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Capra e Bergman

25 fev

Coisa esquisita é a natureza humana.

Tiro por mim. Há dias em que acordo de espírito leve, disposto a curtir a vida, acreditando que ela é maravilhosa. Outros dias há em que me levanto pesado, vendo tudo feio e crendo que a vida é um castigo que me foi imposto.

E mais estranho ainda é que, para esses estados de espírito antagônicos, que perduram pelo resto do dia, nem sempre existem motivações objetivas. Muitas vezes há problemas, sim, no dia em que acordo leve, e, eventualmente, problema nenhum, no dia em que me ergo da cama pesado.

Ao estado de espírito leve eu, cá comigo, dou o nome de “Capra”, e ao pesado, eu chamo de “Bergman”.

Pois é. No dia em que amanheço Capra nada me abala. Os problemas são tirados de letra, pois creio piamente que, para tudo, existe um happy end que nos aguarda em algum lugar, acolhedor e generoso. Estar vivo é um dom divino que deve ser preservado com júbilo e gratidão.

No dia em que amanheço Bergman tudo me derruba e me destrói. Nem precisa ser nada grande, nem grave. Uma torneira quebrada já é o suficiente para conjugar um monte de preocupações, que vão se somar a outras, mais severas e formar um caldo sujo e feio que desagua num oceano escuro e fundo.

Morangos silvestres - o idoso que aprende sobre a vida.

Morangos silvestres – o idoso que aprende sobre a vida.

Mas, não pensem que sou ciclo-tímico.

Não é nada disso. Na verdade, Capra e Bergman não se manifestam com frequência, e, quando o fazem, os espaços de tempo entre um e outro são grandes, enormes. A rigor, na maior parte dos dias, eu saio da cama normal, digo, nem a euforia de Capra, nem a disforia de Bergman, apenas eu mesmo.

Capra e Bergman, nunca os vi juntos. Nem poderia. A bem da verdade, vi-os juntos, sim, mas foi só uma vez.

Foi assim: saído de uma noite de sonhos estranhos, uma certa manhã eu abri os olhos, ainda sonolento, e, em torno de minha cama estavam essas duas figuras ímpares. Do lado direito, sorridente em sua cadeira de diretor, Capra piscava o olho para mim, como a dizer: “Levanta, cara, e vamos curtir esse dom sagrado que Deus te deu: a existência”. Do lado esquerdo, de cara enferrujada, Bergman me fitava, como a admoestar: “Deixa de ilusão, cara, e cai na real, que a vida é só amargura e dor”. Quando os dois se entreolharam, como se fossem dar início a uma disputa filosófica, ou coisa pior, sei lá, uma briga peripatética, com troca de socos e pontapés, dei um pulo da cama, botei minha sunga e corri para o jardim, tomar banho de sol, como faço toda manhã. E nunca mais vi os dois juntos, graças a Deus.

O desespero de George Bailey, no filme de Capra.

O desespero de George Bailey, no filme de Capra.

Uso os nomes desses dois cineastas que admiro para ilustrar a dicotomia entre alegria e tristeza, mas não o faço com tranquilidade. Pensando bem, e procurando com cuidado, a gente até que pode encontrar tristeza em Capra, e, mutatis mutandis, alegria em Bergman.

Vejam o caso de “A felicidade não se compra”, o filme mais pra cima de Frank Capra. Se não fosse pelo final feliz, dir-se-ia que a vida de George Bailey é um amontoado de problemas, desde quando, ainda criança, quase perde um irmão afogado, até a crise financeira que quase leva o banco da família à falência… tudo isso culminando na noite de Natal em que ele mesmo, sem saída, opta pelo suicídio.

Já um dos filmes mais típicos de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, contém, sim, seus momentos positivos. Tudo bem, é a estória de um senhor idoso, um médico amargo e frio, desencantado com o gênero humano e talvez consigo mesmo, porém, não esqueçamos que a sua viagem para receber a homenagem que lhe cabe também é uma viagem interior em que ele se reavalia e cresce humanamente. O filme termina com o sonho infantil dos morangos catados na floresta, com a doce e poética consideração de que a vida poderia ter sido diferente.

Lembranças poéticas no filme de Bergman.

Lembranças poéticas no filme de Bergman.

Esses aspectos menos óbvios em Capra e em Bergman, aparentemente contraditórios deles mesmos, eu não os lembro por lembrar. Acho que os lembro interesseiramente, na esperança de que me sirvam de lição. Para, no dia em que eu amanhecer completamente Capra, dar-me conta de que – desculpem o clichê – nem tudo na vida são flores, e quando amanhecer totalmente Bergman, dar-me conta de que nem tudo são espinhos. Aprender a conviver com flores e espinhos, tarefa existencial difícil, que me esforço para cumprir.

Porém, não vou me iludir: não tem jeito, já me antevejo, lá adiante, não sei quando, sendo atacado por aqueles estados de espíritos antagônicos, cada um no seu tempo, uma vez Capra, outra vez Bergman, estados, como disse, que não recorrem com assiduidade, mas que nunca deixam de recorrer. Num caso, teimando em ser feliz, no outro, teimando em ser infeliz.

Não creio que haja cura para isso. A mente humana é mesmo esquisita. Ou o problema seria só meu?

Tomara que o leitor possa me ajudar, – talvez, quem sabe? – com depoimentos análogos. Mesmo que os seus cineastas sejam outros, ou, se for o caso, sequer existam.

Nem tudo é alegria em A felicidade não se compra.

Nem tudo é alegria em A felicidade não se compra.

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Ano Novo no escurinho

30 dez

Fazer retrospectivas, vestir branco, soltar fogos, bolar projetos privados, abraças os entes queridos… Para a maior parte das pessoais a passagem do ano é uma data emblemática e muito importante.

Tanto é assim que o cinema, arte popular, sempre aproveitou-se do potencial dramático da data para, em um filme ou outro, criar cenas comoventes, ficcionalizando a morte do ano velho e o nascimento do ano novo, com todo o simbolismo místico do evento.

Desde a era muda, roteiristas, cineastas e produtores investem nessas cenas, com os resultados mais díspares. Até porque elas, as cenas, cabem muito bem em comédias, musicais, aventuras, melodramas, policiais, ficções científicas, e outros gêneros, até mesmo terror.

Ginger Rogers e Joseph Cotten em "Ve-te-ei outra vez".

Ginger Rogers e Joseph Cotten em “Ver-te-ei outra vez”.

Aproveito a ocasião e pergunto ao leitor – nos filmes que você viu que continham cenas de Ano Novo, quais as mais tocantes, e porventura, inesquecíveis?

Se me for permitido, começo mencionando cinco ou seis exemplos que perduram na minha imaginação de cinéfilo.

O primeiro é do tempo do cinema mudo e está em “Em busca do ouro” (“The gold rush”, 1925, Charles Chaplin) onde se vê o vagabundo Carlito desolado, em pleno inferno gelado do Alasca, comemorando a data com um pouco de inocente pantomima.

Charles Chaplin em cena de "Em busca do ouro".

Charles Chaplin em cena de “Em busca do ouro”.

A segunda cena tampouco fica atrás em desolação. No palácio meio assombrado da Av Sunset Boulevard, em Los Angeles, a atriz decadente Norma Desmond (Gloria Swanson), seu amante comprado e o mordomo taciturno não têm muito o que comemorar… O filme, naturalmente, é “Crespúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950).

A terceira cena vai ser no melodrama de Leo McCarey, “Tarde demais para esquecer” (“An affair to remember”, 1957) com Cary Grant e Deborah Kerr, separados por um acidente de automóvel, cada um pensando num encontro que não aconteceu no terraço do Empire State Building.

Cary Grant e Deborah Kerr em cena de "Tarde demais para esquecer".

Cary Grant e Deborah Kerr em cena de “Tarde demais para esquecer”.

Outra cena marcante acontece dentro de um transatlântico, com tripulação e passageiros na maior euforia, comemorando a passagem de ano, enquanto, do teto do navio, já começam a pingar as primeiras gotinhas da onda gigante que vai pôr tudo de cabeça para baixo. Ufa! (“O destino do Poseidon”, “The Poseidon adventure, 1972, Ronald Neame).

Uma outra cena de que gosto muito parece muito festiva, mas não é. Em “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”, Claude Lelouch, 1981), durante a ocupação da França pelos nazistas, num grande réveillon, uma francesinha ingênua e um soldado alemão brindam com champanhe, um brinde que, obviamente, prediz infortúnios a vir.

Harry e Sally entre brigas e beijos...

Harry e Sally entre brigas e beijos…

E fecho meus exemplos com um caso que até os leitores mais jovens recordam. Também numa festa de réveillon, um rapaz chamado Harry e uma moça chamada Sally, discutem e discutem, para depois trocarem aquele beijo cinematográfico que a plateia ansiosamente aguardava. (“Harry e Salley – feitos um para o outro”, Rob Reiner, 1989).

Para refrescar memórias, cito mais alguns títulos de filmes em que o réveillon se intromete, com maior ou menor consequência semântica, ou estética. Para facilitar a identificação, o faço em ordem cronológica. Você pode não lembrar que estes filmes contêm cenas de Ano Novo, mas, contêm.

Celebrações em "Duas semanas de prazer", 1942.

Celebrações em “Duas semanas de prazer”, 1942.

 

Boêmio encantador (Holliday, 1938)

Duas semanas de prazer (Holliday Inn, 1942)

Ver-te-ei outra vez (I´ll be seeing you, 1944)

Sementes da violência (Blackboard jungle, 1955)

Onze homens e um segredo (Ocean´s eleven, 1960)

A máquina do tempo (The time machine, 1960)

Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960)

O poderoso chefão II (The godfather II)

À procura de Mr Goodbar, (Looking for Mr Goodbar, 1977)

Trocando as bolas (Trading places, 1983)

Entre dois amores (Out of Africa, 1985)

A era do rádio (Radio Days, 1987)

Susie e os Baker Boys (The fabulous Baker Boys, 1989)

Sintonia de amor (Sleepless in Seattle, 1993)

Forrest Gump –  o contador de histórias (1994)

Na roda da fortuna (The hudsucker Proxy, 1994)

Prazer sem limites (Boogie Nights, 1997)

Réveillon patético em "Crepúsculo dos Deuses".

Réveillon patético em “Crepúsculo dos Deuses”.

Os 100 melhores filmes americanos

29 jul

Para alvoroçar a cinefilia do planeta, está circulando na imprensa mundial mais uma lista de filmes. É que a BBC resolveu fazer a relação dos cem melhores filmes americanos (isso mesmo) de todos os tempos, e para tanto, congregou 62 votantes, especialistas da crítica cinematográfica. O resultado é o esperado, e não é. Senão, vejamos.

Vamos começar nosso comentário com o topo da lista, digo, os dez mais. Entre esses dez estão pelo menos três dos filmes que sempre visitam a lista decenal da Sight & Sound, aquela que circula desde 1952, e que, para o cinema internacional, tem estatuto de cânone. Se considerarmos apenas a última edição, a de 2012, os três filmes comuns às duas listas são: Cidadão Kane, Um corpo que cai e Aurora.

Cidadão Kane, o número um.

Cidadão Kane, o número um.

Nesta apertada posição dos dez mais, os diretores variam em estilo e época. Orson Welles, como nas listas da Sight & Sound, está em primeiro lugar, mas em compensação, um diretor moderno, ainda vivo, Francis Ford Coppola, tem dois filmes na lista (O poderoso chefão e O poderoso chefão II), um deles num privilegiado segundo lugar. Alfred Hitchcock é outro diretor com dois filmes entre os dez melhores: Um corpo que cai em terceiro lugar, e Psicose em oitavo. Os outros diretores que comparecem são: Kubrick (com 2001 uma odisséia no espaço, no quarto lugar), John Ford (com o western Rastros de ódio em quinto); a dupla Stanley Done e Gene Kelly (com Cantando na chuva) e Michael Curtiz (com o indefectível Casablanca). A surpresa da lista deve ser o expressionista F.W. Murnau, com o seu belo Aurora. Digo, surpresa porque o cineasta é alemão, e o filme de Hollywood só tem mesmo a produção.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Veja os dez primeiros da lista:

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974

 

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Até aqui estive me referindo aos dez mais, porém, a lista inteira é de 100, lista que traz algumas surpresas. Lá estão os óbvios, os que imaginamos que estariam, mas também alguns filmes obscuros. Caso, por exemplo, de: O matador de ovelhas (Charles Burnett, 1978); As três noites de Eva (Preston Sturges, 1941); Tramas do entardecer (Maya Deren, 1943) e Gray Gardens (Albert Maisles et alii, 1975). Se o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, 1982, é surpresa ou não, deixo para o leitor decidir.

No meu entender, estão de fora filmes que não deveriam estar, por exemplo, o emblemático A rosa púrpura do Cairo. Pensando bem, a relação dos ilustres ausentes é enorme. (Veja adiante meu comentário sobre os diretores ausentes) Alguns filmes foram mal posicionados, caso de E o vento levou, que aparece no nonagésimo oitavo lugar. Acho que outros foram mal escolhidos, como, no meu entender, é o caso de Marnie, um dos cinco hitchcockianos presentes, quando o mestre do suspense tinha mais de vinte realizações mais acabadas que ele.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Mas quem são os cineastas favoritos, os mais recorrentes na lista inteira? Como houve empates, cito-os pela ordem de antiguidade: Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Stanley Kubrick, Steven Spieberg (com cinco filmes mencionados), Howard Hawks, FF Coppola, Martin Scorsese (com quatro), Charles Chaplin, John Ford e Orson Welles (com três).

Inevitavelmente ou não, alguns dos grandes diretores do passado só compareceram uma única vez, casos de William Wyler (com Os melhores anos de nossas vidas), Frank Capra (com A felicidade não se compra) e George Stevens (com Um lugar ao sol). Em alguns casos, o único filme escolhido de um grande diretor não era o esperado: vejam o caso de Ernst Lubitsch que está presente, não por causa do badalado Ninotchka, e sim, pelo menos conhecido A loja da esquina.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

Uma lista dessas (ou qualquer uma) vai sempre provocar sustos, estranhamentos e mesmo indignações. No item das indignações é o caso quando se pensa em grandes cineastas que fizeram a história do cinema americano, contribuindo com algumas obras primas, e que não foram contemplados com um único título. Estou pensando em nomes com o gabarito de Fred Zinnemann (de, por exemplo, Matar ou morrer), de John Huston (O tesouro de Serra Madre), de Otto Preminer (Laura), de Elia Kazan (Vidas amargas). Ao se constatar que, na lista em questão, está A noite dos mortos vivos, fica difícil entender por que os filmes dos cineastas mencionados foram descartados.

Uma constatação interessante diz respeito às décadas, principalmente se considerarmos que a lista, em princípio, recobre os 120 anos da história do cinema. Tanto é que nela está o primevo Nascimento de uma nação (1915) e o recente Doze anos de escravidão (2013).

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

A década mais recorrente é a dos anos setenta (20 filmes) seguida dos anos cinquenta (14 filmes), anos quarenta e oitenta (13 ambas), anos sessenta e noventa (8 ambas), anos trinta (7) e anos vinte (5). É significativo saber que aquele período da história chamado de Hollywood Clássica – dos anos trinta aos cinquenta – ficou com um pouco mais de um terço do total: 34 filmes, enquanto que o cinema do novo milênio, de 2001 em diante, só compareceu com 6 filmes.

Enfim, eis a lista completa. Veja se aí estão os seus filmes preferidos.

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974
11. Soberba Orson Welles 1942
12. Chinatown Roman Polanski 1974
13. Intriga Internacional Alfred Hitchcock 1959
14. Nashville Robert Altman 1975
15. Os Melhores Anos das Nossas Vidas William Wyler 1946
16. Quando os Homens são Homens Robert Altman 1971
17. Em busca do Ouro Charlie Chaplin 1925
18. Luzes da Cidade Charlie Chaplin 1931
19. Taxi Driver Martin Scorsese 1976
20. Os Bons Companheiros Martin Scorsese 1990
21. Cidade dos Sonhos David Lynch 2001
22. Ouro e Maldição Erich von Stroheim 1924
23. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa Woody Allen 1977
24. Se Meu Apartamento Falasse Billy Wilder 1960
25. Faça a Coisa Certa Spike Lee 1989
26. O Matador de Ovelhas Charles Burnett 1978
27. Barry Lyndon Stanley Kubrick 1975
28. Pulp Fiction: Tempo de Violência Quentin Tarantino 1994
29. Touro Indomável Martin Scorsese 1980
30. Quanto Mais Quente Melhor Billy Wilder 1959
31. Uma Mulher Sob Influência John Cassavetes 1974
32. As Três Noites de Eva Preston Sturges 1941
33. A Conversação Francis Ford Coppola 1974
34. O Mágico de Oz Victor Fleming 1939
35. Pacto de Sangue Billy Wilder 1944
36. Star Wars George Lucas 1977
37. Imitação da Vida Douglas Sirk 1959
38. Tubarão Steven Spielberg 1975
39. O Nascimento de uma Nação DW Griffith 1915
40. Tramas do Entardecer Maya Deren e Alexander Hammid 1943
41. Rio Bravo (Onde Começa o Inferno) Howard Hawks 1959
42. Dr. Fantástico Stanley Kubrick 1964
43. Carta de Uma Desconhecida Max Ophüls 1948
44. Sherlock Jr. (Buster Keaton 1924
45. O Homem que Matou o Facínora John Ford 1962
46. A Felecidade Não se Compra Frank Capra 1946
47. Marnie – Confissões de uma Ladra Alfred Hitchcock 1964
48. Um Lugar ao Sol George Stevens 1951
49. Cinzas no Paraíso Terrence Malick 1978
50. Jejum do Amor Howard Hawks 1940
51. A Marca da Maldade Orson Welles 1958
52. Meu Ódio Será Sua Herança 5Sam Peckinpah 1969
53. Grey Gardens Albert e David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer 1975
54. Crepúsculo dos Deuses Billy Wilder 1950
55. A Primeira Noite de um Homem Mike Nichols 1967
56. De Volta para o Futuro Robert Zemeckis 1985
57. Crimes e Pecados Woody Allen, 1989
58. A Loja da Esquina Ernst Lubitsch 1940
59. Um Estranho no Ninho Milo? Forman 1975
60. Veludo Azul David Lynch 1986
61. De Olhos Bem Fechados Stanley Kubrick 1999
62. O Iluminado Stanley Kubrick 1980
63. Amantes John Cassavetes 1984
64. Johnny Guitar Nicholas Ray 1954
65. Os Eleitos Philip Kaufman 1983
66. Rio Vermelho Howard Hawks 1948
67. Tempos Modernos Charlie Chaplin 1936
68. Interlúdio Alfred Hitchcock 1946
69. Koyaanisqatsi Godfrey Reggio 1982
70. A Roda da Fortuna Vincente Minnelli 1953
71. Feitiço do Tempo Harold Ramis 1993
72. Tensões em Shangai Josef von Sternberg 1941
73. Rede de Intrigas Sidney Lumet 1976
74. Forrest Gump – O Contador de Histórias Robert Zemeckis 1994
75. Contatos Imediatos do Terceiro Grau Steven Spielberg 1977
76. O Império Contra-Ataca Irvin Kershne 1980
77. No Tempo das Diligências John Ford 1939
78. A Lista de Schindler Steven Spielberg 1993
79. A Árvore da Vida Terrence Malick 2011
80. Agora Seremos Felizes Vincente Minnelli 1944
81. Thelma & Louise Ridley Scott 1991
82. Os Caçadores da Arca Perdida Steven Spielberg 1981
83. Levada da Breca Howard Hawks 1938
84. Amargo Pesadelo John Boorman 1972
85. A Noite dos Mortos-Vivos George A Romero 1968
86. O Rei Leão Roger Allers e Rob Minkoff 1994
87. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças Michel Gondry 2004
88. Amor, Sublime Amor Robert Wise e Jerome Robbins 1961
89. No Silêncio da Noite Nicholas Ray 1950
90. Apocalypse Now Francis Ford Coppola 1979
91. ET: O Extraterrestre Steven Spielberg 1982
92. O Mensageiro do Diabo Charles Laughton 1955
93. Caminhos Perigosos Martin Scorsese 1973
94. A Última Noite Spike Lee 2002
95. Diabo a Quatro Leo McCarey 1933
96. Batman – O Cavaleiro das Trevas Christopher Nolan 2008
97. E o Vento Levou Victor Fleming 1939
98. O Portal do Paraíso Michael Cimino 1980
99. 12 Anos de Escravidão Steve McQueen 2013
100. A Montanha dos Sete Abutres Billy Wilder 1951

 

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

 

Cineastas de um filme só

11 jun

Em literatura, arte essencialmente individual, ninguém estranha que escritores como Emily Brontë ou Augusto dos Anjos tenham escrito um único livro.

Em cinema é diferente. Atividade de equipe que implica um alto nível de conhecimento técnico e envolvimento empresarial, é muito raro que um profissional da área experimente a direção uma só vez.

Mas, que acontece, acontece.

Na maior parte dos casos, que citaremos aqui, são atores ou atrizes com carreiras formadas, que, um belo dia, decidiram que podiam muito bem dirigir, por que não? O mistério, porém, não é que tenham decidido dirigir e o tenham feito: o mistério maior é que nunca tenham repetido o experimento. Sobretudo quando o filme que fizeram é reconhecidamente muito bom.

Acho que dois casos assim, pela qualidade das realizações, merecem destaque.

O tenebroso Robert Mitchum em The night of the hunter

O tenebroso Robert Mitchum em The night of the hunter

O primeiro é “O mensageiro do diabo” (“The night of the hunter”), excelente noir impressionista que o grande ator Charles Laughton dirigiu em 1955. Misturando atmosfera de conto de fada com temática sombria de thriller, o filme contava a estória de um ex-presidiário que perseguia duas crianças na zona rural americana, e isto ao meio de uma paisagem que é toda remissão fotográfica a pinturas do século dezenove. Em todos os aspectos, o filme demonstrava que o novato possuía um extraordinário talento para a mise-en-scène e, no entanto, a realização fílmica de Laughton parou aí. Por que parou até hoje ninguém sabe ao certo.

O outro caso nessa categoria, digo, de alta qualidade, é o filme “Para que os outros possam viver” (“Time limit”), excelente drama de guerra dirigido pelo ator Karl Malden em 1957.  Na estória, um ex-prisioneiro na guerra da Coreia do Norte é acusado de traição e admite a culpa, sua posição de culpado assumido tornando-se um mistério nas investigações posteriores, que, pela lógica, o conduziriam à Corte Marcial… Até que, à revelia do próprio réu, o surpreendente desvendamento do mistério inverte a situação. Dois anos depois, Malden ainda foi responsável por um pequeno trecho do faroeste “A árvore dos enforcados” (Delmer Daves, 1959), mas sequer recebeu créditos por isso.

Cena dramática em Para que os outros possam viver.

Cena dramática em Para que os outros possam viver.

Vejamos outros casos de atores famosos que uma única vez experimentaram a direção. Infelizmente, não posso dizer que a qualidade estética seja a mesma dos dois casos citados acima.

Em 1951 Peter Lorre (sim, aquele mesmo de “O vampiro de Dusseldorf”) assumiu a direção de “Der Verlorene”, (´A perda´) produção alemã, nunca exibida comercialmente entre nós. Em 1957 James Cagney rodou “Atalho para o inferno” (“Short cut to Hell”). Em 1965 foi a vez de Frank Sinatra tentar a direção com o filme “Os bravos morrem lutando” (“None but the brave”).

Um que renegava a sua atividade por trás das câmeras é Anthony Quinn que, em 1958, dirigiu o filme de aventura “Corsário sem pátria” (“The buccaneer”) e gostou tão pouco do resultado que, em entrevistas, costumava fingir que o esquecera. Quando esteve no programa de Jo Soares foi preciso que o outro entrevistado da noite, o paraibano Ivan Cineminha, lhe lembrasse.

Mais dois atores que estiveram na direção uma única vez são: Barbara Loden, que cometeu o drama “Wanda” (1970) e Dom de Luise, que fez a comédia “Três super-tiras” (“Hot stuff”, 1979).

Anthony Quinn e um filme aparentemente esquecido...

Anthony Quinn e um filme aparentemente esquecido…

Há outros casos, que não cito, por estarem os atores ou atrizes ainda vivos e podendo, portanto, fazer novas tentativas a qualquer momento, vindo a quebrar a regra da nossa pauta que é: ´um filme só´.

Por exemplo: Robert De Niro foi ´diretor de um filme só´ (“Desafio no Bronx, 1993) por um tempo – treze anos exatamente – até rodar “O bom pastor” em 2006, e perder a posição. O mesmo se diga de Anthony Hopkins, que fez “Outono de paixões” em 1996, e mais tarde esse “Slipstream” (2007).

Mas, claro, nem só atores tentaram a direção cinematográfica. Na França, por exemplo, o escritor André Malraux rodou o seu “A esperança” (“L´espoir”) em 1945… e nunca mais rodou mais nada.

No Brasil, seria o caso de citar o clássico “Limite” (1931) de Mário Peixoto, que – não esqueçamos – também foi escritor. Só acrescentando que Peixoto tentou outras filmagens, e por razões várias, não teve sucesso e ainda hoje é conhecido como “cineasta de um filme só”.

Em tempo: a pesquisa sobre o tema eu a devo ao amigo cinéfilo Joaquim Inácio Brito.

Até A Voz dirigiu um filme, uma vez...

Até A Voz dirigiu um filme, uma vez…

Fest-Aruanda

13 dez

Começa hoje, dia 13, sexta-feira, o Fest-Aruanda, em sua oitava versão, e se estende até o dia 19, com uma rica e vasta programação, a acontecer, desta vez, nas salas de cinema do Mag Shopping, (João Pessoa, Paraíba) e – cuidado para não errar o endereço! – não mais no Hotel Tambaú.

Apesar do lapso do ano passado, quando não foi possível realizá-lo, o FestAruanda é um festival de cinema paraibano que vem crescendo a passos largos, inclusive, desta vez com dois dias a mais de atividade.

Não vou especificar a programação, que está devidamente divulgada na imprensa, escrita, falada e virtual, mas gostaria, sim de dar uns destaques.

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

O cantor Ney Matogrosso é um dos homenageados no Fest-Aruanda 2013

Parece-me que a versão deste ano tem um certo peso político especial, com o tema recorrente “50 anos de ditadura militar no Brasil pelo olhar do cinema brasileiro”, com mostra retroativa de filmes que trataram do assunto, como PRA FRENTE BRASIL (Roberto Farias, 81), JANGO (Silvio Tendler, 88), BARRA 68 (Vladimir Carvalho, 2000), BOILESEN (Chaim Litewski, 2009) e O DIA QUE DUROU 21 ANOS (Camilo Tavares, 2012). Este último, em apoio ao Festival, é assunto da minha coluna semanal no jornal CONTRAPONTO.

O mesmo tema, digo A ditadura militar brasileira, será assunto de uma mesa redonda, com presença de alguns dos autores dos filmes mostrados e de outros documentaristas, além de jornalistas paraibanos e brasileiros, com mediação de Maria do Rosário Caetano.

Como é de praxe, o FestAruanda costuma prestar homenagens a figuras proeminentes do mundo cinematográfico ou cultural do país. Este ano os homenageados especiais serão o cantor Ney Matogrosso, o ator Lázaro Ramos, o documentarista Sílvio Tendler e o crítico Jean-Claude Bernardet, homenagens mais que merecidas.

E fecho este meu comentário com um pouquinho de Paraíba. Na primeira noite do Fest-Aruanda, hoje, portanto, logo após a solenidade de abertura, e em homenagem à memória do cinema paraibano, será exibido um curta-metragem curioso (12 min) que se chama O MURAL QUE O VENTO LEVOU, de autoria da dupla Wills Leal e Mirabeau Dias, sobre um certo encontro de cineastas paraibanos no dia 28 de dezembro de 1995, dia em que o Cinema completou 100 anos. O encontro foi na famosa e desejada casa de Leal, em Manaíra, João Pessoa, em cuja parede externa pintores paraibanos pintaram cenas cinematográficas, tudo seguido de uma monumental farra. Eu, claro, estava lá.

No mais, leitores deste blog que gostam de cinema, é ficar atento à programação e comparecer, que o FestAruanda é gratuito.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest-Aruanda, agora em sua oitava versão.

Cenas de mesa e o código Da Vinci

22 maio

Não sei se vocês já notaram, mas, uma cena em cinema que mostra quatro ou um número maior de pessoas sentadas em torno de uma mesa, geralmente faz essas pessoas ocuparem três lados da mesa, e deixa um – para o espectador, o lado frontal – sem ninguém. São cadeiras vazias, ou pior, inexistentes.

Por quê? De ordem técnica, o motivo é óbvio: este terceiro lado vazio da mesa é o lugar da câmera, que não quer focalizar as costas de ninguém.

Confesso que essas cenas sempre me incomodaram, pois, na vida real, dificilmente as pessoas se distribuiriam desta maneira assimétrica e improvável em torno de uma mesa, e, no entanto, os filmes driblam essa verdade sem, aparentemente, quaisquer preocupações de não estarem sendo realistas. E vejam que o realismo é um dos códigos mais fortes da arte cinematográfica.

Os cineastas apelam para esse expediente por pura necessidade de enquadrar, e, com certeza, os seus fotógrafos agradecem a providência, a qual facilita incrivelmente a iluminação, o manuseio de câmera e tudo mais. É provável que poucos deles lembrem, ou mesmo saibam, que esta lição o cinema a aprendeu da pintura.

Sim, antiga, a lição vem da pintura renascentista. Lembrem da “Última ceia” de Leonardo da Vinci e constatem como, em uma mesa enorme, extremamente comprida, os apóstolos ocupam os três lados e, inexplicavelmente, deixam um, justamente o frontal, completamente vazio, livre para o olho do pintor que, evidentemente, não quis pintar costas. Os apóstolos gesticulam e falam ao natural, mas isso não adianta muito como realismo porque, da parte do pintor, a escolha das posições já fora artificial.

Outros pintores também retrataram a santa ceia, inclusive usando o mesmo expediente de Da Vinci, mas, tomo aqui a sua “Última ceia” como o protótipo da – digamos – ´situação de mesa´, que, pela sua radicalidade, virou o código inspirador de todos os enquadramentos cinematográficos para a mesma situação: ´o código Da Vinci´, com um pouco de ironia, chamemo-lo assim.

Esse “código Da Vinci” valeu para as artes plásticas do mundo inteiro, e nem o cinema – repito, uma arte eminentemente realista – escapou dele. Parece que algum filme antigo – provavelmente do período mudo – fez recurso a ele, e aí, os outros o seguiram, achando que os espectadores aceitariam essa circunstancial artificialidade como uma espécie de licença poética. De qualquer forma foi tão usado que virou convenção.

E vejam que, diferentemente da pintura, o cinema tem meios de superar esse código. É claro que se a mesa é pequena e os participantes do encontro são apenas duas pessoas, a coisa toda fica mais fácil de fazer. Uma alternativa é pôr os atores um defronte ao outro e filmar o diálogo em “campo-contra-campo”, ou seja, mostrando-se o rosto de cada um em tomadas intercaladas. A outra alternativa é abrir mais o quadro e filmar o conjunto, mesa mais os dois atores, estes de perfil. Ainda uma terceira alternativa, na verdade, a mais usada, é revezar os dois modos de enquadramento.

Duas outras possibilidades são: (1) colocar a câmera a certa eqüidistância dos dois personagens e fazer “chicote”, isto é, mover o eixo da câmera de um para outro em velocidade e de acordo com a emissão dos diálogos; (2) circundar a mesa com trilhos e deslocar a câmera lentamente, em sentido centrípeto.

A dificuldade aumenta na proporção direta do aumento do tamanho da mesa e do número de personagens, até porque, as sugestões de enquadramento acima sugeridas não são mais viáveis – ao menos todas, não. Neste caso, a primeira tomada pode ser de conjunto, mostrando a sala inteira, talvez de uma certa distância, em ângulo inclinado, ou não. Mas a partir, daí, e na medida em que os closes dos rostos se façam necessários para o acompanhamento do drama, os problemas se agigantam.

Cenas de mesa??? Pois é, questão pequena, mas importante para quem está interessado em saber como o cinema se expressa.

Obviamente, seria absurdo se um cineasta decidisse seguir ao pé da letra ´o código Da Vinci´ e eliminasse, numa grande mesa, todas as cadeiras do lado que pertence à perspectiva do espectador.

Enfim, sugiro que o leitor recorde, ou melhor ainda, reveja, cenas de mesas nos filmes que já conhece e, prestando atenção às cadeiras inexplicavelmente vazias ou inexistentes, constate o grau de ´falsidade´ dessas encenações. Nestes casos, interessante seria observar como os grandes cineastas do passado encontraram soluções, convincentes ou não, para uma situação tão difícil de filmar.

Não tenho espaço para relacionar tantas cenas de mesas, mas lembro aqui um caso clássico de superação do ´código Da Vinci´ que me parece exemplar. Está em “Doze homens e uma sentença” (“Twelve angry men”, Sidney Lumet, 1958: veja ilustração acima), filme todo rodado em torno de uma mesa – uma obra prima cujos ensinamentos, naturalmente, vão muito além da arte do enquadramento cinematográfico.

Em tempo:

(1) esta matéria é dedicada a Flávio Tavares.

(2) a ilustração abaixo é do filme “Do mundo nada se leva” (Capra, 1938)

Grandes estórias

9 maio

Enquanto não começava o próximo filme, estava eu outro dia assistindo a uma entrevista de Antônio Fagundes a Marília Gabriela na televisão paga. O papo seguia mais ou menos previsível, até que a entrevistadora fez uma pergunta qualquer sobre o cinema nacional.

Nesse momento, entre indeciso e decidido, Fagundes deu uma olhadinha desconfiada em direção à câmera e foi dizendo que “muita gente não vai gostar do que vou dizer, mas…”

A partir daí, a entrevista me pegou e desisti do próximo filme. Não gravei-a e, portanto, não devo estar usando exatamente os mesmos termos de Fagundes, porém, o teor foi o que segue.

Segundo Fagundes o que está faltando ao cinema nacional são “grandes estórias”, e melhor, ou pior, isso seria culpa da influência que ainda hoje sofremos do chamado Cinema Novo Brasileiro, com aquela coisa de uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, como se a estória a contar fosse de menor importância.

Como se sabe, o histórico movimento do Cinema Novo é coisa intocável para a maior parte da inteligentzia nacional e foi novidade ouvir um ator consagrado como Fagundes atacá-lo em público, e atacá-lo em um ponto nevrálgico.

Tal postura cinemanovista, segundo Fagundes, teria prejudicado a vocação essencial do cinema que é narrativa, a de contar estórias, e, no caso, grandes estórias, pois é de grandes estórias que o público gosta.

Por isso é que – sempre segundo Fagundes – apesar da intensidade da produção atual, estamos perdendo terreno para os argentinos que, estes sim, têm ultimamente contado, em suas telas, grandes e inspiradas estórias.

Fagundes não chegou a explicar o que entendia por “grandes estórias”, mas, de minha parte, tenho a impressão de que não precisava. Até porque grandes estórias são coisas que não se explicam: se escrevem e se filmam. Quem acompanha o cinema nacional dos últimos tempos acho que entendeu perfeitamente o que ele quis dizer com a expressão.

Não sei se vocês concordam, mas já faz algum tempo que os nossos filmes giram em torno de uma temática quase hegemônica, que é a da violência urbana, com todas as suas viciosas variações.

Alguns bons filmes foram rodados sobre o assunto, é verdade, porém, chega-se a um ponto de saturação em que a reiteração cansa e eventualmente aborrece.

Uma segunda temática recorrente, nos últimos tempos, talvez seja a dos conflitos conjugais, dramáticos ou cômicos

E relativamente pouca coisa aparece fora disso: tiroteios em favelas, envolvendo tráfico de drogas, de um lado, e brigas de casais, de outro.

Por sorte, de uns tempos para cá, os nossos cineastas começaram a pensar em música, e aí foi surgindo devagarzinho esta série de, ora documentários, ora ficções, sobre vultos de nossa MPB. Mas tudo indica que esta tendência é só uma pequena, e talvez passageira, variante.

Disse acima que não se explica o que sejam grandes estórias. É fato, mas, pode-se muito bem ilustrar.

Para citar dentro do próprio cinema brasileiro, me ocorrem três filmes do início do milênio: “Abril despedaçado” (2001), “Lavoura arcaica” (2001) e principalmente, “Desmundo” (2002), com ou sem coincidência, todos baseados em literatura, nacional ou não.

Ao ver estes filmes no começo da década passada, achei que tinha assistido a “grandes estórias” narradas em grandes filmes. E ainda acho. Fiquei empolgado e me animei a supor que outros filmes da chamada “Retomada” se encaminhariam para essa dimensão maior. Com a vantagem de estarem fora da hegemonia temática citada.

Hoje em dia se aplaude, e com razão, a qualidade técnica do recente cinema brasileiro, uma qualidade como nunca se viu na história da nossa cinematografia, e isso é muito bom. Mas tecnologia não é tudo…

Se Fagundes estiver certo, o que os nossos cineastas, produtores e demais envolvidos com o cinema nacional estão precisando fazer é uma boa “pausa para meditação” – uma sistemática, demorada e aguda cata às “grandes estórias”, onde quer que elas, latentes, estejam, pacientemente esperando para serem filmadas.

Onde ficaria esse limbo de criatividade, ou – para citar e adaptar um certo poeta muito inspirado – esse “cantochão dos dínamos profundos, que podendo mover milhões de filmes, jazem ainda na estática do nada”?

Seja onde for, um ponto de passagem seu são as cabeças dos nossos roteiristas de plantão.