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Censura clássica

28 dez

Toda essa polêmica atual em torno de censura em biografias, e alhures, me faz lembrar os velhos tempos – primeira metade do século XX – quando proibições eram praxe em qualquer forma de arte.

No cinema, então, nem se fala. Em sua fase áurea, produzindo mais de mil filmes por ano, Hollywood teve que conviver com o Código Hays de Censura que determinava que um beijo, na tela, só podia durar oito segundos e os corpos dos beijantes tinham que estar na vertical.

Will H. Hays, o homem que deu nome ao Código

Will H. Hays, o homem que deu nome ao Código

Vejam bem: desde o cinema mudo, comunidades religiosas nos Estados Unidos vinham reclamando do que achavam que fosse falta de decência nos filmes, tanto nas imagens, como nos temas e enfoques. E foi justamente por causa desses protestos populares crescentes, encabeçados pela famosa Liga da Decência, que, em 1930, os estúdios elegeram Will Hays para ser o redator e defensor público do tal Código. Senador presbiteriano e ex-membro do gabinete do presidente Warren G. Harding, Hays era uma figura respeitável que poderia dar um lustre de moralidade a Hollywood.

Rigoroso no terreno moral, o Código, de início, não vingou bem, e os filmes dos primeiros anos da década de 30 continuaram com praticamente a mesma licenciosidade dos seus predecessores mudos. Para dar um só exemplo, a escandalosa Mae West, musa sensual dessa fase, que o diga.

Foi então que, a partir de 34, adentrou os bastidores hollywoodianos uma espécie de eminência parda da censura, disposto a fazer valer o Código a todo custo, e não só isso, lhe acrescendo especificações detalhadas – um exemplo entre muitos, a cronometragem oscular.  Assessor de Hays para a Costa Oeste, esse censor à toda prova se chamava Joseph Breen, e embora os historiadores do cinema lhe dediquem pouca atenção, foi ele, e não Hays, o verdadeiro vilão da tela, em quase todo o período hoje entendido como clássico.

O código burlado: beijos repetidos em "Interlúdio" (1945)

O código burlado: beijos repetidos em “Interlúdio” (1945)

De sua intransigência dou um único exemplo: enquanto no item “Cenário”, o Código dizia apenas que (cito) “os quartos de dormir devem ser tratados com bom gosto e delicadeza”, Breen foi mais longe, proibindo sumariamente a imagem da cama de casal, que os cenógrafos de Hollywood foram forçados, a partir de então, a substituir por dois leitos de solteiro.

Sem espaço para muito, aqui me limito a citar um ou outro item do Código Hays, como o leitor verá, alguns bastante rígidos, outros nem tanto.

O princípio geral do Código rezava que (cito) “não se produzirão filmes que venham a rebaixar a moral, suscitando a simpatia do público por vícios, pecados, ou pelo Mal”. Depois do que se seguiam as “Aplicações particulares”, com os vários temas: violações da lei, crimes, drogas, sexo, obscenidades, blasfêmias, assuntos repugnantes, etc.

Há coisas absurdas, hoje politicamente incorretas, e ademais, anticonstitucionais, como (cito) “são proibidas relações amorosas entre brancos e negros”, porém, em compensação, várias cláusulas, sobre outros problemas, estavam redigidas mais frouxamente, de modo a deixar janelas abertas para os realizadores, como esta sobre o adultério: “por vezes necessário ao assunto do filme (sic), não deve ser tratado de forma atrativa”. Considerem: se não fosse a primeira metade da cláusula, como se praticaria um dos gêneros mais queridos da época, o melodrama?

Nada de relações entre brancos e negros. Aqui cena de "Adivinhe quem vem para jantar".

Nada de relações entre brancos e negros. Aqui cena de “Adivinhe quem vem para jantar”.

De minha parte, confesso que encontrei no Código um item de que muito gostei, a saber, a proibição de se explicitar “operações cirúrgicas”.

O Código Hays de Censura por inteiro está citado no livro do crítico e historiador francês Patrick Brion “Les secrets d´Hollywood” (La Librairie Vuibert, 2013) que dedica um capítulo todo a sua discussão.

Ao livro de Brion – ainda sem edição brasileira – pretendo voltar em outras ocasiões, mas aqui não posso deixar de registrar a idéia central do autor sobre o papel do Código Hays na Hollywood clássica. Segundo Brion, ao invés de inibir os roteiristas e cineastas em atividade na época, ele lhes estimulou a criatividade para inventar truques cinematográficos que driblassem o texto da lei. Brion não cita o exemplo, mas acho que o caso mais “notório” (!) é o famoso beijo repetido de Cary Grant e Ingrid Bergman no hitchcockiano “Interlúdio” (“Notorious”, 1946).

Na verdade, a gente sabe hoje que, nos seus últimos anos de vigência (de 34 a 64), o Código Hays de Censura já estava aos frangalhos, muitas vezes atacado, sem dribles, de forma direta, pela ousadia de cineastas corajosos. Como comecei falando em beijos, sustento o tema e lembro o de Deborah Kerr e Burt Lancaster em “A um passo da eternidade”, um beijo demorado (mais do que os oito segundos permitidos) e nada vertical (o casal está deitado, e pior, com pouca roupa), e isto – considerem! – ainda em 1953.

O beijo ousado para 1953: "A um passo da eternidade"

O beijo ousado para 1953: “A um passo da eternidade”

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Lágrimas do céu

26 nov

A seca está braba. Há muito não cai uma gota do céu e o gado todo está morrendo no solo pedregoso e poeirento. Sem saber o que fazer, os habitantes dessa cidadezinha do Interior andam apreensivos. Como toda calamidade tem os seus aproveitadores, eis que, nessa casa de sítio afastada, aparece esse embusteiro, dizendo que, por cem paus, é capaz de fazer chover.

Entre incrédulos e esperançosos, o dono da casa e o filho mais novo pagam para ver cair água do céu, enquanto que a filha e o filho mais velho se negam a entrar na jogada desse óbvio charlatão.

A estória não parece enredo de filme brasileiro, daquele tipo comédia adaptada de peça de Ariano Suassuna?

Pois não é. Produção da Hollywood dos anos 50, o filme é bem americano: tão americano que quem faz o charlatão é ninguém menos que Burt Lancaster, e quem faz a mocinha incrédula e hostil ao forasteiro é ninguém menos que Katherine Hepburn. O título original é “The rainman” (´o homem-chuva´), mas os distribuidores brasileiros preferiram ser mais metafóricos e tascaram “Lágrimas do céu” (1956).

E deu certo. Sim, deu certo porque o enredo do filme não fica só na Seca, que, na verdade, nessa família de rancheiros, parece ser um problema colateral. O central mesmo é o destino afetivo da moça da casa (Hepburn) – a única, pois a mãe é falecida – essa solteirona virgem que os três homens querem ver casada de todo jeito, uma tarefa difícil, pois, para desespero dos três, os pretendentes andam mais escassos do que a chuva.

Evidentemente, o grande lance do roteiro é misturar seca com amor, ou explicando melhor, falta de água com falta de sexo. Logo cedo o intrometido “provedor de chuva” percebe o drama da família e, por conta própria, se empenhaem ajudar. Elesabe que ninguém produz chuva, nem mesmo ele que a promete, mas sabe também que amor, ao contrário, é coisa mais ou menos produzível, a depender do empenho.

O difícil é convencer a moça que, embora carente, é esnobe e teimosa, e, pior, mais inteligente do que qualquer dos habitantes locais. Mas o que uma boa conversa entre um homem e uma mulher não faz, sobretudo se acontecer num lugar isolado, como o celeiro do sítio! Quando finalmente, os dois trocam uns amassos – e, pode-se dizer, falando metaforicamente, que, neste momento, chove na terra seca da moça – o irmão mais velho (Lloyd Bridges) entra em pânico, porém, o pai (Cameron Prudhomme) e o irmão mais novo (Earl Holliman), não: estes vibram com o fato, alegando mais ou menos aquele princípio de que, quem não tem cão caça com gato mesmo.

Mas, por mais “molhada” que estivesse agora a sua terra íntima, como seria possível uma moça de família unir-se a um manjado trapaceiro que pegou a grana da família e, afinal de contas, não fez chuva nenhuma, salvo – bem entendido – a metafórica?

Bem, em toda boa comédia hollywoodiana este é o momento do turning point, a virada no enredo que muda tudo: é neste momento que re-aparece um eterno pretendente da moça, o confuso e indeciso xerife (Wendell Corey), que só se decide a pedi-la para si quando, visivelmente umedecida, a moça faz menção de ir embora com o forasteiro que a molhou.

Não sei como termina o texto adaptado, digo, a peça de Richard Nash, mas, dirigido pelo também homem de teatro Joseph Anthony, o filme não fere muito os códigos hollywoodianos de censura da época. Talvez – quem sabe? – a minha reconstituição da estória contenha mais implicações sexuais do que o próprio filme. No final de tudo, e afinal, cai, com relâmpagos e trovões, a chuva esperada, digo, a literal, e o forasteiro – que devolvera honestamente os cem paus – volta para pegar o dinheiro. O que fica mesmo sem pagamento é a chuva metafórica, a que, miraculosamente, fez desabrochar a solteirona Katherine Hepburn.

No todo, uma comédia divertida, teatral mas nem tanto, ingênua mas nem tanto, convencional mas nem tanto, com um elenco de primeira, dando o melhor de si – curiosamente, um filme obscuro a que nunca ouvi cinéfilo algum referir-se. Uma dessas preciosidades que só a eletrônica dos nossos tempos resgata.

Nem todo mundo sabe, mas, simbolismos sexuais à parte, o Sul dos Estados Unidos, onde a estória de “Lágrimas do céu” ocorre, pode, no verão, ficar tão árido quanto o sertão do Nordeste brasileiro. De minha parte, fico pensando que tratamento cinematográfico daríamos, nós, brasileiros, a essa mistura de seca e sexo, se, como imaginado na abertura desta matéria, o texto original fosse nosso.