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PAPICHA

27 nov

Uma das vantagens de se frequentar o Cine Banguê: o aceso a cinematografias fora do circuitão. Quando, em tela grande, veríamos em João Pessoa um filme argelino?

Baseado em fatos reais, ocorridos na Argélia dos anos noventa, “Papicha” (2019) nos introduz à vida dessa jovem estudante universitária que sonha trabalhar com moda numa cidade e país dominados pelo terrorismo religioso.

O campus universitário onde Papicha passa parte do dia é um quase oásis ideológico. Ali ela estuda, se diverte com as amigas e faz planos ousados.

Mas, mesmo nesse âmbito acadêmico as agressões acontecem, pois, vez por outra, ele é invadido por hordas de mulheres mulçumanas, todas vestidas de preto, da cabeça aos pés, proibindo que se fale francês (língua oficial) e exigindo das estudantes um comportamento menos liberal. No caminho para casa, não é raro que o táxi seja parado e violentamente revistado por milícias religiosas, com ameaças constrangedoras.

O namorado de Papicha tenta convencê-la a fugirem para a França e, em Paris, levarem uma vida de paz e liberdade, mas, ela não se encanta com escapatórias. Em Paris, tudo já foi feito, argumenta ela – sobretudo na sua área da moda – e ela quer inovar onde ainda não houve inovações. Em outras palavras, com todos os perigos circundantes, ela prefere a sua Argélia a qualquer outro lugar no mundo.

Nem o crescente clima de terror, cada vez mais invasivo e violento, dobra o espírito dessa Papicha (apelido de Nedjma, personagem magnificamente interpretada pela jovem atriz Lyna Khoudri) que, inspirada no gosto da mãe pela costura, pretende organizar, na universidade, um desfile de moda arrasador, em que as modelos, suas colegas de curso, vestiriam roupas por ela criadas, que encarnariam uma proposta de renovação no tradicional vestuário argelino/islâmico. Por exemplo, ao invés da cor preta dos impostos hijabs, a generalizada brancura exuberante do desfile.

Ocorre, contudo, um terrível acidente que faz o espírito de Papicha arrefecer. Isso se dá no dia em que sua irmã, Linda, é brutalmente assassinada por umas das fanáticas religiosas de Argel, e isto na porta da casa materna, com o agravante de que, sem saber com quem falava, ela, Papicha, fornece à agressora, a identificação da irmã.

Mas, como esperado, tal arrefecimento não dura para sempre. Mais tarde, convencida pelas colegas e amigas, termina levando adiante o – para o contexto da Argel da época – corajoso projeto do desfile, embora…

Bem, dizer mais seria estragar o prazer do espectador que ainda não viu o filme.

Em vista do nosso pouco acesso ao cinema argelino, não é possível colocar “Papicha” dentro de seu contexto, porém, pode se dizer, sim, que, em seu primeiro longa-metragem, a diretora Mounia Meddour domina a narrativa cinematográfica e, com seu estilo fundado em closes, cenários metonímicos, cortes bruscos e trilha sonora expressiva, sabe dizer a que veio. Em tempo: a insistência dos closes no belo e sensual rosto de Papicha nos soa como uma contrapartida aos rostos encobertos das fanáticas mulçumanas.

Só para ilustrar o talento da cineasta, relembro a terrivelmente eloquente cena do assassinato da irmã, tudo acontecido a poucos metros de Papicha que, no meio da rua e de costas, ouve o disparo, deduz a tragédia e, de frente para a tela, por um tempo interminável – para ela e para nós – não tem a coragem de olhar para trás, e ver o que nós avistamos. Aliás, uma cena extremamente exigente, para a atriz Lyna Khoudri.

De alguma maneira, poderia se dizer que “Papicha” é uma espécie de “Sociedade dos poetas mortos” argelino, só que nele a opressão é mais apavorante, pois, ao invés de vir do mero âmbito doméstico-escolar, vem praticamente de toda parte.

“Handsome devil” – contra estereótipos

10 out

Nesta nossa época sombria de homofobia desbragada, MBL e ´cura gay´ é bom ver e/ou rever certos filmes.

Esta semana pude ver, do jovem irlandês John Butler este “Handsome devil” (2016), que não é nenhum grande filme, mas que me remeteu a um clássico da temática homo, o “Chá e simpatia” de Vincente Minnelli (1956), no caso, o primeiro filme na história do cinema mundial a tocar na questão da homossexualidade masculina.

Mas vamos por etapas.

“Handsome devil” (`belo demônio´) começa por nos introduzir a Ned, esse estudante universitário magro, ruivo, feioso, desajeitado e com perfil gay que, no campus de uma universidade da Irlanda, vive sofrendo bullying do resto da turma. Ocorre que o ponto alto dessa universidade é o violento esporte do rugby, e o pobre do Ned não tem físico para levar nem para dar porrada.

A coisa piora para ele no dia em que chega esse novato Conor, tipo atlético de jogador de rugby, e a diretoria o põe onde? Justamente no dormitório de Ned.

O que fazem, no mesmo quarto, um frágil gay e um corpulento atleta do rugby? Bem, a primeira iniciativa de Ned é, juntando móveis e outros troços, construir uma ´muralha de Jericó´, que divide o quarto ao meio e separa os dois supostos inimigos.

Contrariamente ao esperado, o frágil Ned e o forte Conor têm afinidades e vão fazendo amizade. O turning point da estória aparece no dia em que Ned (junto conosco) descobre que o machão Conor esconde uma inclinação homo. Divulgada essa inclinação, a turma do rugby e todo mundo mais descarta Conor, que foge e vai se esconder longe dali. É Ned quem vai lá e o convence a voltar e enfrentar tudo e todos. Ocorre que, gay ou não, Conor é o melhor jogador de rugby e o time precisa dele: resultado, a equipe o aceita de volta, o time ganha com o seu extraordinário desempenho e – ufa! – um gay assumido é aclamado o grande atleta dessa importante universidade.

Foi justamente esse desenlace que, por contraste, me reconduziu ao “Chá e simpatia” de Minnelli. Não juro, mas desconfio que o roteirista de “Handsome devil” conhecia o filme de Minnelli e bolou o roteiro em cima dele. De forma direta, um filme responde ao outro.

Se você tem idade para tanto deve lembrar que em “Chá e simpatia” a situação é semelhante, com exceção do desenlace.

O protagonista não se enquadra nos moldes de um campus universitário em que o esporte é o ponto alto. Ao invés de jogar o violento futebol americano, Tom prefere ler, ou cozinhar, ou mesmo costurar. Ao invés de esporte, suas preferências são poesia e teatro e coisas desse nível. No contexto machista em que vive, isso tudo depõe contra ele que, com esse perfil supostamente ´feminino´, vai sofrer o bullying mais violento.

“Chá e simpatia”, 1955.

Não conto a estória toda, mas a sua senhoria (Deborah Kerr) é quem dele se compadece, tanto que lhe propõe fazerem sexo, para provar que ele era homem. O que fica provado, porém, não é isso que importa. O que está em jogo, nos dois filmes aqui comparados, são os estereótipos – o do homo e do hetero.

Acima eu disse que o filme de Butler responde ao de Minnelli. Não apenas responde: complementa-o. Em termos conceituais, a relação entre os dois poderia ser formulada da seguinte maneira: se um homem com perfil delicado pode ser masculino a toda prova (“Chá e simpatia”), por sua vez, um outro com todo o perfil másculo (virilidade, força, etc) pode muito bem ser homo (“Handsome devil”).

O filme de Butler não é o primeiro a desmontar a antinomia “efeminados” versus “machões”, que, de forma caricaturesca, reforça preconceitos e fobias. Implicitamente, isto já foi feito em filmes tão antigos quanto “Meu passado me condena” (1961) ou “Domingo maldito” (1971), porém, aqui, o quiasmo que forma com um filme de 60 anos atrás é curioso e, eventualmente, instrutivo. Pelo menos para nos deixar um pouco mais alertas à sutil complexidade da natureza humana… e seus tantos mistérios.

Deborah Kerr e John Kerr, em “Chá e simpatia”.