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LÁGRIMAS TARDIAS

19 fev

 

Quem iria ver um filme de um tal de Byron Haskin? Ninguém.  E se o filme for de 1949, com Lizabeth Scott, Arthur Kennedy e Dan Duryea? Nada disso ajuda muito e se você vai ver “Lágrimas tardias” (“Too late for tears”) é porque – como eu – é doido por filmes noir. Vai ver e não se arrepende.

A estória já lhe prende do início. Nos arredores de Los Angeles, esse casal que dirige em uma rodovia à noite toma um susto com um carro que vem em sentido contrário e quase abalroa. Depois do susto, notam que o motorista lhes jogou uma maleta preta. Curiosos abrem e, pasmos, constatam que a maleta está repleta de dinheiro. Pelo menos uns sessenta mil dólares.

O marido Alan Palmer (Arthur Kennedy) pensa em entregar esse tesouro à polícia, mas a mulher, Jane (Lizabeth Scott) não quer nem ouvir falar disso. Concordam que guardarão a maleta misteriosa por uma semana, tempo para pensar, conversar e decidir. Isso é só o comecinho do filme, e, pergunto, quem conseguiria parar aí?

Logo cedo, as concordâncias conjugais vão desaparecendo: “Não vê – pergunta Jane ao marido – que esse dinheiro foi literalmente jogado nas nossas mãos?” Ao que Alan responde: “Não percebe, Jane, que isso é uma bolsa de dinamites, algum pagamento indevido, provavelmente de chantagem?”

Assídua no gênero noir, Lizabeth Scott faz muito bem a típica femme fatale. Não que seja bonita, mas, ambição (e maldade) é o que não lhe falta e, claro, um certo cínico poder feminino de sedução.

Até o gangster Danny Fuller, feito pelo típico vilão de filmes noir Dan Duryea, ela consegue até certo ponto ludibriar. Ele que só confia, desconfiando. O apelido que ele lhe dá é perfeito: “tigresa”. Aquele beijo que os dois trocam, quando as más intenções recíprocas já estão bem postas, entra muito bem na galeria dos “beijos malvados” que um dia pretendo aditar e enviar de presente aos amigos cinéfilos.

Cada um tem seu instante de fraqueza, mas, isto é coisa pontual. Danny despencando pra embriaguez no momento de – sugestão de Jane para eliminar a cunhada Kathy, que dela desconfiava – comprar veneno pra uma segunda vítima, e Jane desmaiando ao constatar que o ticket que guarda a maleta do dinheiro na Estação Rodoviária fora substituído por um cartão em branco.

O enredo não é novidade (tudo girando em torno de uma maleta de dinheiro) nem precisa ser. O noir era feito disso – de um amontoado de clichés, cuja mistura sempre funcionava às maravilhas. Como se sabe, ajudavam muito nesse efeito, as angulações distorcidas, os jogos de luzes e sombras, e em particular a trilha sonora. Não esqueçamos: eram filmes baratos, realizados às pressas, para preencher o programa da semana, sem fiscalização das produtoras, e nunca foram feitos para ganhar Oscar. Nem ganharam. Sem a cobrança dos Estúdios, os diretores, menores ou maiores, se sentiam à vontade para rodar o filme do jeito que quisessem. É o caso desse Byron Haskin aqui.

Revendo “Lágrimas tardias” hoje, depois de tanta água rolada, dá pra notar como a tal maleta cheia de grana era um mero pretexto para pôr a estória em andamento e para revelar as características pessoais dos protagonistas, em termos modernos um autêntico “macguffin” – invenção genial do teórico da narrativa Alfred Hithcock.

Sim, há alguns turning points que conduzem a um final relativamente imprevisível, mas o núcleo da maleta perdura. Um desses turning points é o aparecimento súbito e inexplicável desse Don Blake (Don Defore), um suposto amigo do marido de Jane (este agora desaparecido, e, a gente sabe, morto).

O envolvimento de Blake com Kathy, a cunhada e vizinha de Jane, é o que vai dar ao espectador a esperança de que o mundo não é só dos malvados. A presença e ação do casal é que vão levar à revelação do passado criminoso de Jane/Lizabeth Scott e à solução do problema. Inevitavelmente, a tese é a de que “o crime não compensa”.

Mais um clichê, mas quem se importa?

Sobre meninos e medos

21 ago

Que bons que eram os anos cinqüenta! Tudo bem, eu sei, tinha ocorrido, havia pouco tempo, o nazismo, o holocausto, a bomba atômica, e estávamos em plena guerra fria, mas, para um garoto brasileiro de dez anos de idade, isso era só notícia de jornal. Não dava medo.

 Ameaças temíveis mesmo só nas telas dos cinemas. Uma que tirou o sono da meninada foi “A guerra dos mundos” (“The war of the worlds”, Byron Haskin, 1953). Quanto pesadelo!

Vocês lembram, não é? Nos arredores de uma cidadezinha americana, que, em nossa imaginação infantil, bem poderia ser Piancó ou Guarabina, cai um meteoro fumegante e, para o pavor de todos, logo se descobre que se tratava de uma nave espacial vinda de Marte, com o propósito de dizimar os humanos e apossar-se do planeta. As nossas armas não surtem efeito contra os invasores e até a bomba atômica se revela ineficaz. O que fazer?

Imagino que, para a meninada da época, o momento mais apavorante deve ter sido aquele em que o padre da localidade, rezando e de crucifixo na mão, convicto de que a fé removeria alienígenas, dirige-se em pessoa ao disco voador e é sumariamente fulminado pelos raios radioativos dos inimigos. Esse é o clímax do enredo, para não deixar dúvidas a ninguém quanto às intenções malignas e ao poder insuplantável dos invasores.

Para aliviar a tensão – ou seria para aumentá-la? – há um subplot amoroso entre uma mocinha do lugar (Ann Robinson) e o jovem cientista (Gene Barry) que comparece ao local para enfrentar o problema. Ao casal, dedicam-se várias cenas interiores em que os assédios dos extraterrestres são quase sempre metonímicos – focos de luz e sons – e nem por isso menos horripilantes.

O providencial happy end vem na forma de nossas bactérias – inofensivas a nós, mas letais para os extraterrestres, que desfalecem ao pisar o nosso solo e respirar o nosso ar.

Revi o filme agora e dou razão a quem o considera um dos melhores do gênero science-fiction. Para os parâmetros atuais parece infantil e tolo, mas imagino que os “meninos antigos” de 1953 – entre os quais me incluo – discordariam.

O enredo é magro e as interpretações são, de fato, pobres (alguns atores parecem figuras de cartolina, é verdade), mas, em compensação, a plástica!

Por acaso ou não, juntaram-se, na produção, talentos raros: a direção de arte do grande Hal Pereira, a fotografia de George Barnes, e os efeitos especiais de toda uma equipe de técnicos que, aliás, levaram o Oscar do ano, tudo isso somado ao intenso technicolor da Paramount! Sem coincidência, o diretor Byron Haskin tinha um passado, não de cineasta, mas de iluminador, daí possivelmente o investimento na plástica, em detrimento, por exemplo, da direção de atores.

Baseada livremente no livro de H. G. Wells, a estória é parcialmente narrada em voz over, o que dá ao filme um tom documental, como se estivéssemos assistindo a uma reportagem. São três longas sequências “noticiosas” que se intercalam à diegese, na abertura, no meio, e no final do filme.

O que hoje me leva a indagar se porventura os roteiristas não quiseram pegar carona numa certa famosa transmissão radiofônica de quinze anos atrás: recontando o conteúdo do livro de H. G. Wells como se verídico e atual, o jovem radialista e homem de teatro Orson Welles provocara, na Nova Iorque de 1938, uma calamidade escandalosa que rendeu a CBS processos e mais processos, e que, por outro lado, catapultou o jovem locutor a Hollywood.

De uns tempos para cá, todo filme de ficção científica dos anos cinqüenta é, invariavelmente, lido pela crítica e historiografia como um comentário sobre a Guerra Fria. Nesse sentido, os extraterrestres seriam uma representação americana do comunismo, e as providenciais bactérias terrestres que os eliminam, uma espécie simbólica de anticorpus ideológico, do tipo, fé na democracia, ou coisa do gênero.

Isso pode ter feito sentido na época, porém, neste milênio em que nos encontramos, prefiro me dar ao luxo de ler “A guerra dos mundos” só como cinema. Menos objetivo, o medo que ele tematiza é um pouco mais interno e habita os desvãos mais obscuros do espírito humano – o medo do desconhecido que qualquer criatura, em qualquer circunstância de perigo, experimenta. Aquele mesmo que tirou o sono dos ingênuos meninos de 1953…

Soube que o casal de protagonistas, Gene Barry e Ann Robinson, já idosos, fizeram uma ponta no recente “Guerra dos mundos” de Steven Spielberg (2004), ao qual me reservei o direito de não assistir.