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Duas Hollywoods

21 ago

Já me perguntaram por que, sendo tão ligado a cinema, nunca quis visitar Hollywood. Ao me fazerem a pergunta, tenho sempre a resposta na ponta da língua: se a viagem daqui pra lá fosse, não espacial, mas temporal, eu iria com muito prazer.

Aí então eu iria conhecer os grandes estúdios dos velhos tempos, que fizeram a glória da Meca do Cinema: a MGM, a Fox, a Universal, a Warner, a Paramount… Hoje, o que eu vou ver em Hollywood, senão computadores e executivos? Gastar um dinheirão pra isso?

Pois bem, por módicos 34 reais, fiz a visita a esta Hollywood de agora, e isto, sem sair de casa. Em livraria local, acidentalmente encontrei esse livro “Hollywood é como a escola” (Zoey Dean, Record, 2013) que, pela orelha, vi logo que supria o meu suposto intento de ter, de perto, uma visão de como funciona por dentro a Hollywood de hoje em dia.

Ficcional, o livro é um romance, mas escrito por quem conhece muito bem os bastidores da Hollywood atual, local onde a estória se passa. Em primeira pessoa verbal, é a protagonista quem nos relata a estória. Ela, Taylor Henning, é uma moça simples e determinada, que ganha o emprego do que eles hoje chamam pela sigla de C.E., ´Creative Executive´, cuja função é ler roteiros, opinar sobre, e decidir quais podem eventualmente virar blockbusters ou Oscar winners, ou, se não isso, ao menos um filme rentável. Mas, a criatividade desse executivo também se estende à toda a logística da produção e da divulgação, aí incluídas todas as infindáveis trapaças da atividade. Quase tudo resolvido nas teclas dos mil computadores.

Como se imagina, a vida não é nada fácil nesse mundo semi-virtual de fakes e fatos indistintos, povoado por ambição e controlado pelo dinheiro. Taylor é só uma mocinha talentosa, mas inexperiente, e seu aprendizado sobre a luta pela ascensão profissional é penoso e devasta sua alma. Às vezes ela tem que ser vil, mesquinha e até traidora; às vezes tem a chance de ser nobre e, claro, ela é uma coisa ou outra, a depender da conveniência.

Para mim, são duas.

De minha parte, me agradaram duas coisas no livro – a verossimilitude do enredo (sim, com certeza, a eletrônica Hollywood atual funciona assim) e, apesar do predomínio do virtual, o empenho da narradora em ser descritiva ao extremo. Não apenas a geografia da cidade é retratada com realismo, como também as roupas, sapatos, drinques, pratos, cachorros, móveis, smartphones e automóveis dos personagens – tudo descrito com uma minúcia documental.

Depois de ter lido, soube que o livro – escrito a quatro mãos por um casal que usa o codinome de Zoey Dean – virou uma série televisiva e não me surpreendi. Seu enredo é novelesco, cheio de pequenas intrigas que se enlaçam e desenlaçam, sem perder o foco duplo em dois caminhos centrais, nem sempre paralelos: subir na profissão e conseguir o grande amor.

Achei que ia me aborrecer com um livro que só estava lendo por curiosidade, mas que nada: identifiquei-me com essa “executiva de criação” meio truculenta, vibrei com suas astúcias sacanas e sofrei com suas quebradas de cara.

A moderna Taylor Henning se refugia no clássico de Capra (1946)…

Um dado a favor de minha curtição é que, embora diferentes nos resultados artísticos, as duas Hollywoods – a de hoje e a antiga – se tocam em vários pontos, claro. O principal, para mim, é que, se porventura opaca e limitada, a de hoje continua perseguida pelo imenso brilho da antiga. Sem coincidência, o texto está cheio de referências à era clássica. Por exemplo, qual é o filme que Taylor, depois de um certo retumbante fracasso profissional, vai ver, tristonha, no seu aparelho de televisão caseiro? Claro, “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946).

Uma dessas referências ao passado é mais sintomática que todas as outras. Quando por acaso Taylor põe as mãos no interessante roteiro de uma principiante tímica e insegura, em quem ninguém acreditava, a frase que lhe vem à mente é: quem sabe se esse roteiro não poderá ser o “Casablanca” moderno? Se vai ser mesmo o leitor não vem a saber (o livro termina no meio das filmagens), mas uma coisa é certa: a frase de Taylor constitui, a rigor, uma grande ironia do livro, pois  esconde de propósito a verdade que  todos nós estamos cansados de saber: que, na Hollywood de hoje em dia, ninguém tem capacidade para fazer um filme com a grandeza de “Casablanca”. E por extensão, com a grandeza de todo o cinema clássico dos anos 30, 40 e 50…

Por essas e outras é que só aceitaria ir a Hollywood, se a viagem fosse temporal. Tenho dito.

Já não se fazem mais filmes com a grandeza de Casablanca….

O Netflix e o conceito de clássico

5 set

Outro dia estávamos num restaurante, tomando um bom vinho e batendo papo sobre cinema, eu e um amigo, grande cinéfilo, que me perguntou se eu já tinha o Netflix. Ao ouvir que não, foi logo, munido de seu potente celular, me mostrando, entusiasmado, as maravilhas desse aplicativo de cinema.

“Tem filmes clássicos?” Perguntei, e ele: “Claro. Quer testar? Diga aí o nome de um clássico que você queira rever”. E eu: “Crepúsculo dos deuses”. Ele foi lá, cutucou daqui, cutucou dali, e nada… Não tinha. Ele: “Esse, por coincidência, não tem. Diga outro”. E aí eu apelei pro óbvio: “Casablanca”. Não tinha. Depois foi “E o vento levou”. Também não tinha. “Cantando na chuva”. Também não.

Com as negativas seguidas, o entusiasmo de meu amigo foi virando embaraço, e, sensatamente, mudamos de assunto, e passamos a comentar a boa qualidade do espaguete com molho de camarão servido, e principalmente o buquê especial do Chianti.

Ora, algumas semanas depois desse jantar que o amigo tão gentilmente me oferecera, o que me acontece? Ganho, dos meus filhos, o acesso ao Netflix, instalado no meu notebook – sintomaticamente – pelo meu neto de nove anos de idade.

Fiquei muito feliz com mais essa fonte de acesso ao cinema, que é realmente maravilhosa. Meu notebook é ligado ao meu aparelho de tv de 46 polegadas, e, assim posso ver os filmes do Netflix – que são de fato, em grande quantidade, e alguns, muito bons – na tela (mais ou menos) grande, com uma qualidade de imagem impressionante. Nesse dia, entendi o entusiasmo de meu amigo cinéfilo…

“Cantando na chuva”, um dos muitos clássicos fora do Netflix

Mas, voltemos aos clássicos. Na página principal do Netflix há um quadro com as categorias dos filmes disponíveis, e uma dessas categorias é CLÁSSICOS. Curioso, cliquei lá e – como já supunha que aconteceria – a decepção foi enorme.

Da totalidade dos filmes disponíveis nessa categoria, só consegui detectar cinco filmes que, a rigor, poderiam ser chamados corretamente de clássicos, que são: “Janela indiscreta” (1954), “Um corpo que cai” (1958), “Psicose” (1960), “Spartacus” (1960) e “Bonequinha de luxo” (1961)… Todo o restante são filmes lançados na segunda metade do Século XX, se estendendo até o ano 2000. Muitos são realmente filmes bons, alguns muito bons, mas, clássicos?

Ok, vamos considerar – e se for o caso, aceitar – que o pessoal do Netflix esteja, por conta própria, chamando de “clássico” tudo o que se produziu antes deste Novo Milênio em que estamos. A idade da maior parte dos seus jovens usuários deve justificar esse elastecimento do conceito de “clássico”.

Pois bem, mesmo assim, permanece o problema: se for “clássico” tudo o que o Século passado produziu, por que só está no Netflix a segunda metade? E a primeira? Não existe? A ironia é que, se for pelo critério de ´quanto mais antigo mais clássico´, essa primeira metade ausente é muito mais clássica que a segunda!

“Onde os fracos não têm vez”, como filme noir – parece piada.

A minha segunda decepção com o Netflix tem a ver com outra categoria, a de filme noir: fui checar os títulos e – desta feita não adianta acochambrar – não existe um só filme noir, dentre os filmes noir oferecidos pelo Netflix. Ocorre que o noir é um gênero historicamente datado, que vai de 1940 (com “Relíquia macabra”) ao final dos anos cinquenta (com “A marca da maldade”, 1958). São todos filmes preto e branco, com uma estrutura semiótica particular, com um estilo plástico e enredo bem particulares, com ingredientes diegéticos igualmente particulares. Aliás, diga-se de passagem, todos eles REALMENTE clássicos.

Mas, sosseguem: não estou aqui para meter o pau no Netflix. Como se trata de um Programa novo, pode ser que, com o tempo e aos poucos, venham a ser incluídos mais títulos antigos no seu repertório de clássicos. Aguardemos. Na verdade, estou curtindo um bocado tê-lo a meu inteiro dispor. É legal poder ver ou rever, com uma qualidade de imagem de fato excelente, grandes sucessos dos anos 70, 80 e 90, bem como os filmes da atualidade.

Contanto que não tenhamos que chamar “Uma linda mulher” de clássico, e “Onde os fracos não têm vez” de noir!

Rick e Ilsa (Casablanca, 42), provavelmente, se perguntando: por que não estamos no Netflix?

Hiroshima

11 jul

Sessão nostalgia – noite de domingo chuvoso e frio, no Cine Banguê, para rever, sozinho, “Hiroshima, meu amor” (Alain Resnais, 1959).

Claro que valeu a pena.

No viés nostálgico, reportei-me aos dois momentos, bem diferentes, em que havia visto o filme de Resnais.

O primeiro foi no Cine Bela Vista, no bairro de Cruz das Armas, comecinho dos anos sessenta. Soube depois que tinha sido uma das primeiras sessões do projeto “Cinema de Arte”, da então nascente ACCP, a Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba. Mas, na época, adolescente, eu era verde demais para entender dessas coisas. Apenas assisti àquele filme estranho com a impressão de que jamais o esqueceria. E nunca esqueci.

O segundo foi já nos anos oitenta, na ocasião do fechamento do Cinema Rex. Se não me engano organizada pelo setor cultural da ADUF, houve uma celebração do evento, uma semana de exibição de filmes clássicos, entre os quais “Hiroshima”.

Depois disso, não o revi mais e a oportunidade foi bem vinda. Na minha lembrança, o filme de Resnais era mais abstrato e mais vanguardista. Talvez eu estivesse influenciado pela sua associação com a Nouvelle Vague, ou com o seu realmente abstrato “O ano passado em Marienbad” (1961). Esta sessão me ajudou a corrigir uma impressão errônea.

Sim, afinal de contas, o filme relata uma estória com começo meio e fim. É cheio de flashbacks e contém muitas daquelas cenas em que a câmera “abandona” os protagonistas e vai passear pelas ruas e outros logradouros da cidade, porém, nada disso perturba a lógica da estória contada: o caso de amor entre um arquiteto japonês (Eiji Okada), casado, e uma atriz francesa (Emmanuelle Riva), também casada, no momento rodando um filme sobre a paz em Hiroshima.

A narração começa investindo forte na metonímia e acho que foi isso que me deu a impressão de “cinema abstrato”. Por um bom tempo, não se mostram os rostos do casal na cama, só partes de seus corpos nus, filmados tão de perto que a identificação é dificultada. E suas falas são todas em “voice over”, como disse, enquanto se veem as ruas de Hiroshima, ela insistindo em que viu tudo de Hiroshima, ele, contestando que ela não viu nada. Para completar, essas vozes soltas no espaço e no tempo, são articuladas como se se tratasse, não de um diálogo, mas, de declamação poética. E neste momento, a gente lembra que o diálogo ficou ao encargo de Marguerite Duras.

Mais de meia hora de projeção decorre assim, nisto que chamei de cinema abstrato, mas, em seguida, fica o filme mais – digamos – convencional, sobretudo a partir do momento em que nos são dados os rostos dos dois protagonistas, momento também a partir do qual eles começam a falar como se fala, sem recitação.

Esse tom de recitação só vai voltar na cena final, quando – depois de muita luta interior – o casal se reencontra entre quatro paredes e encerra o filme com a dedução inevitável, toda articulada devagar, sílaba por sílaba:

Ela: Hi – ro – shi – ma. C´est ton nom.

Ele: Oui, c´est mon nom. Et ton nom à toi est Nevers, Nevers en France.

No meio termo, digo, entre a parte inicial e este desenlace, fica uma estória de amor cheia de conflitos, com direito a todos os elementos que compõem um melodrama cinematográfico: um casal adúltero apaixonado e uma estória pregressa, de paixão e desespero. Não creio, por exemplo, que seja gratuito o fato de o hotel da protagonista se chamar CASABLANCA.

Um dos lances da narração que não posso deixar de anotar é o seguinte. Prestem atenção: na parte inicial, a voz over da mulher sempre se refere a um “tu” que deduzimos ser o homem a quem ela ama no presente, e com quem está fazendo amor no momento. Mais adiante, quando ela retrocede no tempo para, em flashbacks repetidos, contar a este homem de hoje, a sua estória de amor com o soldado alemão do passado, notamos que aquele “tu” era, o tempo todo, uma remissão ao passado. Um pouco mais adiante, vamos nos dar conta do melhor: é que esses dois “tus” – o referido ao passado e o referido ao presente – se confundem e se transformam, magicamente, em um mesmo “tu”. Esta fusão é o recurso fílmico maior para indicar que a atriz francesa está, sim, tão apaixonada pelo arquiteto japonês – esse que, de si para si, ela chama de “um desconhecido” – quanto estivera, durante a guerra, pelo soldado alemão. Genial.

Notei que ao terminar a exibição, com o “FIN” na tela e as luzes acesas, a jovem plateia presente ficou meio confusa, esperando, meio decepcionada, o que se tem hoje em dia: a longa lista dos créditos. Eu, que sou do tempo dos créditos no início do filme, ri comigo mesmo: de fato, eu era o único nostálgico da noite.

Em tempo: a exibição de “Hiroshima meu amor” não foi promoção da ACCP, mas do Cineclube Charles Chaplin, do Liceu Paraibano, conforme oportunamente nos informa o  estudioso de cinema Paulo Melo.Eem