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O grande circo místico

27 nov

Nada simpática a reação da crítica brasileira ao filme de Cacá Diegues “O grande circo místico” (2018), que está na lista internacional dos pré-concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano.

Realmente, o filme tem problemas que não dá para esconder. Vou começar citando um que é curioso pelo fato de ter dois lados: ao mesmo tempo em que é óbvio para quem vê o filme, foi inevitável para quem o filmou.

Refiro-me ao fato de os personagens (e são tantos) não serem psicologicamente desenvolvidos e, assim, parecerem ralos, decorativos, superficiais.

A questão vem do original adaptado. O filme adapta o poema homônimo (1938) de Jorge de Lima que, em tom narrativo, conta a história de cinco gerações… e, pasmem, faz isto em apenas 46 linhas. Ou seja, no próprio poema os personagens não são desenvolvidos, alguns apenas mencionados. A imperatriz Tereza, o médico Frederico Knieps, a equilibrista Agnes, Charlotte e o Clown, Marie e Otto, Lily Braun a deslocadora, Margarette a pretensa freira, o trapezista Ludwig, o boxeur Ruldoph, as gêmeas Marie e Helene… ninguém possui a profundidade psicológica que certamente teriam, se, por exemplo, o texto fosse um longo romance.

Para falar em termos cinematográficos, o poema de Jorge de Lima, por belo que seja (e o é) constitui-se num péssimo “argumento”. Para qualquer filme, aliás.

Acho que preciso explicar o que significa o termo “argumento” em cinema. Argumento é o texto que precede o roteiro. Ele não tem ainda os detalhes do roteiro (planos, enquadramentos, posição de câmera, iluminação, etc), mas, conta, com palavras da língua, como uma pessoa qualquer contaria à outra, toda a estória de filme, do começo ao fim, dando os desdobramentos da estória e os traços principais dos personagens. Geralmente, ele contém de oito a dez laudas, ou mais.

O que aconteceu com Cacá Diegues? Ele tomou o curtíssimo poema de Jorge de Lima como “argumento”, e, inevitavelmente, se saiu mal. Como pôr na tela a história de cinco gerações sem incorrer em simplificação psicológica? Cineasta experiente que é, com certeza ele mesmo viu, desde o início, que o poema era um péssimo argumento, e foi responsabilidade sua a decisão de filmá-lo. Por certo, pensou numa compensação estética para o problema, e a compensação seria rodar um filme igualmente poético, tão poético quanto o original.

Note-se que, com a ajuda das canções de Chico e Edu Lobo (Conferir o disco homônimo, de 1983), e muito capricho nas performances dos atores, Diegues pretendeu fazer um filme lírico, onde as imagens do texto adaptado tivessem equivalentes plásticos na tela. Um caso particularmente sintomático é o das gêmeas Marie e Helena que, num poema de 46 linhas têm direito aos 18 versos finais. E no filme, tomam tempo na longa cena, meio abstrata, da levitação nua, que fecha a estória.

Atenção – espero que tenha ficado claro para o meu leitor: o poema de Jorge de Lima é belíssimo, como tudo que o poeta alagoano escreveu, porém, para uso cinematográfico, é, sim um péssimo “argumento”. Em termos práticos é infilmável, a não ser que você quisesse fazer um filme de sete ou oito horas de duração.

Interessante é observar como, por ironia, o diretor se saiu bem ao modificar o texto adaptado, no caso, com pequenos acréscimos. Com certeza, uma das melhores coisas no filme é a figura, inexistente no poema, de Celavi, o personagem circense que atravessa todas as cinco gerações sem sofrer as alterações físicas do tempo – uma espécie de símbolo da eternidade do circo – a propósito, excelente desempenho do ator Jesuíta Barbosa.

O poema de Jorge de Lima possui um refrão sobre a imprensa. Duas vezes ele diz que a imprensa tem se ocupado de noticiar sobre o circo. Na terceira vez (duas últimas linhas do poema) ele complica essa relação circo vs imprensa, afirmando que “com a verdadeira história do grande circo Knieps / muito pouco se tem ocupado a imprensa”. Claro a diferença agora esta na inclusão da palavra “verdadeira”. Em outros termos, a imprensa veria o espetáculo do circo, mas não a essência. Veria a mágica, mas não a mística.

Acho que Cacá Diegues quis ir no caminho dessa “essência mística” do grande circo… Até que ponto chegou lá, fica a questão em aberto: o tempo que decida.

O cineasta Cacá Diegues

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Como nasceu o Cinema Novo

31 out

Para regozijo dos cinéfilos de plantão, está nas lojas do ramo o livro “Vida de Cinema – antes, durante e depois do Cinema Novo”, do cineasta Carlos Diegues (Rio de Janeiro: Objetiva, 2014).

Autobiografia intelectual de um dos mais importantes diretores de cinema do país, o livro traz, em suas quase 700 páginas, informação imprescindível à memória do cinema brasileiro, recobrindo um périplo de mais de meio século, desde o nascimento do autor, em 1940, ao ano de 1995 – tudo isso cronologicamente dividido em sete grandes seções, cada uma subdividida em inúmeros pequenos capítulos.

Para compensar a extensão do calhamaço, Diegues escreve um “Prefaciozinho” (sic) de poucas linhas, cujas palavras finais, dirigidas ao leitor, são as seguintes: “Fique à vontade. Leia só o que lhe interessa.”

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Foi o que fiz. Fucei aqui e acolá e detive-me nas duas seções, segunda e terceira, que relatam justamente os preparativos, o surgimento e as repercussões do Cinema Novo, de 1957 a 1969, e, claro, de quebra vem todo aquele clima de efervescência artística e política do período enfocado que, como se sabe, não se restringiu ao cinema.

É fato que a bibliografia sobre o assunto, digo o Cinema Novo Brasileiro, já é, a essa altura dos acontecimentos, bastante vasta, porém aqui vamos ter um adicional precioso, que é o tempero do relato pessoal de quem viveu a coisa toda por dentro, e agora a reconstitui a seu modo, e com, ao mesmo tempo, distanciamento e paixão.

Todas as figuras chave do movimento cinematográfico estão lá, as estrelas e as anônimas, e todos os principais fatos, os mais jornalísticos e os nem tanto, e Diegues não se limita a tratar apenas de seus filmes, suas ideias e seus projetos. Ao contrário, de alguma maneira, figuras como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Leon Hiszman às vezes ganham mais destaque que o autor.

Cartaz de "Joana francesa": Jeanne Moreau no Brasil

Cartaz de “Joana francesa”: Jeanne Moreau no Brasil

Além da facilidade do autor em manusear a palavra, um fator que torna a leitura agradável, e mesmo divertida, reside na variedade de tom dos capítulos, uns conceituais, outros epocais, outros ainda anedóticos – alguns essenciais, outros, se você quiser, perfeitamente descartáveis.

Inevitavelmente, o livro tem o problema de todo relato histórico em que o relator foi protagonista, porém, leve no enfoque e descontraído no estilo, Diegues se sai muito bem em equilibrar relevância histórica e vida pessoal. Não sem freqüência, alguns de seus capítulos “teóricos” deixam transparecer um viés existencial, e, mutatis mutandis, muitos de seus capítulos episódicos ganham certa dimensão conceitual.

Com relação ao tema que privilegiei, o que mais se sobressai no livro de Diegues é o seu empenho em ser fiel aos fatos históricos. O Cinema Novo Brasileiro foi mesmo programático como se diz? Sentiu influência das outras vanguardas, como a Nouvelle Vague com seu conceito de ´autor´? Foi ideológico na proporção que hoje em dia se lhe atribui? Pensou em público ou ignorou o conceito em favor da criatividade autoral? Foi desfeito pelos golpes (64 e 68), ou subsistiu?

Estas e outras são questões que Diegues enfrenta sem paranóia e sem medo de errar.

Talvez não seja demais admitir que o autor escreve como quem faz cinema, permitindo ao leitor “visualizar” os fatos, as coisas ou as pessoas. Com certeza, alguns eventos relatados têm qualidade cinematográfica, como se fossem cenas de um filme, às vezes um drama social, às vezes uma tragédia, às vezes uma comédia bufa. Lembro alguns deles.

A esposa Nara Leão e os dois filhos

A esposa Nara Leão e os dois filhos

É, por exemplo, comovente “ver”, na pequena Campos, RJ, durante as precárias filmagens de “Ganga Zumba”, os jovens Antônio Pitanga e Carlos Diegues furtando alimentos no mercadinho local, literalmente para matar a fome que o baixo orçamento da produção os fazia sentir.

Impressionante é, no dia primeiro de abril, a descrição das reações dos intelectuais e artistas cariocas ao golpe militar, por longo tempo todos pensando que tudo não passava de boatos e que, logo logo, o presidente retomaria o poder e falaria tranqüilo à toda a nação. Esperança que só se desfez quando a notícia chegou de que Jango havia fugido, de Brasília para o Rio Grande do Sul.

Hilária é a cena da primeira vez de Diegues no Festival de Cannes, em 1964, junto com Nelson Pereira e Glauber, adentrando o enorme salão, circundados pela sofisticada audiência. O cineasta de “Ganga Zumba” se atrasara na passarela e Glauber, impaciente, o chama em voz alta, pelo apelido “Cacá”, o que provoca nas chiques platéias do Festival, uma gargalhada interminável, já que o termo ´cacá´ em francês significa ´merda´.

Enfim, apesar do tamanho, um livro gostoso de ler e, mais que isso, profundamente instrutivo para se entender não apenas o cinema, mas também o Brasil.

O cineasta Carlos Diegues

O cineasta Carlos Diegues

 

Limite

11 jul

Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos, o mais perfeito já feito, a nossa obra prima cinematográfica insuperável?

Os americanos têm lá o seu “Cidadão Kane”, e nós?

Se, para eleger tal filme, uma enquete fosse feita com os espectadores, não tenho a menor ideia do resultado a que chegaríamos, porém, se os votantes forem críticos, historiados e cineastas, o palpite é fácil: o nosso “Kane” iria ser “Limite”, o longa mudo que Mário Peixoto (1908-1992) lançou em 1931.

Lançou é exagero. Houve uma estreia no Cine Capitólio, na Cinelândia, Rio de Janeiro, e pronto: ninguém mais viu o filme, que continuaria desconhecido para sempre, não fossem as facilidades eletrônicas de hoje em dia.

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Restaurado por uma equipe de pesquisadores nos anos setenta, “Limite” foi, mais tarde, lançado em VHS e cheguei a comprar uma cópia, que, lamentavelmente, o fungo, inimigo da cinefilia, destruiu. Por sorte, ao montar o vídeo “Imagens amadas”, com 100 cenas de filmes, para celebrar o centenário da Sétima Arte em 1995, incluí uma cena de “Limite”. Como, mais tarde, o vídeo foi transposto para DVD, a cena está salva.

Mas, de que trata a nossa suposta obra prima?

Resumir seu enredo é tarefa a que não me arrisco, até porque não parece existir, em “Limite”, uma estória com começo, meio e fim. Há, no melhor das hipóteses, uma extensiva situação dramática: num barco à deriva, em extremo desolamento, um homem e duas mulheres, sem aparente relação entre si, relembram momentos passados de suas vidas. Quase tudo se resume a um conjunto de imagens que mostram essas pessoas desoladas, sem rumo num mar misterioso, por fim parando de remar e aceitando um fim comum. E isso, durante quase duas horas de silêncio. A fotografia preto e branco de Edgar Brasil é bela, mas, para o espectador acostumado com o cinema narrativo, a suprema e difícil abstração plástica e filosófica de “Limite” – convenhamos – pode se tornar pouco digerível.

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Contam que, ao escrever o criativo e inovador roteiro, Peixoto teria procurado gente do mundo cinematográfico para dirigir o filme, e todos (entre eles, Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga) lhe disseram que um roteiro com aquele nível de invenção, só poderia ser rodado pelo próprio autor. E foi o que ele fez: com apoio financeiro da família, juntou uma pequena equipe, e se mandou para os lados de Mangaratiba, praia fluminense que lhe serviu de cenário.

Recém chegado da Europa, onde passara praticamente toda a sua juventude, o inquieto Mário havia bebido nas fontes vanguardistas que eclodiam naquele tempo no velho mundo, e o roteiro de “Limite” brotou de sua imaginação com a força de uma brain storm. É ele mesmo quem explica a temática do filme, alegando que o realizou para provar que o tempo não existe. Aliás, é o que afirma literalmente a epígrafe: “Em nenhum lugar existe tempo algum”.

Mário Peixoto fez “Limite” em 1931, e nunca mais fez mais nada em cinema. Não que não tenha tentado.

Quem conta toda a frustrada trajetória do cineasta carioca, é Sérgio Machado no seu filme de 2001, “Onde a terra acaba”.

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Esse título, “Onde a terra acaba”, foi, na verdade o nome do filme que Peixoto tentou rodar depois de “Limite”. A atriz principal e produtora era a então famosa Carmem Santos, cujo estrelismo serviu primeiramente de estímulo à produção, e em seguida, de empecilho. É que, no meio das filmagens, a atriz, afundada em problemas pessoais, afastou-se e sua ausência terminou por instaurar o desânimo, de forma que o filme nunca foi concluído, dele restando hoje breves tomadas.

O filme de Sérgio Machado relata as outras poucas e frágeis tentativas cinematográficas de Peixoto, seu isolamento no “Sítio do Morcego”, a partir de 1966, e suas igualmente frustrantes experiências com outras artes, entre as quais a literatura. O seu romance “O inútil de cada um”, por exemplo, só veio a ser publicado em 1984, e apenas o volume I.

Pelo menos três cineastas – Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e Walter Salles – depõem sobre Mário Peixoto no filme de Machado, todos ressaltando sua importância para a história do cinema brasileiro, mas, quem sugere uma boa pista para o sentido de “Limite” é Diegues, ao formular a suposição de que “aquele era o rumo que o cinema teria tomado, não fosse o advento do som”.

Voltando à questão do melhor filme brasileiro de todos os tempos, faltou dizer que, na verdade, “Limite” já foi agraciado com este prêmio duas vezes: em 1988, concedido pela Cinemateca Brasileira, e em 1995 – ano do centenário do cinema – concedido a partir de um inquérito nacional do jornal Folha de São Paulo.

Em tempo: este post é oferecido a Glória Gama.

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Um trem para as estrelas

26 mar

Estava outro dia numa roda de amigos cinéfilos quando um deles se saiu com esta boutade extravagante: “todo filme com trem é um filme bom”. A colocação era absurda, mas, engraçado, logo o grupo a assumiu e, aí, passamos a citar filmes que mostravam imagens de trens, e de fato, a grande maioria eram filmes de qualidade.

Mais tarde, pensando no assunto, ocorreu-me que a boutade de nosso amigo não era assim tão absurda. A verdade é que a imagem do trem é, em si mesma, altamente cinematográfica. O trem num romance é só um dado diegético; na pintura, um objeto morto; no teatro, uma impossibilidade. No cinema, ao contrário, visto de fora ou de dentro, parado ou em movimento, o trem é uma coisa viva, como diria a crítica de língua inglesa, profundamente “watchable”, ou seja, boa de se ver.

Não é sem razão que, na história do cinema, o primeiro filme exibido exibiu o quê? Sim, um trem. Nos seus poucos minutos de duração, a película dos irmãos Lumière “Chegada do trem à estação” mostrava o que o título dizia. Um trem corria do fundo da tela para os seus lados e assustava os espectadores que supunham iam ser atropelados. Foi preciso que os exibidores explicassem que não havia perigo, mas, desde esse dia, 28 de dezembro de 1895, trem e tela formaram um par perfeito que rendeu, e vem rendendo, muitos momentos gratificantes.

Pouco tempo depois dos irmãos Lumière, o americano David Wark Griffith fundaria o específico fílmico, com a sua cena paradigmática, onde a imagem do trem era central. Em seus trilhos os bandidos haviam amarrado a mocinha, em cujo socorro corria o mocinho, enquanto, para a agonia dos espectadores, o trem se aproximava. Foi nesse mesmo tempo, primeiros anos do século, que outro pioneiro, Edwin S. Porter, rodaria o seu “The great train robbery” (“O grande roubo de trem”, 1903), onde o trem era tão graficamente importante quanto os outros atores.

Que o trem e o cinema teriam um grande destino comum ficou definitivamente claro em 1926 quando o ator e diretor Buster Keaton exibiu o seu “A general”, comédia absurda, situada na guerra de secessão, em que uma locomotiva era roubada dos confederados, pelos soldado da União, e um jovem sulista solitário se emprenhava em recuperá-la. Aqui, não havia mais dúvidas, o grande protagonista era o trem (chamado de “general”) e ninguém se incomodava com isso. Ao contrário, a crítica internacional gostou tanto que o filme, há muito tempo e ainda hoje, está na relação dos dez melhores do mundo, ao lado de “Cidadão Kane” e “O encouraçado Potenkim”.

Ao longo da história do cinema, os filmes que arrancaram parte de sua força dramática da imagem do trem são tantos que seria ocioso tentar recobri-los. Aqui recordo apenas uma ou outra instância, deixando para o leitor, se for o caso, a compleição da lista.

Os citados até agora são filmes da era muda, mas, o primeiro falado a ser mencionado suponho que deve ser o “Aliança de aço” (“Union Pacific”, 1939) de Cecil B DeMille que, sintomaticamente, narrava a construção da linha de ferro que, nos Estados Unidos, uniria a costa leste ao extremo Oeste, substituindo a precária diligência. O filme, como vocês lembram, é um épico do gênero – chamemo-lo assim – “western com trem”. Só depois de “Aliança de aço” Fred Zinnemann e John Sturges, por exemplo, poderiam fazer, respectivamente, “Matar ou morrer” (1952) e “Duelos de titãs” (1958), westerns clássicos onde o emprego do trem era essencialmente psicológico, o primeiro podendo ser subentitulado como ´um trem que chega´ e o segundo como ´um trem que parte´.

Contudo, desde Griffith, o trem nunca esteve atrelado a um gênero só: abrangia a todos. Aqui lembro o seu uso emotivo e poético no melodrama de David Lean “Desencanto” (1945) onde o trânsito na Estação inglesa unia e separava o casal apaixonado, cada apito ecoando uma alegria ou uma dor. No mesmo sentido de abrangência, vejam o tom sombrio, fatal ou lúdico, que Hitchcock deu a esse meio de transporte em filmes como “A dama oculta” (1938), “A sombra de uma dúvida” (1943), “Pacto sinistro” (1951), e “Intriga internacional” (1959). Ou vejam o que dele fez Billy Wilder em “Pacto de sangue” (1944).

Mas, claro, o filme que aqui não pode deixar de ser mencionado se chama justamente “O trem” (“The train”, de John Frankenheimer) e é de 1964. Situado ao tempo da Segunda Guerra, contava como os alemães se apropriaram das obras de arte dos museus parisienses, as quais seriam transportadas para a Alemanha em um trem especial que, naturalmente, a Resistência francesa faria o possível e o impossível para bloquear. “Assassinato no Expresso-Oriente” (Sidney Lumet, 1974) é outro filme a citar, porém, não sei se é enquanto “cenário” da ação que o trem é mais efetivo na tela. Quer me parecer que a sua imagem pode ser bem mais expressiva quando usada de modo pontual, como um índice dramático, ou de outra ordem. Com certeza, o leitor lembrará bons exemplos desse uso.

Para fechar, até o cinema nacional lidou com a imagem do trem, por exemplo, no hoje clássico “Assalto ao trem pagador” (1962), isto para não falar em “Central do Brasil” (1998) e no filme (Cacá Diegues, 1987) que empresta o seu título a esta matéria.

Em tempo: esta crônica é dedicada a Valdemir Alves de Medeiros.