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Como nasceu o Cinema Novo

31 out

Para regozijo dos cinéfilos de plantão, está nas lojas do ramo o livro “Vida de Cinema – antes, durante e depois do Cinema Novo”, do cineasta Carlos Diegues (Rio de Janeiro: Objetiva, 2014).

Autobiografia intelectual de um dos mais importantes diretores de cinema do país, o livro traz, em suas quase 700 páginas, informação imprescindível à memória do cinema brasileiro, recobrindo um périplo de mais de meio século, desde o nascimento do autor, em 1940, ao ano de 1995 – tudo isso cronologicamente dividido em sete grandes seções, cada uma subdividida em inúmeros pequenos capítulos.

Para compensar a extensão do calhamaço, Diegues escreve um “Prefaciozinho” (sic) de poucas linhas, cujas palavras finais, dirigidas ao leitor, são as seguintes: “Fique à vontade. Leia só o que lhe interessa.”

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Foi o que fiz. Fucei aqui e acolá e detive-me nas duas seções, segunda e terceira, que relatam justamente os preparativos, o surgimento e as repercussões do Cinema Novo, de 1957 a 1969, e, claro, de quebra vem todo aquele clima de efervescência artística e política do período enfocado que, como se sabe, não se restringiu ao cinema.

É fato que a bibliografia sobre o assunto, digo o Cinema Novo Brasileiro, já é, a essa altura dos acontecimentos, bastante vasta, porém aqui vamos ter um adicional precioso, que é o tempero do relato pessoal de quem viveu a coisa toda por dentro, e agora a reconstitui a seu modo, e com, ao mesmo tempo, distanciamento e paixão.

Todas as figuras chave do movimento cinematográfico estão lá, as estrelas e as anônimas, e todos os principais fatos, os mais jornalísticos e os nem tanto, e Diegues não se limita a tratar apenas de seus filmes, suas ideias e seus projetos. Ao contrário, de alguma maneira, figuras como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Leon Hiszman às vezes ganham mais destaque que o autor.

Cartaz de "Joana francesa": Jeanne Moreau no Brasil

Cartaz de “Joana francesa”: Jeanne Moreau no Brasil

Além da facilidade do autor em manusear a palavra, um fator que torna a leitura agradável, e mesmo divertida, reside na variedade de tom dos capítulos, uns conceituais, outros epocais, outros ainda anedóticos – alguns essenciais, outros, se você quiser, perfeitamente descartáveis.

Inevitavelmente, o livro tem o problema de todo relato histórico em que o relator foi protagonista, porém, leve no enfoque e descontraído no estilo, Diegues se sai muito bem em equilibrar relevância histórica e vida pessoal. Não sem freqüência, alguns de seus capítulos “teóricos” deixam transparecer um viés existencial, e, mutatis mutandis, muitos de seus capítulos episódicos ganham certa dimensão conceitual.

Com relação ao tema que privilegiei, o que mais se sobressai no livro de Diegues é o seu empenho em ser fiel aos fatos históricos. O Cinema Novo Brasileiro foi mesmo programático como se diz? Sentiu influência das outras vanguardas, como a Nouvelle Vague com seu conceito de ´autor´? Foi ideológico na proporção que hoje em dia se lhe atribui? Pensou em público ou ignorou o conceito em favor da criatividade autoral? Foi desfeito pelos golpes (64 e 68), ou subsistiu?

Estas e outras são questões que Diegues enfrenta sem paranóia e sem medo de errar.

Talvez não seja demais admitir que o autor escreve como quem faz cinema, permitindo ao leitor “visualizar” os fatos, as coisas ou as pessoas. Com certeza, alguns eventos relatados têm qualidade cinematográfica, como se fossem cenas de um filme, às vezes um drama social, às vezes uma tragédia, às vezes uma comédia bufa. Lembro alguns deles.

A esposa Nara Leão e os dois filhos

A esposa Nara Leão e os dois filhos

É, por exemplo, comovente “ver”, na pequena Campos, RJ, durante as precárias filmagens de “Ganga Zumba”, os jovens Antônio Pitanga e Carlos Diegues furtando alimentos no mercadinho local, literalmente para matar a fome que o baixo orçamento da produção os fazia sentir.

Impressionante é, no dia primeiro de abril, a descrição das reações dos intelectuais e artistas cariocas ao golpe militar, por longo tempo todos pensando que tudo não passava de boatos e que, logo logo, o presidente retomaria o poder e falaria tranqüilo à toda a nação. Esperança que só se desfez quando a notícia chegou de que Jango havia fugido, de Brasília para o Rio Grande do Sul.

Hilária é a cena da primeira vez de Diegues no Festival de Cannes, em 1964, junto com Nelson Pereira e Glauber, adentrando o enorme salão, circundados pela sofisticada audiência. O cineasta de “Ganga Zumba” se atrasara na passarela e Glauber, impaciente, o chama em voz alta, pelo apelido “Cacá”, o que provoca nas chiques platéias do Festival, uma gargalhada interminável, já que o termo ´cacá´ em francês significa ´merda´.

Enfim, apesar do tamanho, um livro gostoso de ler e, mais que isso, profundamente instrutivo para se entender não apenas o cinema, mas também o Brasil.

O cineasta Carlos Diegues

O cineasta Carlos Diegues

 

Viva o Rio

18 jul

A cidade do Rio de Janeiro, como é sabido, vem de ser eleita pela Unesco patrimônio da humanidade, na categoria ´paisagem cultural´. Os cariocas estão esfuziantes e, dentro desse clima de comemoração, gostaria aqui de relembrar, com os leitores, a imagem da cidade maravilhosa no cinema.

Se for para começar em nível doméstico, deixem-me dizer, primeiramente, que a história do cinema brasileiro literalmente inicia-se no Rio. Cento e catorze anos atrás, foi em 19 de julho de 1898 que o ítalo-brasileiro Paschoal Segretto, voltando de breve viagem a Roma e ainda no navio, munido de seu precário cinematografo, filma o quê? Sim, a Baía da Guanabara – registro pelicular que é considerado pela maioria dos historiadores a primeira filmagem ocorrida em território brasileiro.

Nas décadas mudas de dez e vinte, vários filmes seriam rodados tendo o Rio como cenário (inclusive o nosso primeiro longa de ficção – “Os estranguladores”, 1908, de Antônio Leal), porém, bem ou mal, creio que a grande decantação da cidade vai acontecer com as Chanchadas, nos anos quarenta e cinquenta. Cheias de malandragem, essas comédias semi-musicais vão passar, para o resto do Brasil, o espírito descontraído e alegre do carioca, como nunca seria feito em nenhuma outra fase do cinema nacional.

Uma coprodução Brasil/Argentina que promoveu a beleza da cidade na época foi “Meus amores no Rio” (1958), estória cheia de cores vivas de uma mocinha de Buenos Ayres que ganha o prêmio de visitar o Rio e aqui se envolve com três cariocas ao mesmo tempo.

Já nos anos sessenta a imagem do Rio se torna mais séria e, em alguns casos, mais trágica. Tanto com os filmes do Cinema Novo, quanto com os periféricos a ele.  Eis alguns desta década: “Esse Rio que eu amo (1961), “Os cafajestes” (1962), “Assalto ao trem pagador” (1962), “Cinco vezes favela” (1962), “Copacabana Palace” (1962), “A grande cidade” (1964), “As cariocas” (1966), “Todas as mulheres do mundo” (1966), “Opinião publica” (1967), “Copacabana me engana” (1969). O que, aliás, de alguma maneira, já começara nos anos cinqüenta, com “Rio quarenta graus” (1955) e talvez também com a coprodução Brasil/França “Orfeu de Carnaval” (1959).

Vou dar um salto no tempo, mas, deve ser daí que deriva o Rio violento e inóspito do cinema recente que a gente conhece tão bem em filmes como: “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” e “Tropa de elite”.

Fico em dúvida onde pôr o desenho animado “Rio” (2011), mas, o seu assunto (gringos no Rio de Janeiro) me reporta à representação que a cidade maravilhosa recebeu no cinema estrangeiro.

Lamentavelmente, no tempo da Hollywood clássica, o Rio sempre apareceu como uma espécie de ´paraíso judicial´ para onde desejavam fugir todos os criminosos americanos ou europeus, depois de um grande golpe. Acho que, pelas estatísticas, só perderíamos para o México. Para não citar todos – pois a lista seria enorme – recordo apenas dois ou três.

Em “Tortura de uma alma” (cujo título original é “Rio”) um fugitivo da penitenciária da Ilha do Tubarão escapa para o Rio de Janeiro, onde vai encontrar a amante nos braços de outro (John Brahm, 1939). Durante a Segunda Guerra, o espião inglês duplo James Mason ludibria alemães e franceses para, com a grana na maleta, fugir de todos e vir residir no Rio de Janeiro (“Cinco Dedos”, Joseph Mankiewicz, 1952). O velho Hitchcock fez pior: imaginou o Rio como um reduto de nazistas, cascavilhando as montanhas Aymorés em busca de urânio, para fazer a bomba atômica, o que teria acontecido, não fosse a ajuda do casal espião Ingrid Bergman e Cary Grant, que vem morar – vocês lembram – numa Copacabana toda feita em back projection (“Interlúdio”, 1944).

Sim, vez ou outra, o Rio aparecia como deslumbrante cenário tropical de algum musical hollywoodiano cheio de beijos e risadas, como está, por exemplo, em “Voando para o Rio” (“Flying down to Rio”, 1933, Thornton Freeland). Porém, o número exíguo dessas comédias românticas não superou a má fama da cidade, apesar da posterior influência indireta da ´Brazilian bombshell´ Carmem Miranda.

De qualquer forma, aquelas referências ao Rio como ´paraíso judicial´ que, de bom grado, acolhia e encobria os contraventores do mundo, foram, com o passar das décadas, diminuindo e hoje em dia, para ser franco, nem sei que status o Rio ocupa na cabeça dos roteiristas estrangeiros. Tomara que, com a indicação da Unesco, algo menos ´cronicamente inviável´.

Em tempo: fui informado de que há um livro sobre o assunto; não tive acesso, mas, repasso a informação ao leitor interessado: “O Rio no cinema” de Antônio Rodrigues, Nova Fronteira, 2008.