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Giovanni Improtta

29 maio

Fazia tempo que não via um filme ruim. Digo: que não via por inteiro, até a última cena. Sim, a televisão está cheia de filmes ruins, mas, sabe como é, nos primeiros oito ou dez minutos a gente desliga, ou muda de canal. Já no cinema, é diferente.

Pois é, fui ao cinema ver esse “Giovanni Improtta” (José Wilker, 2013) que está em cartaz e, heroicamente, aguentei até o final do filme.

A vontade de sair pintou logo nas primeiras cenas, porém, se paguei para ver, não saio. Houve também a esperança de que, com o andamento da estória, o filme melhorasse, mas que nada! Pelo menos isso ele tem de interessante: é coerente – ruim do começo ao fim.

Giovanni Improtta poster

Inspirado no personagem de Aguinaldo Silva, o filme conta a estória desse bicheiro carioca, mafioso e truculento, que se diz “não um criminoso, mas um contraventor” e que quer, a qualquer custo, legalizar a sua situação – o que passa a lhe parecer possível com o boato da legalização dos cassinos. Estabanado por natureza, nem os colegas de profissão o respeitam, muito menos a amásia que, com um filho pequeno, vive debaixo do seu teto. Mandar matar e mandar flores para ele é a mesma coisa, só uma questão de circunstância: tanto é assim que um cunhado seu é alvo da primeira ordem, e a amásia, da segunda.

Assumidamente brega, caricaturesco e cheio de gags, o filme poderia ter sido uma comédia divertida, e, no entanto, não é. Não me arrancou um esboço de riso, nem de mim, nem – que eu tenha notado – da plateia presente.

O enredo é fraco, manjado e previsível, e pior, fragmentado e disperso, com a maior parte dos muitos personagens parecendo sobressalente, sem função actancial. Alguns deles são feitos por atores gabaritados (Othon Bastos, Milton Gonçalves, Hugo Carvana, Paulo Goulart…) o que nos passa a sensação de desperdício.

O roteiro quis fazer do protagonista titular o centro de tudo, mas se fez, já fez tarde, pois ele não é, nem um pouquinho, menos chato que o filme. Auto-dirigindo-se, José Wilker não convence ninguém como o próprio Improtta, personagem cheio de seus trejeitos manjados, sua dicção de ignorante e suas atitudes politicamente incorretas.

José Wilker: manjado trejeito na boca

José Wilker: manjado trejeito na boca

Prestem atenção: aquele enfadonhamente repetido trejeito de Wilker de rebaixar as extremidades dos lábios, fazendo surgir as duas rugas que saem dos lados do nariz até a boca – feito uma máscara de teatro – é algo ridículo e sem graça, um macaqueado que parece apenas do ator, e não do personagem. Com certeza, um simulacro do que ele já fizera na televisão, no mesmo papel, na novela “Senhora do destino” (2004). Outra coisa, também relativa à má construção do personagem: o vocabulário errado de Improtta (´gravidez´ usado como ´gravidade´, ´não se lembro´ ao invés de ´não me lembro´… etc) não se revela coerente com os outros momentos de sua fala, quando o português correto, inexplicavelmente, prevalece. (Escutem como ele pronuncia bem o termo ´contraventor´, puxando o /r/ final, como um professor de português).

E, enfim, as ações estapafúrdias do protagonista só são absurdas, no sentido negativo da palavra. Como o caso do macaqueado na boca acima referido, essas ações nos soam, incomodamente, como providências dos roteiristas do filme, e não do protagonista Giovanni Improtta. Por exemplo: levar a Escola de Samba ao enterro de um figurão; providenciar um transplante de rim para um inimigo figadal; carregar para a piscina de casa os colegas do filho que lhe estão fazendo bullying na escola…

Jô Soares faz uma ponta no filme

Jô Soares faz uma ponta no filme

Suponho que, no livro “O homem que comprou o Rio” (1970), em que supostamente o filme foi inspirado, tudo isso soa divertido e esteticamente necessário. No filme, nada – ou quase nada, e deixo ao espectador a busca desse “quase” – convence e a única coisa óbvia é que o grande ator do cinema e televisão brasileiros, José Wilker, em sua primeira experiência directorial, perdeu-se na confecção do conjunto.

Sem nenhuma coincidência, uma impressão é estarmos vendo a compilação de um seriado televisivo.

Um comentário final que sinto necessidade de fazer: no dia em que fui ao cinema, havia, entre os dez filmes em cartaz, quatro nacionais. Este é, historicamente falando, um bom percentual nosso (40%) para competir com a sempre cruelmente esmagadora hegemonia americana. E, entendam, não tem muita importância se, no meio desse percentual, há filmes de má qualidade. Afinal, pequena ou grande, uma cinematografia – na acepção de: produção conjunta de um país – é feita de filmes bons e filmes ruins.

“Giovanni Improtta” marca o seu ponto na fila dos segundos. Só isso.

O cineasta Carlos Diegues é um dos produtores de Giovanni Improtta, onde também faz ponta.

O cineasta Carlos Diegues é um dos produtores de Giovanni Improtta, onde também faz ponta.

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O palhaço

3 out

Houve risos? Com que frequência e em que proporção? Lamento não ter assistido a “O palhaço” (Selton Mello, 2011) em um cinema da cidade e não ter podido constatar a reação do público local a uma comédia que, afinal, já teve três milhões de espectadores no país…

Eu que o vi em ambiente privado me indago sobre a sua recepção, pois o palhaço Pangaré – o protagonista de quem o filme trata – tem menos de engraçado e mais de triste. O que, aliás, por tabela também vale para o filme.

No palco ou no picadeiro do mambembe “Circo Esperança”, Pangaré comete as suas performances com a competência esperada, porém, fora daí, o pobrezinho vive ´sem graça´ (palavras suas), cada vez mais melancólico. E mesmo no palco, a sua ´graça´, que tanto diverte o respeitável público, sai – para ele, pelo menos – sem gosto.

Qual o problema com Pangaré (interpretação excelente de Selton Mello)? Com certeza não é só por que lhe falte um ventilador – o que lhe insufla ao pé do ouvido essa maldosa Lola (Giselle Motta), namorada desonesta do seu pai, o também palhaço Puro Sangue (Paulo José), seu companheiro de palhaçadas circenses.

É verdade que imagens de ventiladores vão perseguir Pangaré filme afora, mas, esse objeto eletrodoméstico parece coisa menos concreta, algum símbolo vago de uma insatisfação indefinida. A busca de novos ares? A rigor, Pangaré parece buscar algo mais íntimo, mais fundo, como, por exemplo, a sua identidade, e aqui a palavra tem, inevitavelmente dois sentidos: um concreto, o RG que o tornaria cidadão com endereço, e o outro, mais importante, abstrato, a essência mesma de sua personalidade.

Seja o que for, Pangaré não está satisfeito consigo mesmo e, por isso, lhe ocorre a ideia, ao mesmo tempo temerosa e tentadora, de afastar-se das lonas do “Esperança”  e – quem sabe? – virar um cidadão normal, com CPF e comprovante de residência…

Vertiginoso e rápido, o afastamento acontece somente para provar ao próprio Pangaré que sua vocação é ser clown mesmo, e a estória desse palhaço triste se fecha circularmente com ele, em pleno picadeiro, em desempenho epifânico, agora piscando o olho para uma moça da platéia, uma cortadora de cana que ele conheceu no caminho de sua queda, e que, nós, antes dele, conhecemos no primeiro fotograma do filme.

E o ventilador, afinal comprado, vai ter outro endereço… que não revelo a quem ainda não viu o filme.

O roteiro, como se vê, é simples, mas o filme todo é uma pequena obra prima de mise-en-scène, com tudo o que a expressão implica, inclusive o extremo capricho do cenário, da coreografia, da fotografia, da trilha sonora, da montagem, das interpretações, e tudo mais.

Lírico, requintado, ritmado, fluente, “O palhaço” é um filme “de personagem”, e o personagem é Pangaré. Mas não apenas Pangaré: também a trupe inteira do “Esperança”, junto com os habitantes das cidades visitadas, uma galeria de tipos originais onde realismo, caricatura e kitsch se misturam de modo perfeito. Para dar apenas dois exemplos: o “homem magro” que vive sonhando com cabras é uma figura impressionante, para assombrar a imaginação de qualquer frequentador de circo, ou de cinema, assim como, noutra escala, o é o casal formado pelo Prefeito e a esposa, com seu filho prodígio e seus poeminhas infames.

Embora possa lembrar certa tradição cômica do cinema brasileiro (Oscarito, Didi Mocó, etc) “O palhaço” possui um charme sofisticado que nos faz pensar em Chaplin, Tati, Fellini, e, sem dúvida, no Ettore Scola de “A viagem do capitão Tornado”. Sim, imaginário, feérico, fantasioso, não é somente um filme “de personagens” – é também, com muita propriedade, um filme “de atmosfera”.

Construído com empenho autoral, esmero, delicadeza, e sentido poético, o que se observa de fato é que, sem o deboche desbundado a que estamos acostumados nas nossas comédias nacionais, “O palhaço” não tem propriamente tradição no cinema brasileiro.

Disse acima que gostaria de ter testemunhado a reação das platéias a “O palhaço” numa sala de cinema. Uma coisa é certa: decididamente o filme de Selton Mello não foi feito para arrancar gargalhadas. Talvez um risinho no canto da boca, suave, complacente, tristonho… e encantado.

Não deixa de ser sintomático, e talvez instrutivo, o fato de que tenha sido o filme selecionado pela equipe do MEC para representar o Brasil na disputa ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013.

Suas chances de entrar na lista final não sei quais são, mas, já vale o prazer de, no cinema ou em casa, tê-lo apreciado.