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Roda gigante

9 jan

Está em cartaz “Roda gigante” (“Wonder wheel”, 2017), o filme mais recente de Woody Allen, que, aos 83 anos não para de trabalhar, e melhor, sustenta o nível de sempre.

Como esperado, o filme é a cara dele, e, ainda bem, nem na qualidade muda.

Praticamente todos os ingredientes de sua filmografia estão aqui, de forma tão sistemática, que até parece uma compilação: uma atendente de lanchonete sonhadora, um marido grosseiro, gangsteres, amor pelo cinema ou pelo teatro, infância problemática, romance, personagens neuróticos, discussões domésticas ou amorosas intermináveis, psicólogos, traição, crime, culpa, referências culturais (Tchekov, O´Neill) e fímicas (o cartaz de “Winchester 73” e a conversa sobre “Flying to Rio”), narração de primeira pessoa com olhar para a tela… etc. Tudo isso, claro, ao som de velhas canções que tocavam nos rádios de então.

O cenário desta vez é Coney Island nos anos cinquenta, que, como se sabe, não deixa de ser Nova Iorque.

A protagonista é essa mulher beirando os quarenta, Ginny (desempenho estupendo de Kate Winslet, que nunca trabalhara com Allen), em seu segundo casamento, com um filho de menor, Richie, advindo do primeiro. O marido grosseirão, Humptey (Jim Belushi), é o dono do carrossel no famoso Deno´s Amusement Park, que tanto tipifica o distrito periférico de Coney Island.

Ginny é obrigada a ajudar na lanchonete da família e a vida não lhe parece nada promissora, sobretudo para quem um dia sonhou em ser atriz de teatro. Melhora um pouco quando vem a conhecer esse salva-vidas bonitão, com pretensão de autor de peças, com quem inicia um caso amoroso. Piora quando vem morar com a família uma filha do marido, havia muito tempo desaparecida, e que agora retorna, pedindo socorro porque está sendo seguida pela máfia, à qual o marido marginal pertencia.

Kate Winslet e Justin Timberlane

Mas, a narração de primeira pessoa não é de Ginny, e sim, de Mickey (Justin Timberlane), o salva-vidas que, em seguida a Ginny, conquista a mais jovem e mais bonita enteada de Ginny, Carolina (Juno Temple)… Que confusão! Notando o clima de flerte entre Mickey e Carolina, Ginny vai aos poucos virando uma fera… até aquele ponto crítico emocional que apaga o tom de comédia romântica do filme e lhe concede aquelas cores de tragédia grega, sim, dos últimos filmes de Allen. Tragédia várias vezes referida no diálogo do filme, e em elementos da diegese: lembram o livro que Mickey empresta a Carolina, “Hamlet e Édipo” de Ernest Jones?

Neste aspecto, uma cena exemplar no filme é aquela, quase final, em que Ginny, sabendo que os gângsteres estão no encalço da enteada, num impulso francamente humanitário, corre a um aparelho de telefone público, no intento de ligar para a Pizzaria e salvar a vida da moça, e… no meio da ligação desiste. Desiste justamente no instante em que inicia a descrição da enteada que roubara seu amante. Ao pronunciar, para o dono da Pizzaria, a palavra “loura” (as próximas seriam provavelmente “jovem e bonita”) ela repõe o telefone no gancho e volta para casa… ninguém pode dizer que feliz.

O salva-vidas entre duas mulheres…

Somatório de culpas (houve uma anterior, por ter traído o primeiro marido…), a última vez que a vemos, vestida de “louca”  – como lhe joga na cara o marido atual, também traído – o que nos vem à mente (e deve ter sido intenção da direção) é uma vaga mas efetiva mistura de Blanche Dubois com Norma Desmond, nos finais respectivos de “Uma rua chamada pecado” e “Crepúsculo dos deuses”, sem coincidência, dois filmes dos anos cinquenta.

Mas, atenção, o derradeiro fotograma não é dela. É do filho Richie, o garoto cuja maior curtição, depois de cinema, é atear fogo em tudo que pode ser queimado. No fechamento do filme, ele ateia fogo a um monte de madeira, justamente no local onde ficava o posto do salva-vidas, ponto alto de onde esse narrador privilegiado via a praia inteira e de onde nos contava a estória, a do filme e a sua… Em dado momento do filme, a narração perguntara ´o que será que esse garoto vê no fogo ateado…?` Ninguém sabe, mas acho que o espectador tem direito – por que não? – de pensar em Bachelard e seus quatro elementos… Algum tipo de metáfora para a estória que nos é narrada?

Outro dado para o espectador devanear seria por que o filme se chama “Wonder wheel” (“Roda gigante”) e não “Merry go round” (“Carossel”), o brinquedo que era propriedade da família…

O idoso Woody Allen, em direção de atores.

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Que estranho chamar-se Federico

6 nov

Não veio ao circuito comercial local, mas, acabou de entrar na programação da TV paga o belo e comovente “Que estranho chamar-se Federico” (2013), filme-homenagem de Ettore Scola ao seu colega, amigo e compatriota Fellini.

O filme de um cineasta que amo sobre um cineasta que amo. Vocês não imaginam a ansiedade com que me preparei para ver, e a alegria com que o vi, a mesma com que escrevo.

Sem mais nem menos, “Que estranho chamar-se Federico” é o esperado, um filme com a sofisticação de Scola e a fantasia de Fellini, as duas coisas juntas e inconsúteis. Sim, porque o filme é sobre os dois, e não apenas um. De forma solta e imaginativa, sem se preocupar em ser documental, Scola faz questão de centrar-se na amizade e nos pontos de contato entre os dois, deixando o resto de lado.

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Para tanto, inventa um narrador que, primeiro se insinua como voz, e depois de corpo inteiro. Não um narrador qualquer, mas um que tem todo aquele jeito de personagem felliniano, inclusive, o de intrometer-se no narrado. Uma vez encontra-se num café da época e a garçonete vem lhe trazer a conta, e ele retruca que “sou o narrador, e narrador não paga”, ao que a moça responde que sim, senhor.

O filme começa com o mestre Fellini em sua cadeira de diretor, de costas para nós, olhando a paisagem a sua frente, que deve ser o mar de sua Rimini natal. E aí, magicamente, uma luz de cenário se acende, e passam a desfilar diante dele, dançarinos, saltimbancos, palhaços, acrobatas, tudo como se num show circense.

A partir daí, mas sem obedecer a cronologias, vai-se narrando episódios na vida do cineasta. O primeiro deles, e talvez o mais demorado, é a sua entrada na revista romana de humor “Marc´Aurelio”, como chargista. Seus desenhos e suas charges são motivos de pequenas encenações e o espectador tem a chance de constatar o cineasta inventivo que esses rabiscos prometiam.

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Seis anos depois, à mesma “Marc´Aurelio”, chega o jovem Ettore Scola, com o mesmo propósito, sendo aceito do mesmo modo. A essa altura Fellini já saíra do jornal e já fazia sucesso como cineasta premiado, mas isto não impede que os dois se encontrem e se tornem companheiros de trabalho e amigos. Até porque são muitos parecidos: como assegura o narrador, “ambos meio abstratos, sem jeito para atividades físicas, nunca chutaram uma bola, os dois apaixonados por desenho, pintura e cinema”.

E não podiam faltar os percalços. É o que se tem nos primeiros sketches de um Fellini ainda tateante, encenados no palco modesto de um teatro de revista: sem achar graça no humor dos textos, a platéia começa a jogar lixo no velho ator que performatiza o quadro. Claro, tudo muito felliniano!

Muitas das cenas em que os dois cineastas aparecem juntos soam como fictícias, sem que isso tenha propriamente importância. Para quem conhece a filmografia de Fellini, são, na verdade, cenas poeticamente necessárias, como aquela em que, numa noite qualquer, a dupla dá uma volta pelas ruas de Roma, e, na calçada das putas, oferece carona a uma delas, a qual, no banco de trás do carro, lhes relata quase toda a sua vida. Se se prestar atenção, nesse relato descontraído estão elementos que alimentariam muitos dos roteiros fellinianos, entre os quais o de “La strada”, ou de “Noites de Cabíria”.

Sempre o teatro de revista...

Sempre o teatro de revista…

Pontos comuns entre os dois também são pessoas. Marcelo Mastroiani, por exemplo. E o filme remonta a “A doce vida” para o qual o ator indicado pela produção era Paul Newman, e não o “tipo comum” (palavras de Fellini) Mastroiani, por sua vez, quase recusado, anos mais tarde, por Scola, para o seu “Casanova e a revolução”. Uma canja histórica são as verídicas ´auditions´ que Sordi e Gassman fizeram para ganhar o papel.

Uma das poucas cenas documentais é o funeral de Fellini que, encerraria o filme, não fossem os protestos dos produtores. E então, Scola dá um jeito de jogar em cena mais uma de suas licenças poéticas. Matreiro, Fellini dribla os dois enfeitados carabinieri que guardam o féretro, e às escondidas, escapole pelos becos da cidade, até chegar ao que queria, um carrossel onde vai se divertir feito menino. E com o movimento do carrossel vêm as imagens de seu mundo fantasioso, um caleidoscópio frenético com que dele nos despedimos a rever as cenas mais queridas de suas películas…

É claro que essa licença poética não foi exigência dos produtores. Com certeza, ela já estava no roteiro que o hoje idoso Scola bolou com a ajuda preciosa de suas duas filhas queridas, Paola e Silvia.

Em tempo: a frase que intitula o filme (no original: ´Che strano chiamarsi Federico´) é reprodução de um certo verso de um poeta espanhol que foi xará de Fellini: Federico Garcia Lorca.

O mestre Fellini.

O mestre Fellini.