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Mésalliance

27 set

“Então eu fiz um bem / dos males que passei / Fiz do amor uma saudade de você / e nunca mais amei / Deixei nos olhos seus / meu último olhar / e ao bem do amor, eu disse adeus…”

Não sei se o leitor identifica, nos versos acima, a primeira estrofe de uma certa canção que, na voz de Miltinho, foi sucesso nos anos sessenta. De autoria do grande compositor Luis Antônio, “Poema do Adeus” (1961) é tão bela que chega a ser sublime. Com melodia e imagens inspiradas, descreve o estado de espírito de quem – sem que as razões sejam dadas – foi forçado a abrir mão de um grande amor e, sublimando a perda, a transforma em substância poética.

Pois esta canção, brilhantemente cantada pelo próprio Miltinho, está inserida em um filme brasileiro da época.

Qual o filme? Ora, em vista da grandiosidade da música, a gente imagina que se trate de um grande filme, narrando uma igualmente grande estória de amor, tão sublime quanto a canção. É ou não é?

Que nada! O filme é ruim, da mais baixa qualidade. Com Mazzaropi no papel principal, chama-se – e o título já diz tudo! – “O vendedor de linguiça” (Glauco Laurelli, 1962) e sua raquítica estória conta isso mesmo: os atropelos sem graça de um pequeno comerciante que, num bairro de periferia de São Paulo, negocia com este tipo de alimento. Nele, o personagem feito por Miltinho é um figurante casual que, numa rua da favela, ensaia um número que cantará em concurso musical.

Entendam o que estou dizendo. O problema não é a pobreza retratada no filme; o problema é a pobreza da retratação. Claro que se poderia rodar uma grande estória de amor (equivalente à grandeza da canção) em um ambiente pobre. Só que não é o caso aqui. O filme é, como disse, uma péssima chanchada, onde a música de Luis Antônio surge, de repente e sem mais nem menos, como um corpo absolutamente estranho, deslocado da baixeza reinante, como uma pérola ao meio de um chiqueiro.

Aliás, até que o filme contém uma estória de amor. Empregada em uma residência granfina, a filha do vendedor de lingüiça tem o mau costume de, às escondidas, usar roupa da dona da casa, quando sai para passear, e, num desses passeios, conhece um rapaz rico, com quem passa a namorar, se fingindo de rica. Levando o caso a sério, o rapaz quer conhecer os pais dela, e, para tanto, ela ainda chega a surrupiar um terno do patrão para vestir o seu mal-amanhado pai linguiceiro, porém, a farsa desmorona quando, sem aviso prévio, os patrões da moça retornam das férias, e o caso vai terminar na polícia. Apesar de todos os contrastes sociais e culturais, que são muitos, o rapaz rico insiste em casar com a moça pobre; casam, mas, mesmo depois de casados os problemas entre as duas famílias continuam e o filme, ao meio de muito barraco armado, se conclui com uma lição de moral meio “ideológica” do tipo, ´os ricos são esnobes e infelizes, e os pobres, sinceros e felizes´.

Como disse, a canção de Luiz Antonio está deslocada da estória. Dou um exemplo: depois de casados, e por causa dos problemas familiares, o jovem casal se separa; ora, a canção, poderia ter sido executada nesta parte do roteiro, para ilustrar a saudade dos separados, mas, que nada! O pior é que, mesmo que tivesse sido executada durante a separação, ela, a canção, é tão sublime e a estória de amor narrada tão superficial que, com certeza, não se atingiria o efeito desejado.

Eu sei, eu sei, não se trata de um filme de Glauber Rocha, ou de Nelson Pereira dos Santos; é apenas Mazaroppi e, portanto, não poderia ser artístico, nem nada disso. Não estou exigindo de Mazaroppi o que ele não poderia ter dado, apenas estranhando a presença de “Poema do adeus” em seu filme. Aos fãs de Mazaroppi, admito até que o filme não seja assim tão ruim como digo: o problema é que, por efeito de comparação, a presença de “Poema do adeus” o prejudica. Sem dúvida alguma, o filme ficaria melhor sem a música.

Sim, “O vendedor de lingüiça” e “Poema do adeus”, os dois juntos, é o que o mestre Bakhtin chamaria de ´mésalliance´, naquele sentido de ´choque entre contrários inconciliáveis´. Ao falar de ´mésalliance´, Bakhtin se referia ao antigo gênero carnavalesco, que se alimentava desse tipo de contrastes incongruentes, porém, aqui, mais uma vez, não é o caso – a bela canção de Luis Antônio não foi posta no filme para criar algum contraste especial, ou qualquer coisa do tipo; provavelmente foi posta lá para tentar melhorar o que não poderia ser melhorado: um filme fraco.

Mas, por que estou tratando disso? Bem, entre outras coisas, porque acho que a presença de “Poema do adeus” em “O vendedor de lingüiça” pode ser ilustrativa de a uma questão maior da cultura brasileira do século XX, que formulo com uma pergunta: por que será que fomos sempre, nós brasileiros, tão bons em música, e sempre tão ruins em usar essa boa música no cinema?

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Carnaval e cinema

20 fev

Um país carnavalesco como o Brasil não produziu – já notaram? – grandes filmes sobre o Carnaval. (O mesmo se diga do futebol). Seriam estas algumas de nossas contradições antropológicas e culturais…

“Orfeu de Carnaval” (Marcel Camus, 1959), apesar de adaptar Vinicius de Moraes, não é brasileiro, e, aliás, não é grande. Menor ainda é o seu remake, “Orfeu” (1999) de Cacá Diegues. Por sinal, Diegues é um que nunca se deu bem com o tema: desengonçado que nem um falso folião, o filme “Quando o carnaval chegar”, de 1972, é incômodo e ridículo.

E vejam que no começo do século XX, quando o próprio cinema era novinho, o Carnaval, por aqui, prometia vir a ser um tema cinematográfico interessante, a pegar ou largar. Vários documentários da era muda brasileira retrataram essa festa popular. Se você for às fontes, vai se deparar com muitos títulos assim: “Carnaval de…” e nas minhas reticências pode estar, ou o nome de uma determinada cidade, ou o ano das filmagens. Até o precursor do nosso cinema paraibano, Valfredo Rodrigues, no remoto 1923, filmou o “Carnaval da Paraíba e Pernambuco”.

Uma das primeiras películas sobre o tema do carnaval não completamente documental é de 1933, “A voz do carnaval”, de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, mas, no geral, a coisa ficou por aí, no mero registro dos fatos.

Acho que o grande momento do carnaval brasileiro nas telas ocorreu mesmo com as Chanchadas dos anos quarenta e cinqüenta.

Nessas comédias despudoradas, cheias de números musicais e dança, quando o carnaval não era o protagonista, era quase sempre um delicioso e divertido coadjuvante. Meio ao acaso, aqui cito alguns títulos, que o leitor mais coroa pode completar: “Carnaval no fogo”, “Carnaval em Marte”, “Samba em Brasília”, “Carnaval Atlântida”, “Carnaval em lá maior”, “Bom mesmo é Carnaval”, “É de chuá”, “Garotas e samba”, “Garota enxuta”, etc…

Ideológico e mal humorado, o Cinema Novo Brasileiro empurrou, no começo dos anos sessenta, a Chanchada para o fim do desfile, no que, sem querer, foi ajudado pela novidade da televisão.

Pessoalmente, fui, na infância e adolescência, um curtidor das Chanchadas, único item, confesso, a me desviar um pouco da então fechada hegemonia hollywoodiana. Embora nunca tenha sido folião, acho que, naquele tempo, vi tanto carnaval na tela quanto na rua, já que meu bairro, Jaguaribe, exibia belas festas carnavalescas, com Antônio Leite na Rua Primeiro de Maio, e a família de Metuzael, o Rei Momo pessoense, na Avenida Conceição.

Associando cinema e carnaval, outra recordação que guardo da época com melancolia é de umas matinées dominicais no Cine São José, onde via filmes que nada tinham a ver com carnaval, e no entanto, a música que tocava antes da projeção começar, era não sei por que, invariavelmente na base do “Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, cadê seus blocos famosos…” Não tenho a menor ideia de quem seria o projecionista, ou o gerente do cinema, mas, engraçado, ele me fazia sentir saudades do que nunca vivi: os velhos carnavais de antigamente.

Enquanto isso, permaneço no aguardo do grande filme brasileiro sobre o carnaval.

Ou ele já passou e eu não vi?