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CYRANO, MON AMOUR

17 jun

Não assisti a todos os filmes do Festival Varilux de Cinema Francês, mas quer me parecer que, este ano, a qualidade caiu um pouco. Dos sete ou oito que vi, “Cyrano, mon amour” (2018) foi o mais interessante.

Dirigido pelo jovem e novato no métier, Alexis Michalik, o filme narra a genesis da peça “Cyrano de Bergerac”, que o teatrólogo Edmond Rostand escreveu e encenou, na Paris de 1897. Sucesso de público e crítica: com dezenas de encenações ao longo do século XX, a peça também gerou adaptações cinematográficas, das quais lembro duas, ambas homônimas ao original: a de Michael Gordon, 1950, com José Ferrer no papel-título, e a de Jean-Paul Rappenau, 1989 com Gérard Depardieu no mesmo papel. Sem esquecer a de Fred Schepisi, “Roxanne” (1987), com Steve Martin.

Michalik, com certeza, conhecia estas versões, mas, não foram elas que o motivaram a fazer o filme, pois, como dito, ele não pretendia verter nada, e sim, ir atrás da origem da escritura dessa peça tão importante. Ir atrás não é exatamente a expressão apropriada… inventar deve ser mais o caso. Por que será que Rostand – o filme indaga – quis recriar um episódio na vida de um personagem real da História da França do século XVII,  que, tendo sido escritor, ficou, no folclore da cultura francesa, muito mais como o duelista de nariz descomunal?

Segundo consta, ao invés das adaptações citadas, Michalik teria sido inspirado por um filme inglês a que assistira na adolescência e nunca esquecera. O filme foi “Shakespeare apaixonado” (1998), onde o diretor John Madden fez a brincadeira de inventar uma situação ficcional na vida do Bardo de Stratford que o teria levado a escrever a peça “Romeu e Julieta”. Michalik queria fazer algo semelhante, e fez.

De modo que o que temos em geral em “Edmond” (título original do filme) é a luta física, psicológica e intelectual de Rostand, para escrever uma peça que, não apenas superasse seus fracassos – como o anterior “A princesa longínqua” (1895), que nem a presença da diva Sarah Bernhardt salvou – mas que trouxesse algo de novo e vibrante ao mundo teatral francês.

E os percalços dessa difícil escritura, vão brotando da cabeça criativa de Michalik e seus co-roteiristas: segundo esse roteiro inventivo, as ideias, quase todas pelo menos, vão chegando a Rostand a partir de fatos que, por coincidência, ocorrem em torno dele. Por exemplo, ele, Rostand, teria um amigo que não conseguia conquistar a namorada porque era intelectualmente pouco dotado, e Rostand, que fala e escreve bem, meio sem querer, “conquista” a namorada do amigo com falas e depois cartas eloquentes e poéticas. A esse amigo é dado um papel na peça, e por um acidente (in)feliz, a moça termina também no mesmo palco, na tão esperada e estrondosa estreia da peça no “Théatre de la Porte-Saint Martin”, em dezembro de 1897.

Edmond Rostand, interpretação do ator Thomas Solivèrres.

O papel de Cyrano fica com o então famoso ator Constant Coquelin – espécie de paraninfo do projeto – e toda uma gama de artistas da bela época vai aparecer em pontas significativas: além da diva Bernhardt, podem ser vistos figuras como Anton Chekov, George Méliès, e George Feydeau, este interpretado pelo próprio Alex Michalik. Sim, aquele filmezinho a que Rostand assiste meio por acaso, mas com curiosidade interesseira, é o “Saída dos operários da usina”, uma das primeiras filmagens dos inventores irmãos Lumière.

Esse interesse de Rostand (digo, o Rostand de Michalik) é que vai justificar a recusa de um filme – que trata de teatro – em ser teatral. Por exemplo: uma cena importante do ponto de vista temático e estético, a da morte de Cyrano, é descrita com o recurso livre e estritamente cinematográfico a um cenário (o convento religioso do final) que não está no palco, mas fora dele, e bem distante fisicamente falando.

Em tempo: aquele momento no teatro em que, junto com Coquelin, todo mundo passa a gritar “merde, merde!” não é gratuito, como pode parecer ao espectador desavisado: faz parte de uma tradição, ainda hoje viva, do teatro francês. É que nos velhos tempos do Cyrano verídico, século XVII, as pessoas iam ao teatro em charretes puxadas por cavalos, e estes animais, durante o espetáculo, defecavam na rua, ou seja, quanto mais fezes, mais sucesso para a peça em cartaz.

Enfim, um filme leve, divertido, e ao mesmo tempo, sensível e refinado, que retoma um tema conhecido (o amor que nasce da palavra poética, e não do físico do amado) e lhe concede vida nova.

O ator e paraninfo do projeto, Coquelin, é interpretado por Olivier Gourmet.

“Green Book” – Conduzindo Dr. Shirley

1 abr

Falando-me, uma vez, sobre sua carreira de pianista, um conhecido meu (cujo nome não estou autorizado a mencionar), confessou-me que, na juventude, tocando para plateias de clubes da elite, passava pelo seguinte embaraço: o gerente do clube punha uma cortina redonda, circundando o pequeno palco onde ele fazia sua performance, para que a ilustre plateia presente não o visse. Motivo: a cor negra da sua pele. Isso eram anos sessenta, em certa capital nordestina.

Se naquela época, no Nordeste brasileiro, acontecia esse tipo de discriminação, imaginem nos Estados Unidos.

Pois é, lembrei a estória do meu amigo vendo o filme “Green Book” (“O guia”, 2018), ganhador do Oscar de melhor filme do ano.

Com ótimo roteiro, e baseado em caso real, o filme de Peter Farrelly parte de uma situação diegética bem propícia a explosões. Um branco pobre aceita ser o motorista de um negro rico, numa excursão pelo Sul racista dos Estados Unidos.

Leão de chácara de uma boate, Tony Lip, o branco, é um grosseiro descendente italiano que, no momento desempregado, ganha uns trocados apostando com outros brutamontes quem engole mais cachorros quentes de uma vez. Já o Dr Don Shirley, o negro, é um famoso e refinado pianista de música clássica que reside suntuosamente no Carnegie Hall, Sétima Avenida, Manhattan. Duas pessoas bem diferentes que terão de conviver por meses, no mesmo automóvel, ou hotéis, ou bares, e enfrentar conflitos internos – entre os dois – e externos – o racismo explícito do “deep South.

A longa e difícil viagem dos dois personagens, do Meio Oeste americano para o extremo Sul é mais ou menos previsível. Com o passar dos dias, as diferenças entre eles vão desaparecendo, ambos descobrindo o valor do outro, ambos se humanizando, e até se sacrificando pelo outro… e, no desenlace, terão se tornado grandes amigos, cada um admirando no outro suas particularidades, mesmo as menos contornáveis. Obviamente os embates com a hostilidade local, em cada cidade visitada, os aproxima, como não faria a frouxa libertinagem nova-iorquina.

Naturalmente, cada um dos dois tem que, em dadas circunstâncias, fazer concessões ao outro e eventualmente abrir mão de convicções ou hábitos. Exemplos: o refinado Dr Shirley termina comendo frango assado no carro e sujando seus dedos finos de pianista. E o grosseiro Tony termina por aceitar que o seu companheiro de viagem lhe dite as belas palavras poéticas, que ele não saberia colocar nas cartas que escreve à esposa.

No mesmo espírito de concessão ao diferente, estão: (1) o comparecimento do Dr Shirley a uma boate negra popular, e mais que isso, sua aplaudida performance no local. (2) a mais ou menos tranquila aceitação da homossexualidade do patrão negro por parte de Tony, que lhe diz, sem delongas: “não se preocupe: vivendo no mundo em que vivo, estou acostumado com o fato de que as pessoas são complicadas.”

Assim como as interpretações, o diálogo é primoroso e, como esperado, ajuda o espectador a ter, dos personagens, uma visão mais profunda, por exemplo, quando, no meio da estrada, os dois personagens discutem sobre o que é ser negro nos Estados Unidos, cada um se dando como mais “negro” que o outro. E, em ambos os casos, os argumentos são convincentes…

Mas, às vezes, o filme fica eloquente sem o emprego de palavras. Lembrem aquela cena, em plena rodovia, com o carro quebrado e Tony providenciando o conserto, enquanto, do banco de trás, o negro Dr Shirley observa os pobres trabalhadores rurais, também negros, na dura labuta de colher o algodão da plantation. Por um tempo, os olhares se cruzam e, de parte a parte, as expressões não são nada tranquilas. Bela cena, cheia de dores, que diz mais sobre o protagonista do que palavras poderiam dizer.

Um negro e um branco forçados a conviver por um tempo em situação hostil… Essa estória já foi contada em um clássico do cinema americano. Estou, cá com meus botões, me reportando aos anos cinquenta, quando o racismo era um pouco mais trágico. O filme que me vem à mente é “Acorrentados” (“The defiant ones”), o qual, com Tony Curtis e Sidney Poitier no elenco, o grande e corajoso Stanley Kramer dirigiu em 1958. Só que, na estória de Kramer, o problema era maior: os dois personagens são fugitivos do cárcere, e pior, estão algemados um ao outro… De todo jeito, não dá pra apreciar o filme de Farrelly sem pensar no de Kramer, ao qual, para fechar, remeto o meu leitor.

“Outro sertão” ou A lista de Guimarães Rosa

29 maio

Nos primeiros anos da Segunda Guerra, quando a situação, na Alemanha, tornou-se inviável para quem não fosse ariano, aumentaram consideravelmente as tentativas de fuga da população judia. Uma delas era via Consulados estrangeiros que pudessem fornecer, a esses cidadãos desesperados, passaportes para o exterior, e qualquer país serviria.

Evidentemente, nem todos os Consulados prestaram um serviço desses, escuso e perigoso, porém, um houve, em Hamburgo, que o fez com certa generosidade e muita coragem. No segundo semestre de 1939, pelo menos 96 cidadãos de origem semita puderam escapar para o Brasil com passaporte de “turista”, e esta rubrica era, naturalmente, falsa.

O responsável por esta “lista” de salvos do Holocausto? O vice-cônsul brasileiro em Hamburgo João Guimarães Rosa.

Eis do que trata o belo documentário “Outro sertão” (2013) da dupla Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, recentemente em exibição no Cine Banguê, em João Pessoa.

Mas, atenção, para além de seu lado meramente jornalístico – o de fazer um furo histórico – o filme reconstitui, e o faz com lirismo e beleza, toda a trajetória alemã do autor de “Grande sertão: veredas”, da sua chegada deslumbrada com a vida em Hamburgo, em 1938, até seu retorno desencantado, em 1942.

Guimarães Rosa foi um germanófilo apaixonado, paixão que – segundo ele mesmo revela – surgiu já na infância, quando deixava de jogar futebol com os coleguinhas de classe, para se debruçar sobre páginas de livros alemães, com suas palavras cheias de combinações consonantais que o fascinavam. Foi certamente essa germanofilia de vida inteira que o entusiasmou, ao ser nomeando vice-cônsul em Hamburgo, e foi ela também que produziu o conflito íntimo, ao dar-se conta das barbaridades do nazismo, que passou a presenciar com um pouco mais de ênfase a partir do estouro da guerra.

Para reconstituir cinematograficamente esses difíceis quatro anos de convivência do escritor com o nazismo, foi preciso uma pesquisa monstruosa que cascavilhou toda uma documentação oficial, alemã e brasileira, cartas do autor, fotos, filmes e depoimentos de ex-amigos do biografado, sem falar nos oportunos testemunhos dos “salvos do holocausto” ou de seus parentes. Professores e pesquisadores da obra do escritor também depõem e comentam a possível relação de sua vivência alemã com o seu fazer literário.

Segundo consta, as diretoras passaram mais de uma década pesquisando nas fontes mais variadas, produzindo mais de três horas de filmagem, depois operando o corte criterioso para os 70 minutos com que o documentário foi lançado. Ao material da pesquisa, acrescentaram o que lhes pareceu doar substância poética à estória contada, em alguns casos, imagens de arquivo e trilhas sonoras que estivessem na mesma isotopia dos fatos descritos. As imagens iniciais e finais do oceano ao som de canções brasileiras são um exemplo que vem ao caso.

Foi recusado aquilo que é comum em documentários – uma voz autoral narrando os fatos – e as diretoras preferiram que essa narração fosse, em linhas gerais, feita pela “voz” do próprio Guimarães Rosa, no caso, a partir de trechos de suas cartas, dirigidas a seus familiares no Brasil. O que permitiu dividir o filme em partes cronológicas (a chegada, o amigo, o diário, o escritor, o diplomata, etc), cada uma com uma epígrafe retirada das cartas. E, claro, homologando a voz do escritor, as imagens e os sons escolhidos para costurar o andamento da estória.

Uma cena tocante é a descrição (com acompanhamento de imagem adicionada pelas diretoras) de um parque infantil onde as crianças se divertem e que mantém uma placa ostensiva: “Parque de diversão para crianças arianas”. Depois vêm os relatos das restrições ao povo judeu, sem liberdade de locomoção, sem alimentos, sem aquecimento para o rigoroso inverno alemão, sem voz e sem direitos.

De modo tal que, depois de metade da projeção decorrida, quando nos deparamos com o que não sabíamos antes de entrar no cinema (pelo menos, foi este o meu caso) – o heroico fornecimento dos passaportes de turistas para famílias judaicas – já não temos grande surpresa. Ou temos? O fato é que, nesse momento, e a partir dele, para sempre, a estatura do homem cresce para ficar do mesmo tamanho da grandeza do escritor.

Descoberto pelas investigações da Gestapo, o escritor seria, mais tarde, deslocado para Baden-Baden, onde, junto com outras “figuras suspeitas”, permaneceria por cerca de cem dias, em estado de prisão domiciliar, sendo em seguida reenviado ao seu país de origem, por sorte, intocado e ileso.

Vinte anos depois de tudo passado, em 1962, Guimarães Rosa concederia uma entrevista a um canal de televisão alemão, mas o assunto foi exclusivamente literatura. Interrogado por um crítico literário, ele discorre um pouco sobre seus livros publicados, suas origens, suas motivações e o sentido que lhes quis dar. Completamente desconhecida até então, essa entrevista é mais uma das muitas preciosidades que a realização de Jacobsen e Vilela generosamente nos oferta.

“Outro sertão”: além de poético, um filme importante, que não interessa apenas a literatos e cinéfilos, mas a todo cidadão que se preocupa com o conceito expresso naquela palavrinha que o poeta francês Paul Éluard – uma outra vítima do nazismo – queria escrever em todo lugar: liberdade.