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LEITURAS DA QUARENTENA (4) GAYS CLÁSSICOS

9 maio

Sobre a questão da homossexualidade no cinema, tenho um amigo, da minha faixa etária, que costuma dizer que no cinema de hoje não há tantos gays assim. E completa: gays aos montes havia nos velhos tempos em que éramos crianças, ou nem tínhamos nascido.

A boutade de meu amigo vem da leitura de um livro que tenho nas mãos agora mesmo: “Bastidores de Hollywood – a influência exercida por gays e lésbicas no cinema 1910-1969” de William J. Mann, Editora Landscape, 2012.

De fato, é surpreendente a quantidade de homossexuais (homens e mulheres) que fizeram a história do cinema americano da primeira metade do século XX, desde o período mudo até os anos sessenta. Com certeza, muito maior e muito mais efetiva do que pensamos. Não apenas atores e atrizes, mas também produtores, diretores, roteiristas, fotógrafos, figurinistas, maquiadores, cenógrafos, etc. Isto para não falar dos periféricos, como, publicitários, empresários, colunistas sociais e jornalistas.

Em pesquisa exaustiva e abrangente, o autor investiga a vida e a obra de profissionais da área que deixaram suas marcas homo, na tela ou por trás das câmeras. Uns enrustidos, outros escancarados, são pessoas que deram sua contribuição para o que hoje chamamos de cinema clássico.

Na verdade, o autor não se detém nos nomes já conhecidos e prefere centrar-se naqueles casos mais obscuros e eventualmente mais influentes ou mais interessantes. Assim, vamos encontrar poucas linhas dedicadas a astros e estrelas cuja homossexualidade a imprensa já divulgou e vulgarizou, como Rock Hudson, Cary Grant, Randolph Scott, Montgomery Clift, James Dean, Marlon Brando, Anthony Perkins, Tab Hunter, Tyrone Power, Laurence Olivier, Charles Laughton, Greta Garbo, Marlene Dietrich, Claudette Colbert, etc…

Em muitos casos atores ou atrizes coadjuvantes recebem, no livro, mais espaço que os principais, casos especiais, por exemplo, de Clifton Webb, Laird Cregar, Vincent Price, Farley Granger, John Dall, Tallulah Bankhead, e outros tantos.

Um capítulo inteiro é dedicado aos diretores, como se sabe, nem sempre nomes conhecidos do grande público. Em “Teorias autorais” vamos conhecer mais de perto a influência de sete cineastas gay, estigmatizados como “The magnificent seven” (“Os sete magníficos”), expressão que, ironicamente ou não, serviria de título para o faroeste de John Sturges (no Brasil: “Sete homens e um destino”, 1960). Na ordem citada são: George Cukor, James Whale, Edmund Goulding, Mitchell Leisen, Irving Rapper, Arthur Lubin e Charles Walters.

O primeiro da lista, Cukor, teve, como se sabe, uma importância enorme na formação do cinema e, dos anos 30 aos 60, rodou filmes que se tornaram clássicos incontestáveis. Não tratou do tema da homossexualidade, mas seus filmes trazem um clima gay que não escapa aos olhos mais sagazes. Pessoalmente era assumido e sua luxuosa mansão era conhecida como o reduto de farras homéricas onde a comunidade gay se sentia à vontade para todas as práticas. Cineasta de renome, Cukor não era podado pelos estúdios, já que seus filmes davam bilheteria e não incomodavam a censura.

E, claro, não deixam de ser referidos os cineastas que se mantiveram no armário, como Vincente Minnelli e Nicholas Ray, bissexuais discretos que esconderam seus casos o quanto puderam.

Ironicamente, ou não, uma das fases mais sexualmente libertinas da história do cinema foram os seus primórdios, anos vinte, mais ou menos até 1934, ano em que o “código de produção cinematográfica” virou lei e impôs uma (auto) censura mais ou menos rigorosa. Dessa fase primitiva conhecemos pouco, mas o livro destaca ídolos, tão famosos quanto Valentino, os atores J. Warren Kerrigan e Edward Everett Horton, galãs gay que nem a censura segurou.

Um capítulo sobre os anos trinta (“Garotas com imaginação”) é dedicado às lésbicas, a começar pela grande cineasta pioneira que foi a Dorothy Arzner. E aí vem o rol das atrizes: Ethel Barrymore, Judith Anderson, Janet Gaynor, Kay Francis, e, claro, Garbo e Dietrich. Um caso particular analisado é o da atriz negra Hattie McDonald (a jovem empregada de Vivien Leigh em “…E o vento levou”).

Naturalmente, a imposição do Código Hays de Censura – vigente de 1934 a 1964 – arrefeceu um pouco os ânimos homossexuais. Se não nos bastidores, pelo menos nas telas. Num tempo em que os beijos cinematográficos eram cronometrados e uma cama de casal era uma imagem obscena, evidentemente se redobravam os cuidados para não se sugerir intimidades entre sexos iguais.

O que não impediu certas ironias curiosas. Por exemplo, nos anos cinquenta o censor que, em Hollywood, determinava o que podia ou não podia aparecer nas telas era um jovem e charmoso general do exército chamado Frank McCarthy, que – todo mundo sabia – era um discreto mas ativo gay. (Nada a ver com o senador McCarthy do anti-comunismo).

Outra ironia curiosa. Nos mesmos anos cinquenta, o produtor gay Ross Hunter era o mais conservador da época, formal e tematicamente falando. Indo no sentido contrário da nova geração de cineastas realistas e violentos que estava surgindo na época, (Kubrick, Aldrich, Brooks, Kramer, Pekimpah, etc), Hunter primava por um cinema “clássico”, limpo, delicado e inexplícito, geralmente melodramas luxuosos da Universal, dirigidos pelo sofisticado Douglas Sirk, e interpretados – com ou sem ironia – por Rock Hudson.

Não fica de fora do livro o lado porventura desumano e cruel da prática homossexual na Meca do Cinema. No capítulo sobre os empresários bissexuais, por exemplo, o autor cita um longo, detalhado e pungente testemunho de um de seus depoentes sobre os rapazinhos que, vindos do Interior tentar a sorte em Hollywood, eram usados sexualmente por uma rede de empresários, um passando para o outro como um favor de amigo, e, no final das contas, sendo descartados como lixo.

De qualquer forma, não custa dizer que “Bastidores de Hollywood” não é um livro dirigido apenas a homossexuais ou simpatizantes. Em que pese seu viés particular, é um livro sobre a história do cinema clássico, e neste aspecto, é um livro do interesse de todo e qualquer estudioso da sétima arte. Seu capítulo sobre a melancólica queda dos grandes estúdios nos anos 60/70, por exemplo, é, independente de inclinações sexuais, uma preciosa página de história. Como, aliás, o é o livro inteiro.

Recomendo.

O teste Bechdel

1 ago

Em quase todos os setores da vida social ser politicamente correto é saudável. Eu disse ´quase´ porque um setor há em que a correção política parece não dar lá muito certo: este setor são as artes. Sim, no terreno em que a criação prevalece geralmente qualquer cobrança – externa ou interna – de correção tende a virar censura, e…

No cinema a censura foi praticamente abolida desde os anos 70, mas, aqui e acolá, aparecem manifestações pontuais de correção política que cheiram à censura.

Um caso que acho engraçado é o do chamado “Teste Bechdel”. Já ouviram falar dele?

Aplicado sobretudo ao cinema, consiste no seguinte: para ser viável, um filme precisa ter três coisas, a saber, (1) precisa ter duas mulheres na estória; (2) essas mulheres devem conversar entre si; (3) a conversa não pode ser sobre homens.

“Rashomon” é um dos filmes reprovados pelo Teste Bechdel.

Segundo os divulgadores do teste, isto denuncia ou evita o machismo que predomina na produção mundial de cinema. Para eles, ou melhor, para elas, o ideal seria que, antes de o filme ser rodado, o roteiro fosse submetido ao teste, o que garantiria um mínimo de protagonismo feminino, coisa tão rara no cinema.

Se o teste chega a ser aplicado nos bastidores do cinema, eu não sei, porém, que ele – desde os fins dos anos noventa – vem sendo amplamente utilizado para julgar filmes já consumados e consumidos,  disso não há dúvidas.

O maior site de cinema, o IMDB, traz uma lista de quase mil filmes submetidos ao Teste Bechdel, onde, naturalmente, poucos são os aprovados, digo, poucos cumprem os seus três pré-requesitos.

Mas, já é hora de perguntar, de onde surgiu o Teste Bechdel?

Foi em 1985, em uma coluna de humor da famosa cartunista americana Alison Bechdel. O nome da coluna era “Dykes to watch out for”, que se poderia traduzir livremente para “cuidado com os sapatões”. Uma engraçada charge da coluna, chamada de “The rule” (´a regra´) criava um diálogo entre duas lésbicas (Bechdel, aliás, é assumidamente lésbica) em que uma confessava à outra: de agora em diante, só assisto filmes que… (e colocava os três pré-requisitos citados acima).

A charge foi bolada em tom brincalhão e nada prescritivo, mas isto não impediu que uma certa ala mais radical do feminismo americano levasse a brincadeira a sério e a transformasse em teste para denunciar o machismo prevalecente nos filmes em geral. Inclusive, aproveitaram para associá-lo – gratuitamente ou não – ao conceituado ensaio “A room of one´s own”, da escritora inglesa Virginia Woolf, onde se reclama do papel secundário que sempre tiveram as mulheres na ficção literária.

Mais um reprovado pelo teste, “Ladrões de bicicleta”.

Nem precisa dizer, mas vou dizer assim mesmo: o problema do Teste Bechdel é que ele não mede qualidade.

Basta ver entre os filmes testados no rol do IMDB, a quantidade enorme de grandes obras primas internacionais sumariamente desaprovadas. Por exemplo: “Tempos modernos”, “Jezebel”, “O morro dos ventos uivantes”, “Casablanca”, “Cidadão Kane”, “Rashomon”, “Ladrões de bicicleta”, “Morangos silvestres”, “Um corpo que cai”, “Os incompreendidos”, “2001 – uma odisseia no espaço”, etc. Ironicamente, foi reprovado até o filme que traz, no título, o nome da escritora que teria inspirado o teste: “Quem tem medo de Virginia Woolf”.

Uma ironia engraçada é que filmes que depõem contra a natureza feminina passem no teste numa boa, caso – e um exemplo entre muitos – de “A malvada” (Joseph Mankiewicz, 1950). E, caso mais drástico ainda, é que um filme quase misógino, como “O vampiro de Dusseldorf” (Fritz Lang, 1931) seja plenamente aprovado com os três pontos do teste.

Enfim, se você pensa que o Teste Bechdel está fora de moda e devia ser esquecido, preste atenção ao programa de cinema do canal Futura. Vez ou outra, a apresentadora (nunca soube seu nome) aplica o Teste Bechdel ao filme mostrado e o faz na maior tranquilidade, com jeito de quem está sendo científica.

A semana passada foi a vez de “O grande golpe” (“The killing”, 1956) a obra prima noir de Stanley Kubrick, que tinha, sim, duas mulheres na estória, mas, falha grave, elas não conversavam entre si (como podiam, pergunto eu, se nem se conheciam?), o que, de chofre, tirou dois pontos do filme, e com um só, foi sumariamente reprovado.

Para mim, isto sim, foi um grande golpe.

“O grande golpe”, obra prima noir de Kubrick, reprovada no Futura.

O tabu homossexual

25 jul

Muitas são as diferenças entre o cinema de antigamente e o de hoje. Uma marcante tem a ver com a censura, hoje em dia, quase inexistente, mas, nos velhos tempos, uma espinha enfiada na garganta dos cineastas, roteiristas e produtores, sobretudo em Hollywood, onde vingou o famigerado Código Hays, de 1934 a 1964.

Esta semana eu estava vendo esse filme finlandês recente “A jovem rainha” (“The girl king”, 2015) e pensando no assunto da censura.

O filme de Mika Kaurismäki conta a estória verídica da sueca Cristina que, com a morte do pai, o rei Gustavo Adolfo, tornou-se rainha aos seis anos de idade e governou, no século 17, um país luterano e belicoso. Mas, o centro do enredo é, na verdade, a vida amorosa da rainha, que, premida pela corte para casar e gerar um herdeiro ao trono, ao invés disso, apaixona-se por sua dama de companhia, a bela Condessa Ebba Sparre, e é plenamente correspondia. Impossibilitada de assumir publicamente o seu amor homossexual, a rainha Cristina recusa todos os seus pretendentes, adere ao catolicismo e morre virgem. Antes disso, porém, a câmera não esconde cenas de alcova entre as duas mulheres apaixonadas.

Mulheres apaixonadas em “A Jovem Rainha” (2015).

Inevitavelmente, lembrei o passado. Lembrei a primeira e “inocente” versão sobre a vida da antiga soberana sueca, filme de nome “Rainha Cristina” (1933), com Greta Garbo no papel-título. Dirigido por Rouben Mamoulien para a MGM, o filme fugia ao tema da homossexualidade como o diabo da cruz. Nada de Condessa Sparre, e no lugar dela, inventava-se um embaixador espanhol (John Gilbert) para ser o grande amor proibido da Rainha, a qual, de tristeza por não poder consumar a paixão por motivos políticos, saía perambulando pelas paisagens inóspitas de seu país, vestida de homem. Sim, os trajes masculinos eram, curiosamente, a única referência à homossexualidade da personagem, uma referência subliminar demais para ser percebida pelas inocentes plateias de então.

Tais modificações (ou deturpações, se for o caso) das fontes originais foram regra na Hollywood clássica, controlada pelo rigoroso Código Hays de Censura. As fontes originais podiam ser históricas – como no caso citado – ou ficcionais, tanto fazia, as modificações tinham que ser feitas, se os livros, romances, contos ou peças teatrais tratavam de amor entre pessoas do mesmo sexo.

Ray Milland, no papel do alcoólico de “Farrapo Humano”.

Um exemplo de romance adaptado à tela e estrategicamente modificado está em “Farrapo humano” (Billy Wilder, 1945). Publicado no ano anterior às filmagens, o romance do escritor Charles Jackson, a rigor, contava a estória e o drama do seu autor, um homossexual condenado por si próprio.

Na estória original, o universitário Don Birman é expulso de sua Fraternity (residência universitária) por estar sexualmente envolvido com um colega. A partir daí, se entrega ao alcoolismo, e as duas coisas juntas, homossexualidade reprimida e ingestão descontrolada de álcool, o levam ao fracasso profissional. Claro, os roteiristas tiveram o cuidado de ignorar as motivações gay do protagonista e centrar no vício da bebida, e o filme, uma produção da Paramount, foi um grande sucesso, ganhando, aliás merecidamente, quatro estatuetas do Oscar.

Um caso digno de nota está nas duas adaptações cinematográficas que recebeu a peça da escritora Lillian Hellman, sobretudo por demonstrar as primeiras frágeis vitórias dos profissionais de Hollywood na luta contra a censura.

Escrita na primeira metade dos anos trinta, a peça, mais ou menos autobiográfica, chamava-se “The children´s hour” (´a hora das crianças´, se fôssemos traduzir) e contava o drama de duas professoras de escola primária que mantêm uma relação afetiva, mais ou menos ambígua, e são denunciadas por uma das alunas.

Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, em “Infâmia”, a versão de 1961.

Dirigido por William Wyler para a MGM, “Infâmia” (1936), o primeiro filme a adaptar a peça, teve o título original de “These three” (´esses três´) e modificou o problema, de lesbianismo para adultério: o rumor divulgado pela aluna maldosa referia-se agora, não mais a uma relação homo, mas, a um suposto caso entre uma das professoras e o marido da outra.

Vinte e cinco anos depois, em 1961, quando o Código Hays já estava caducando, o mesmo William Wyler, dirigiu, agora para a United Artists, uma nova versão fílmica da mesma estória, desta feita com o mesmo título da peça original, “The children´s hour”, (no Brasil, foi mantido o título de 1936: “Infâmia”) e – finalmente – com o mesmo conteúdo, ou seja, a questão do lesbianismo, com interpretações excelentes de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.

Aqui estão comentados apenas três filmes clássicos que, por ingerência da censura, ignoraram, encobriram e/ou driblaram a problemática homossexual de suas matrizes.

Aos interessados na temática, tomo a liberdade de indicar um longo ensaio, constante deste blogue, em que reviso a história da homossexualidade no cinema clássico – desde sua invenção até os anos sessenta. Um empréstimo linguístico de Oscar Wilde, o título do ensaio é “Quando o amor não ousava dizer seu nome”.

Greta Garbo é a “Rainha Cristina”, a versão “inocente” de Rouben Mamoulien, de 1933.

Hollywood clássica e o nazismo

6 dez

O cinema clássico americano foi uma maravilha e, pela combinação entre quantidade e qualidade produzidas, já foi comparado ao Renascimento italiano.

É verdade. Só que do tamanho que foram os seus méritos, também foram os seus podres. Esses podres estão bem expostos num livro recém editado no Brasil, que se torna leitura obrigatória para cinéfilos e historiadores. Tratando das escusas relações entre a Hollywood dos anos trinta e o nazismo, o livro se chama “A colaboração” (São Paulo: Ed. Leya, 2014), e é de autoria do crítico e escritor Ben Urwand.

Nessa época, anos 30, Hitler já no poder, a Alemanha era um dos principais mercados consumidores do cinema americano, e os produtores de Hollywood fizeram o que puderam – e o que não puderam também – para manter esse mercado. A grande ironia era que praticamente todos esses produtores tinham origem judia, e logo que o antissemitismo botou suas unhas de fora, na Alemanha nazista, eles – colocando princípios éticos no bolso – passaram a fazer acochambros, que lhes mantivessem os lucros.

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Só para conferir, eram judeus: William Fox, fundador da Fox; Louis B Mayer, diretor da MGM; Adolph Zukor, diretor da Paramount; Harry Cohn, diretor da Columbia; Carl Laemmle, diretor da Universal, e Jack e Harry Warner que dirigiam a Warner Brothers. Em suma, toda a Hollywood mais ativa e mais poderosa. E, contudo, essa origem semita não os impediu de “colaborar” o quanto puderam com o Ministério alemão da propaganda, presidido como se sabe, por Joseph Goebbels, que decidia que filmes estrangeiros os seus compatriotas podiam ver.

Aliás, antes de o filme chegar ao III Reich, ainda em Los Angeles, esses produtores hollywoodianos tinham o zelo de o exibirem ao Cônsul da Alemanha, que aprovava, ou não, a sua distribuição em sua terra. O mais comum é que aprovasse com restrições, mandando cortar uma cena ou outra, uma palavra ou outra, no que era de pronto obedecido pelos referidos produtores.

Um detalhe interessante: não era só o povo alemão que adorava o cinema americano; Goebbels era fanático por ele, e, pior, detestava o cinema alemão. Para cumular, o próprio Hitler assistia a filmes todos os dias, e a maioria eram fitas de Hollywood que ele amava. Pois é, pasmem, o Führer era fã inconteste de “O gordo e o magro” e “King Kong” era um dos seus filmes mais amados.

Cena de "Nada de novo no fronte", um dos ´filmes de ódio´...

Cena de “Nada de novo no fronte”, um dos ´filmes de ódio´…

Engraçado que o elemento mais elogiado por Goebbels nos filmes americanos era aquilo que – segundo ele mesmo – os filmes alemães não tinham: o senso de humor. Urwand cita vários documentos em que o Ministro da Propaganda nazista, lamenta a falta desse elemento nos filmes alemães e cita exemplos de vários filmes americanos cujo diálogo conquista os espectadores do mundo inteiro por sua leveza e graça. Nessa comparação, por exemplo, “O triunfo da vontade” da alemã Leni Riefensthal, perde feio para a comédia de Frank Capra “Aconteceu naquela noite” (1934), cujo enredo Goebbels reproduz como exemplo de bom cinema.

Fruto de exaustiva pesquisa, nos bastidores de Hollywood e bibliotecas americanas e alemãs, o livro de Urwand segue a cronologia, de ano em ano, e recobre toda a década de trinta. Na maior parte dos casos, os seus capítulos enfocam filmes que, por motivos favoráveis ou desfavoráveis, foram importantes na insidiosa relação Hollywood/nazismo. E o autor se detém na produção, exibição e distribuição desses filmes, e suas repercussões em solo alemão e americano.

O primeiro desses filmes é “Nada de novo no fronte” (1930) que, contando a estória de um jovem soldado, pintava a Primeira Guerra mundial como uma selvageria. Popular nos Estados Unidos, o filme foi proibido na Alemanha nazista, e mais tarde, entrou na lista do que os nazistas passaram a chamar de “filmes de ódio”.

O capriano "Aconteceu naquela noite", elogiado por Goebbels.

O capriano “Aconteceu naquela noite”, elogiado por Goebbels.

Não é possível aqui mencionar todos os filmes discutidos no livro de Urwand, mas, basta dizer que alguns filmes considerados “bem americanos”, adaptavam-se de alguma forma aos preceitos nazistas, enquanto que outros, ou eram mutilados pela censura – tanto a hollywoodiana como a nazista – ou entravam na lista dos “filmes de ódio” e não podiam ser distribuídos no III Reich. O maior “filme de ódio” foi, naturalmente, o chapliniano “O grande ditador”.

Não precisa dizer que o Escritório do Código Hays de Censura, oficializado em 1934 – endossou em tudo os produtores de Hollywood, ajudando, por exemplo, a podar, nos filmes, referências raciais que incomodassem o mercado alemão.

Uma decorrência disso tudo é que, nos filmes americanos de toda a década de trinta, não há praticamente nenhum personagem judeu, como se a raça, tão marcante nos Estados Unidos e em Hollywood em particular, nunca tivesse existido.

Depois de 1939, com o advento da guerra, a coisa mudaria um pouco, mas essa é outra história, que o livro de Ben Urwand não se propôs a contar.

"O grande ditador", o ´filme de ódio´ mais agressivo.

“O grande ditador”, o ´filme de ódio´ mais agressivo.

O que odeio nos filmes que amo

17 nov

Na posição de crítico de cinema, escrevo sobre tudo, porém, nunca escondi que tenho preferências. Quem me acompanha de perto percebe que sou fã do cinema do passado, especialmente daquela fase a que chamam de Hollywood clássica.

Esse amor pelo cinema americano do passado (décadas de 30, 40 e 50), contudo, não me cega para os seus defeitos, que são muitos. Conheço-os todos, melhor que ninguém, pois estou permanentemente em contato com eles.

Evidentemente, o maior problema da Hollywood clássica era o dinheiro, que tanto ajudava, como atrapalhava. Sim, em uma atividade industrial daquele porte, as realizações tinham que dar lucro e os criadores (cineastas, roteiristas, atores, fotógrafos, músicos, etc) eram pressionados a permanecer dentro das regras dos grandes estúdios, que, obviamente, só pensavam em bilheteria.

Estereótipos: o cabeleireiro em "A princesa e o plebeu".

Estereótipos: o cabeleireiro em “A princesa e o plebeu”.

As regras privilegiavam as convenções e uma das convenções era, por exemplo, o sistema de gêneros, a ser seguido a rigor. Um melodrama não podia terminar como uma comédia, nem vice-versa. Um outro sistema era o star system: um ator que se consagrara como heroi não podia, de repente, fazer papel de bandido.

Enfim, o espaço para variações ou experimentações era mínimo, o que dava à maior parte dos filmes um caráter de aborrecida previsibilidade.

Rearranjos de roteiros, imposições de elenco, mudanças de desenlaces, proibições de certos enquadramentos, cortes de trechos… Na maior parte dos filmes da época é possível perceber o dedo da produção, porém, o mais incrível é que, malgrado todas as pressões, dessa indústria opressora tenha brotado tantas grandes obras.

Para piorar tudo, havia a censura. O famigerado Código Hays de Censura foi introjetado por Hollywood, ao ponto de virar auto-censura generalizada. Os beijos eram cronometrados e a imagem de uma cama de casal na tela era vista como algo imoral. Já tratei do assunto várias vezes e não vou repetir os malefícios da censura sobre o cinema clássico.

Mickey Rooney, o estereotipado asiático em "Bonequinha de luxo".

Mickey Rooney, o estereotipado asiático em “Bonequinha de luxo”.

Independentemente da questão da censura, um outro defeito vistoso da Hollywood da época era a patriotada, aquela mania de apresentar a América como sendo o melhor dos mundos possíveis. Isso foi muito exacerbado durante a Segunda Guerra, como reação ao nazismo, mas, perdurou, depois, com a guerra fria (e perdura). O perigo do comunismo era o pretexto para exaltar o ´american way of life” e todas as suas supostas maravilhosas variações. Essa posição ideológica tomada em favor da pátria deu muitos filmes ruins, mas, engraçado, também deu muitos filmes bons: o espectador de Frank Capra que o diga.

Porém, admito, o pior de tudo mesmo era o etnocentrismo do povo americano, que era endossado por Hollywood, mas não se limitava a ela. A América, como um todo, só conhecia a América, como se o resto do mundo fosse irrelevante. Do resto do mundo tinha-se apenas informação de segunda mão, uma informação deturpada que transformava tudo a mais em estereótipo.

Querem ver, prestem atenção ao modo como eram representados os personagens estrangeiros – qualquer um – nos filmes americanos dos anos 30 a 50. Ao rever os filmes da época, a impressão que se tem é que os roteiristas hollywoodianos tinham, ao seu dispor, um quadro já todo desenhado de como construir um personagem estrangeiro – italiano, francês, japonês, latino, tanto faz – cada um com suas características físicas e psicológicas determinadas. Era só aplicar a fórmula disponível no quadro para a nacionalidade desejada… e pronto. Se você olhar direitinho, até Carmem Miranda, que foi uma estrela na Meca, sofreu esse processo.

A brasileira Carmem Miranda endossou estereótipos.

A brasileira Carmem Miranda endossou estereótipos.

Para mim, não sei por que (ou sei?) o que mais me irrita nesses filmes antigos que amo é essa representação estereotipada dos estrangeiros.

Recentemente, estava vendo o grande melodrama de Frank Borzage, “A história começou à noite” (“History is made at night”, 1937), com Charles Boyer e Jean Arthur, e toda vez que aparecia um certo personagem, me dava ímpeto de desligar o DVD. Era um italiano, chef de cozinha, construído pelos roteiristas com todos os trejeitos que os americanos supõem serem próprios do povo italiano, feitos com tanta ênfase, e tão mal feitos, ao ponto de virar caricatura, sabe como é, olhos arregalados, os braços no ar, e o “porca miséria” repetido ad nauseam. Saco!

"A história começou à noite", 1937, de Frank Borzage.

“A história começou à noite”, 1937, de Frank Borzage. 

Não vou me dar ao trabalho de citar outros exemplos, mas lembrem os japoneses, chineses, indianos, franceses, italianos, mexicanos e latinos em geral, representados nos filmes americanos de antigamente. Coitados dos atores, sobretudo os nativos, obrigados pela produção a passar essa imagem ridícula de seus compatriotas.

Como estou sempre revisitando os clássicos do passado, minha sina é aguentar esse lixo. Lixo metido no meio de pérolas, é verdade, mas, de todo jeito, lixo.

Até Brando fez um japonês estereotipado em "Casa de chá do luar de agosto"...

Até Brando fez um japonês estereotipado em “Casa de chá do luar de agosto”…

Feliz, no inferno

3 out

 

Há pouco veiculei matéria sobre Ida Lupino, uma das primeiras mulheres a assumir a profissão de diretora na Hollywood dos anos quarenta e cinquenta. Antes dela, porém, houve Dorothy Arzner.

Dorothy Arzner (1897-1979) nasceu em San Francisco, mas cedo mudou-se para Los Angeles, onde seu pai instalou restaurante, logo frequentado pelo pessoal de cinema. Ao terminar o curso secundário, Dorothy pensou em ser médica e chegou a cursar universidade e alistar-se como enfermeira na Primeira Guerra. Finda a guerra, repensou a vida e, estando entre gente da sétima arte como estava, decidiu que queria trabalhar com cinema.

Começou como estenógrafa na primitiva Paramount, e depois foi crescendo junto com a Companhia, subindo de função, até chegar a roteirista, montadora… e, finalmente, diretora. Sua primeira direção, “A mulher e a moda” (“Fashions for women”, 1927) foi um sucesso, e, a partir daí, consolidou uma carreira de cineasta que foi até o comecinho dos anos quarenta. Em 36 seu nome já constava do Directors Guild of America.

Casamento sem aliança...

Casamento sem aliança, em “Quando a mulher se opõe” (“Merrily we go to hell, 1932).

Sua filmografia completa, digo, com crédito de direção, recobre 21 títulos, de 1927 a 1943. Sempre com boa recepção de público e crítica, seus filmes mostravam mulheres fortes, ousadas e decididas que quebravam o padrão dos filmes românticos da época, alguns deslanchando as carreiras de atrizes importantes como Katherine Hepburn, Rosalind Russell, Lucille Ball e Sylvia Sidney.

Se for o caso, nesses filmes também se pode ler um certo intertexto homossexual, reflexo da opção pessoal de Dorothy que, sem alarde nem subterfúgios, teve várias companheiras ao longo da vida, terminando os seus dias com a coreógrafa Marion Morgan, nunca relação de mais de quarenta anos.

Infelizmente, a sua obra é pouco conhecida por aqui. Segundo consta, faz parte das 700 produções da Paramount, de 29 a 49, que foram vendidas a MCA/Universal em 1958, para distribuição televisiva, hoje em dia podendo ser vistas apenas em canais pagos, ou equivalentes. O fato é que, com o passar do tempo, o prestígio de Dorothy Arzner só fez crescer nos meios cinéfilos. A partir dos anos 70, o movimento feminista ajudou a resgatá-la e hoje há várias publicações sobre sua obra e sua vida de militante gay.

Sylvia Sidney, adorável como nunca em "Quando a mulher se opõe".

Sylvia Sidney, adorável como nunca em “Quando a mulher se opõe”.

No final desta matéria, arrolo pelo menos dez títulos de Dorothy Arzner, mas, antes disso, comento um dos seus filmes mais curiosos, que é esse “Quando a mulher se opõe” (“Merrily we go to hell”, de 1932. E inicio meu comentário com o título original, bem mais interessante que o brasileiro, literalmente: “com alegria, vamos ao inferno”. Mais interessante ainda porque a frase é dita pelo protagonista justamente no momento em que, na presença da noiva, toma a decisão de contrair matrimônio.

A estória é simples, porém, cheia de ironias e segundos sentidos. Joan, (Sylvia Sidney) uma mocinha ingênua, de família abastada, conhece Jerry (Fredric March) e se apaixona por esse jornalista engraçado e inconsequente, rapaz meio fora dos eixos, cujo passatempo predileto é encher a cara. O pai alerta a moça, mas ela persiste e a festa de casamento acontece, à qual Jerry chega aturdido e atrasado, sem a aliança para pôr no dedo da noiva, objeto simbólico que é improvisadamente substituído por uma chave. Como previsto no título original do filme, a relação do casal vai ´pro inferno´.

Fredric March como o beberrão inveterado...

Fredric March como o beberrão inveterado…

Como se trata de uma comédia romântica, a coisa tem um conserto que venha a garantir o futuro ´happy end´, mas, não tão facilmente assim. Por exemplo, por um tempo, o casal em crise vai viver uma situação difusa e caótica em que, sem divórcio ou outra justificativa legal, cada um toma um companheiro e tudo fica assim, meio dissoluto e indefinido. A certa altura, Joan resolve assumir a falha trágica do cônjuge e enche a cara até não saber mais o que está fazendo.

Alcoolismo, bigamia, irresponsabilidade conjugal, libertinagem: estas coisas tratadas de forma franca e direta no cinema daquela época? Pois é, isto só foi possível porque estávamos ainda em 1932, ou seja, um pouco antes da implantação do famigerado “Código Hays de Censura”. Depois do código (1934), a coisa seria diferente. Aliás, para aproveitar o título do filme comentado, deve ter sido um ´inferno´ para Dorothy, mulher e lésbica, trabalhar debaixo do Código e ser ´feliz´. Não admira que tenha parado em 43, um pouco antes de outra coisa famigerada: o maccarthysmo.

Como prometido, fecho esta matéria com dez títulos de filmes dirigidos por Dorothy Arzner: Dez mandamentos modernos (1927); Garotas na farra (1929); Esposa de ninguém (1930); A volta do deserdado (1930); Honra de amantes (1931); Naná (1934); Mulher sem alma (1936); Felicidade de mentira (1937); A vida é uma dança (1940); Crepúsculo sangrento (1943).

Atrapalhos no casamento, em, "Merrily we go to hell".

Atrapalhos no casamento, em, “Merrily we go to hell”.

A pioneira Ida Lupino

25 ago

Hoje em dia, no mundo inteiro, o número de mulheres dirigindo filmes está próximo ao número de homens. Mas não foi sempre assim. Até a primeira metade do Século XX, mulher por trás das câmeras, só se fosse continuísta, ou maquiadora, ou figurinista.

A primeira mulher a romper a barreira profissional e impor-se como diretora de cinema foi a até então atriz Ida Lupino (1918-1995). E isto já nos anos quarenta/cinquenta. Nos Estados Unidos, antes dela, uma ou outra havia experimentado a mise-en-scène, mas sem sucesso nem prosseguimento – exceção feita apenas a dois nomes: Lois Weber e Dorothy Arzner.

Entre 1949 e 1966, Ida Lupino rodou seis filmes de longa metragem, e – por razões óbvias – nem estamos contando sua participação na televisão.

Ida Lupino, pioneira na direção.

Ida Lupino, pioneira na direção.

Com o título de “Never fear” (no Brasil, “Quem ama não teme”, 1949), seu primeiro filme era a estória de uma dançarina acometida de Polio que ficava paraplégica, e com muito sofrimento, recuperava a capacidade de se locomover.

No ano seguinte, enfrenta um tema difícil, sobretudo para a época, o estupro. O filme – que comentarei com mais detalhes adiante – é “Outrage” (´ultraje´), entre nós, “O mundo é culpado”, 1950.

Em 1951 vem “Laços de sangue” (“Hard, fast and beautiful”) a estória de uma tenista hesitante entre a profissão e o amor. Em 1953 ela se rende ao gênero noir e faz esse “Hitchhiker” (“O mundo odeia-me”), sobre um carona que se revela psicopata – tema, como sabemos, de muitas refilmagens posteriores. Neste mesmo ano também roda um filme de tema curioso em que um homem bem casado, mas sem filhos, é descoberto como pai em outro casamento: “The bigamist” (“O bígamo”).

O cartaz de "Outrage" : "O mundo é culpado", 1950.

O cartaz de “Outrage” : “O mundo é culpado”, 1950.

Seu último filme para o cinema passa-se todo em um convento onde três noviças cometem uma traquinagem atrás da outra, até o dia em que vestem o hábito e, então, passam a dar lições de vida. “Anjos rebeldes” (1966) só não fez mais sucesso por causa de “A noviça rebelde”, lançado no mesmo ano.

Voltando a “O mundo é culpado”, o filme conta a trágica estória de Ann Walton, essa mocinha de família modesta, filha única que ajuda os pais como funcionária de uma firma local. Tem um namorado e agora que o rapaz conseguiu um aumento de salário, resolvem pedir aos pais o consentimento para o noivado.

Tudo vai bem, até aquela noite em que, saindo do trabalho mais tarde, Ann é perseguida por um estranho. O estupro se consuma e, a partir de então, a vida de Ann passa a ser um inferno. Sentido-se observada por todos, na rua, no trabalho, onde vá, ela entra em crise e, embora o noivo mantenha a ideia de casamento, ela foge e vai viver anônima noutro lugar, bem longe de casa. No dia em que um rapaz de sua nova vizinha, cortejando-a, tenta beijá-la ela, apavorada, o atinge com um golpe fatal e vai terminar no tribunal de justiça, na condição de ré.

Como os outros filmes dirigidos por Lupino, “O mundo é culpado” é uma produção barata, distribuída pela RKO, realizada por um grupo pequeno, chamado de “The filmakers”, do qual faziam parte amigos e o então esposo de Lupino, Collier Young, na função de co-roteirista e produtor.

Cena de "Outrage", o estupro discutido.

Cena de “Outrage”, o estupro discutido.

Vocês hão de convir que, em pleno 1950 deve ter sido difícil rodar um filme com tal temática, e enfrentar o rigoroso e ainda vigente Código Hays de Censura. Tanto é assim que não há, na narrativa, nada que se diga explícito e, da atriz que faz Ann (Mala Powers) muito se exige em termos de expressões faciais, sem qualquer enfoque em outras partes de seu corpo.  Por exemplo: a cena da perseguição da vítima é longa e cheia de suspense, mas, o ataque mesmo acontece off-screen, e, mais tarde, em toda a sequência do júri, o crime de estupro é sempre referido pelo advogado como “Criminal attack” ou “Assault”, nunca como “rape” – a palavra inglesa para ´estupro´.

De todo jeito, uma coisa que impressiona em “O mundo é culpado” é a sua (lamentável) atualidade.

É possível que Ida Lupino não seja muito lembrada como cineasta, mas, com certeza, o espectador/leitor de mais idade recorda-se dela como a grande atriz que foi, trabalhando com astros de primeira grandeza e dirigida por mestres da direção em filmes que fizeram a história do cinema clássico. Ao todo, entre os anos de 1932 e 1978, ela atuou em mais de sessenta filmes, dos quais, para refrescar a memória do leitor, cito apenas cinco, sem coincidência, todos noir, um gênero em que ela sempre esteve muito à vontade:

“Seu último refúgio”, 1941, de Raoul Walsh, com Humphrey Bogart; “Dentro da noite”, 1940, de Walsh, com George Raft; “A taverna do caminho”, 1948, de Jean Negulesco, com Cornell Wilde: “Cinzas que queimam”, 1951, de Nicholas Ray, com Robert Ryan; “No silêncio de uma cidade, 1956, de Fritz Lang, com Dana Andrews.

A atriz Mala Powers: expressões faciais.

A atriz Mala Powers: expressões faciais.