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JACKSON E GLENN

30 jul

Nunca fiz isso, pois não sou da área, mas se um dia ousasse elencar minhas preferências musicais, a lista iria ter brasileiros e americanos, sempre intercalados, um ao lado do outro, sempre assim, e isto seguindo a cronologia do século XX inteiro. Mesmo que um nada tivesse a ver com o outro – como aparentemente não têm. A única justificava para os pares seria que me encantaram mais ou menos na mesma época da minha vida, e, inevitavelmente ficaram misturados no meu espírito.

Se for para dar exemplos, eis um fragmento dessa lista imaginária: Noel Rosa, Cole Porter, Luiz Gonzaga, The Platters, Lupicínio Rodrigues, Ella Fitzgerald, Jackson no Pandeiro, Glenn Miller… e por aí iria…

Jackson no Pandeiro e Glenn Miller? Pois qual não foi a minha surpresa ao constatar que o nosso ritmista de Alagoa Grande era um ouvinte admirador dos arranjos do maestro e compositor americano. O meu “par” estava longe de ser gratuito e fiquei sabendo desse dado – e vibrei com ele – ao assistir ao belo documentário “Jackson – na batida do pandeiro” (2019), de Marcus Vilar e Cacá Teixeira. Dado enfatizado pelo maestro Carlos Anísio no debate sobre o filme.

Tudo bem, as relações culturais e musicais entre Brasil e Estados Unidos estariam, mais tarde, no irônico “Chiclete com banana” de Jackson, mas nada como ter em mãos o dado biográfico de um caso mais remoto e bem específico: Jackson vs Glenn.

Saí do cinema catando as semelhanças entre os dois itens do meu par e não demorei a encontrar. O “Moonlight Serenade” de Miller podia ser lento demais para ter a ver com o nosso ritmista maior, mas em compensação o swing desbragado de composições como “Pensylvania 6-5000”, “Chatanooga choo choo”, “Tuxedo Junction” e outras mais, iniludivelmente, amarrava esse “par” da minha lista imaginária. E, convenhamos, à parte o meu interesse pessoal pelo caso, ele só faz apontar a enorme envergadura (maior do que se pensa) do nosso pandeirista paraibano.

O maestro e compositor americano Glenn Miller

Mas não foi só isso que o documentário em questão me trouxe. Em uma hora e quarenta minutos de deleite, ele me trouxe – a mim e à plateia que lotou o Cine Bangue na noite de 27 de julho – a vida e a obra de um dos maiores talentos que a Paraíba já deu ao mundo. E o fez em grande estilo.

Começando pelo fim, o filme nos arrasta na ambulância pelas ruas de Brasília para um hospital onde vai agonizar o nosso herói. Quando a câmera, ao som da sirene atordoante da ambulância, penetra o túnel escuro, oportunamente corta-se para uma paisagem física e humana bem diversa, aquela onde tudo começou.

E aí, o espectador vai acompanhar, em ordem mais ou menos cronológica, a trajetória de José Gomes Filho, depois Jack, e finalmente, Jackson do Pandeiro. Primeiro, Alagoa Grande, depois Campina Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro, e finalmente, Brasília. Primeiro, o coco de roda, os cabarés, os palcos das rádios, e finalmente, os grandes estúdios e o estrondoso sucesso de público e de crítica. Isso para não falar das participações nas Chanchadas da época.

Além de mitos da MPB, parentes, amigos e especialistas da área dão depoimentos esclarecedores sobre Jackson, porém, um longo e impagável depoimento quem dá é o próprio Jackson, tão autêntico e tão de perto (em close do rosto, o tempo quase todo, em repetidas tomadas) que até parece ter sido gravado especialmente para o filme.

O cineasta paraibano Marcus Vilar

Resultado de pesquisa exaustiva de muitos anos, o filme faz justiça estética à grandeza do biografado e, com ou sem coincidência, chega no momento oportuno de seu centenário.

Vi o filme ainda em pré-estreia, em sessão especial, com a presença de seus realizadores e oportuno debate mediado pelo pesquisador e crítico André Dib, porém, como enfatizou um dos presentes, o que se espera é que as devidas providências sejam tomadas no sentido de uma distribuição de “Jackson – na batida do bandeiro” que atinja um público maior do que o quase sempre o mesmo dos festivais de cinema da vida.

Abri esta matéria de modo pessoal e não resisto em fechá-la do mesmo modo.

Se coloquei Jackson do Pandeiro na minha lista imaginária de preferidos, não preciso mais dizer o quanto sua música foi marcante para mim. Nas rádios da infância eu o ouvia com frequência – a propósito, tanto quanto ouvia Glenn Miller – e, sem querer, solfejava baixinho, sempre com vontade de dançar, o que só não fazia impedido pelo medo de ser ridicularizado.

Enfim, fosse eu dançarino, acho que um pé seria de Jackson do Pandeiro, o outro de Glenn Miller. E daria tudo incrivelmente certo. Agora eu sei disso, e tenho provas.

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Jogo de olhar

15 ago

Documentário ou ficção, em qualquer filme, o olho humano estabelece um jogo de natureza semiótica com a câmera. Sim, pois, o que a câmera faz aparecer na tela é sempre, em princípio, o que alguém está vendo – olhar que se quer coincidente com o do espectador.

Esse alguém que vê pode ser – e geralmente é – aquela instância abstrata e onisciente a que a gente chama de autor, mas pode ser também um dos personagens do filme, caso para o qual se usa a expressão “câmera subjetiva” ou “plano subjetivo”.

Normalmente, antes de um plano subjetivo (a visão do personagem), mostra-se o ator dirigindo o seu olhar para algum ponto, geralmente off-screen (fora da tela), e aí, corta-se para mostrar o objeto vislumbrado. Antigo e convencional, o código (olhar do ator + plano subjetivo) é rigoroso e até o espectador mais distraído está acostumado a ele.

Pois bem, que tal mostrar o(s) olhar(es) do(s) personagem(ns) sem, em momento algum, oferecer o plano subjetivo correspondente?

É o que, sistematicamente, acontece no curta-metragem de Marcus Vilar, “Jogo de olhar”, recentemente exibido no Cine Mirabeau e com lançamento previsto para breve.

Estamos no Estádio de futebol de Campina Grande, em dia de partida decisiva entre os dois times locais, Treze e Campinense; durante quinze minutos, vemos, em distâncias e ângulos diversos, as duas torcidas nas arquibancadas, vibrando com as emoções do jogo; contudo, o jogo mesmo – aquilo que seria o grande plano subjetivo do filme, o local privilegiado para onde se dirigem todos os olhares – nos é sonegado do começo ao fim.

Ora, encher a tela de olhares sem retribuir com o equivalente plano subjetivo não constitui um problema semiótico? Bem, constituiria se o princípio estético do filme não fosse este mesmo – o de sonegar o mais óbvio numa partida para privilegiar o que mais interessa do ponto de vista do imaginário do futebol: as emoções dos torcedores, expressas na espontaneidade de seus movimentos corporais, seus gritos histéricos, seus desesperos, suas contorções faciais, seus esgares, seus risos, suas explosões de alegria.

Nessa sonegação básica reside a originalidade do filme de Marcus Vilar e é a primeira anotação favorável que faço sobre ele.

Seguem-se outras.

Ainda que rigorosamente documental, o filme se constitui numa narrativa, empolgante para o espectador, o qual, sem ver o que se passa no campo, sabe que há, por trás de tudo, aquilo que justifica toda e qualquer narrativa, a saber, o conflito. Aqui, aliás, dois: um objetivo, no campo, o outro subjetivo, nas arquibancadas. Que gols estão sendo feitos e quem os faz? Qual o resultado do jogo? Tudo isso vai aparecer no comportamento físico e psicológico das duas torcidas, encarnações do(s) conflito(s) que faz(em) a narrativa se mover.

Torcidas são multidões e multidões aparentemente não possuem olhares, e, no entanto, as câmeras de Marcus Vilar (quatro ao todo) sabem resolver o problema e muito bem, intercalando tomadas abertas que recobrem o magnífico balé das arquibancadas, com planos fechados que captam os rostos e corpos com mais intimidade – o coletivo e o individual misturados num mesmo efeito. Tudo isso muito bem editado de forma a conceder ao conjunto um ritmo, que, se você quiser, é, apesar da brevidade, o ritmo de uma partida de futebol.

Sem dúvida, o conceito de ´olhar´ (a palavra no título) é lato e inclui o olhar do espectador do filme que ´olha a torcida olhando o campo´.

Obviamente, nem precisa gostar do esporte bretão para gostar do filme, meu caso.

De minha parte, olhando “Jogo de olhar” reportei-me àquelas velhas “naturais” do “Canal 100” que, antes de o filme do dia começar e sempre ao som de “Na cadência do samba” de Luiz Bandeira, (“Que bonito é…” lembram?) mostrava as partidas de futebol do momento, sem nunca esquecer closes de rostos anônimos nas arquibancadas, geralmente, rostos populares que, pegos de surpresa, provocavam risadas maldosas nas platéias do cinema. Os rostos de Marcus Vilar, ao contrário, suscitam partilha e empatia.

Em outras ocasiões já observei como, no país do futebol, tão poucos – e nem tão bons – são os filmes rodados sobre essa paixão nacional. Mais um ponto favorável que destaco em “Jogo de olhar”.

Marcus Vilar, como se sabe, é um dos cineastas paraibanos mais prolíferos da atualidade que, com curtas de bom nível, já conquistou prêmios em festivais em todo o país. Esse “Jogo de olhar” vem confirmar seu talento e sua vontade de inovar.

Em tempo: esta matéria é dedicada a meu sobrinho Morib Macedo.