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Ruínas

2 out

Esta semana um amigo me desafiou a uma peregrinação pelos cinemas do meu bairro, Jaguaribe. Ou melhor, pelo que deles ainda resta. O objetivo era pesquisar sistematicamente sobre essas velhas casas de exibição, e devíamos, portanto, parar, deter-nos, adentrar os velhos prédios, investigar, perguntar, anotar, fotografar, etc… São cinemas da minha infância e, confesso, não deixei de levar um bom lenço comigo.

O primeiro que visitamos foi o Cine São José, hoje uma oficina de automóveis, mas não só isso. Como os outros cinemas do bairro, o São José fica(va) numa esquina, entre as ruas Sen. João Lira e Floriano Peixoto. Cortando a lateral do prédio (rua Floriano Peixoto), a oficina ocupa justamente o espaço da sala de exibição. Ao meio de carros velhos, graxa e poeira, emocionei-me ao ver que, intactos, estavam lá os dois pilares redondos que, então, sustentavam o balcão do cinema. Uma vez, descrevendo o São José de memória, referi-me a esses dois pilares, que ficavam no meio das filas de poltronas, no térreo. Ao fazer a descrição, tive dúvidas se eles realmente existiam, ou se minha memória estava sendo criativa. Fiquei feliz em constatar que minha descrição fora exata.

Mas nem tudo – ou quase nada – na minha descrição permanecia. Cadê a bela sala de espera, com aquela ampla escadaria curva que conduzia ao balcão e, suponho, à cabine de projeção? Não deu nem pra ver, pois a porta de entrada, hoje de vidro, contém o nome de Salão de Beleza, e estava fechada. Lá em cima, onde seria a cabine e a secretaria – fomos informados – estão hoje pequenos apartamentos, todos ocupados. Um senhor que reside em um deles foi cortês conosco, mas não nos permitiu subir. Embora ainda inteiro, o prédio todo está decadente, feio e sujo.

Prédio do antigo Cinema São José, em Jaguaribe, João Pessoa, PB.

Do São José, rumamos para o Cine Jaguaribe, rua Capitão José Pessoa com Aderbal Piragibe. Nele o estrago do tempo foi bem maior. Antigamente alto – como se equivalesse a dois andares – o prédio foi cortado ao meio, só restando a parte inferior, e não muito: só a fachada (completamente descaracterizada) e a parede direita de quem entrava. A parede esquerda não existe: são aberturas para as várias lojas que ocupam todo o antigo salão de exibição. O dono de umas das lojas de peças de automóvel, fez questão de frisar que há muito nada restava do cinema, como se a dizer que estávamos fazendo um trabalho inútil.

No caso de Cine Teatro Santo Antônio, entre a Primeiro de Maio e a Vasco da Gama, houve menos surpresas. Hoje como “Casa da Cidadania”, o prédio, repleto de boxes de repartições públicas e empresas, está pelo menos conservado. O coordenador da Casa nos recebeu bem e fez questão de subir conosco para o que havia sido, no passado, a cabine e o balcão do cinema. Hoje são pequenas salas de escritório, mas, uma surpresa: conservada e perfeita ainda está lá a pequena janela que ficava na frente do projetor, janela mágica por onde passava o foco de luz que levava para a tela as imagens de Ilsa Lund pedindo ao pianista Sam que tocasse ´as time goes by´.

De lá ainda tivemos a coragem de esticar até o Cine Bela Vista, que ficava em Cruz das Armas, mas que também servia aos habitantes do bairro de Jaguaribe. Este cinema foi o mais agredido de todos. Tão agredido que tive dificuldade em identificar a antiga estrutura daquele que foi, pela sua arquitetura ímpar, um dos cinemas mais interessantes da época, com sua enorme sala de espera, seguida de um vão descoberto que era preciso atravessar para se chegar ao salão de exibição. Um depósito de loja de sons e uma oficina de automóveis tomam o espaço todo, de modo a obscurecer a arquitetura original. O rapaz da loja de som ainda nos mostrou o quartinho onde ficava a bilheteria, hoje um buraco imundo, cheio de tralhas e poeira. Saí dali tentando não lembrar que fora naquele cinema que vira minha primeira sessão de “cinema de arte”, com o filme “Hiroshima meu amor”, lá pelos começos dos anos sessenta.

Eu disse que levei meu lenço para essa peregrinação pelos velhos cinemas de minha infância. Pois o tenho comigo agora, no momento em que redijo estas linhas.

Visão do antigo Cinema Santo Antônio (prédio na esquina).

 

Em tempo: o amigo que me levou a essa peregrinação foi André Dib, estudioso do cinema, no momento envolvido em amplo projeto de pesquisa sobre os cinemas antigos de João Pessoa. Vejam sua página no Facebook.

Uma tarde em 1960

24 set

Nesse dia não houve todas as aulas e saímos mais cedo – coisa rara num Colégio rigoroso como o Lins de Vasconcelos. Na saída, ainda vi o sempre elegante Prof. Nery, diretor do Colégio, conversando com o sisudo Prof. José Maria; Dona Maria, a servente durona, admoestando alguns alunos mais insubordinados; e, lá fora, ao pé do Cruzeiro, Dona Creuza, a ´primeira dama´ do Colégio, trocando ideias com o jovem atleta Quinca Brito.

Deviam ser umas quatro horas e a tarde estava bonita. Ir pra casa,  não era o caso. Tomamos, eu e meu colega de turma, Aroldo, o rumo da Duque de Caxias, e fomos ver, só por curiosidade, o que estava em cartaz no Cine Rex. Nada de interessante, um tal de “As minas do Rei Salomão”.

Apressado, Aroldo me puxou pelo braço e descemos direto para a Visconde de Pelotas. É que seu pai – explicou-me ele, baixinho – podia muito bem estar ali na frente, na Sede do Clube Cabo Branco, jogando xadrez com aqueles velhotes de sempre, e ele não queria ser visto.

Trabalho deu foi cruzar a calçada do Pronto Socorro, pois, ali, uma multidão se acotovelava, certamente à espera da chegada de algum paciente muito famoso, que a ambulância viesse trazendo, notícia talvez anunciada pelo rádio.  Talvez o motivo do súbito cancelamento das aulas? Não sei.

Mas, numa tarde daquelas, quem queria saber de doentes, mesmo famosos? Fomos correndo aos cartazes do Plaza, que exibia um filme que, a Aroldo nem tanto, mas a mim pareceu interessante – “Imitação da vida”. Talvez pudesse vê-lo em outra ocasião. Bem melhor, agora mesmo, seriam os bancos da Praça João Pessoa, onde, com certeza, as garotas e os possíveis flertes nos aguardavam.

No Ponto de Cem Réis, os bondes faziam suas manobras barulhentas, mas, claro, hoje não iríamos pra casa de bonde, nem de ônibus. Tínhamos tempo livre e o dinheiro da passagem serviria pra ver mais filmes, ou para outros lances de igual atrativo.

Assim, ignoramos as marinetes na Praça 1817 e fomos direto para a tão ansiada Praça João Pessoa, que, pra nossa relativa surpresa, estava quase lotada, já que outros colégios também haviam dado folgas. Tanto é que tivemos que, num primeiro momento, sentar perto de uns jornalistas, empregados do Jornal A União, cujo prédio ficava no outro lado da rua. Um gordo e pálido, de cachimbo na boca, discutia com um magro, louro, alto e falastrão: falavam alto, mas não era assunto que entendêssemos.

Depois, por sorte, nos livramos daqueles vizinhos chatos, e fomos sentar noutro banco. Com a chegada de novos amigos, alguns também colegas do Lins, o papo foi longe, cada um contando as suas supostas aventuras amorosas, das quais, evidentemente, faziam parte estratégias mentirosas e tudo mais a que tinham direito adolescentes inexperientes e sonhadores.

Daí a pouco estava escurecendo. Melhor ir andando, que a tirada até Jaguaribe era longa. Tomamos, eu e Aroldo, o caminho do Mercado Central, cortamos a Pça Castro Pinto e pegamos a tortuosa Alberto de Brito. Deixando Aroldo em casa, na altura da Coremas, fiz a volta no quarteirão, para passar na frente do Cinema São José só pra checar o filme da noite, uma comédia chamada “Quanto mais quente melhor” – que prometia. Com certeza, viria vê-la, naquele mesmo dia ou num dia seguinte.

Segui, animado, pela Floriano Peixoto, porém, antes de dobrar a esquina da Primeiro de Maio, bem antes de alcançar minha casa… acordei. Acordei e, puxa vida, perdi a chance de rever meus pais, certamente vivinhos da silva, me esperando para um bom prato de sopa quente, com pão francês novinho, recém saído dos fornos da  modesta mas providencial padaria da família.

Pois é, acordei confuso, ainda misturando a euforia do passado com a disforia do presente. Por que será que fui sonhar, naquela noite, com a João Pessoa de 1960 e, assim, de modo tão intenso? Foi quando lembrei que no dia anterior, eu havia passado horas no computador, admirando – e salvando – as fotos antigas da cidade que certos obcecados pelo passado vivem postando nas redes sociais.

Sei não, viu, mas acho que preciso me afastar do Facebook, ou, ao menos, excluir Petrônio Souto de minhas amizades virtuais…

 

(Em tempo: esta crônica saudosista foi inspirada pela galeria de fotos antigas de João Pessoa que o jornalista Petrônio Souto vem, com impressionante assiduidade, postando no Facebook)

Página de jornal velho

12 out

Em suas pesquisas iconográficas sobre o passado da cidade de João Pessoa, o poeta Águia Mendes nos brindou, recentemente, com fotografias das páginas do extinto jornal O Norte, em edição de março de 1960. (Vide: FaceBook).

Uma dessas fotografias mostra a programação do Cine São José, e isso me enviou ao passado, quando eu, garoto e morador de Jaguaribe, frequentava os três cinemas do Bairro.

Incrível como a fotografia de uma página antiga de jornal pode mexer com suas emoções. Olhando a foto, de repente, estou no Jaguaribe do comecinho dos anos sessenta. Nos meus treze anos de idade, ajudava meu pai na padaria que sustentava a família, rua Primeiro de Maio com Senhor dos Passos. Tanto despachava no balcão, como entregava as sacolas de pão nas mercearias do bairro, que eram muitas. A mesada que recebia desses serviços me permitia ir ao cinema e ver o que bem entendesse e a censura permitisse.

cine-sao-jose-1960

Ao Cine São José fui com assiduidade, tanto às superlotadas soirées de final de semana, como a outras, em outros horários. Lembro com melancolia as matinées de domingo, em que vi tantos filmes de aventura que o tempo apagou da memória.

Na página fotografada de O Norte estão alguns dos filmes que vi no São José: a chanchada brasileira “O homem do Sputnik”, com Oscarito; a comédia americana “O bamba do regimento” com Jerry Lewis; o drama bíblico “O filho pródigo”, com Lana Turner; mas, nenhum desses teve a repercussão de “Sissi, a imperatriz”, o segundo filme da trilogia sobre a imperatriz austríaca, tão inesquecivelmente interpretada pela jovem e bela Romy Schneider.

Ainda hoje recordo a noite em que fui ao São José para ver esse filme. Eu havia me submetido a uma grave cirurgia de hérnia e estava saindo de casa pela primeira vez. Levaram-me minha irmã Genilda e o namorado Jackson, e a sessão estava cheia, com espectadores da vizinhança trazendo suas cadeiras de casa para completar a lotação do cinema – um costume que nunca vi, em nenhum outro cinema da cidade.

Prédio do Círculo Operário onde funcionava o Cine São  José.

Prédio do Círculo Operário onde funcionava o Cine São José.

A programação fotografada que se vê na página de O Norte deve ser de um dia de semana, pois o filme em cartaz, anunciado para as 19:45 horas, “Sob a lei da chibata”, só será exibido em um “único dia”. Calculo que esse único dia seria uma segunda-feira, dia sem prestígio para filmes sem prestígio. Para “amanhã” (provavelmente para a terça-feira e quarta) está anunciado “Rua dos fracassados”, outro filme para o qual não se conta um grande público, provavelmente bolado e exibido para uma plateia específica, fã de policiais ou filmes de ação.

As bilheterias mais promissoras ficavam para o fim de semana, e o anúncio já está dado, um pouco abaixo: “A partir de sexta feira”, “O bamba do regimento”, do qual – como nos casos anteriores – se oferece um miolo de enredo: “Ele era um problema para o sargento, um pesadelo para o capitão, e uma catástrofe para o general”. Com os nomes no elenco: Jerry Lewis e Phyllis Kirk. E com um “Vem aí!” exclamativo, sem datas especificadas, se anunciam ambos, o filme austríaco e a chanchada brasileira. Para a Semana Santa fica “O filho pródigo”, com o aviso de “cinesmascope”.

Para quem não lembra, ou não sabe, o Cine São José ficava na rua Senador João Lira, número 697, esquina com a rua Floriano Peixoto. Fundado em 1952, funcionava no prédio do Círculo Operário e tinha sessões diárias. Segundo dados deixados pela Companhia exibidora de Luciano Wanderley junto aos distribuidores, o cinema fazia uma média de 410 sessões por ano, que recebiam 51.635 espectadores.

Uma cena de "Sissi, a imperatriz", visto em 1960, no Cine São José.

Uma cena de “Sissi, a imperatriz”, visto em 1960, no Cine São José.

O Cine São José não era uma construção autônoma: fazia parte de um bloco maior, o prédio do Círculo Operário, este ocupando todo um quarteirão da Senador João Lyra. Mesmo sem individualidade arquitetônica era aconchegante, pelo menos para mim o foi. Tinha uma boa sala de espera, com uma escadaria curva que dava acesso ao setor superior, preferido pelos casais com intenções não propriamente cinematográficas. Seu salão de exibição era vasto, de dimensões mais ou menos quadradas. Se não me falha a memória, as últimas filas de assentos eram interrompidas, em dois pontos, por pilares redondos que sustentavam o setor superior da plateia.

Anos mais tarde, o Cine São José, não sei com que auspícios (possivelmente do pessoal do Círculo Operário), passou a incluir filmes de arte em sua programação e, num tempo em que, maiorzinho, já me interessava por crítica cinematográfica, lembro de ter visto lá raridades do cinema internacional, como o filme japonês Não deixarei os mortos, e outros de nacionalidades igualmente remotas.

Mas, volto a vista para a velha página de O Norte, e torno a ser criança, e assim permaneço por mágica fração de tempo.

Obrigado, poeta Águia Mendes pela visita ao Cine São José.

A jovem e bela Romy Schneider...

A jovem e bela Romy Schneider…