Tag Archives: cavalos

Como sair deste filme?

26 dez

Como foi que vim parar neste fim de mundo? Francamente, não sei. Eu estava em casa, assistindo na TV a um velho faroeste, daqueles que só Hollywood clássica sabia fazer; me envolvi um pouco na estória e, quando dei por mim, tinha sido transportado, de corpo e alma, para dentro do tal filme. E aqui estou, sem saber como sair.

Aos States eu sempre quis ir: Los Angeles, Nova Iorque, Chicago, por aí. Mas, pelo amor de deus, Hadleyville? Que diacho de lugar é este onde vim cair? Cidadezinha do interior o mais atrasado, Velho Oeste típico, sabe como é, saloon, carroças, cavalos, poeira… Pelo jeito, a coisa mais moderna aqui é um trem velho que chega, todo dia, ao meio dia em ponto. E nada mais.

Por sinal, daqui a meia hora está chegando, e por causa disso, o alvoroço na cidade toda é grande. Antes, a cavalo, já haviam chegado três marmanjos mal encarados, que, parece, vão se juntar a um quarto, que vem no trem, pra dar cabo do Xerife local. É o que comentam. Do ponto onde me encontro os vejo, os três na Estação, ansiosos pra brigar, amaciando as armas.

A cidade está em polvorosa, mas, engraçado, não vejo ninguém ajudando o tal do Xerife. Ele passou por mim várias vezes. Uma vez indo ao saloon, pedir ajuda lá, e que eu saiba, saiu com o rabo entre as pernas. Depois tomou o rumo da igreja, onde também, pelo visto, ninguém o socorreu, coitado. Ainda bem que não me pediu ajuda. Acho que viu na minha cara que sou de fora, e que não estou disposto a me meter em encrenca alheia. Nem tenho perfil de pistoleiro pra pegar em armas.

Sem ter pra onde ir, sem saber o que fazer, ou sequer por que estou aqui, me limito a ficar bestando no hall do único hotel do lugar – pelo menos um recinto civilizado.

Vejo que entra uma loura ainda nova e bonita, muito circunspecta e bem vestida, que deve estar à espera do trem. Depois, chega, quem? Sim, o próprio Xerife: os dois trocam umas palavras. Não ouvi do que falaram, mas, pelo tom das vozes, com certeza nada de bom. Parece que são recém casados, e por causa da estória do trem, já separados.

E aí, ele sobe a escada e vai visitar alguém no primeiro andar do hotel. Pela cara maldosa do atendente do hotel, alguma amantezinha que ele esconde da esposa. Sei não.

Depois que ele desce e sai, a ex-esposa do Xerife se dirige ao atendente e os dois discutem umas coisas ferinas que não entendi, nem quero entender, como disse, não tenho nada a ver com isso. Um pouco mais adiante, a esposa, sem resistir à curiosidade, pergunta ao atendente quem o marido visitara lá em cima, e o atendente, com a mesma cara maldosa, confirma a estória da amante, e a esposa sobe as escadas rumo ao quarto da dita cuja. Acho que a poeira vai subir.

E eu, sentado, sem nada a fazer, salvo olhar, lá fora, a rua deserta. O pior é essa música que não paro de ouvir, que vem não se sabe de onde, como se do ar, e que penetra meus ouvidos, se repetindo ad infinitum. Começa sempre com umas batidas que parecem tropéis, depois vem a melodia e a letra em inglês falando de “forsake” (abandono) e outras coisas tristes.

Algum tempo depois, quando o primeiro apito do trem é ouvido, as duas mulheres, a ex-esposa e a amante do Xerife, descem juntas, como se fossem duas amigas de longas datas, e, com as mesmas posturas decididas, tomam a mesma charrete, e se dirigem à Estação numa boa… Não entendi nada, nem vou entender nunca. Nem quero.

De onde estou, pela janela do hotel, ainda avistei, lá longe, o pobre do Xerife, sozinho, em pé no meio da rua, com cara de besta, olhando as duas mulheres que, de malas feitas, se dirigiam à estação.

Não demorou muito para o trem, barulhento, aparecer, mas, nesse instante, de saco cheio de tudo isso, me recolhi a um dos quartos do hotel, me joguei na cama, tapando o rosto e os ouvidos com os travesseiros. Mesmo assim, continuei ouvindo a música insistente, e, no meio da música, não deixei de ouvir uns tiros, vários tiros. E depois o silêncio e o barulho de uma diligência partindo.

Quando penso que a estória terminou, a música retoma em tom mais alto, e tudo recomeça do começo… Quando vou poder sair deste filme, meu Deus, e voltar ao meu querido e tranquilo cotidiano, à minha casa em João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2017. Alguém me ajuda?

Anúncios

Boi Neon

27 jan

 

Super premiado em festivais de cinema, no exterior e no Brasil, finalmente entra em cartaz nos circuitos comerciais “Boi neon” (2015), filme do pernambucano Gabriel Mascaro, parcialmente filmado no município de Picuí, Paraíba.

Aclamado pela crítica, o filme aguarda uma resposta de público e – imagino – aguarda com certa ansiedade, já que o seu ponto forte é a quebra de estereótipos.

O primeiro deles é geográfico e histórico, fazendo a representação de um Nordeste brasileiro diverso do conhecido nas telas, no caso, um Nordeste próspero, de grandes negócios, que são as vaquejadas e toda a gama de atividades que elas incorporam.

boi 1

Tudo bem, os personagens são meros empregados dessas grandes empresas, mas, eles próprios não se encaixam no modelo esperado, por exemplo, o de homens machões e mulheres frágeis.

O vaqueiro Iremar, que prepara o gado para o show das vaquejadas, alimenta o sonho de tornar-se um dia um grande costureiro. Quase sempre sujo de bosta de boi (expressão usada no diálogo) adora perfumes caros, e fica fascinado no dia em que adentra uma fábrica de máquinas de costura. O caminhão que transporta a equipe toda no trajeto para as vaquejadas, e que serve a todos de moradia, é dirigido por uma mulher, Galega, separada do marido que cria uma filha adolescente. Essa mesma motorista mãe é quem faz a performance da dançarina com cabeça de cavalo para uma plateia de marmanjos. O vaqueiro novato que se integra ao grupo, Mário, usa aparelho dentário e cabelos longos, muito bem tratados, aliás, que o fazem passar horas diante do espelho. A moça grávida que vende cosméticos tem a profissão, supostamente masculina, de vigilante.

E assim segue a lista de “quebras” do convencional, que, aliás, o diretor do filme alega terem sido baseadas em casos reais.

w 3

Reais ou não, o fato é que o filme desenrola-se em tom enfaticamente documental, um tom que subestima a narratividade e superestima os personagens em si e a paisagem. Neste sentido é que os planos são longos, quase planos sequência, a fotografia hiper caprichada, e os esperados turning points praticamente não existem.

Se não, vejamos. A substituição do vaqueiro Zé, pelo novato Mário sugere um encaminhamento novo para o enredo, um encaminhamento que, contudo, nunca vem: a vida no grupo continua a mesma, e a mesma será até o final. A chegada da moça grávida que vende cosmético tampouco muda muito na estória: Iremar a visita na fábrica onde ela é vigilante, fazem amor (mais um plano quase sequência), mas, aparentemente, nada muda na rotina do vaqueiro, tanto é assim que o fotograma final do filme é bem sintomático, mostrando-o no mesmo cenário de sempre, um homem entre bois.

Os episódios intermediários entre abertura e final são só episódios, com o mesmo sentido descritivo de qualquer paisagem ou de qualquer trecho da labuta diária dos vaqueiros, entre o gado ou em casa. Por exemplo: o caso da tentativa de Iremar e Zé de, nos bastidores do leilão de cavalos, conseguir, às escondidas, o esperma de um puro sangue, para posterior revenda, fica na estória como um detalhe que, se não atrapalha a narração, tampouco a adianta.

w 4

A longa duração dos planos tem um corolário: as grandes elipses diegéticas, que tornam a narração ainda mais frouxa. Ou estas é que motivam a duração dos planos – dá no mesmo. Embora o cenário geográfico seja sempre o interior do Nordeste, para o espectador não ficam claros os locais, ou os percursos com seus pontos de partida e chegada. Em suma, dilui-se um pouco a noção de espaço diegético, e, junto com ela, a de tempo. Sintam como, na primeira metade do filme o espectador ainda não domina a fabulação – se é que há uma – e, mais tarde, só o fará de forma vaga. Isto, bem entendido, não é um defeito, e sim uma proposta.

Não é a primeira vez que o Nordeste recebe uma representação inovadora. Filmes como “Bye bye Brasil”, e “Baile perfumado” já apontavam para esse caminho, porém, “Boi neon” vai adiante na tensão entre o que seria arcaico e o que seria moderno de forma quase radical. Tensão que, se você quiser, já está prometida nas duas palavras do seu título.

Preparar a cauda do boi para a vaquejada ou desenhar modelitos? Dirigir caminhão ou dançar no palco? Vender perfume ou ser policial vigilante? Esses paradoxos actanciais misturam e desconstroem a dicotomia masculino/feminino, com a consequência inevitável de suscitar a revisão dos conceitos, não tanto de gênero, mas de violência e sensibilidade, de crueldade e delicadeza, de agrura e sonho.

Enfim, aguardemos para ver a reação das platéias, dela dependendo, o paradeiro comercial de “Boi neon”. Sim, porque, em cinema, comércio é importante.

Iremar, o vaqueiro que gosta de Moda...

Iremar, o vaqueiro que gosta de Moda…

 

A lenda impressa

8 dez

Em seu número de abril deste ano, a revista “Super Interessante” veiculou matéria que interessa de perto aos espectadores de cinema, especialmente aos que têm idade para haver consumido o gênero do Western, ou, em termos domésticos, o Faroeste.

Com o título de “O verdadeiro Velho Oeste”, a matéria contrapõe o mito criado pelo cinema ao verídico e bem diferente modo de vida no Oeste americano do século XIX. Baseados em livros de historiadores que estudaram a fundo o assunto, os autores da matéria, Andreas Müller e Ricardo Lacerda, fazem ver que praticamente todos os grandes esquemas ficcionais que sustentaram a semiótica do filme faroeste carecem de correspondentes na realidade.

O duelo na rua central do povoado - criação cinematográfica?

O duelo na rua central do povoado – criação cinematográfica?

Para dar o exemplo mais ostensivo, os famosos duelos na rua principal da cidade, onde, sob olhares ansiosos, vencia o pistoleiro que fosse mais rápido no gatilho, nunca aconteceram. Duelos eram raríssimos e quando aconteciam era em algum local ermo e distante, de madrugada, e devidamente supervisionado por padrinhos de ambas as partes. E pior: as armas eram precárias e os seus usuários eram geralmente ruins de pontaria; tão ruins que uma figura emblemática da época, o Bat Masterson real, aconselhava a quem quisesse acertar um eventual inimigo, que mirasse na virilha para ver se acertava no coração.

A verdade é que no Velho Oeste havia muito menos violência do que a dos filmes, ou, a esse propósito, a do Oeste americano de hoje em dia. Ao contrário do que está na expressão consagrada pelos próprios americanos, “wild West” (`oeste selvagem´), havia lá muito mais lei, ordem e civilidade do que se pensa, e as estatísticas demonstram que os crimes eram em número surpreendentemente menor do que o suposto. Naquele período histórico recoberto pelo grosso do gênero faroeste – mais ou menos de 1860 a 1890 – as cidades mais cinematograficamente afamadas pela desordem (Tombstone, Abelene, Dodge City) revelam médias criminais irrisórias. Em alguns casos, cerca de três a quatro assassinatos por ano.

Os saloons seriam mais pacíficos e ordeiros do que se pensa

Os saloons seriam mais pacíficos e ordeiros do que se pensa

Os assaltos a banco eram infinitamente mais raros do que os mostrados nos filmes, pois a segurança dos prédios e a presença da vigilância eram fortes. Os saloons tinham muito mais ordem e decência e as mulheres da vida fácil do lugar eram muito mais compostas e recatadas. Como a lei da segregação indígena já fora passada havia tempo, os índios do período enfocado pelos filmes já haviam sido devidamente domados e habitavam as suas reservas de modo mais ou menos pacífico.

Mas, se o “Oeste selvagem” era muito menos selvagem do que imaginamos, como se explica a brutalidade sem fim que fez o melhor do gênero western no cinema? Muito oportunamente, os autores da matéria lembram que a criação do mito já começou um pouco antes da existência do cinema. Nos primeiros anos da década de 1890 (e o cinema só foi inventado em 1895), figuras históricas, como Buffalo Bill e outros, criaram espetáculos circenses que percorriam o país inteiro, narrando as aventuras dos desbravadores do Oeste, sempre apresentados como grandes heróis, vencendo os obstáculos da conquista, entre os quais índios e bandidos.

O tiro no espectador de "O grande assalto de trem" (1903) foi o primeiro sintoma de violência

O tiro no espectador de “O grande assalto de trem” (1903) foi o primeiro sintoma de violência

Dos circos para o cinema foi um pulo. O filme que, segundo historiadores, inaugura o gênero do faroeste, “O grande assalto de trem” (“The great train robbery”, Edwin S. Porter, 1903) já diz tudo, até no título.

Ansiosos por aventura, os espectadores do cinema mudo não queriam, na tela, aulas de história, e sim, muita ação e muita briga, e se o Bem devia vencer no final, não teria muita graça se a vitória fosse fácil, daí a grande ênfase nos obstáculos e nas figuras do Mal, índios, bandidos, assaltantes, ladrões e quejandos.

O mito foi assim crescendo e quando o som chegou ao cinema, em 1927, o gênero western já estava mais ou menos configurado, com todos os seus traços essenciais: cenário, personagens, símbolos, conflitos e situações dramáticas basilares. Os grandes diretores de Hollywood, como John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh, Anthony Mann, Delmer Daves, John Sturges, investiram no mito e… o resto da estória vocês conhecem.

O cavaleiro solitário foi um dos mitos mais fortes do Western

O cavaleiro solitário foi um dos mitos mais fortes do Western

A matéria da “Super Interessante” é oportuna e instrutiva para os seus leitores – supostamente jovens curiosos – com, no entanto, um perigo. É que esses jovens leitores venham a deduzir que a fuga à verdade histórica nos grandes filmes faroeste comprometa a qualidade artística.

Quem dá uma resposta a isso é, por ironia, um filme faroeste: “O homem que matou o facínora” (1962) de John Ford. Não tenho espaço para reconstituir o seu empolgante enredo, mas fecho este meu comentário com a frase – hoje uma das mais famosas na história do cinema – que fecha o filme: “Quando a lenda supera o fato, imprima-se a lenda.”

E o que é o Western, se não a lenda impressa?

Monument Valley, a paisagem típica do Westerm, escolha do mestre John Ford.

Monument Valley, a paisagem típica do Westerm, escolha do mestre John Ford.