúdios empurram a substituta Kim e o velho Hitch é forçado a aceitar a troca. Dizem que, inconformado, nunca dirigiu uma só palavra à Kim, durante toda a filmagem.

Vera Miles, por sua vez, nunca mais foi a mesma e sua carreira degringolou depois disso. A coisa foi tão séria que, há não muito tempo, o seu filho (sim, aquele cujo nascimento a tirou de “Um corpo que cai”!) publicou uma autobiografia se redimindo da culpa de haver nascido em momento tão inoportuno.

Quem imaginaria “E o vento levou” (1939) sem Clark Gable e Vivien Leigh? Pois é, o personagem de Rhett Butler era para Gary Cooper (que não quis), e o de Scarlett O´Hara para Paulette Godard (que não pôde), e as trocas foram feitas de última hora.

Por pouco quem ia cantar “Over the rainbow” em “O mágico de Oz” (1939) era a pequena Shirley Temple, na época muito mais conhecida do que a novata e já grandinha Judy Garland.

O bon vivant conquistador de “Ninotchka” (1939) era para ter sido, não Melvyn Douglas, mas Spencer Tracy (o primeiro cogitado), ou então Robert Montgomery (o segundo).

Já pensaram “Casablanca” (1942) sem Humphrey Bogart e Ingrid Bergman? Dá um frio na coluna saber que os primeiros escalados pela Warner foram (pasmem!) Ronald Reagan e Ann Sheridan.

O agente de seguros que trama o crime perfeito em “Pacto de sangue” (1944) seria George Raft, se o ator não tivesse tido outro compromisso, e a produção foi forçada a ficar com quem ficou: Fred MacMurray.

O alcoólico nada anônimo de “Farrapo humano” (1945) ia ser interpretado por Cary Grant, cujos agentes não gostaram da idéia de manchar sua imagem. Os produtores pensaram em Jose Ferrer, e Ray Milland, então considerado um canastrão, só entrou na jogada no último instante.

O papel de Margo, a atriz de teatro passada para trás pela novata Eve, em “A malvada” (1950) teve uma lista de candidatas, na ordem: Marlene Dietrich, Tallulah Bankhead, Susan Hayward, e finalmente, como sabemos, Betty Davis.

Outro papel disputado foi o de Norma Desmond, a decadente estrela do cinema mudo de “Crepúsculo dos deuses” (1950), feita por Gloria Swanson, que o ganhou de três concorrentes fortes: Mae West, Mary Pickford e Pola Negri.

Quem ia ser a frágil e nervosa Blanche de “Uma rua chamada pecado” (1951) era Olivia de Havilland, e o seu grosseiro cunhado Stanley Kowalski seria John Garfield, mas, problemas de bastidores mudaram o elenco para Vivien Leigh e Marlon Brando.

A imagem de Shane (de “Os brutos também amam”, 1953) está definitivamente associada ao ator Alan Ladd, porém, o papel foi concebido para Montgomery Clift, que teria como hospedeiro o rancheiro William Holden (no filme Van Heflin).

Em “A princesa e o plebeu” (1953) o nome de Audrey Hepburn surgiu de última hora, e, por decisão dos estúdios, tomou o lugar de Jean Simmons. Já “Sabrina” (1954) era para ter sido com Cary Grant, e não com Bogart, o qual, fez o que pôde para descartar Audrey e colocar sua mulher, Lauren Bacall, no papel-título. Por sorte nossa, não conseguiu.

Em “A um passo da eternidade” (1953), quem estava escalado para ser o charmoso sargento Warden, no quartel de Pearl Harbor, era o feioso Walter Matthau. Tivesse isto acontecido e um pouco diversa seria a cena do beijo na praia entre Deborah Kerr e (o escolhido) Burt Lancaster.
Judy, a namorada de James Dean em “Juventude transviada” (1955) seria – imaginem só – a louraça peituda Jane Mansfield, e não a delicada morena Natalie Wood. James Dean, por sua vez, quase não ganha os papéis que ganhou em “Vidas amargas” (1955) e “Assim caminha a humanidade” (1956), previamente indicados para, respectivamente, Paul Newman e Alan Ladd.

Foi para Marlon Brando que o diretor John Huston bolou o personagem do militar que, numa ilha do pacífico, vai se apaixonar por uma freira, em “O céu é testemunha” (1957), mas, as circunstâncias lhe deram Robert Mitchum, que, no meio das filmagens, ficou desanimado quando soube do fato.

Finalmente, e para não me estender mais, pois a lista de casos é interminável, a garota de programa Holly Golightly, de “Bonequinha de luxo” (1961) devia ter sido (juro) Marilyn Monroe, certamente em seu último desempenho, já que faleceria no ano seguinte.

Sem preço

21 jul

Não sei se vocês lembram o filme, mas, a estória é mais ou menos assim. Casados há cerca de oito anos, Will e Virgínia vivem felizes em sua mansão classe-média, na pequena Shrewsbury, arredores de Boston. Ele é um grande empresário e ela, dona de casa. O casal tem uma filha de três anos, criada com a ajuda de uma empregada fiel, Dalilah.

Quando o filme começa vemos cenas alternadas de: Will no seu escritório em Boston; Virgínia em casa, ocupada com alguma tarefa doméstica; e Dalilah no parque, onde a criança brinca na grama com outras crianças. De repente, Dalilah é abordada por esse desconhecido que parece querer alguma informação; só que a conversa se prolonga mais do que o esperado e quando Dalilah se dá conta, a menina não está mais por perto. Nem por perto, nem em lugar nenhum. Segundo depoimento das outras crianças, dois homens a haviam levado para um carro, enquanto Dalilah conversava. Ficou, assim, configurado o seqüestro, e o desconhecido que abordou Dalilah era – tudo indica – parte dele.

A partir daí o filme vai mostrar a agonia da família, com todos os detalhes, inclusive os remédios que a mãe agora precisa tomar. Sentindo-se culpada, a empregada fica depressiva, quase tão enferma quanto a patroa, e Will começa a ter problemas no trabalho. Espera-se um telefonema ou outra mensagem qualquer, pedindo o resgate, e nada. Depois de muita dúvida e hesitação, consulta a amigos e parentes, Will decide acionar a polícia, e o detetive Larry fica encarregado do caso.

Para encurtar a estória, o detetive consegue localizar o cara do parque, que, sob suborno, o conduz aos dois seqüestradores, os quais, por sua vez, incriminados e sob pressão, revelam o paradeiro da menina. No final das contas, uma mulher fora a mentora de tudo, e com ela a criança vivia, trancada no porão de sua casa, em um bairro luxuoso de Boston. Quem era essa mulher, o espectador só vai saber mais tarde, através de um flashback de Will: era a noiva que, dez anos atrás, ele abandonara no altar, no dia de um casamento que ele não quis assumir.

Gregory Peck está perfeito no papel de Will, e Deborah Kerr melhor ainda como a mãe desesperada. A empregada é feita pela ótima Thelma Ritter e o desconhecido com quem ela conversa, no parque, é Dan Duryea. O detetive Larry é Dana Andrews e, claro, a mulher meio louca que mantinha a criança presa no porão só poderia ser Bette Davis.

Ainda hoje não esqueço a cena, quase final, em que Bette Davis (não lembro o nome dela no filme) é indagada sobre a destinação que pretendia dar à criança – já que não houve proposta alguma de resgate – e, em apavorante close com iluminação contra-plongée que dá a seu rosto um aspecto fantasmagórico, ela responde, ameaçadora: “I haven´t got the faintest idea” / ´Não tenho a menor idéia´.

No original, o filme se chamou “Absence”, creio que sugerindo, duplamente, a ausência da criança no lar, e a ausência do noivo no dia do casamento que não houve. Os distribuidores brasileiros pensaram no valor do seqüestro e, bem ou mal, o intitularam de “Sem preço”.

Uma produção da Warner, com direção do grande Robert Siodmak, pouco tempo antes de ele deixar Hollywood e ir embora para a Europa, “Sem preço” foi rodado ao longo do ano de 1952, simultaneamente a “O pirata sangrento” (“The crimson pirate”).

Embora elogiado pela crítica, “Sem preço” passou despercebido do público. Chegou a ter duas modestas indicações ao Oscar, no caso, a fotografia de James Won Howe, e a montagem de William Lyon, que perderam para, respectivamente, Robert Surtees (de “Assim estava escrito”) e Harry Gerstad (de “Matar ou morrer”).

Não sei por que “Sem preço” nunca foi selado em VHS ou DVD e, que eu saiba, tampouco foi exibido em canais televisivos, pagos ou não. Vi-o em minha juventude, em uma desprestigiada sessão de terça-feira do Cine Brasil, imagino que por volta de 1958, e só com grande esforço mnemônico (mais a ajuda de dicionários e guias de filmes americanos) aqui o reconstituo.

Não sei dizer se, revisto hoje, resistiria ao tempo, porém, pelo menos na minha memória, “Sem preço” perdura como um grande clássico noir da história do cinema, inexplicável e injustamente esquecido pelo acaso, ou pelo descaso.

Em tempo: da primeira à última letra, o texto lido é completamente ficcional.