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O GRANDE WILLS LEAL

28 jun

Cinema, história, ensino, turismo, boemia, carnaval, filosofia, jornalismo, folclore… Como conciliar interesses tão variados? De modo espantoso e coerente eles se cruzaram na figura – igualmente espantosa e coerente – de Wills Leal (1936-2020), esse pensador da cultura que não se limitava a pensar, pois o seu fraco era agir, pondo em prática, sempre o quanto antes, tudo aquilo que lhe ocorresse incrementar a vida artística, cultural, turística e mundana da cidade e do Estado.

Se fosse para ficar num único âmbito do seu vasto campo de interesse, seria o caso de lembrar que Wills foi, nos princípios dos anos cinquenta, membro do primeiro cineclube da cidade; fez crítica cinematográfica e ministrou cursos de cinema nos anos sessenta; foi co-fundador da ACCP (Associação dos críticos cinematográficos da Paraíba); idealizou o projeto “Roliude Nordestina”; fundou a Academia Paraibana de Cinema, e é autor, entre tantos outros, de um livro essencial para o conhecimento da história do cinema paraibano, “O discurso cinematográfico da/na Paraíba”.

Mas, quem poderia prender Wills num único campo? A multiplicidade era a sua unidade e quem o acompanhava sabe muito bem que, se Wills não fez mais, foi por falta de apoio institucional. Na verdade, impossível imaginar onde Wills teria ido parar se porventura tivesse conseguido apoio – governamental ou de outra ordem – para todos os seus sonhos.

Da criança que viu a luz em um 18 de setembro de 1936, na pequena Alagoa Nova, brejo da Paraíba, ninguém diria que iria tão longe.

Pesquisador atento, quase obsessivo, antenado, informado, extremamente organizado na sua aparente desorganização, Wills é autor de uma rica bibliografia que recobre os aspectos mais variados da história do Estado, e de projetos que, em meio século, alteraram o semblante da Paraíba.

Inquieto, frenético, impulsivo, prolífero, inventivo, Wills impressionava pela sua capacidade de trabalho e pela sua eterna e incansável militância, que atirava inovadoras e oportunas ideias para todos os lados, e mais que isso, na medida do possível, as concretizava com a garra e o entusiasmo de um visionário.

Além de agitador e fomentador cultural, Wills também foi uma personalidade admirável. Pessoense de coração e cosmopolita de vocação, foi uma figura impar que transcendeu o provincianismo com sua atonalidade de solteirão por opção. Humano, amigo, honesto, correto, aberto, reconhecedor e incentivador generoso de novos valores, Wills também podia ser, desconcertantemente franco, objetivo, direto e, quando necessário, um crítico impessoal e imparcial.

Em um de seus muitos escritos consta a boutade “cinema espiritual” – conceito que criou para definir aquela atividade que só existiu nas conversas de bares dos intelectuais pessoenses dos anos sessenta. Ora, dentro desse “espírito”, vale imaginar Wills como protagonista de um desses filmes espirituais, apenas com a providencial ressalva de que o roteiro teria tido um desenlace diverso, pois seu desempenho nunca ficaria na mera “conversa”. Afinal, a envergadura e abrangência de seus feitos estão aí, para nos espantar.

“Jamais deletado” é o título de seu último livro. A expressão é o que dele deverá dizer a posteridade.

A mim o nome de Wills Leal chegou no começo dos anos sessenta. Mas não veio só. Veio junto com toda aquela turma que, então, praticava a crítica cinematográfica nos jornais locais: Linduarte Noronha, Geraldo Carvalho, João Ramiro Melo, Vladimir Carvalho, Pedro Santos, Paulo Melo, Ipojuca Pontes, Antônio Barreto Neto, e em seguida, Martinho Moreira Franco, Carlos Aranha, Jurandir Moura… Foi no meio desses nomes, e com eles confundido, que o fiquei conhecendo. Primeiramente nos jornais, e só mais tarde, bem mais tarde, pessoalmente.

Além de fazer crítica, Wills dava cursos de cinema, organizava eventos, e fazia muito barulho, um barulho que agitava as cabeças da província, inclusive a minha.

Foi desse tempo a criação da ACCP (Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba) e, por tabela, as sessões de cinema na Sede da API, onde pude assistir, na condição de espectador anônimo, obras primas do cinema, e ouvir o comentário de um grupo de intelectuais – Wills entre eles – que eu admirava.

Lia os textos de Wills, como os dos outros citados, e, na entrada ou saída das sessões do “cinema de arte” do Municipal, o avistava de certa distância, alto, ágil, falastrão, comentando os filmes exibidos, sempre com a mesma agitação, o mesmo barulho e a mesma convicção de quem estava por dentro do negócio.

Eu entrevistando Wills no documentário de Mirabeau Dias.

Tímido, eu o admirava de longe e queria ser ele “quando crescesse”. Só fui chegar um pouco mais perto dele no Curso Colegial Artístico, ali na Duque de Caxias, onde, convencido pelo amigo Marcus Vinicius de Andrade, fui estudar. Wills foi lá o nosso professor de Sociologia, mas, nem aí, fiquei amigo dele. Como tarefa de casa do professor de literatura, Jairo Guedes, eu escrevia sobre cinema nos cadernos escolares, e, embora o professor elogiasse meus manuscritos, eu não tinha coragem de trocar ideias cinematográficas com Wills Leal. Sempre fui muito quietinho e acho que sua agitação me intimidava.

Só bem mais tarde, já anos oitenta, quando comecei a publicar artigos sobre a sétima arte, é que nos aproximamos. Um dia escrevi sobre um de seus livros – nem lembro qual – e aí ele, certamente curioso de conhecer esse novato, me procurou e ficamos amigos. Nesse tempo, ele (como quase todos os acima mencionados) havia se aposentado da crítica cinematográfica, e por algum tempo (décadas de 80 e 90), me ocorreu ser o único crítico de cinema no batente dos jornais locais.

Tornamo-nos amigos e até vizinhos e passei a ser frequentador eventual de sua famosa residência no meu bairro, Manaíra – aquela sem muros, nem altos nem baixos, que tinha uma piscina rodeada de um gramado inclinado, que às vezes uma vaca ou outra escalava e caía lá dentro, quase morrendo afogada. Lembro bem da comemoração do centenário do cinema (1995) onde ele reuniu o mundo do cinema paraibano pra um dia inteiro de farra.

Suas iniciativas no ramo do cinema, e noutros ramos, foram tantas que seria cansativo, ou talvez impossível listá-las. Ao tempo em que abandonou a crítica, Wills foi crescendo como historiador e o seu já citado “Cinema na/da Paraíba” – em belíssima segunda e mais completa edição – está aí como o documento mais completo da atividade fílmica no estado, até aquela data.

Além do agitador cultural que todo mundo conhece, Wills era, essencialmente, uma pessoa do bem, como tive o prazer de dizer no providencial documentário “Atonal e visionário” que o videasta Mirabeau Dias fez com ele, em que fui o entrevistador. Nesse documentário, Wills conta toda a sua trajetória intelectual, desde as primeiras leituras, até a criação da Roliude Nordestina, passando pelo cineclubismo dos anos cinquenta, crítica de cinema, filosofia, criação da ACCP, cinema de arte no Municipal, boemia, solteirismo, turismo, gastronomia, etc…

Enfim, passamos os restos de nossas vidas, eu e Wills, trocando figurinhas cinematográficas. Muitas e variadas. Chamava-me de Batista e fico imaginando a quantos amigos meus ele se referiu a mim assim, e deixou seu interlocutor tentando adivinhar quem era esse tal de “Batista” que escrevia sobre cinema.

Numa certa ocasião, há não tanto tempo, estávamos, eu, Wills e Carlos Aranha, num barzinho da Rua Sagrado Coração de Jesus, em Tambaú, e perguntei aos dois o que tinha sido feito da ACCP. Já que não existia mais, quis saber se teria havido uma reunião para sua dissolução… De chofre, Wills respondeu que a ACCP era eu. Aquilo foi, pra mim, um  elogio imenso, que guardo com carinho. Naquele momento, me lembrei de mim mesmo, adolescente magrinho, feioso, inseguro e tímido, desejando ser Wills Leal quando crescesse…

Enfim, fica a tristeza com a partida de Wills Leal e o vazio cultural que deixa.

Sete dias com Truffaut

21 out

De 20 a 26 deste mês de outubro, a cinefilia de João Pessoa está em festa, com a exibição, nos cinemas do Shopping Manaíra, do Festival François Truffaut.

São sete filmes, um por dia, recobrindo a carreira desse genial cineasta francês, um dos pais da Nouvelle Vague, aquele movimento cinematográfico que abalou o mundo cultural e artístico nos anos sessenta.

Seguindo a cronologia dos lançamentos, a exibição começa com o inaugural “Os incompreendidos” (1959), findando com o “O último metrô” (1980). No meio ficam: “Jules et Jim” (1961); “Beijos roubados” (1968); “A noiva estava de preto” (1968); “Domicílio conjugal” (1970), e “Amor em fuga” (1979).

François Truffaut, um dos fundadores da Nouvelle Vague.

François Truffaut, mentor da Nouvelle Vague.

De minha parte, lamentei a não inclusão de um dos melhores filmes de Truffaut, “A noite americana”, e a inclusão de um dos piores: “A noiva estava de preto”. Mas, como diz o clichê, nada é perfeito. Ao menos a mostra começa com duas obras primas: os dois primeiros filmes.

Aproveito a ocasião para relembrar a trajetória fílmica de Truffaut. A sua história é bem conhecida dos cinéfilos: salvo da marginalidade pelo crítico André Bazin, final dos anos quarenta, o jovem cinéfilo Truffaut é introduzido aos bastidores da Revista Cahiers du Cinéma, para a qual passa a escrever artigos cada vez mais agressivos contra o cinema dito “de qualidade” de seu país. René Clair, René Clément, Marc Allegrét, Marcel Carné, Claude Autant-Lara… quase ninguém escapa de suas garras afiadas, todos acusados de cometer um cinema artificial, fundado em regras de estúdio e numa dramaturgia congelada e falsa.

Nessas críticas violentas, partilhadas por outros jovens críticos como Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, ia embutida uma proposta de cinema inovadora, que seria chamada, mais tarde, de “cinema de autor”. Segundo esses jovens críticos, o cineasta devia ignorar regras de estúdio e usar a câmera como o poeta usa sua caneta. Era o que estava dito num texto, também publicado nos Cahiers du cinéma, do teórico Alexandre Astruc. Isto seria possível? Possível ou não, é essa ideia de “caméra-stylo” (´câmera-caneta´) o que gera, em 1954, um ensaio fundamental de François Truffaut, “Uma certa tendência do cinema francês”, ensaio este que funcionou como o verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague.

"Os incompreendidos" (1959), inaugura a Nouvelle Vague.

“Os incompreendidos” (1959), inaugura a Nouvelle Vague.

No final dos anos cinquenta, esse “cinema de autor” começa a desabrochar em forma de filme, primeiro curtas, depois longas. O primeiro dos longas é o belo e amado “Os incompreendidos”, onde Traffaut ficcionaliza a sua vida privada. O filme ganha o Festival de Cannes e, desde então, Trauffaut não para mais de filmar. O engraçado é que, se suas críticas contra o cinema francês eram agressivas, o cinema que ele passa a cometer não o é de forma alguma. Ao contrário, com Truffaut vai se ter um cinema doce, suave, humanista, dramático às vezes, mas sempre terno e poético.

Outra coisa interessante, comum a Truffaut e aos outros nouvellevaguistas, foi o amor ao cinema americano. Enquanto a maior parte dos cineastas franceses não valia nada para eles, Otto Preminger, Howard Hawks, William Wyler, Billy Wilder, George Stevens, Alfred Hitchcock lhes pareciam gênios que driblavam as regras de Hollywood para produzir grandes filmes, exaustivamente analisados nas páginas dos Cahiers du cinéma.

Cena em "Jules et Jim" (1961).

Cena em “Jules et Jim” (1961).

Não só aos grandes, Truffaut também era ligado aos pequenos e obscuros diretores hollywoodianos de filmes B, de quem recebeu admitida influência. Um caso que ilustra bem isso está no filme que será exibido hoje (sexta, 21), “Jules et Jim”, considerado pela crítica sua realização mais perfeita. Truffaut havido lido o livro homônimo de Henri-Pierre Roché em meados dos anos 50, e, mesmo deslumbrado com a escrita e a temática, julgou que essa estória de amor a três fosse “infilmável”. Até o dia em que entra num cinema de Paris, para ver a reprise de um faroeste de um de seus obscuros diretores B.

O diretor era Edgar G. Ulmer, e o filme, “Madrugada da traição” (“Naked dawn”, 1955), contava, com certa ambiguidade sexual, o caso de um estranho triângulo amoroso, nas brenhas do México, entre um bandido e um casal de agricultores. Rodado precariamente em 10 dias, com resultado visivelmente pífio, foi o único filme em cores de Ulmer e o único papel principal de Arthur Kennedy. Pois em entrevista à crítica Anne Gillain (Cf. o livro “O cinema segundo François Truffaut”, Nova Fronteira, 1990), Truffaut conta que saiu do cinema convencido pelo filme de Ulmer de que o livro de Roché poderia ser filmado. E, logo que pôde, filmou. Irônico que um filme tão fraco tenha motivado um tão forte.

Enfim, resta aos cinéfilos pessoenses aproveitar a chance rara de ver – acho que rever é mais o caso – o cinema sui generis de François Truffaut, que, se não foi o maior cineasta do mundo, foi, com certeza, o mais cinéfilo de todos.

Em tempo: esta matéria é, com afeto, dedicada a Carlos Aranha.

"Jules et Jim": em um fotograma emblemático...

“Jules et Jim”: em um fotograma emblemático…