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“Handsome devil” – contra estereótipos

10 out

Nesta nossa época sombria de homofobia desbragada, MBL e ´cura gay´ é bom ver e/ou rever certos filmes.

Esta semana pude ver, do jovem irlandês John Butler este “Handsome devil” (2016), que não é nenhum grande filme, mas que me remeteu a um clássico da temática homo, o “Chá e simpatia” de Vincente Minnelli (1956), no caso, o primeiro filme na história do cinema mundial a tocar na questão da homossexualidade masculina.

Mas vamos por etapas.

“Handsome devil” (`belo demônio´) começa por nos introduzir a Ned, esse estudante universitário magro, ruivo, feioso, desajeitado e com perfil gay que, no campus de uma universidade da Irlanda, vive sofrendo bullying do resto da turma. Ocorre que o ponto alto dessa universidade é o violento esporte do rugby, e o pobre do Ned não tem físico para levar nem para dar porrada.

A coisa piora para ele no dia em que chega esse novato Conor, tipo atlético de jogador de rugby, e a diretoria o põe onde? Justamente no dormitório de Ned.

O que fazem, no mesmo quarto, um frágil gay e um corpulento atleta do rugby? Bem, a primeira iniciativa de Ned é, juntando móveis e outros troços, construir uma ´muralha de Jericó´, que divide o quarto ao meio e separa os dois supostos inimigos.

Contrariamente ao esperado, o frágil Ned e o forte Conor têm afinidades e vão fazendo amizade. O turning point da estória aparece no dia em que Ned (junto conosco) descobre que o machão Conor esconde uma inclinação homo. Divulgada essa inclinação, a turma do rugby e todo mundo mais descarta Conor, que foge e vai se esconder longe dali. É Ned quem vai lá e o convence a voltar e enfrentar tudo e todos. Ocorre que, gay ou não, Conor é o melhor jogador de rugby e o time precisa dele: resultado, a equipe o aceita de volta, o time ganha com o seu extraordinário desempenho e – ufa! – um gay assumido é aclamado o grande atleta dessa importante universidade.

Foi justamente esse desenlace que, por contraste, me reconduziu ao “Chá e simpatia” de Minnelli. Não juro, mas desconfio que o roteirista de “Handsome devil” conhecia o filme de Minnelli e bolou o roteiro em cima dele. De forma direta, um filme responde ao outro.

Se você tem idade para tanto deve lembrar que em “Chá e simpatia” a situação é semelhante, com exceção do desenlace.

O protagonista não se enquadra nos moldes de um campus universitário em que o esporte é o ponto alto. Ao invés de jogar o violento futebol americano, Tom prefere ler, ou cozinhar, ou mesmo costurar. Ao invés de esporte, suas preferências são poesia e teatro e coisas desse nível. No contexto machista em que vive, isso tudo depõe contra ele que, com esse perfil supostamente ´feminino´, vai sofrer o bullying mais violento.

“Chá e simpatia”, 1955.

Não conto a estória toda, mas a sua senhoria (Deborah Kerr) é quem dele se compadece, tanto que lhe propõe fazerem sexo, para provar que ele era homem. O que fica provado, porém, não é isso que importa. O que está em jogo, nos dois filmes aqui comparados, são os estereótipos – o do homo e do hetero.

Acima eu disse que o filme de Butler responde ao de Minnelli. Não apenas responde: complementa-o. Em termos conceituais, a relação entre os dois poderia ser formulada da seguinte maneira: se um homem com perfil delicado pode ser masculino a toda prova (“Chá e simpatia”), por sua vez, um outro com todo o perfil másculo (virilidade, força, etc) pode muito bem ser homo (“Handsome devil”).

O filme de Butler não é o primeiro a desmontar a antinomia “efeminados” versus “machões”, que, de forma caricaturesca, reforça preconceitos e fobias. Implicitamente, isto já foi feito em filmes tão antigos quanto “Meu passado me condena” (1961) ou “Domingo maldito” (1971), porém, aqui, o quiasmo que forma com um filme de 60 anos atrás é curioso e, eventualmente, instrutivo. Pelo menos para nos deixar um pouco mais alertas à sutil complexidade da natureza humana… e seus tantos mistérios.

Deborah Kerr e John Kerr, em “Chá e simpatia”.

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Bullying e outros males

12 dez

Quando eu era criança e estudava no Grupo Escolar Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, me vi algumas vezes intimidado pelos colegas. Com uma hérnia escrotal congênita, fui um menino frágil, que nunca pôde, por exemplo, jogar futebol, ou praticar outras atividades físicas do gênero. Além disso, sofria de uma miopia igualmente congênita, que me obrigava a carregar na cara uns óculos tipo ´fundo de garrafa´. Magro e feio, fui, vez ou outra, ridicularizado por não exibir o comportamento saudável e viril da criançada da minha idade.

Ao me transferir, no ginasial, para o Colégio Lins de Vasconcelos, a coisa piorou. Era um colégio de ricos e eu, além dos maus predicados já citados, somados a uma timidez patológica, era pobre. Por causa dos óculos e do perfil todo, fui chamado pejorativamente de ´ceguinho´ e descartado do convívio da turma. Sim, inevitavelmente fui, aqui e acolá, vítima do que naquela época não tinha nome, mas, hoje se chama de bullying. Nunca bateram em mim, porém, os olhares de desprezo eram como pancadas que podiam doer mais.

Só mais tarde, já no segundo ano ginasial, quando um dos colegas ricos, descobriu que eu tinha um domínio razoável da língua inglesa, é que meu conceito mudou, e, surpreendentemente, virei quase um ídolo, sobretudo em dias de prova de Inglês. Claro que, a partir daí, usei o meu conhecimento para superar os percalços, mas confesso que não foi fácil

Por essas e outras, me comovi assistindo ao vídeo do professor Pedro Nunes “Escola sem preconceito” (2012), um documentário mais que pertinente e oportuno, sobre as difíceis e por vezes incontornáveis relações sociais dentro de um educandário. O exemplo tomado no vídeo é o do Lyceu Paraibano, mas, claro, poderia ser qualquer outro, na cidade ou alhures.

Pedro-Nunes1

Com depoimentos de alunos, professores, pedagogos e pesquisadores do assunto, o vídeo trata de praticamente todos os meandros no relacionamento entre docentes e discentes, incluindo a sua dimensão virtual. Preconceitos contra deficientes físicos, gays, lésbicas, transexuais; violência contra professores, violência entre alunos, etc: tudo vem à baila, sem censura e sem medo de tocar em tabus.

Ao lado de providenciais explicações teóricas que iluminam a problemática, ou encenações de casos típicos – como o da garota que, anonimamente, põe na internet o que pensa de uma colega lésbica – temos depoimentos comoventes que ilustram a dura realidade da sala de aula.

Dou destaque para um dos testemunhos mais contundentes do vídeo, o de Fernanda Benvenutty, que narra como a discriminação a sua transexualidade começava no transporte para a escola e tinha continuidade na sala de aula. Ia à aula a pé, para não sofrer chacota nos ônibus e, na escola, sentava na primeira fila para que, na hora da chamada, a turma não escutasse o seu nome masculino. Não frequentava o pátio no horário do recreio e só ia ao banheiro durante o período de aula, com receio de ser agredida. Como é sabido, Benvenutty formou-se e é hoje uma profissional respeitada.

Fernanda Benvenutty

O vídeo de Pedro Nunes é uma produção do “Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Ação sobre a Mulher e Relações de Sexo e Gênero” da UFPB, e, segundo consta, foi confeccionado para ser distribuído nas escolas do Estado, para a consideração de quem está no batente da sala de aula, professores, alunos e educadores de um modo geral. Neste sentido, a fala franca da atual Gestora em educação do Lyceu Paraibano, Francisca Vânia Rocha Nóbrega, é um dado particularmente significativo.

Em certo momento da projeção, um dos depoentes, o professor e ator Everaldo Vasconcelos, supondo que, na verdade, poucos diretores de escolas terão a coragem de exibir um vídeo assim polêmico e ousado, toma a iniciativa interativa de dirigir-se aos potenciais espectadores do vídeo e solicita, para aqueles cuja escola está tendo a coragem de exibi-lo, uma salva de palmas.

As minhas vão, antes disso, para esse empreendedor e destemido professor Pedro Nunes, guerreiro de muitas batalhas contra o preconceito.

Para retornar ao início desta matéria, sofri um pouco no Colégio Lins de Vasconcelos, mas houve quem tenha sofrido muito mais. Lembro-me de um aluno – Guilherme, se não me engano – que, por possuir trejeitos físicos nada condizentes com o comportamento machista preponderante, era chacoteado por todo mundo, ao ponto de, em nenhuma circunstância, ser levado a sério. Só algum tempo depois fui entender a gravidade do problema, quando vi, pela primeira vez, o filme de Vincente Minnelli “Chá e simpatia” (1955), mas, essa é outra estória, que fica para depois.

Em tempo: em sessões gratuitas “Escola sem preconceito” está sendo exibido no recém inaugurado Cine Funjope Linduarte Noronha. Uma boa pedida para quem pensa educação.

escola sem preconceito bastidores

Chá e simpatia

8 maio

A homossexualidade sempre foi, e parece que sempre vai ser, tema delicado e polêmico em cinema, que o diga o recente BrokeBack Mountain de Ang Lee.

Na Hollywood clássica, sob o rigoroso Código Hays de Censura, ele era proibitivo, equivocadamente incluído no item das taras. Por coincidência, o primeiro filme a enfrentá-lo está, neste ano de 2006, completando cinqüenta anos, o Chá e simpatia (Tea and sympathy, 1956) de Vincente Minnelli.

Baseado na peça autobiográfica de Robert Anderson, encenada na Broadway em 1953, o filme de Minnelli contava a estória desse jovem universitário de dezessete anos que não se enquadra no modelo viril do campus e por isso é pejorativamente apelidado pelos colegas de “sister boy” – para nós, algo como “irmãzinha”.

Filho de pais separados, e educado por uma babá, Tom Lee (John Kerr) aprendeu a costurar e é ele mesmo quem borda as cortinas do seu quarto. Ao invés de baseball e alpinismo, ele prefere jardinagem, e seus hobbies são ouvir música clássica, ler poesia, ou dedilhar no seu violão velhas canções folclóricas sobre o amor. No momento em que o filme começa, está para atuar numa peça escolar em um papel feminino.

Esse perfil supostamente nada macho passa a ser um problema para os senhorios Bill e Laura Reynolds, que hospedam em sua residência, cerca de dez a doze estudantes, entre os quais Tom. Na verdade, amigo do pai de Tom, o Sr Bill Reynolds (Leif Erickson) recebera daquele a incumbência de “fazer dele um homem”, o que, em princípio seria facilitado pelo fato de que o Sr Bill é o técnico do time de baseball da universidade.

Acontece que, enquanto o time treina, Tom prefere ajudar a Sra Reynolds (Deborah Kerr) no trabalho de jardinagem, e conversar sobre coisas intimistas, como sua vida solitária de quase órfão. Uma grande afinidade começa então a brotar entre a quarentona Laura Reynolds e o jovem Tom Lee e a situação dramática do filme está dada.

Na medida em que, da parte dos colegas do campus, as hostilidades a esse Tom irmãzinha vão aumentando – e elas aumentam um bocado! – também aumenta a solidariedade da Sra Reynolds por ele, solidariedade esta (conferir o sentido do termo ´sympathy´ no título original) que logo se transformará em algo bem mais forte.

Por que essa respeitável senhora casada se entrega sexualmente a seu jovem inquilino: para provar a ele mesmo que é homem, ou, porque está mesmo apaixonada? Uma atitude ´solidária´, ou um gesto passional? Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo?

Ok, o espectador sai do filme com a sensação de que, afinal de contas, Tom Lee era tão viril quanto qualquer um dos colegas dessa universidade, e que a abordagem de “Chá e simpatia” é, não tanto sobre homossexualidade, quanto é sobre a problemática dicotomia masculinidade/feminilidade.

De todo jeito, convenhamos, já foi muito para 1956.