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Coadjuvantes

28 set

Um componente forte na mitologia do cinema sempre foi o culto aos astros e estrelas. O pensador Edgar Morin teorizou o assunto em seu livro de 1957, “Les stars – mythe et séduction au cinéma”, mas, há sempre algo mais a ser dito. Por exemplo: que a mitologia não está restrita aos atores principais: que os coadjuvantes podem ser tão, ou mais queridos que aqueles.

Sim, até porque os coadjuvantes da tela, de alguma maneira, podem funcionar, no inconsciente do espectador, como uma representação dos coadjuvantes da vida real. No plano da existência, você é o protagonista de sua própria história, mas essa história está repleta de coadjuvantes que podem ser, ou ter sido, ou vir a ser, mais – ou menos – importantes, ou mesmo decisivos, para você.

Há muito me interessa o tema e já escrevi vários artigos tratando de um ou uma coadjuvante que foi importante na história do cinema. Na verdade, pretendo reunir esses artigos – por enquanto cerca de 25 – e publicar o conjunto em formato de livro.

Antes disso, porém julguei que seria interessante uma matéria de caráter interativo em que não apenas eu, mas os cinéfilos a que tenho acesso me apontassem nomes de coadjuvantes que julgassem indispensáveis para constar de uma antologia.

Assim, pedi a amigos cinéfilos – quinze ao todo – os nomes de cinco coadjuvantes e, claro, supus que, no quadro completo, haveria recorrências, as quais, se fosse o caso, me conduziriam a um pequeno cânone. Nesta primeira etapa do trabalho, limitei-me a nomes masculinos, ficando para a segunda etapa (aguardem) a matéria sobre as mulheres coadjuvantes.

Comecemos, portanto, com os mais votados na minha pesquisa, que, no caso, são coincidentemente cinco. Para facilitar a identificação vou estar citando, em cada caso, pelo menos três filmes em que o contemplado participou, com breve descrição de seu personagem.

Walter Brennan, o rei dos coadjuvantes.

Walter Brennan (três Oscars), o rei dos coadjuvantes.

Com quatro votos, o grande campeão na preferência de meus amigos cinéfilos é Walter Brennan (1894-1974) que, desconfio, o leitor mais jovem nem sabe quem seja.

Walter Brennan foi o chefe da quadrilha dos Clanton, rivais dos irmãos Earp, contra os quais debateu-se no famoso ´duelo do OK Corral´. Verídico, o duelo foi filmado várias vezes, em filmes diferentes, mas aqui me refiro naturalmente à versão do grande John Ford, em “Paixão dos fortes” (“My darling Clementine”, 1945). Brennan também foi o empregado de John Wayne na interminável condução do gado em “Rio Vermelho” (“Red River”, 1948) de Howard Hawks. O seu terceiro papel que destaco foi como o parceiro alcoólico de Humphrey Bogart no barco que, negócios à parte, conduzia um prisioneiro de guerra para longe dos ventos nazistas, em “Uma aventura na Martinica” (“To have and have not”, 1944), também de Howard Hawks.

Os próximos colocados tiveram um número igual de votos (3) e, assim, menciono-os em ordem alfabética.

Ernest Borgnine, em segundo lugar

Ernest Borgnine, em segundo lugar

O talentoso grandalhão Ernest Borgnine (1917-2012) fica, portanto, no segundo lugar, e acho que pode ser lembrado pelo seu papel do Sargento Fatso, que, em “A um passo da eternidade” (“From here to eternity”, Fred Zinnemann, 1953) se debate com o magrelo FranK Sinatra, dentro de uma boate de Pearl Habour, em cena inesquecível. Em “Demetrius, o gladiador” (“Demetrius and the gladiators”, Delmer Daves, 1954) ele é um dos gladiadores que vão duelar com Victor Mature na arena romana. E em “Meu ódio será tua herança” está entre os membros da ´wild bunch´ de  Sam Peckimpah (1969).

Lee J. Cobb, em terceiro.

Lee J. Cobb, em terceiro.

Em terceiro lugar vem o grande Lee J. Cobb (1911-1976) que o espectador com certeza lembra, entre tantos outros, em três papéis marcantes: o chefe da gangue dos portuários de “Sindicato de ladrões” (“On the waterfront”, Elia Kazan, 1954), aquele que se debate com Marlon Brando, em luta braçal no final do filme. Ou o preconceituoso jurado de “Doze homens e uma senteça” (“Twelve angry men”, Sidney Lumet, 1958), o último na mesa a se render à inocência do réu em julgamento. O terceiro papel em destaque pode muito bem ser o do médico psiquiatra que trata essa mulher com múltiplas personalidades (Joanne Woodward) em “As três máscaras de Eva” (“The three faces of Eve”, Nannaly Johnson, 1957).

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

No quarto lugar está Lee Van Cleef (1925-1989), sempre associado a vilões, seja de faroestes ou de filmes policiais. Seu primeiro papel na tela já é marcante como Jack Colby, um dos três bandidos que chegam a essa pequena cidade do Oeste, aguardando um quarto, que virá no trem do meio dia, para formar o grupo vingativo que vai dar fim ao xerife local, Gary Cooper: o filme é “Matar ou morrer” (“High Noon”, Fred Zinnemann, 1952). No noir “O império do crime” (“The big combo”, Joseph H. Lewis, 1955), Lee Van Cleef faz o papel de um dos membros de um bando de malfeitores, com um caso estranho com o seu companheiro de trabalho, de tons visivelmente homossexuais. Já em “Três homens em conflito” (“Il buono, il bruto, il cativo”, Sergio Leone, 1966), ele é um dos homens conflitantes, aquele denominado no título original do filme, como `o feio´.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

Por fim, o quinto dos mais votados é Thomas Mitchell (1892-1962), para o qual escolho os seguintes papéis, acho que relativamente fáceis de lembrar: o médico que faz partos e pega em armas com a mesma habilidade em “No tempo das diligências” (“Stagecoach”, John Ford, 1939); o tio meio atrapalhado e bastante desastroso de George Bailey (James Stewart) em “A felicidade não se compra” (“It´s a wonderful life”, Frank Capra, 1946); o tenente Stevenson de “Espelhos d´alma” (“The dark mirror”, Robert Siodmak, 1946), que investiga um crime em que estão envolvidas duas irmãs gêmeas (Olivia de Havilland), ambas aparentando culpa.

Com dois votos ficaram: Roy Barcroft, Karl Malden, Eli Wallach, George Sanders, Dan Duryea, Peter Lorre, Robert Duvall, Joe Pesci, J. K. Simmons e Wilson Grey. O restante da lista teve um único voto.

Adiante arrolo os votantes e seus votos, mas não sem antes tecer algum comentário sobre esse rol de (descontadas as repetições) mais de 50 coadjuvantes.

Acho que a primeira observação a ser feita diz respeito à época. Notar que, em sua maioria, são coadjuvantes do cinema clássico, naquele período que vai dos anos trinta aos cinquenta. Atores atuais são poucos: Joe Pesci, Steve Buscemi, Charles Durn Robert Duvall e Christof Waltz

Uma segunda observação pode ser sobre as nacionalidades, quase todas americanas. Há um espanhol (Fernando Rey), um italiano (Enzo Staiola) e três brasileiros (Wilson Grey, José Lewgoy, e Guará Rodrigues). Naturalizado americano, o alemão Peter Lorre é muito mais lembrado pela sua atuação em Hollywood que em seu país de origem. Quanto aos ingleses, há vários, mas, não sei se faz sentido destacá-los, já que todos fizeram carreira profissional em Hollywood, como Claude Rains, James Mason, George Sanders… alguns deles naturalizados americanos. Talvez a citação obrigatória, neste caso, seja a de John Gielgud.

Vale ressaltar alguns casos curiosos, de coadjuvantes que, em papéis infinitamente repetidos encarnaram tipos, em muitos casos, tipos que serviam de escada aos protagonistas e que, por isso mesmo, tinham uma importância especial para as plateias de sua época. Altamente populares no seu tempo, esses coadjuvantes-tipos hoje em dia só são lembrados por cinéfilos de memória extraordinária.

Roy Barcroft, o "Joâo Branco" dos espectadores infantis de antigamente.

Roy Barcroft, o “Joâo Branco” dos espectadores infantis de antigamente.

Acho que são os casos de Smiley Burnette e Roy Barcroft. Burnette fazia, com frequência, o papel do “doidinho”, uma figura indispensável nos faroestes dos velhos tempos. Nesses mesmos faroestes, um malfeitor obrigatório era Barcroft, calculadamente o bandido que mais apanhou e que mais vezes “morreu”, se contabilizadas todas as películas do gênero. Era tão assíduo que os espectadores infantis da época – conforme relato em ensaio publicado neste Correio das Artes – o confundiam com o autor das legendas e o chamavam de “João Branco”.

Eis, afinal, a lista dos votantes (citados em ordem alfabética) e dos votados (citados na ordem em que me foi entregue):

 

André Cananéa: Joe Pesci, Robert Duvall, J. K. Simmons, Mark Rylance, Martin Landau.

André Ricardo Aguiar: James Cromwell, Lee van Cleef, Richard Jenkins, Charles Coburn, Joe Pesci.

Edward Lemos: John Carradine, Donald Crisp, Victor MacLagen, Dan Duryea, Pat O´Brien.

Fernando Trevas Falcone: Walter Brennan, Peter Lorre, Wilson Grey, Ward Bond, Guará Rodrigues.

Homero Fonseca: José Lewgoy, Wilson Grey, George Sanders, James Mason, John Gielgud.

Ivan (Cineminha) Costa: Roy Barcroft, Elisha Cook Jr, Ted de Corsia, Walter Brennan, Jack Elam.

Jefferson Cardoso: Peter Lorre, Van Heflin, Claude Rains, J. K. Simmons, Lee Van Cleef.

João Batista de Brito: Lee J. Cobb, Thomas Mitchell, Ernest Borgnine, Walter Brennan, Raymond Burr.

Joaquim Inácio Brito: Arthur Kennedy, Thomas Mitchell, Herbert Marshall, Leo G. Carroll, George Sanders.

Josafá Soares: Slim Pickens, Ernest Borgnine, Enzo Staiola, John Cazale, Christoph Waltz.

Martinho Moreira Franco: Lee Van Cleef, Andy Devine, Karl Malden, Eli Wallach, Fred Clark.

Paulo Melo: Fernando Rey, Ned Beatty, Melvyn Douglas, Charles Durning, Sterling Hayden.

Renato Felix: Woody Strode, Oscar Levant, Eli Wallach, Robert Duvall, Steve Buscemi.

Rolf de Luna Fonseca: Walter Brennan, Dan Duryea, Thomas Mitchell, Lee J. Cobb, Barry Fitzgerald.

Silvino Espínola: Karl Malden, Roy Barcroft, Smiley Burnette, Lee J. Cobb, Ernest Borgnine.

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Cinema brasileiro: os 100 melhores

4 dez

Quais seriam os melhores filmes brasileiros de todos os tempos? A Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos (ABRACCINE) resolveu fazer a lista dos 100 mais, que foi recentemente divulgada na imprensa.

Para tanto, a respeitada Associação convocou os seus membros (cerca de 100), aos quais pediu uma primeira relação de 25 títulos, dispostos na ordem de preferência. Somadas todas as listas de todos os membros, a comissão organizadora, levantou os mais votados e chegou ao que seria, por enquanto, uma espécie de ´cânone brasileiro de cinema´.

A lista dos 100 eleitos recobre quase todas as décadas do século XX e mais a quinzena deste novo milênio. Digo quase porque, nos resultados da votação, ficaram de fora as duas primeiras décadas do século, quando o cinema brasileiro supostamente não teria chegado a produzir obras de peso. Outra década sem votos foi a de quarenta, auge das chanchadas brasileiras, cujo sucesso de público, como sabemos, estendeu-se à década seguinte, a de cinquenta, que, na lista da Abraccine, só conseguiu cinco votos, dos quais apenas um se enquadra no gênero chanchada: “O homem do Sputnik”.

Imagem de "Limite", o melhor de todos.

Imagem de “Limite”, o melhor de todos.

Duas outras décadas com poucos votos são também os anos trinta (2 filmes) e os noventa (6). Na década de trinta teríamos, aparentemente, uma cinematografia em formação, e quanto à de 90, está marcada pelo golpe de Collor, que deixou a produção brasileira inativa por um tempo considerável. Já a década com o maior número de realizações por ano, a de setenta, não teve um número tão elevado de votos, apenas 15. Ocorre que, em sua grande maioria, essas realizações eram – como lembramos – porno-chanchadas sem muita qualidade.

A década mais votada (com 28 filmes) foi a de sessenta, época do Cinema Novo Brasileiro, onde atuaram, sem coincidência, também os cineastas mais votados: Glauber Rocha (com 5 filmes) e Nelson Pereira dos Santos (com 4). Com esta década só concorre o novo milênio, com nada menos que 24 títulos, um dos quais o atualíssimo “Que horas ela volta”, filme de 2015.

Se os cineastas mais votados foram os cinemanovistas Glauber Rocha e Nelson Pereira, não o foram sempre por filmes dos anos sessenta, casos respectivos de “A idade da terra”, de 1981, e “Memórias do cárcere”, de 1984.  Assim como outros cineastas com maior número de votos não se encaixariam propriamente no conceito de Cinema Novo: Carlos Reichenbach, com 4 filmes e José Mojica Marins, com 3.

"O homem do Sputnik", a única chanchada eleita.

“O homem do Sputnik”, a única chanchada eleita.

Para nós, a pergunta que não quer calar: houve filme paraibano listado? Sim, dois: “Aruanda” de Linduarte Noronha (1960) aparece no nonagésimo quarto lugar, e “O país de São Saruê” de Vladimir Carvalho (1971) situa-se um pouco acima, no octogésimo segundo lugar. A esse propósito, é bom observar que um filme colocado no privilegiadíssimo quarto lugar na lista tem assunto paraibano: o documentário “Cabra marcado para morrer” de Eduardo Coutinho (1984).

A lista da Abraccine, como todas as listas, é bastante variada e polêmica. Com certeza, vai gerar controvérsias, mas acho que valeu a iniciativa de cogitar de um cânone brasileiro, quando muitos outros já foram cogitados para o cinema universal. E a Abraccine não fez só a lista. Em acordo comercial com a editora Letramento, deverá ser publicado, no próximo ano, um livro com ensaios sobre cada um dos 100 filmes eleitos, escritos, naturalmente, pelos críticos votantes.

O segundo lugar para "Deus e o diabo na terra do sol".

O segundo lugar para “Deus e o diabo na terra do sol”.

Devo dizer que sou membro da Abraccine e fui votante na referida lista. Muitos dos filmes que escolhi estão na lista (não necessariamente nas posições que lhes dei), outros não. Por exemplo, votei em “Desmundo” (2002), lhe dando um honroso quinto lugar, e o filme de Fresnot sequer apareceu na lista. Em compensação, concedi o primeiro lugar a “Limite” (1931) e lá está ele, sim, no topo da lista da Abraccine, como o melhor filme brasileiro de todos os tempos… do jeito que eu queria.

Como não disponho de espaço para arrolar a lista completa, cito ao menos os dez primeiros colocados, que são:

 

Limite (Mário Peixoto, 1031)

Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)

Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)

Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)

Terra em transe (Glauber Rocha, 1967)

O bandido da luz vermelha (Rogerio Sganzerla, 1968)

São Paulo S/A (Luís Sérgio Person, 1965)

Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962)

Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969)

"O pagador de promessas" entre os dez mais.

“O pagador de promessas” entre os dez mais.

O cânone e seus problemas

16 out

Você assistiu ao filme “O matador de ovelhas” (“Killer of sheep”, 1978)? Claro que não. Nem você nem ninguém. Ou quase ninguém.

Então, por que estou escrevendo sobre um filme que (quase) ninguém viu?

A razão é simples; na recente lista dos “100 melhores filmes americanos de todos os tempos”, organizada pela BBC, “O matador de ovelhas”, de Charles Burnett, ocupa o privilegiado vigésimo sexto lugar, posicionado na frente de obras primas reconhecidas como “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder), “Um lugar ao sol” (George Stevens), “A marca da maldade” (Orson Welles), “Tempos modernos” (Charles Chaplin), “Interlúdio” (Alfred Hitchtcock) e outros mais.

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Quando a lista da BBC foi divulgada, fiquei atônito e a primeira coisa que fiz foi checar com os amigos cinéfilos, para saber quem conhecia, ou ao menos quem tinha ouvido falar de “O matador de ovelha”. Ninguém, nem mesmo o enciclopédico Ivan Cineminha.

A próxima etapa vocês imaginam qual foi: apelar para a Internet e suas muitas possibilidades de acesso. A primeira constatação foi que o filme detinha realmente um prestígio enorme junto a um certo setor da crítica americana. Claro que isso só fez aumentar minha curiosidade. Eu tinha que ver essa suposta obra prima, tão desconhecida em território brasileiro.

Cata daqui, cata dali, consegui, afinal, chegar a uma cópia do filme do Charles Burnett, que já vi e…

Artesanal e precário, o filme retrata a vida num arrabalde negro de Los Angeles. O personagem principal é um pai de família de meia idade que trabalha no matadouro local, e, aparentemente por isso mesmo, sua vida é triste e desmotivada. De alguma maneira sua temática poderia ser resumida na frase: favela também tem crise existencialista.

Não há uma estória a ser contada, apenas uma série de vinhetas do cotidiano que enfocam, ora esse ´matador de ovelhas´, ora a sua mulher, ora as crianças, ora os vizinhos. Às crianças e suas brincadeiras de rua nada edificantes é dado o maior tempo de tela, enquanto que as vinhetas dos adultos terminam necessariamente em frustrações: ora é um passeio interrompido por um pneu furado, ora um motor sem conserto.

Tempo de tela para brincadeiras de rua.

Tempo de tela para brincadeiras de rua.

Embora não haja voz over, o tom é documental e o filme termina como começou, sem término; o único incidente que se chamaria de ´estória´ é um episódio em que amigos do matador de ovelhas tentam convencê-lo a fazer parte de um golpe e a esposa os enxota com palavrões. Um drama a divisar subjaz entre marido e mulher, ela quase sempre se insinuando sexualmente, e ele, sempre indiferente a tudo.

No final sabe-se que uma vizinha está grávida e o filme se fecha com o matador matando ovelhas ao som de “Bitter earth”, na voz de Dina Washington… e pronto. Aliás, o filme tem uma rica trilha sonora de jazz, e, em alguns momentos, canções americanas são solfejadas pelos personagens, mas não sei se isso o torna maravilhoso, ou “poético”, como parece querer os críticos que o elogiam.

Na verdade, a sua produção consistiu em trabalho de final de curso que o então jovem Burnett, submeteu à UCLA e foi aprovado. Do âmbito universitário, deu um pulinho nos festivais independentes dos Estados Unidos e pronto… a ascensão foi montada.

Para voltar à abertura desta matéria, a pergunta que ocorre a todos nós é: por que “O matador de ovelhas” foi colocado nessa posição altamente privilegiada na lista dos 100 melhores filmes americanos de todos os tempos, desbancando as obras primas já mencionadas?

Casal em crise conjugal

Casal em crise conjugal

Acho importante que os votantes – nesta lista da BBC e em outras – tenham sempre o direito de escolher o que bem entenderem, porém, ocorre que, de minha parte, também tenho o direito de comentar as escolhas. No meu entender, “O matador de ovelhas” é um excelente TCC (trabalho de final de curso universitário), agora, quanto a ocupar a posição que ocupa na lista da BBC é outra estória…

Fico com a vaga impressão de que os motivos dos críticos votantes foram mais ideológicos que estéticos, mas, sejam quais tenham sido esses motivos, o que vem à tona nesta discussão toda é a questão maior do cânone cinematográfico: sim, toda “lista de melhores” é problemática, e o absurdo – se for o caso – da posição canônica de “O matador de ovelhas” é só um exemplo – eventualmente gritante! – da problemática.

Outra coisa, para não criar equívocos: o fato de ter sido pouco visto não depõe contra “O matador de ovelhas”; no Brasil, um dos filmes menos conhecidos é um dos grandes: “Limite” (1931).

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Os 100 melhores filmes americanos

29 jul

Para alvoroçar a cinefilia do planeta, está circulando na imprensa mundial mais uma lista de filmes. É que a BBC resolveu fazer a relação dos cem melhores filmes americanos (isso mesmo) de todos os tempos, e para tanto, congregou 62 votantes, especialistas da crítica cinematográfica. O resultado é o esperado, e não é. Senão, vejamos.

Vamos começar nosso comentário com o topo da lista, digo, os dez mais. Entre esses dez estão pelo menos três dos filmes que sempre visitam a lista decenal da Sight & Sound, aquela que circula desde 1952, e que, para o cinema internacional, tem estatuto de cânone. Se considerarmos apenas a última edição, a de 2012, os três filmes comuns às duas listas são: Cidadão Kane, Um corpo que cai e Aurora.

Cidadão Kane, o número um.

Cidadão Kane, o número um.

Nesta apertada posição dos dez mais, os diretores variam em estilo e época. Orson Welles, como nas listas da Sight & Sound, está em primeiro lugar, mas em compensação, um diretor moderno, ainda vivo, Francis Ford Coppola, tem dois filmes na lista (O poderoso chefão e O poderoso chefão II), um deles num privilegiado segundo lugar. Alfred Hitchcock é outro diretor com dois filmes entre os dez melhores: Um corpo que cai em terceiro lugar, e Psicose em oitavo. Os outros diretores que comparecem são: Kubrick (com 2001 uma odisséia no espaço, no quarto lugar), John Ford (com o western Rastros de ódio em quinto); a dupla Stanley Done e Gene Kelly (com Cantando na chuva) e Michael Curtiz (com o indefectível Casablanca). A surpresa da lista deve ser o expressionista F.W. Murnau, com o seu belo Aurora. Digo, surpresa porque o cineasta é alemão, e o filme de Hollywood só tem mesmo a produção.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Veja os dez primeiros da lista:

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974

 

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Até aqui estive me referindo aos dez mais, porém, a lista inteira é de 100, lista que traz algumas surpresas. Lá estão os óbvios, os que imaginamos que estariam, mas também alguns filmes obscuros. Caso, por exemplo, de: O matador de ovelhas (Charles Burnett, 1978); As três noites de Eva (Preston Sturges, 1941); Tramas do entardecer (Maya Deren, 1943) e Gray Gardens (Albert Maisles et alii, 1975). Se o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, 1982, é surpresa ou não, deixo para o leitor decidir.

No meu entender, estão de fora filmes que não deveriam estar, por exemplo, o emblemático A rosa púrpura do Cairo. Pensando bem, a relação dos ilustres ausentes é enorme. (Veja adiante meu comentário sobre os diretores ausentes) Alguns filmes foram mal posicionados, caso de E o vento levou, que aparece no nonagésimo oitavo lugar. Acho que outros foram mal escolhidos, como, no meu entender, é o caso de Marnie, um dos cinco hitchcockianos presentes, quando o mestre do suspense tinha mais de vinte realizações mais acabadas que ele.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Mas quem são os cineastas favoritos, os mais recorrentes na lista inteira? Como houve empates, cito-os pela ordem de antiguidade: Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Stanley Kubrick, Steven Spieberg (com cinco filmes mencionados), Howard Hawks, FF Coppola, Martin Scorsese (com quatro), Charles Chaplin, John Ford e Orson Welles (com três).

Inevitavelmente ou não, alguns dos grandes diretores do passado só compareceram uma única vez, casos de William Wyler (com Os melhores anos de nossas vidas), Frank Capra (com A felicidade não se compra) e George Stevens (com Um lugar ao sol). Em alguns casos, o único filme escolhido de um grande diretor não era o esperado: vejam o caso de Ernst Lubitsch que está presente, não por causa do badalado Ninotchka, e sim, pelo menos conhecido A loja da esquina.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

Uma lista dessas (ou qualquer uma) vai sempre provocar sustos, estranhamentos e mesmo indignações. No item das indignações é o caso quando se pensa em grandes cineastas que fizeram a história do cinema americano, contribuindo com algumas obras primas, e que não foram contemplados com um único título. Estou pensando em nomes com o gabarito de Fred Zinnemann (de, por exemplo, Matar ou morrer), de John Huston (O tesouro de Serra Madre), de Otto Preminer (Laura), de Elia Kazan (Vidas amargas). Ao se constatar que, na lista em questão, está A noite dos mortos vivos, fica difícil entender por que os filmes dos cineastas mencionados foram descartados.

Uma constatação interessante diz respeito às décadas, principalmente se considerarmos que a lista, em princípio, recobre os 120 anos da história do cinema. Tanto é que nela está o primevo Nascimento de uma nação (1915) e o recente Doze anos de escravidão (2013).

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

A década mais recorrente é a dos anos setenta (20 filmes) seguida dos anos cinquenta (14 filmes), anos quarenta e oitenta (13 ambas), anos sessenta e noventa (8 ambas), anos trinta (7) e anos vinte (5). É significativo saber que aquele período da história chamado de Hollywood Clássica – dos anos trinta aos cinquenta – ficou com um pouco mais de um terço do total: 34 filmes, enquanto que o cinema do novo milênio, de 2001 em diante, só compareceu com 6 filmes.

Enfim, eis a lista completa. Veja se aí estão os seus filmes preferidos.

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974
11. Soberba Orson Welles 1942
12. Chinatown Roman Polanski 1974
13. Intriga Internacional Alfred Hitchcock 1959
14. Nashville Robert Altman 1975
15. Os Melhores Anos das Nossas Vidas William Wyler 1946
16. Quando os Homens são Homens Robert Altman 1971
17. Em busca do Ouro Charlie Chaplin 1925
18. Luzes da Cidade Charlie Chaplin 1931
19. Taxi Driver Martin Scorsese 1976
20. Os Bons Companheiros Martin Scorsese 1990
21. Cidade dos Sonhos David Lynch 2001
22. Ouro e Maldição Erich von Stroheim 1924
23. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa Woody Allen 1977
24. Se Meu Apartamento Falasse Billy Wilder 1960
25. Faça a Coisa Certa Spike Lee 1989
26. O Matador de Ovelhas Charles Burnett 1978
27. Barry Lyndon Stanley Kubrick 1975
28. Pulp Fiction: Tempo de Violência Quentin Tarantino 1994
29. Touro Indomável Martin Scorsese 1980
30. Quanto Mais Quente Melhor Billy Wilder 1959
31. Uma Mulher Sob Influência John Cassavetes 1974
32. As Três Noites de Eva Preston Sturges 1941
33. A Conversação Francis Ford Coppola 1974
34. O Mágico de Oz Victor Fleming 1939
35. Pacto de Sangue Billy Wilder 1944
36. Star Wars George Lucas 1977
37. Imitação da Vida Douglas Sirk 1959
38. Tubarão Steven Spielberg 1975
39. O Nascimento de uma Nação DW Griffith 1915
40. Tramas do Entardecer Maya Deren e Alexander Hammid 1943
41. Rio Bravo (Onde Começa o Inferno) Howard Hawks 1959
42. Dr. Fantástico Stanley Kubrick 1964
43. Carta de Uma Desconhecida Max Ophüls 1948
44. Sherlock Jr. (Buster Keaton 1924
45. O Homem que Matou o Facínora John Ford 1962
46. A Felecidade Não se Compra Frank Capra 1946
47. Marnie – Confissões de uma Ladra Alfred Hitchcock 1964
48. Um Lugar ao Sol George Stevens 1951
49. Cinzas no Paraíso Terrence Malick 1978
50. Jejum do Amor Howard Hawks 1940
51. A Marca da Maldade Orson Welles 1958
52. Meu Ódio Será Sua Herança 5Sam Peckinpah 1969
53. Grey Gardens Albert e David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer 1975
54. Crepúsculo dos Deuses Billy Wilder 1950
55. A Primeira Noite de um Homem Mike Nichols 1967
56. De Volta para o Futuro Robert Zemeckis 1985
57. Crimes e Pecados Woody Allen, 1989
58. A Loja da Esquina Ernst Lubitsch 1940
59. Um Estranho no Ninho Milo? Forman 1975
60. Veludo Azul David Lynch 1986
61. De Olhos Bem Fechados Stanley Kubrick 1999
62. O Iluminado Stanley Kubrick 1980
63. Amantes John Cassavetes 1984
64. Johnny Guitar Nicholas Ray 1954
65. Os Eleitos Philip Kaufman 1983
66. Rio Vermelho Howard Hawks 1948
67. Tempos Modernos Charlie Chaplin 1936
68. Interlúdio Alfred Hitchcock 1946
69. Koyaanisqatsi Godfrey Reggio 1982
70. A Roda da Fortuna Vincente Minnelli 1953
71. Feitiço do Tempo Harold Ramis 1993
72. Tensões em Shangai Josef von Sternberg 1941
73. Rede de Intrigas Sidney Lumet 1976
74. Forrest Gump – O Contador de Histórias Robert Zemeckis 1994
75. Contatos Imediatos do Terceiro Grau Steven Spielberg 1977
76. O Império Contra-Ataca Irvin Kershne 1980
77. No Tempo das Diligências John Ford 1939
78. A Lista de Schindler Steven Spielberg 1993
79. A Árvore da Vida Terrence Malick 2011
80. Agora Seremos Felizes Vincente Minnelli 1944
81. Thelma & Louise Ridley Scott 1991
82. Os Caçadores da Arca Perdida Steven Spielberg 1981
83. Levada da Breca Howard Hawks 1938
84. Amargo Pesadelo John Boorman 1972
85. A Noite dos Mortos-Vivos George A Romero 1968
86. O Rei Leão Roger Allers e Rob Minkoff 1994
87. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças Michel Gondry 2004
88. Amor, Sublime Amor Robert Wise e Jerome Robbins 1961
89. No Silêncio da Noite Nicholas Ray 1950
90. Apocalypse Now Francis Ford Coppola 1979
91. ET: O Extraterrestre Steven Spielberg 1982
92. O Mensageiro do Diabo Charles Laughton 1955
93. Caminhos Perigosos Martin Scorsese 1973
94. A Última Noite Spike Lee 2002
95. Diabo a Quatro Leo McCarey 1933
96. Batman – O Cavaleiro das Trevas Christopher Nolan 2008
97. E o Vento Levou Victor Fleming 1939
98. O Portal do Paraíso Michael Cimino 1980
99. 12 Anos de Escravidão Steve McQueen 2013
100. A Montanha dos Sete Abutres Billy Wilder 1951

 

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.