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Cinema brasileiro: os 100 melhores

4 dez

Quais seriam os melhores filmes brasileiros de todos os tempos? A Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos (ABRACCINE) resolveu fazer a lista dos 100 mais, que foi recentemente divulgada na imprensa.

Para tanto, a respeitada Associação convocou os seus membros (cerca de 100), aos quais pediu uma primeira relação de 25 títulos, dispostos na ordem de preferência. Somadas todas as listas de todos os membros, a comissão organizadora, levantou os mais votados e chegou ao que seria, por enquanto, uma espécie de ´cânone brasileiro de cinema´.

A lista dos 100 eleitos recobre quase todas as décadas do século XX e mais a quinzena deste novo milênio. Digo quase porque, nos resultados da votação, ficaram de fora as duas primeiras décadas do século, quando o cinema brasileiro supostamente não teria chegado a produzir obras de peso. Outra década sem votos foi a de quarenta, auge das chanchadas brasileiras, cujo sucesso de público, como sabemos, estendeu-se à década seguinte, a de cinquenta, que, na lista da Abraccine, só conseguiu cinco votos, dos quais apenas um se enquadra no gênero chanchada: “O homem do Sputnik”.

Imagem de "Limite", o melhor de todos.

Imagem de “Limite”, o melhor de todos.

Duas outras décadas com poucos votos são também os anos trinta (2 filmes) e os noventa (6). Na década de trinta teríamos, aparentemente, uma cinematografia em formação, e quanto à de 90, está marcada pelo golpe de Collor, que deixou a produção brasileira inativa por um tempo considerável. Já a década com o maior número de realizações por ano, a de setenta, não teve um número tão elevado de votos, apenas 15. Ocorre que, em sua grande maioria, essas realizações eram – como lembramos – porno-chanchadas sem muita qualidade.

A década mais votada (com 28 filmes) foi a de sessenta, época do Cinema Novo Brasileiro, onde atuaram, sem coincidência, também os cineastas mais votados: Glauber Rocha (com 5 filmes) e Nelson Pereira dos Santos (com 4). Com esta década só concorre o novo milênio, com nada menos que 24 títulos, um dos quais o atualíssimo “Que horas ela volta”, filme de 2015.

Se os cineastas mais votados foram os cinemanovistas Glauber Rocha e Nelson Pereira, não o foram sempre por filmes dos anos sessenta, casos respectivos de “A idade da terra”, de 1981, e “Memórias do cárcere”, de 1984.  Assim como outros cineastas com maior número de votos não se encaixariam propriamente no conceito de Cinema Novo: Carlos Reichenbach, com 4 filmes e José Mojica Marins, com 3.

"O homem do Sputnik", a única chanchada eleita.

“O homem do Sputnik”, a única chanchada eleita.

Para nós, a pergunta que não quer calar: houve filme paraibano listado? Sim, dois: “Aruanda” de Linduarte Noronha (1960) aparece no nonagésimo quarto lugar, e “O país de São Saruê” de Vladimir Carvalho (1971) situa-se um pouco acima, no octogésimo segundo lugar. A esse propósito, é bom observar que um filme colocado no privilegiadíssimo quarto lugar na lista tem assunto paraibano: o documentário “Cabra marcado para morrer” de Eduardo Coutinho (1984).

A lista da Abraccine, como todas as listas, é bastante variada e polêmica. Com certeza, vai gerar controvérsias, mas acho que valeu a iniciativa de cogitar de um cânone brasileiro, quando muitos outros já foram cogitados para o cinema universal. E a Abraccine não fez só a lista. Em acordo comercial com a editora Letramento, deverá ser publicado, no próximo ano, um livro com ensaios sobre cada um dos 100 filmes eleitos, escritos, naturalmente, pelos críticos votantes.

O segundo lugar para "Deus e o diabo na terra do sol".

O segundo lugar para “Deus e o diabo na terra do sol”.

Devo dizer que sou membro da Abraccine e fui votante na referida lista. Muitos dos filmes que escolhi estão na lista (não necessariamente nas posições que lhes dei), outros não. Por exemplo, votei em “Desmundo” (2002), lhe dando um honroso quinto lugar, e o filme de Fresnot sequer apareceu na lista. Em compensação, concedi o primeiro lugar a “Limite” (1931) e lá está ele, sim, no topo da lista da Abraccine, como o melhor filme brasileiro de todos os tempos… do jeito que eu queria.

Como não disponho de espaço para arrolar a lista completa, cito ao menos os dez primeiros colocados, que são:

 

Limite (Mário Peixoto, 1031)

Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)

Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)

Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)

Terra em transe (Glauber Rocha, 1967)

O bandido da luz vermelha (Rogerio Sganzerla, 1968)

São Paulo S/A (Luís Sérgio Person, 1965)

Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962)

Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969)

"O pagador de promessas" entre os dez mais.

“O pagador de promessas” entre os dez mais.

Viva o Rio

18 jul

A cidade do Rio de Janeiro, como é sabido, vem de ser eleita pela Unesco patrimônio da humanidade, na categoria ´paisagem cultural´. Os cariocas estão esfuziantes e, dentro desse clima de comemoração, gostaria aqui de relembrar, com os leitores, a imagem da cidade maravilhosa no cinema.

Se for para começar em nível doméstico, deixem-me dizer, primeiramente, que a história do cinema brasileiro literalmente inicia-se no Rio. Cento e catorze anos atrás, foi em 19 de julho de 1898 que o ítalo-brasileiro Paschoal Segretto, voltando de breve viagem a Roma e ainda no navio, munido de seu precário cinematografo, filma o quê? Sim, a Baía da Guanabara – registro pelicular que é considerado pela maioria dos historiadores a primeira filmagem ocorrida em território brasileiro.

Nas décadas mudas de dez e vinte, vários filmes seriam rodados tendo o Rio como cenário (inclusive o nosso primeiro longa de ficção – “Os estranguladores”, 1908, de Antônio Leal), porém, bem ou mal, creio que a grande decantação da cidade vai acontecer com as Chanchadas, nos anos quarenta e cinquenta. Cheias de malandragem, essas comédias semi-musicais vão passar, para o resto do Brasil, o espírito descontraído e alegre do carioca, como nunca seria feito em nenhuma outra fase do cinema nacional.

Uma coprodução Brasil/Argentina que promoveu a beleza da cidade na época foi “Meus amores no Rio” (1958), estória cheia de cores vivas de uma mocinha de Buenos Ayres que ganha o prêmio de visitar o Rio e aqui se envolve com três cariocas ao mesmo tempo.

Já nos anos sessenta a imagem do Rio se torna mais séria e, em alguns casos, mais trágica. Tanto com os filmes do Cinema Novo, quanto com os periféricos a ele.  Eis alguns desta década: “Esse Rio que eu amo (1961), “Os cafajestes” (1962), “Assalto ao trem pagador” (1962), “Cinco vezes favela” (1962), “Copacabana Palace” (1962), “A grande cidade” (1964), “As cariocas” (1966), “Todas as mulheres do mundo” (1966), “Opinião publica” (1967), “Copacabana me engana” (1969). O que, aliás, de alguma maneira, já começara nos anos cinqüenta, com “Rio quarenta graus” (1955) e talvez também com a coprodução Brasil/França “Orfeu de Carnaval” (1959).

Vou dar um salto no tempo, mas, deve ser daí que deriva o Rio violento e inóspito do cinema recente que a gente conhece tão bem em filmes como: “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” e “Tropa de elite”.

Fico em dúvida onde pôr o desenho animado “Rio” (2011), mas, o seu assunto (gringos no Rio de Janeiro) me reporta à representação que a cidade maravilhosa recebeu no cinema estrangeiro.

Lamentavelmente, no tempo da Hollywood clássica, o Rio sempre apareceu como uma espécie de ´paraíso judicial´ para onde desejavam fugir todos os criminosos americanos ou europeus, depois de um grande golpe. Acho que, pelas estatísticas, só perderíamos para o México. Para não citar todos – pois a lista seria enorme – recordo apenas dois ou três.

Em “Tortura de uma alma” (cujo título original é “Rio”) um fugitivo da penitenciária da Ilha do Tubarão escapa para o Rio de Janeiro, onde vai encontrar a amante nos braços de outro (John Brahm, 1939). Durante a Segunda Guerra, o espião inglês duplo James Mason ludibria alemães e franceses para, com a grana na maleta, fugir de todos e vir residir no Rio de Janeiro (“Cinco Dedos”, Joseph Mankiewicz, 1952). O velho Hitchcock fez pior: imaginou o Rio como um reduto de nazistas, cascavilhando as montanhas Aymorés em busca de urânio, para fazer a bomba atômica, o que teria acontecido, não fosse a ajuda do casal espião Ingrid Bergman e Cary Grant, que vem morar – vocês lembram – numa Copacabana toda feita em back projection (“Interlúdio”, 1944).

Sim, vez ou outra, o Rio aparecia como deslumbrante cenário tropical de algum musical hollywoodiano cheio de beijos e risadas, como está, por exemplo, em “Voando para o Rio” (“Flying down to Rio”, 1933, Thornton Freeland). Porém, o número exíguo dessas comédias românticas não superou a má fama da cidade, apesar da posterior influência indireta da ´Brazilian bombshell´ Carmem Miranda.

De qualquer forma, aquelas referências ao Rio como ´paraíso judicial´ que, de bom grado, acolhia e encobria os contraventores do mundo, foram, com o passar das décadas, diminuindo e hoje em dia, para ser franco, nem sei que status o Rio ocupa na cabeça dos roteiristas estrangeiros. Tomara que, com a indicação da Unesco, algo menos ´cronicamente inviável´.

Em tempo: fui informado de que há um livro sobre o assunto; não tive acesso, mas, repasso a informação ao leitor interessado: “O Rio no cinema” de Antônio Rodrigues, Nova Fronteira, 2008.