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O desejo da minha alma

23 out

Programação de cinema interessante mantém o Canal Futura, sempre diversificada e com qualidade. Esta semana o filme exibido foi o japonês “O desejo da minha alma” (2014), drama comovente sobre o desemparo infantil.

Ao menos na aparência, a história é simples. Um terremoto de alta escala devasta uma cidade japonesa e, entre as muitas vítimas, deixa duas crianças órfãs: Haruna de doze anos e Shota de apenas cinco. Sem lar e sem pais, os dois são recolhidos por uma tia, numa cidade vizinha.

O gesto caridoso é louvável, mas, como se sabe, o dia a dia em qualquer família é complicado. Sem adoção já o é, imagine com. A tia é casada e tem um filho de dez anos, que não simpatiza nada com a intromissão desses dois estranhos na sua casa, dele tomando parte de seus privilégios de filho único. Os afetivos e os físicos.

Haruna não esquece os pais um só segundo e, na sua dor, não se adapta ao novo lar e à nova escola. Introvertida, fala pouco e esconde o seu desespero o quanto pode. Mas o que pode uma criança de doze anos? O pequeno Shota, por sua vez, sem saber que os pais estão mortos, pergunta sempre à irmã quando eles voltam, e, no aguardo, se diverte como pode no novo lar.

Com o passar dos dias, vários incidentes sugerem a insustentabilidade da situação. Um repentino e inexplicável surto da sempre quieta Haruna, que assusta a tia bondosa, é um deles.

Mas, um dos mais sintomáticos ocorre no dia em que o primo vê a mãe vestindo o intruso Shota com o seu pijama. Protesta, hostil; a mãe revida no mesmo tom de voz, e o pai, com igual violência, critica a esposa, a qual revida agora contra o marido: a crise dentro de casa está dada, e não dá mais para esconder de ninguém, muito menos dos adotados, que a adoção é problemática.

Finalmente Haruna e Shota fogem da casa dos seus benfeitores.

Sem rumo, vagueiam pelas ruas e estradas por muito tempo, até que, cansados, vão dar na praia, onde um mar belo e indiferente os contempla.

Fitando uma foto dos pais, tirada da bolsa, Haruna lhes pede perdão por não ter sido capaz de salvá-los, mas nisso, um vento forte lhe arranca a foto das mãos e a lança nas águas convulsas do mar. Nesse momento, um demorado plano com a câmera submersa ilude o espectador com ideia de suicídio (a menina teria se jogado ao mar?), ideia só desfeita no próximo plano em que se vêem as duas crianças na mesma pose de contemplação estática do mar.

Duas crianças perdidas e o mar.

Nesse ponto de impasse é que Haruna literalmente desaba e, em pranto incontrolável que a faz dobrar o corpo até o chão, pede perdão, desta vez ao irmão pequeno, por não lhe haver dito deste o início a verdade: que os pais deles estavam mortos.

O filme termina algum tempo depois dessa cena dramática, as duas crianças sentadas na areia da praia, sempre fitando o mar infinito, agora silentes e imóveis.

Imóveis, não fosse o gesto do garoto de oferecer à irmã uma florzinha branca que ele, havia pouco, tinha colhido na rala vegetação do areal ao redor. Fim.

Mazakazu Sugita, o diretor, é um novato no ramo, mas por esse começo, já se pode dizer que promete. Sua capacidade de síntese narrativa, com tomadas longas e breves se intercalando, escondendo uma emoção sempre ´à flor da tela´, funciona muito bem, e seu jeito de arrancar interpretação de dois atores infantis merece aplausos.

Findo o filme, fiquei pensando em quais poderiam ter sido suas influências, se é que as houve: para citar os grandes nomes do cinema japonês do passado: nada das fantasias de um Kenji Mizoguchi, nem da eloquência de um Akira Kurosawa. Mas, com certeza, muito da lentidão filosófica de um Yasujiro Ozu.

Sim, claro, o desenlace aberto e irresoluto diante do mar, é uma homenagem óbvia a um certo cineasta francês: o François Truffaut de “Os incompreendidos” (1959), não tenha dúvidas.

No dia 12 de outubro passado, apresentei aos amigos do Facebook uma lista de 12 grandes filmes que, na história do cinema, tiveram crianças como protagonistas. Este “O desejo da minha alma” é um forte candidato a qualquer lista com esta temática.

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O teste Bechdel

1 ago

Em quase todos os setores da vida social ser politicamente correto é saudável. Eu disse ´quase´ porque um setor há em que a correção política parece não dar lá muito certo: este setor são as artes. Sim, no terreno em que a criação prevalece geralmente qualquer cobrança – externa ou interna – de correção tende a virar censura, e…

No cinema a censura foi praticamente abolida desde os anos 70, mas, aqui e acolá, aparecem manifestações pontuais de correção política que cheiram à censura.

Um caso que acho engraçado é o do chamado “Teste Bechdel”. Já ouviram falar dele?

Aplicado sobretudo ao cinema, consiste no seguinte: para ser viável, um filme precisa ter três coisas, a saber, (1) precisa ter duas mulheres na estória; (2) essas mulheres devem conversar entre si; (3) a conversa não pode ser sobre homens.

“Rashomon” é um dos filmes reprovados pelo Teste Bechdel.

Segundo os divulgadores do teste, isto denuncia ou evita o machismo que predomina na produção mundial de cinema. Para eles, ou melhor, para elas, o ideal seria que, antes de o filme ser rodado, o roteiro fosse submetido ao teste, o que garantiria um mínimo de protagonismo feminino, coisa tão rara no cinema.

Se o teste chega a ser aplicado nos bastidores do cinema, eu não sei, porém, que ele – desde os fins dos anos noventa – vem sendo amplamente utilizado para julgar filmes já consumados e consumidos,  disso não há dúvidas.

O maior site de cinema, o IMDB, traz uma lista de quase mil filmes submetidos ao Teste Bechdel, onde, naturalmente, poucos são os aprovados, digo, poucos cumprem os seus três pré-requesitos.

Mas, já é hora de perguntar, de onde surgiu o Teste Bechdel?

Foi em 1985, em uma coluna de humor da famosa cartunista americana Alison Bechdel. O nome da coluna era “Dykes to watch out for”, que se poderia traduzir livremente para “cuidado com os sapatões”. Uma engraçada charge da coluna, chamada de “The rule” (´a regra´) criava um diálogo entre duas lésbicas (Bechdel, aliás, é assumidamente lésbica) em que uma confessava à outra: de agora em diante, só assisto filmes que… (e colocava os três pré-requisitos citados acima).

A charge foi bolada em tom brincalhão e nada prescritivo, mas isto não impediu que uma certa ala mais radical do feminismo americano levasse a brincadeira a sério e a transformasse em teste para denunciar o machismo prevalecente nos filmes em geral. Inclusive, aproveitaram para associá-lo – gratuitamente ou não – ao conceituado ensaio “A room of one´s own”, da escritora inglesa Virginia Woolf, onde se reclama do papel secundário que sempre tiveram as mulheres na ficção literária.

Mais um reprovado pelo teste, “Ladrões de bicicleta”.

Nem precisa dizer, mas vou dizer assim mesmo: o problema do Teste Bechdel é que ele não mede qualidade.

Basta ver entre os filmes testados no rol do IMDB, a quantidade enorme de grandes obras primas internacionais sumariamente desaprovadas. Por exemplo: “Tempos modernos”, “Jezebel”, “O morro dos ventos uivantes”, “Casablanca”, “Cidadão Kane”, “Rashomon”, “Ladrões de bicicleta”, “Morangos silvestres”, “Um corpo que cai”, “Os incompreendidos”, “2001 – uma odisseia no espaço”, etc. Ironicamente, foi reprovado até o filme que traz, no título, o nome da escritora que teria inspirado o teste: “Quem tem medo de Virginia Woolf”.

Uma ironia engraçada é que filmes que depõem contra a natureza feminina passem no teste numa boa, caso – e um exemplo entre muitos – de “A malvada” (Joseph Mankiewicz, 1950). E, caso mais drástico ainda, é que um filme quase misógino, como “O vampiro de Dusseldorf” (Fritz Lang, 1931) seja plenamente aprovado com os três pontos do teste.

Enfim, se você pensa que o Teste Bechdel está fora de moda e devia ser esquecido, preste atenção ao programa de cinema do canal Futura. Vez ou outra, a apresentadora (nunca soube seu nome) aplica o Teste Bechdel ao filme mostrado e o faz na maior tranquilidade, com jeito de quem está sendo científica.

A semana passada foi a vez de “O grande golpe” (“The killing”, 1956) a obra prima noir de Stanley Kubrick, que tinha, sim, duas mulheres na estória, mas, falha grave, elas não conversavam entre si (como podiam, pergunto eu, se nem se conheciam?), o que, de chofre, tirou dois pontos do filme, e com um só, foi sumariamente reprovado.

Para mim, isto sim, foi um grande golpe.

“O grande golpe”, obra prima noir de Kubrick, reprovada no Futura.