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Prostitutas clássicas

12 ago

Da era muda até hoje, a prostituta sempre foi uma personagem recorrente na história do cinema mundial. Vilã ou heroína, sempre marcou presença em pequenos e grandes filmes que nos ajudam a entender a natureza humana.

Ao leitor cinéfilo, sugiro um passeio mnemônico por filmes clássicos que ficcionalizaram a situação dessas mulheres as quais – sejam quais tenham sido suas razões pessoais – optaram pela “profissão mais antiga do mundo”.

Seguindo a cronologia, começo com Lulu (Louise Brooks) a exuberante e demoníaca protagonista de “A caixa de Pandora” (Pabst, 1928), mulher má que não vê outros bens a sua frente que não sejam os materiais.

Louise Brooks am "A caixa de Pandora", 1928.

Louise Brooks am “A caixa de Pandora”, 1928.

Em “A dama das camélias” (George Cukor, 1936) a protagonista (Greta Garbo) também é uma cortesã, mas, com outro coração: o da mulher apaixonada que é abandonada e, só depois, enferma e decadente, receberá de volta o afeto que perdera.

Acho que poucos lembram que uma figura essencial entre os viajantes de “No tempo das diligências” (John Ford, 1939) é a prostituta Dallas (Claire Trevor), hostilizada durante a viagem, mas, de fato uma mulher do coração de ouro, afinal, a pretendente do herói Ringo Kid, feito por John Wayne.

Em “A ponte de Waterloo” (Mervyn Leroy, 1940) Vivien Leigh faz Myra, a mocinha que, durante a guerra foi obrigada a prostituir-se, e no retorno do seu amado (Robert Taylor) dos campos de batalha, vê-se no impasse de revelar seu passado sujo, ou… Bem, sua opção é a mais drástica.

"No tempo das diligências" (1939), Claire Trevor e John Wayne.

“No tempo das diligências” (1939), Claire Trevor e John Wayne.

O filme não deixa muito claro, porém, em “A um passo da eternidade” (Fred Zinnemann, 1953) aquelas mocinhas do Clube Social são de fato prostitutas, entre elas Lorene (Donna Reed) por quem o soldado Prew (Montgomery Clift) desenvolve afeto e é correspondido.

Já em “Vidas amargas” (Elia Kazan, 1955) não há dúvidas de que, aquilo que a ex-senhora Trask (Jo Van Fleet) mantém é um bordel. É a ela que o filho Cal (James Dean) ousa pedir dinheiro emprestado para ajudar ao pai em dificuldade financeira… E, bem, o desastroso corolário vocês conhecem.

Suponho que a prostituta mais querida do cinema seja Cabíria (Giulietta Masina), mulher pobre e sem dotes que, apesar de todos os muitos pesares, luta por uma vida digna. Cabíria, aquela que é capaz de sorrir quando não há mais nada… (Noites de Cabíria, Fellini, 1957).

Jo Van Fleet em "Vidas amargas" (1955)

Jo Van Fleet em “Vidas amargas” (1955)

Rindo da vida e de todos, a grega Ilya (Melina Mercouri) é uma mulher pra cima que acredita piamente em ´finais felizes´ e, por isso, não hesita em modificar os tristes desenlaces da mitologia de seus antepassados. A popular canção de “Nunca aos domingos” (Dassin, 1960) ajudou a eternizar sua figura.

Trágica mesmo é a Nadia (Anne Girardot) de “Rocco e seus irmãos” (Visconti, 1960), que se apaixona por um boxeur e, por isso mesmo, é morta por outro – querela entre irmãos imigrantes em uma Milão inóspita.

Já a sensação de quem assiste a “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1961) é que Holly Golightly mantém a profissão de prostituta, mas ´o filme não sabe´. Ora, Audrey Hepburn tomando café da manhã nas calçadas do Tiffany´s, ao som de ´Moon River´… quem se importa com o resto?

O sorriso na cena final de "Noites de Cabíria" (1957).

O sorriso na cena final de “Noites de Cabíria” (1957).

O lado light e hilário da chamada ´vida fácil´ vai ganhar ênfase em “Irma, la douce” (Billy Wilder, 1963), com uma Shirley MacLaine literalmente impagável no papel-título, junto do ex-policial bobão Jack Lemmon.

Nada light é a vida do médico que se apaixona por Mildred (Kim Novak) quando ela era apenas garçonete, e continua apaixonado, mesmo depois de traições consecutivas que culminam na opção pela prostituição. O filme é “Servidão humana” (Ken Hughes, 1964).

Se eu não incluísse neste breve rol de prostitutas da era clássica a protagonista de “A bela da tarde” (Buñuel, 1967), com certeza e com razão, o meu leitor iria reclamar. Séverine (Catherine Deneuve) é diferente porque – senhora burguesa e bem casada – não faz aquilo por dinheiro, mas, e daí?

Audrey nas calçadas do Tiffany´s em "Bonequinha de luxo" (1961.

Audrey nas calçadas do Tiffany´s em “Bonequinha de luxo” (1961.

Garota de programa, Bree (Jane Fonda) vê-se envolvida num complicado caso policial, junto com o detetive Klute, os dois vivendo um jogo de esconde-esconde, onde crime e sexo são sinônimos. Dirigido por Alan Pakula em 1971, o filme é “Klute, o passado condena”.

E que tal fechar a lista com mais um Fellini? Refiro-me à Gradisca (Magali Noel) de “Amarcord” (1973), filme que se encerra com sua melancólica despedida, para uma vida, sim, de casada.

Não tenho espaço para mais, e, além disso, não creio que as prostitutas do cinema dos anos setenta em diante já possam ser ditas “clássicas”.

"Servidão humana" (1964):   Kim Novak é a prostituta Mildred.

“Servidão humana” (1964): Kim Novak é a prostituta Mildred.

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O terceiro velho

2 out

Apesar da expressão popular que a denomina, aquela profissão feminina – também conhecida como a mais antiga do mundo – não é nada fácil. Daí tanto render, nas artes, o seu potencial de dramaticidade, especialmente na literatura e no cinema.

Pobrezinha como Cabíria (“Noites de Cabíria”, 1957) ou sofisticada como Holly (“Bonequinha de luxo”, 1961), circunstancial como Myra (“A ponte de Waterloo”, 1940) ou vocacionada como Irma (“Irma la douce”, 1963), a figura da prostituta foi sempre uma fonte de inspiração para criadores de imagem.

É do que me lembro ao ver o belo curta de Marcus Vilar “O terceiro velho” (2013), exibido no dia 10 de setembro em João Pessoa, e ampla e merecidamente premiado no VII Comunicurtas de Campina Grande.

Marcus Vilar, autor do curta "O terceiro velho" (2013)

Marcus Vilar, autor do curta “O terceiro velho” (2013)

Claro, como se trata de um curta-metragem de 15 minutos, não há tempo para o desenvolvimento das caracterizações, nem possibilidade de aprofundamento psicológico dos personagens, nem isso é esperado do gênero. Conforme o numeral do título sugere, o enredo se limita a uma única noite na lida profissional dessa jovem prostituta da orla pessoense, que, ao contrário dos seus jovens fregueses habituais, nessa noite em particular experimenta a coincidência de acolher três homens idosos. Uma vez que velhice e sexo não são propriamente isótopos, a noite dessa jovem mulher vem a ser particularmente estranha.

Para os dois primeiros, que aparecem juntos, ela executa um strip tease na frente do carro de faróis acessos, enquanto, lá dentro, os dois se divertem e se satisfazem com o show. Já a aventura com o terceiro (notem que o titular da estória toda), é mais misteriosa. Se com os dois primeiros o caso tendera mais ao patético, agora a inclinação é para o funesto, e a performance implica, dentro de um ambiente fechado, vestidos de noivas, velas e esquifes.

Embora o maior tempo de tela seja dado a essa jovem prostituta, é esse personagem titular que ganha força temática e imaginativa, ao se fechar a narrativa. Em cena que toma a segunda metade do filme, testemunhamos o seu ritual (um prazer dolorido que beira a necrofilia) e, depois que a moça sai, ouvimos o estampido de um revólver, porém, nenhuma informação diegética nos ajuda no desvendamento do mistério.

Kassandra Brandão faz garota de programa que atende aos três velhos na mesma noite

Kassandra Brandão faz garota de programa que atende aos três velhos na mesma noite

Para dizer a verdade, assim como o conto adaptado (“O terceiro velho da noite” do escritor sergipano Antônio Carlos Viana), o filme vive de lucunas e esse vazio mesmo faz parte de sua proposta semiótica. Quem é esse senhor idoso que paga a uma profissional do sexo para, junto com ela, executar um ritual fatal? Quem seria a mulher, amada ou não, que a jovem prostituta é obrigada a representar dentro do vestido e do esquife? Por que aquele vestido, e por que o ritual mesmo, executado daquela forma e não de outra? E – pergunta mais difícil – por que o tiro? O espectador, bem como o leitor do conto, é deixado com as mais variadas possibilidades de preenchimento da estória, da forma que mais lhe aprouver. A mais radical seria fazer um novo filme, ou escrever um novo conto. De qualquer forma, um exemplo típico daquilo que, em teoria da narrativa, se chama de final aberto.

O conto de Viana é narrado em primeira pessoa verbal, e por isso, a personagem feminina, nele, nos parece mais próxima, mais íntima. Do seu discurso, ficamos conhecendo as suas impressões sobre o que está vivenciando na ocasião, os seus temores e os seus desejos – embora, obviamente, esse discurso em nada ajude a explicar o comportamento do terceiro velho. Imagino que os roteiristas do filme, Vinicius Rodrigues e o próprio Marcus Vilar, devem ter lutado com esse nível de subjetividade na fala da personagem, para passar, na tela, e sem a chatice da voz over, a imagem de uma figura feminina que atraísse o espectador, por razões não apenas eróticas – e acho que conseguiram o equilíbrio entre as duas feições diversas que o filme assume, a documental (a vida da prostituta) e a ficcional (o núcleo temático em torno do personagem titular) – aquela primeira feição, no caso, acentuada pela modificação do cenário, de algum lugar indefinido no conto, para a orla pessoense no filme.

Todos os atores estão ótimos e o filme é um bom exemplo do nível de qualidade que o áudio-visual paraibano vem atingindo nos últimos tempos. Nele destaco, ainda, a escolha da fotografia em preto-e-branco, bem mais efetiva do que se a equipe tivesse optado por algum colorido sombrio, ou, num caso extremo, por aquele recurso chamado de “noite americana”, em que se filma de dia, escurecendo a imagem com lentes opacas. Nesse particular, não se pode deixar de notar o trabalho de câmera e iluminação de João Carlos Beltrão, fundamental num filme de ambientação noturna e, mais que isso, de certa evocação fantasmal, onde luzes e sombras ganham estatuto temático.

Acima disse que velhice e sexo não cabem dentro da mesma isotopia. “O terceiro velho” deixa a questão no ar – mais uma.

O diretor e parte do elenco do filme

O diretor e parte do elenco do filme

Tudo sobre Holly

4 jan

Não. Não se trata de Hollywood. É Holly mesmo, aquela mocinha magricela, de sobrenome Golightly, que veio do Interior para Nova Iorque, fazer a vida fácil, e que tem o costume de comer sanduíche nas calçadas da joalharia Tiffany´s, de madrugadinha. Aquela que nasceu da cabeça perversa de Truman Capote e que, das páginas de seu romance, pulou para as telas do cinema, nas poucas carnes de Audrey Hepburn. Ok, tudo bem, termina sendo Hollywood, sim.

Quem conta tudo sobre Holly Golightly é o jornalista e crítico americano Sam Wasson, no seu divertido livro “Quinta Avenida, cinco da manhã” (Zahar, 2011). E isto, desde o surgimento de Holly nas páginas de Capote, até o seu ressurgimento no filme de Blake Edwards, “Bonequinha de luxo” (“Breakfast at Tiffany´s”, 1961).

Mas, se o livro de Wasson é um duplo making of do livro e do filme, não fica nisso. Pesquisando em arquivos e entrevistando envolvidos, o autor reconstitui todo o contexto da escritura de um e da produção do outro, e, inevitavelmente, pinta um quadro do que foi o cinema americano entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta. Sem contar que ilustra a contento, os bem ou mal resolvidos conflitos entre literatura e cinema – um bom estudo de caso para o que se chama de adaptação.

Dos mais centrais aos mais periféricos, Wasson abarca praticamente todos os envolvidos na concepção de “Bonequinha”, para cada um reservando capítulos biográficos que explicam suas relações com a feitura do livro e do filme.

Os centrais são, naturalmente, Truman Capote, Blake Edwards e Audrey Hepburn. E o leitor fica sabendo: que mulheres teriam sido as inspiradoras da protagonista Holly, ganhando de sobejo a pintura do mundo society da Nova Iorque da época; o quanto Edwards, então um diretor sem grande projeção, se empenhou em fazer uma obra que se equilibrasse entre o código de censura de Hollywood e a libertinagem do romance original; como Audrey, ao ser convidada, recusou um papel que supostamente mancharia sua imagem, e o quanto a equipe pelejou para convencê-la.

Uma vez que se trata em parte de adaptação, uma figura também chave é o roteirista George Axelrod, que lutou – e venceu – para transformar o baixo astral literário de Capote em uma estória de amor, eliminando o homossexualismo do amiguinho de Holly e, disfarçando, tanto quanto possível as suas respectivas profissões: ela, uma prostituta de luxo, ele um garoto de programa também de luxo.

E há as figuras que começaram periféricas e terminaram centrais, caso de Henri Mancini, que foi contratado pelos produtores sem convicção, e que terminou levando, junto com Johnny Mercer, os únicos Oscar do filme. Acompanhar essa dupla na confecção da melodia e depois da canção, que Mercer chamou de “Blue River” e Mancini mudou para “Moon River”.é emocionante – principalmente se você, como eu, ainda a tem na cabeça.

E há os centrais que terminaram periféricos, caso da toda poderosa figurinista Edith Head (35 indicações ao Oscar!), que perdeu terreno para o estilista francês Givenchy, o escolhido para vestir a Sra Hepburn com o seu “preto básico”, ficando a magoada Head com os figurinos secundários.

Por sugestão do próprio Capote, o filme foi todo pensado para Marilyn Monroe e só não a teve no elenco por motivos de força maior. Pensou-seem Debbie Reynolds, Doris Day, Elizabeth Taylor e Sandra Dee, as musas da época, e, por sorte, houve entraves para cada caso.

O ator George Peppard foi imposto pelos estúdios ao diretor Blake Edwards que, depois de assistir a um de seus filmes, literalmente ajoelhou-se na calçada do cinema, perante os produtores e implorou que não o contratassem… e perdeu. Além de mal elencado, Peppard se revelou um megalomaníaco que massacrou toda a equipe, inclusive a suave e delicada Audrey. Como, no livro adaptado, o seu personagem é o narrador da estória, ele botou na cabeça que o filme fora concebido para ele. Nada a ver.

Outro problema para a produção foi o marido de Audrey, o ciumento e intolerável Mel Ferrer, se revelando um frustrado com o sucesso da esposa, tanto é que se separariam logo depois do estrondoso sucesso do filme.

Mas, claro, o livro transcende os mexericos e o show business em vários aspectos, o melhor deles sendo mesmo o sociológico. O seu melhor argumento é demonstrar como “Bonequinha de luxo”, o filme, funcionou como um termômetro para as mudanças que estavam por vir, na década que começava – mudanças de toda ordem, sobretudo as comportamentais e as estéticas.

Com o código Hays de censura em crise, os roteiristas já não precisavam fazer os contorcionismos narrativos que o mesmo George Axelrod fora obrigado a fazer cinco anos atrás, em “O pecado mora ao lado” (1955), para por na tela uma peça onde o adultério era um fato consumado e a consumir. Aliás, mulheres diferentes do padrão ´dona de casa´ já estavam nas telas do momento, por exemplo, a Elizabeth Taylor de “Disque butterfield8”e a Shirley MacLaine de “Se meu apartamento falasse”, ambos de 1960.

Apesar da assunção do gênero romântico, a protagonista Holly Golightly aparecia como uma representação da nova mulher emergente, até certo ponto livre, dona de seus caminhos. A mera aceitação do público da princesinha Audrey (lembrar de “A princesa e o plebeu”, 1953, e “Sabrina”, 1955) no papel de uma prostituta já era o sintoma de muitas mudanças. Tanto assim que o subtítulo do livro de Wasson é: ´Audrey Hepburn, Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna´.

Ao mesmo tempo criativo e informativo, o livro de Wasson está dividido em oito capítulos cujos nomes são verbos que expressam gestos ou atitudes humanas (´querer´, ´ver´, etc), o que é seguido de um roteiro da Nova Iorque de Holly Golightly´, com direito a um precioso mapa da cidade. Não poderia faltar uma seção iconográfica onde se vê uma foto histórica de Audrey Hepburn obedecendo às ordens da prefeitura para manter a cidade limpa, depositando o papel de sanduíche (o que Holly comeu na frente da Tiffany´s?) numa lata de lixo. Só faltou um detalhe, ao menos na edição brasileira: o cartaz original do filme, a cuja confecção, afinal de contas, se dedica um capítulo inteiro. Nada é perfeito.

Só para lembrar Audrey

26 maio

Estávamos no comecinho dos anos sessenta. Kennedy ainda não tinha ido a Dallas, as mulheres ainda não tinham queimado os sutiãs, os estudantes franceses ainda estavam em sala de aula, e os hippies ainda não haviam se agrupado.

Com elegância aristocrática e ao som do suave “Moon River” de Henry Mancini, essa mocinha magra desce de um carro numa rua de Manhattan e, em frente à milionária joalharia Tiffany´s, se detém, por um tempo, espiando as jóias nas vitrines. É madrugada e ela mastiga um frugal sanduíche, depois de uma noite de…

A cena – creio que vocês recordam – é de “Bonequinha de luxo”, filme que, neste 2011 em que estamos, completa – quem diria? – cinquenta anos. Nos Estados Unidos, estreou (chequei) em outubro de 1961, e no Brasil, logo depois, em novembro do mesmo ano. Não sei quando chegou a João Pessoa, mas, ainda hoje me vejo, enfiado numa cadeira do Cine Municipal, deslumbrado com o seu tecnicolor, esquecido do mundo e da vida…

O título brasileiro faz referência eufemística à profissão da protagonista, enquanto que o original, “Breakfast at Tiffany´s” (´Café da manhã na Joalharia Tiffany´), indica a cena de abertura, acima descrita. Livremente baseado no romance homônimo de Truman Capote, foi, sem dúvida, uma dos filmes emblemáticos dos múltiplos e confusos anos sessenta, mas, não é dele que quero tratar aqui. Tomo-o como pretexto para falar de sua atriz-títular, uma das musas do cinema que mais me encantou e que continua me encantando, cada vez que revisito seus filmes.

Pois é, vamos lembrar Audrey Hepburn (1929-1993)?

Embora de ascendência nobre, Audrey não foi sempre a figura leve e delicada que imaginamos haver sempre habitado um mundo de bem-aventurança: na realidade, passou por momentos difíceis na sua juventude.

Filha de banqueiro inglês com baronesa holandesa, nasceu em Bruxelas, Bélgica, onde, ainda muito jovem, testemunhou o terror nazista e passou maus pedaços. Chegou a ser assistente de enfermeira durante a guerra, período em que conviveu com tanto sofrimento que, muitos anos depois, quando já estava em Hollywood e famosa, recusou-se a interpretar, na tela, a garota Anne Frank (aquela do diário), alegando que não suportaria reviver o passado.

Depois da guerra, e com a separação dos pais, mudou-se para Londres onde estudou balé e música. Para o cinema britânico atuou em sete ou oito filmes pequenos, em papéis irrisórios, quase sempre de garçonete ou recepcionista de hotel.

Sua vida deu uma virada quando foi indicada para fazer o papel-título da peça “Gigi” nos palcos da Broadway, uma indicação da própria Colette, autora da peça, que a vira em algumas de suas pontas nas telas. O estrondoso sucesso teatral de “Gigi” conduziu-a diretamente às câmeras de Hollywood.

Contracenando com Gregory Peck, estreou em “A princesa e o plebeu” (1953), filme onde, mui apropriadamente, ela faz a princesa do título, cansada da sufocante “noblesse” que “oblige”. Impressionado com o seu talento, Peck – treze anos mais velho que ela e já consagrado havia muito – insistiu, junto aos produtores, em que o nome dela tivesse, nos créditos, a mesma dimensão do seu, pois apostava que o Oscar de melhor atriz do ano iria para essa novata no cinema americano. E foi.

Com um Oscar nas mãos, as coisas se tornaram mais fáceis. Embora ainda ganhando pouco (cerca de 15 mil dólares) foi escalada pela Paramount para o papel-título de “Sabrina” (1954), uma comédia romântica, baseada na peça de Samuel Taylor e também sucesso na Broadway. O nada romântico Billy Wilder dirigiu o filme, os nada cômicos Humphrey Bogart e William Holden atuaram e ela, a princesa premiada, ganhou o papel de filha de motorista da mansão Larrabee. Pode?

Bem, de filha de motorista (vocês lembram, não é?) ela vira senhora Larrabee no final – o filme foi um sucesso e definitivamente consolidou a sua carreira de estrela do cinema. No próximo ano, casada com o colega Mel Ferrer, ela já estava no elenco da superprodução “Guerra e Paz” (King Vidor, 1956) como a delicada Natasha, e, daí em diante, a sua fama, junto com os honorários, não parou mais de subir.

Quando, dirigida por Blake Edwards, fez o nosso “Bonequinha de luxo” para a Paramount, o seu salário já estava perto de um milhão, e já era conhecida como uma das mulheres mais elegantes do mundo, encarnando uma espécie de elo icônico entre cinema e moda, sempre (desde “Sabrina”) vestida pelo mestre e amigo Givenchy.

Apesar do tema geográfico da letra, o compositor Henry Mancini não escondia que compôs a melodia de ´Moon River´ pensando nela – o que deu (tomara que vocês lembrem!) uma das imagens mais amadas na história da sétima arte: na janela do seu apartamento, uma Audrey melancólica dedilha e solfeja a bela canção de Mancini, espiada de longe pelo seu vizinho, jovem escritor em crise de criação. Contam que, depois do filme montado, os executivos da Paramount quiseram, por motivos mercadológicos, cortar a cena, e ela, categórica, teria respondido: “só se for por cima do meu cadáver”.

Qual o melhor filme de Audrey? Nem todo mundo acha que seja “Bonequinha”. Uns citam o drama religioso “Uma cruz à beira do abismo” (Fred Zinnemann, 1959); outros apontam o faroeste “O passado não perdoa” (John Huston, 1960); outros preferem o suspense “Um clarão nas trevas” (Terence Young, 1967). Há até quem mencione “A flor que não morreu” (1959), filme mal sucedido de crítica e público que o marido, Mel Ferrer, dirigiu, com base no romance de William Henry Hudson…

Talvez por influência de “A princesa e o plebeu”, Audrey fez, com freqüência, o papel de mocinha apaixonada por um cara mais velho. Para citar alguns exemplos, além de “A Princesa” e “Sabrina” (Bogart tinha 55 anos então), lembremos: “Amor na tarde” (Gary Cooper, perto dos 60 anos), “Cinderela em Paris” (Fred Astaire idem), “Charada” (Cary Grant idem), e – uma de suas mais impressionantes interpretações – “My fair lady”, com o quase sexagenário Rex Harrison.

Mas, evidentemente, não foi isso que a caracterizou. Caracterizaram-na o seu talento, a sua elegância, a sua finesse, e, last but not least, a sua beleza.

“Com o rosto que tenho, nunca pensei que fosse parar no ramo do cinema” dizia Audrey de si mesma.

Como estava enganada. Treze anos depois de sua morte, em 2006, foi eleita pela equipe da Revista “New Woman”, a mulher mais bela de todos os tempos.

Como se os fãs de Audrey Hepburn precisassem de eleições…!