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Real beleza

13 ago

 

Uma dona de casa apaixona-se por um fotógrafo que visita sua casa. “As pontes de Madison”? Não, “Real beleza” (2015), filme de Jorge Furtado, em cartaz na cidade e no país.

Pois é, mas as semelhanças com o filme de Clint Eastwood ficam por aqui. João, o fotógrafo de Furtado, não está interessado em paisagens, mas em pessoas, no caso, modelos, mais especificamente, na modelo de seus sonhos que, no início da narrativa, ele ainda não tem ideia de quem seja, ou que traços tenha.

Para encontrar essa real beleza, ele fotografa muitas centenas de adolescentes, todas descartadas logo em seguida, uma atrás da outra. “O que você procura?” lhe pergunta o colega de trabalho, intrigado com os descartes. E a resposta não demora a vir: “Não sei, mas quando achar, você verá!”

A novata Vitória Strada como Maria.

A novata Vitória Strada como Maria.

Ao encontrar Maria, João reconhece de imediato a beleza que procura. O encontro é epifânico, porém, quando o caminho parece ser este, digo, a estória de João e Maria, vem o turning point, bem ao estilo Furtado.

Como os pais de Maria (a novata Vitória Strada) não consentem na carreira de modelo, João (Vladimir Brichta) toma a iniciativa de visitá-los, para o devido convencimento. Nessa idílica casa de campo do interior gaúcho, só encontra a mãe da moça, Anita (Adriana Esteves), e é aqui que Eastwood dá uma mãozinha. Nos poucos dias em que, a convite de Anita, fica hospedado, uma paixão vai surgindo entre os dois, de modo que quando o marido, Pedro (o veterano Francisco Cuoco) – um senhor idoso e quase cego – aparece, o mal, ou seria o bem, já está feito.

Mas, ao contrário do que ocorre nos grandes melodramas sobre ´mulheres apaixonadas fora do casamento´, aqui a figura do marido traído não é nada pequena. Para João, essa figura já se agigantara antes do anfitrião chegar, ao ver sua vasta biblioteca, e agora, na sua presença, as impressões favoráveis aumentam, por exemplo, com a descrição incrivelmente minuciosa que esse cego faz de uma fotografia de Cartier-Bresson, aquela famosa, em que um cidadão anônimo salta sobre o calçamento molhado de uma rua qualquer.

Vladimir Brichta e Adriana Esteves em cena do filme.

Vladimir Brichta e Adriana Esteves em cena do filme.

Aliás, erudição é o que não falta nessa mansão, e desde que chegou João escuta citações de autores que leu ou que só conhece de ouvir falar: Molière, Shakespeare, Borges… Até a ideia que defende da indefinição da beleza, vem da boca da mãe da moça, via Guimarães Rosa: “ só conhecemos o que não entendemos”.

Tudo bem, são certamente preferências literárias de Furtado, mas elas entram no diálogo, nas caracterizações dos personagens e nas situações, de modo mais que apropriado e, inevitavelmente, enriquecem o efeito geral do filme.

Tão grande é a figura de Pedro o marido, esse intelectual refinado que nunca escreveu uma linha, que ela determina o desenlace. Ao invés de acompanhar a filha na viagem para São Paulo (como querem todos, sobretudo João), Anita decide que vai ficar em casa, como sempre faz, a ler para o esposo sem visão.

Numa cena sintomática, ela dele se aproxima na sala de estar para comentar e perguntar: “A mesma cadeira, a mesma música, a mesma mulher: você não se cansa?” O que ele responde é irrelevante para o espectador, pois, como nos grandes melodramas de David Lean, Michael Curtiz ou Douglas Sirk é muito mais o conflito dela o que nos interessa.

Um pouco mais tarde, indagada pelo próprio marido (que, cego, vê mais do que se pensa), ela responde que a relação com João foi boa, e acrescenta, “muito boa”, mas “nada é tão bom que substitua isso” e lhe desfere um beijo na boca.

Fotografia e amor...

Fotografia e amor…

Que o amante também se dobra ao desenlace, fica claro, em dois momentos: (1) quando ri ao descobrir que a mentirosa estória da mulher que manda bilhetes eróticos ao cego idoso, é uma apropriação do “Decameron”; e (2) quando, na despedida, esse mesmo cego sabendo-se idoso e doente, consola o rival dizendo “Você não vai esperar muito”, e a resposta de João é: “Não tenho pressa”.

E parte, com a jovem modelo ao seu lado, confiante em, no futuro, vir a ter a mãe da moça, uma mulher de meia idade, igualmente bela.

Mais do que sobre a busca do belo, o filme é sobre o conceito mesmo de beleza. Afinal de contas, o que é o belo e para que o queremos? Apesar do adjetivo “real” no título, o filme de Furtado não oferece resposta, e nos deixa com o benefício do paradoxo: a beleza da adolescente Maria, o fotógrafo profissional João só a quer em fotos; a beleza de Anita, ele a quer entre seus braços. Uma espécie de esquizofrenia estética que o espectador aceita… ou não.

De todo jeito, o filme é assistido com extremo interesse. Mais ainda, por quem conhece a curiosa trajetória fílmica de Jorge Furtado.

A equipe do filme, posando para a imprensa.

A equipe do filme, posando para a imprensa.

 

A nau dos insensatos: prevendo Altman

8 jul

O mundo não passa de uma nau desgovernada, rumando ninguém sabe para onde, repleta de passageiros de pouco ou nenhum juízo.

Em forma de lenda sombria, essa concepção pessimista da humanidade vem de longe, provavelmente da Idade Média, quando a navegação era vista como algo feio. A lenda virou imagem no famoso quadro de Bosch “Nau dos Insensatos” (1490) e, depois, sátira filosófica no livro homônimo de Sebastian Brant (1494). E de lá para cá, nunca saiu do imaginário das artes e da literatura. Até Foucault, como se sabe, tratou dela nos seus escritos sobre a loucura.

No começo dos anos sessenta, a escritora americana Katherine Anne Porter retomou essa concepção lendária, lhe inventou forma ficcional, e não se incomodou de dar a seu romance justamente este título “Ship of Fools”, que narra a viagem de um navio alemão que sai de Vera Cruz, México, com destino a Bremerhaven, Alemanha, num tempo – 1933 – em que o nazismo começava a botar suas feias garras de fora.

O quadro de Bosch

O quadro de Bosch

Uma condessa viciada em drogas, um médico de saúde fraca, um senhor grosseiro que defende idéias racistas, um judeu ingênuo que acha que ninguém vai magoar sua raça, um pintor frustrado, um jogador de baseball estabanado, um gigolô que camufla a profissão com coreografia, uma divorciada que amarga a solidão, um anão debochado… e, no subsolo, toda uma população de miseráveis que estão indo para um destino incerto como mão de obra barata. Tais são os personagens do romance, cada um com seu drama e sua estória própria.

O livro de Porter fez tanto sucesso que o produtor e diretor Stanley Kramer resolveu levá-lo às telas, e em 1965, o filme “A nau dos insensatos” (“Ship of fools”) estreou no mundo todo, concorrendo ao Oscar com sete indicações, das quais levou duas: melhor fotografia (Ernest Laszlo) e melhor direção de arte.

No filme, é o anão Glocken (Michael Dunn) quem faz a narração mais ou menos onisciente. Dirigida à câmera, sua primeira fala tem valor de alerta: “Meu nome é Karl Glocken e este é um navio de loucos” – nos diz ele. E depois de mencionar alguns dos passageiros e suas características mais visíveis, acrescenta: “E, quem sabe, se você olhar bem de perto, pode até ver você mesmo a bordo”.

Simone Signoret e OsKar Werner em cena do filme

Simone Signoret e OsKar Werner em cena do filme

O enredo é difícil de resumir, pelo simples fato de o filme ser um painel narrativo. Como no romance, cada personagem vive uma situação particular que só acidentalmente tem a ver com as dos outros passageiros. Por exemplo, a coroa sulista feita por Vivien Leigh pouco tem a ver com o jogador de baseball feito por Lee Marvin, e, se se tocam, é porque estão forçosamente no mesmo ambiente.

Acho que o caso mais amarrado do ponto de vista narrativo – e provavelmente com mais ´tempo de tela´ – é do Dr Schumann (Oskar Werner) e a Condessa viciada em entorpecentes (Simone Signoret): no processo do atendimento médico, os dois vão se envolvendo até, formarem, embora casados, um par amoroso. Sintomaticamente, são os dois únicos cujos destinos ficam divisados na chegada à Alemanha – ela, como diegeticamente previsto, levada à prisão; ele, como diegeticamente provável, morto.

Embora os problemas que afetem os personagens variem (da mocinha virgem que quer liberdade, ao rapaz que agride o pai paraplégico para pagar uma garota de programa), há, sim, uma temática subliminar que perpassa a viagem – a ascensão do nazismo, tanto mais grave pelo fato de a destinação do navio ser justamente a Alemanha de Hitler.

Talvez o espectador de hoje venha a estranhar o modo como os personagens desafogam os seus problemas privados uns aos outros, com uma franqueza pouco plausível, já que se trata de desconhecidos. Aquela mocinha chorosa, no convés, desabafando suas mágoas a um senhor, conhecido só de vista, é um exemplo que vem ao caso. A impressão – se não a justificativa – é que o filme é curto para o número de casos, e, assim, não teria havido o tempo necessário para o desenvolvimento dos vários relacionamentos.

Um casal improvável: Lee Marvin e Vivien Leigh

Um casal improvável: Lee Marvin e Vivien Leigh

Ao desembarcar, Glocken volta a se dirigir ao espectador: “você deve estar se indagando o que tem a ver com isso”, e responde ele mesmo: “nada”, quando, ironicamente, a essa altura, o espectador já está convencido do contrário.

Vi “A nau dos insensatos” nos anos sessenta, no saudoso Cine Municipal, mas agora, revendo-o em casa, me ocorre uma associação que não poderia ter feito na época de sua estréia – de alguma forma, ele prediz e promete a obra de um cineasta da segunda metade do século XX. Refiro-me ao grande Robert Altman, com suas amplas narrativas, superlotadas de personagens que, por uma circunstância qualquer, circulam no mesmo espaço e no mesmo tempo, na maior parte dos casos sem familiaridade entre si, e cujos paradeiros, com maior ou menor conseqüência, apenas se tocam.

Pois é, seguindo um certo conselho do sábio Borges, inverti a cronologia e li o filme de Stanley Kramer à luz de Altman. Foi legal e surtiu efeito.

A tripulação e os passageiros do subsolo

A tripulação e os passageiros do subsolo

Perdidos na estrada

29 jul

Escrito em 1951 e só publicado em 1957, “On the Road” (no Brasil: “Pé na estrada”) é há muito considerado um dos romances mais influentes do Século XX. O seu autor, Jack Kerouac, foi um dos cabeças da chamada ´Beat Generation´, movimento poético-literário que, com agressividade e escândalo, mexeu com os conceitos de literatura e de comportamento nos Estados Unidos dos anos cinqüenta.

Autobiográfico, o romance contava as aventuras de Sal Paradise e seu amigo Dean Moriarty, que se conhecem após a morte do pai daquele, e, entre 47 e 50, se deslocam país afora, em sucessivas e tresloucadas viagens de automóvel, que se assumem como fuga ao Establishment e busca de uma verdade interior mais profunda que a convenção social e familiar. O consumo de drogas, jazz e sexo faz parte dessa busca por novos valores que justifiquem a existência.

Como um ´roman à clef´, o livro camuflava personagens reais em nomes fictícios, três dos quais são os principais componentes do movimento Beat, a saber: o próprio Kerouac (como Sal Paradise), Allen Ginsberg (Carlos Marx) e William Burroughs (Old Bull Lee) – estes dois últimos futuros autores de poemas que definiriam a atitude Beat para o mundo, a saber “Howl” (`Uivo´) e “Naked Lunch” (´Almoço despido´).

Por outro lado, ou pelo mesmo, o romance também era a estória de uma amizade entre dois rapazes (Dean e Sal), ambos obcecados com a fúria de viver intensamente, e um deles com uma obsessão a mais: a de pôr em palavras a experiência dessa fúria.

Apesar do título, é a narração dessa amizade “furiosa” – mais que a aventura automobilística pelas estradas americanas – o que está no filme de Walter Salles, “Na estrada” (2012), adaptação direta e, posso dizer, apaixonada, do livro de Kerouac, recentemente em cartaz em João Pessoa.

Para quem conhece o romance, é possível sentir o empenho de Salles em ser fiel a Kerouac e sua proposta – diálogo, mise-em-scène, fotografia, caracterizações e reconstituição de época são perfeitos e o espectador, de fato, se reporta à América dos anos cinqüenta e (re)mergulha no clima de inconformismo e rebeldia de uma geração que, não de muito longe, prenunciou o advento da era hippie.

Já para quem não conhece o livro, tenho dúvidas se a curtição será a mesma. Para pôr tudo nos 130 minutos do filme, Salles teve que cortar muitas páginas, indicando na tela os “pulos”, no início de cada nova sequencia, com as referências gráficas ao novo local e data onde os personagens se encontram. Resultado: são tantos locais e datas que o espectador desatento corre o risco de se perder no mapa diegético e ficar com a sensação de acúmulo repetitivo de viagens, sem uma linha dramática amarrada.

Claro que a competente narração de Salles faz seus acréscimos compensatórios, no sentido de sustentar essa linha dramática. Sem muito espaço, lembro só um pequeno exemplo: naquele momento em que a segunda esposa de Dean, Camille, rompe com ele, os dois rapazes, Sal e Dean, vão embora e com ela ficamos a sós no quarto, nós e a câmera, acompanhando o choro e o olhar desalentado da moça para a criança no berço. Vejam bem: a estória toda nos é narrada por Sal que, sem estar presente no quarto, não pode haver testemunhado isto que vemos. Vários destes oportunos “contributos” paralépticos vão ocorrer ao longo de um filme cujo refrão é, afinal de contas, o ato de escrever do protagonista, que não larga papel e lápis, ou, quando pode, uma máquina datilográfica.

Uma influência definitiva para Kerouac foi Marcel Proust, cujo livro “Swan´s way” (“No caminho de Swan”) aparece várias vezes no filme, ao lado do escritor Sal, a câmera sempre lhe destacando a capa brilhante. Afinal, uma associação mais que verídica, lógica.

 

 

Bem, resta perguntar quais as influências de Walter Salles. Não ponho a mão no fogo por nada, mas, fico pensando se aqui não estão ecos de pelo menos dois filmes marcantes na história do cinema moderno, que, com ou sem estrada no meio, narraram estórias de amizades masculinas, por coincidência ambos de 1969: “Sem destino” (Dennis Hopper) e “Perdidos na noite” (John Schlessinger).

Vejam que, como aqui, aquele primeiro filme termina sua viagem numa espécie de “inferno” ( aqui México e New Orleans lá) e que, também como aqui, o segundo faz os dois amigos se envolverem a um nível que beira a homossexualidade, sem contar que tanto o Joe Buck de Schlessinger, como o Dean de Salles chegam ao extremo de cometer sodomia por dinheiro.

Eu sei, eu sei, Hopper e Schlessinger é que devem ter sido influenciados pelo livro de Kerouac, porém, como nos assegura o bruxo Borges, toda intertextualidade é vai-e-vem, e nada impede Salles de ter ouvido os ecos desses dois filmes, com os seus personagens, todos eles, – tanto no bom como no mal sentido da palavra – igualmente perdidos…