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Tarantino, cinéfilo como nunca

28 ago

Muitas leituras suscita o último filme de Quentin Tarantino, e não tem importância se elas não coincidirem. O que vale é a inquietação provocada.

Para começo de conversa, “Era uma vez em… Hollywood” (2019) é um filme abarrotado de intertextos, tantos que o espectador quase se perde ao meio das referências ao mundo do cinema, especialmente o dos anos sessenta. São tantas que ninguém de bom senso ousaria listá-las por inteiro. Só pra esquentar, menciono algumas, mais ou menos óbvias.

Tarantino e um poster do filme

De passagem por um dos cinemas de L.A. vê-se em cartaz um dos sucessos da época, final dos anos sessenta, o “Romeu e Julieta” de Zeffirelli. Em dado momento ouve-se no rádio a canção “Mrs Robinson”, do filme “A primeira noite de um homem”, da mesma época. Saindo da festa, as garotas de Charles Manson passam aos pés de um outdoor gigante de “Assim caminha a humanidade”, certamente reprisado na ocasião. Em suas eternas lamentações, Rick Dalton, o protagonista, vê-se a si mesmo (e assim nos é mostrado) desempenhando o papel que foi de Steve McQueen em “Fugindo do inferno”, sem contar que o próprio McQueen já aparecera ao lado de Sharon Tate, em cena anterior. Isto pra não dizer que a expressão inicial no título do filme relembra dois filmes do cineasta Sergio Leone, de quem Tarantino é um fã assumido. E ainda há o que nem os especialistas adivinhariam – que o Rancho Spahn, ocupado pelos hippies assassinos, foi, nos anos quarenta, locação do faroeste “O proscrito” (1943), cult movie do cinéfilo Tarantino…

Bem, encher a tela de referências fílmicas não faz milagre estético, mas aqui o efeito é particularmente benéfico para casar o clima da época (final dos anos sessenta) com o clima do filme – um ponto chave na concepção e realização da obra. Não é que Tarantino não tenha sido cinéfilo nos seus filmes anteriores, mas agora sua cinefilia é – no bom sentido – abusiva e, como se não bastasse, engraçada.

Esse abuso, se é deleite para o espectador igualmente cinéfilo, pode vir a ser um problema para aquele espectador sem idade, ou formação cinematográfica, que não curtiu os anos sessenta com a intensidade devida. Especialmente o final da década, quando Hollywood clássica capengava e um novo cinema surgia das cinzas. E se esse espectador não conheceu os escândalos da época, pior então.

Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, ator e dublê…

Para fazer o que ele mesmo chama de “uma saudosa carta de amor a Hollywood”, Tarantino conta, com humor e ironia, a história meio patética da grande amizade entre um ator canastrão de seriados de tv, decadente, melancólico e chorão, e seu fiel escudeiro, um dublê coroa, igualmente lascado, que vive conversando com seu cachorro, quando não está quebrando a cara de quem lhe faz cara feia.

Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) não tem mais o prestígio que tivera nos seus papéis televisivos, e hoje, o que lhe resta de bom é apenas ser vizinho do cineasta Roman Polanski e sua jovem e bela esposa Sharon Tate, vizinhos, aliás, com quem mal tem contato.

Um novo produtor que aparece a Dalton com novas propostas, um tal de Marvin Schwarz (Al Pacino), só agrava a sua crise e lhe provoca mais lágrimas. Uma dessas propostas é fazer “spaghetti western” na Itália onde ele, sem muita convicção, termina casando com uma italiana, e voltando para Hollywood mais deprimido que nunca, inclusive, sem condição financeira de manter o seu sempre tão providencial dublê, Cliff Booth (Brad Pitt). Este, por sua vez, se envolve com uma turma de hippies que fizera residência numa ex-locação de cinema, o afastado Rancho Spahn, o que desencarrilha um ataque violento à casa de seu patrão, só vencido com a ajuda de seu cachorro feroz e um lança-chamas que Rick Dalton usara um dia em um de seus seriados televisivos.

Resumido assim, o enredo parece porcaria, mas, juro, não é. Sim, tem a breguice proposital de Tarantino, com todos os seus ingredientes (personagens caricatos, violência, diálogos impertinentes, muita música, etc…), mas também tem o seu charme sedutor de sempre, e nos mantém interessados e atentos, perguntando, a cada cena, onde isso vai dar… E, claro, o que mais esquenta essa expectativa é a mistura que se constata de fatos ficcionais e … fatos reais, verídicos, históricos.

Rick Dalton e sua esposa italiana

Aparentemente disperso, o enredo conta várias estórias ao mesmo tempo, pelo menos três. A terceira é a da vizinha, Sharon Tate, vista em várias ocasiões diferentes, aparentemente sem qualquer relação ao caso Rick/Cliff, salvo a coincidência casual da vizinhança. Por exemplo, enquanto Rick se lamenta de seu fracasso, e Cliff enfrenta a turma de hippies no rancho, Sharon entra num cinema da cidade para assistir ao filme “Uma arma secreta contra Matt Helm”, que acabara de estrear, e onde ela trabalhara ao lado do astro Dean Martin, nessa estória hilária sobre esse herói do título, uma espécie de James Bond invertido.

Tudo, no entanto, vai se juntar no final, ou, eu diria melhor, mais do que no final, no pós-tela, pois, claro está que, após o massacre ficcional na casa de Rick Dalton, está na iminência de acontecer um outro massacre, este na mansão vizinha –  e quem nos diz isto não é o filme: é a História – a História da década de sessenta nos Estados Unidos. Esse segundo massacre nos é sonegado e essa lacuna diegética é um grande lance de roteiro. Depois de termos estado, várias vezes, em contato com a angélica Sharon Tate, o crime de Charles Manson e sua turma fica assim mais eloquente, do que se tivesse sido encenado onscreen.

Ou seja, a maior curiosidade – e talvez motivo de confusão no entendimento do enredo de “Era uma vez em… Hollywood” – é que as estórias ficcionais se fecham (têm desenlaces, por precários que sejam), enquanto que a história, real, não. Como a gente conhece a predileção de Tarantino pela violência, e lembra muito bem o caso Sharon Tate, o filme inteiro funciona como uma grande, uma enorme pista falsa.

O fato de que, num último momento, Rick Dalton seja convidado à casa de seus vizinhos, é uma maldadezinha a mais de Tarantino, caprichosa como as outras.

“Once upon a time in… Hollywood” – uma sacada fílmica genial, pra se ver muitas vezes.

Atores e diretor em Cannes

CINE GLÓRIA, CRUZ DAS ARMAS

19 jul

Da minha nostalgia de cinéfilo faz parte sentir saudades dos cinemas antigos de João Pessoa; dos que frequentei, mas, estranhamente, também dos que nunca frequentei.

Sim, tenho que admitir, alguns cinemas da cidade me escaparam. O Astória e o Metrópole, em dois extremos, eram muito distantes do meu bairro, Jaguaribe. E o Filipeia, ali por trás do Palácio do Governo, este me perdeu por conta de sua proximidade aos principais cinemas do Centro: saindo de Jaguaribe, de ônibus, de bonde ou a pé, por que eu iria a ele, se os dois “lançadores” da cidade, Plaza e Rex, estavam logo ali?

Um outro cinema da cidade que nunca adentrei foi o Cine Glória, que ficava – vocês lembram? – na rua principal do bairro de Cruz das Armas. Nunca o adentrei, e, no entanto, lembro bem sua fachada. O problema é que, saindo de Jaguaribe, antes de chegar a ele, eu passava na calçada do charmoso Cine Bela Vista, na mesma rua, e já comprava ingresso.

Pois, estranhamente, no momento em que escrevo, me bateu uma saudade poeticamente inexplicável e inexplicavelmente poética desse cinema em cuja sala de exibição nunca pisei. É que, porventura, um certo anjo benfazejo trouxe às minhas mãos a fotografia rara de um cartaz dos velhos tempos, anos quarenta ou cinquenta, anunciando uma de suas sessões, na verdade, duas.

Nesse cartaz do Cine Glória o filme do dia é “Dillinger”, anunciado, para as 19:30 horas, como “a história do inimigo público número um, escrita com balas, sangue e loiras”. E o cartaz ainda garante que essa história “está fielmente descrita na tela deste cinema”. Em seguida, vem o elenco, resumido no nome do ator que faz o papel-título, Lawrence Tierney. E não se deixa de acrescentar a “natural” – como eram chamados os noticiários que costumavam anteceder a projeção – neste caso, uma que não conheci, intitulada de “A voz do mundo”.

O ator Lawrence Tierney no papel de Dillinger.

Logo abaixo vem o anúncio da “sessão das moças”, programada para a próxima terça-feira, que é o drama “Sublime abnegação”, e vejam só que pérola de registro dos costumes da época: “com três rótulos do afamado FUBÁ PÉROLA – assegura o cartaz – qualquer pessoa terá direito a uma entrada grátis”.

As sessões das moças eram comuns na época em outros cinemas da cidade: eram sessões em que as moças pagavam a metade do valor do ingresso, mas, não apenas elas iam ver o filme – por causa delas, a sala se enchia de rapazes, claro. O que não era comum – eu, pelo menos, não recordo – era esse curioso expediente descrito de os espectadores poderem levar rótulos de um produto qualquer (aqui o Fubá Pérola) e, com isso, terem direito a uma sessão gratuita.

De que ano seria esse precioso cartaz do Cine Glória? Não há, na foto, o registro de data, mas é possível supor. Os dois filmes anunciados são, respectivamente de 1945 e 1946. Como as películas estrangeiras demoravam a aportar em território brasileiro, e muito mais ainda, no Nordeste, é provável que o ano em questão esteja em torno de 1949 ou mesmo 1950.

Rosallind Russell interpreta a enfermeira Elizabeth Kenny em “Sublime abnegação”

“Dillinger”, o filme do dia, é um policial noir, dirigido por Max Nosseck que, além de Lawrence Tierney, ainda tem a bela Anne Jeffreys no elenco. Em 1950 eu tinha apenas quatro anos de idade, mas lembro-me que um irmão meu, dez anos mais velho, me falou, muito entusiasmado, dessa figura, vista na tela, do bandido Dillinger, ao mesmo tempo má e fascinante. Em que cinema meu irmão assistiu ao filme, não saberia dizer, porém, como o Glória, se não me engano, fazia parte da cadeia exibidora do Rex, o filme em questão pode ter sido exibido, ou reprisado, em qualquer dos três cinemas de Jaguaribe, onde morávamos, todos dessa mesma cadeia. Só vim vê-lo bem mais tarde, em formato virtual.

Quanto ao filme da sessão das moças, dirigido por Dudley Nichols, é a história verídica da enfermeira australiana Elizabeth Kenny (título original: “Sister Kenny”) que, sem reconhecimento da sociedade médica de então, lutou para salvar crianças vitimadas pela paralisia – papel desempenhado pela grande Rosalind Russell. Uma história de mulher heroica, bem apropriada para uma “sessão das moças”. (Em tempo: o filme também foi exibido por aqui com o título alternativo de “Sacrifício de uma vida”).

Esta crônica inapropriadamente saudosista eu dedico aos moradores do bairro de Cruz das Armas, especialmente aos mais antigos que, munidos ou não dos rótulos do Fuba Pérola, se emocionaram com as aventuras de Dillinger e as dores da enfermeira Kenny. De minha parte, me emocionei só de ver o cartaz do Cine Glória. E ao anjo providencial que me deu acesso a ele, agradeço pela impossível viagem no tempo…

O cartaz do Cine Glória, que inspirou esta crônica.

Escritores que cometeram crítica de cinema

25 jul

Poetas ou ficcionistas, há escritores cujas obras lembram cinema. A poesia de João Cabral, por exemplo, ele mesmo insistia em dizer, tem muito de cinematográfica. Em alguns casos, até escritores do passado, quando a sétima arte sequer existia, já pareciam fílmicos. Dickens é um caso óbvio, citado pelo cineasta pioneiro D. W. Griffith, mas acho que Sthendal, Tolstoi e Balzac também.

Mas não é disso quero tratar aqui.

Aqui quero tratar de profissionais que, tendo se notabilizado como escritores, conheceram, sim, o cinema e, bem antes do ofício literário, e/ou científico, cometeram a crítica cinematográfica – geralmente uma crítica praticada no ardor da juventude, e de que hoje pouco se tem notícia.

Gabriel Garcia Marquez, crítico de cinema, antes de ser escritor.

São em número bem maior do que pensamos, ou sabemos, mas aqui me concentro em quatro ou cinco casos, suficientemente ilustrativos.

Comecemos como o autor de “Cem anos de solidão”.

Sim, você sabia que o colombiano Gabriel Garcia Marquez fez crítica de cinema na juventude? Pois é. Eu vim a saber disso muito tardiamente, décadas depois de ter lido seus romances e novelas, e de ter visto suas adaptações para a tela. Como soube? Foi o meu saudoso amigo e colega de labuta crítica Antônio Barreto Neto quem me passou a informação. Informação nada, ele me deu de presente o livro em que está editada toda a crítica cinematográfica de Garcia Marquez, este ainda um jovem jornalista, comentando as ´películas´ – quase todas americanas – exibidas nos cinemas locais de Bogotá. Quem quiser provas, o livro que Barreto me deu está aqui, na minha estante, me fitando de longe.

A essa altura dos acontecimentos, imagino que já foi feita alguma tese de doutorado, catando, nesses escritos sobre cinema, elementos que possam ter alimentado a ficção de Garcia Marquez. Se não foi, que se faça!

O pernambucano Josué de Castro.

O segundo caso que cito é brasileiro, o do nosso cientista e pensador social Josué de Castro. Bem antes de ficar conhecido como o teórico da fome, Josué de Castro foi um apaixonado pela sétima arte, cuja autonomia estética defendeu com unhas e dentes. Seus escritos de crítica datam do início dos anos trinta, quando o cinema acabara de ganhar o acréscimo do som, aliás, um acréscimo que ele abominava. Assim, gastou tempo e energia redigindo ensaios em que defendia a pureza da imagem. No seu entender, para alcançar a condição de arte pura, o cinema precisava livrar-se da herança do teatro e da literatura, e, por isso mesmo, o advento do som lhe era malsão. Seu posicionamento coincidiu com o de Chaplin, mas, ele nem precisou de endosso alheio para alardeá-lo.

Que relação essa posição terá com sua obra posterior eu não sei, mas é, sim, instigante rever o autor de “A geografia da fome” como um esteta radical a defender a imagem pura. Cá comigo, fico pensando se alguém não já teve a ideia de juntar os dois Josués e rodar um documentário sem som nem fala… sobre a fome.

Um terceiro caso que me vem à memória é o do romancista inglês Graham Greene. Tudo bem, seus romances quase todos viraram filmes e ele mesmo seria, mais tarde, convidado por Hollywood para ser roteirista. Nada disso, porém, impede que o inclua neste rol que aqui apresento, por uma razão simples – bem antes de ser romancista, ainda na juventude, ele fez crítica de cinema, e de modo sistemático. A coisa literária viria depois, como veio depois o métier de roteirista.

O inglês Graham Greene.

Dele possuo um livro que coleta sua produção de crítico cinematográfico, um belo volume chamado “Mornings in the dark” (“Manhãs no escuro”), com artigos publicados em jornais londrinos a um tempo em que ninguém, no âmbito literário, sabia quem era esse tal de Graham Greene.

Um quarto caso a citar é o do nosso Vinicius de Moraes, famoso pela poesia publicada e pelas músicas compostas e cantadas, porém, “um desconhecido crítico de cinema”.

Só os mais idosos vão lembrar as tantas “crônicas de cinema” que o nosso mais tarde embaixador e poeta veiculou com assiduidade profissional, nos jornais cariocas, nos anos quarenta. Como Josué de Castro, Vinicius também foi um defensor da tela muda, mas, o melhor de seus escritos está na simplicidade com que falava de seu amor ao cinema e daquilo que seria o perfil do espectador autêntico.

Por sorte, seu trabalho de crítico cinematográfico foi resgatado das velhas páginas de jornal e está no delicioso “O cinema dos meus olhos”, livro organizado e editado pelo jornalista Carlos Augusto Calil. É conferir.

Vinicius de Moraes, o crítico de cinema.

Risos, canções e tiroteios

28 jan

Não fui amigo pessoal de Múcio Leal Wanderley (1918 – 2009), mas, com ele bati bons papos em casuais encontros, muitas vezes nas entradas ou saídas de alguma sessão de cinema. Lembro que a última vez foi depois de uma sessão noturna de “Moulin Rouge – amor em vermelho” (2001), ele me confessando, tristonho, que a sua audição já fraca não lhe ajudava na curtição de um musical.

Seu trabalho de cinéfilo estudioso da sétima arte, no entanto, eu conheço bem. Tenho todos os seus livros e cheguei a fazer o prefácio de um deles, “Telas e palcos” (1999).

Pois há pouco me procura sua filha, Adette, e, em confiança, me põe nas mãos algo que eu nem sabia que existia: os originais de um livro que o pai deixara inédito. Segundo Adette, esse conjunto de textos foi escrito ao longo de muitos anos, sempre devagar, o autor voltando a eles de tempos em tempos, retomando e parando de acordo com a saúde e a disposição do momento. O material todo está datilografado, com várias correções à mão, feitas pelo autor, às vezes cortes de parágrafos inteiros, outras vezes, acréscimos manuscritos entre as linhas.

Múcio Wanderley (1918-2009)

Na verdade, o livro deveria ter sido publicado agora, digo, em janeiro de 2018, quando, no dia 17, se completariam 100 anos do nascimento do autor. Dificuldades de localizar os originais e outros percalços, porém, impediram esse feito e, em vista disso, combinamos que ao menos uma notícia sobre esses originais já constituiria uma forma de celebração, e é neste sentido, de homenagem respeitosa e afetiva, que redijo estas linhas.

Trata-se de um bem fornido trabalho sobre três gêneros que foram tão importantes na história do cinema e no desenvolvimento de sua linguagem e de seu imaginário, a saber, a comédia, o musical e o faroeste. Com o sugestivo título de “Risos, canções e tiroteios” – e o subtítulo “De Chaplin a Astaire e J. Wayne” – o trabalho reconta, em partes separadas, o surgimento e a formação de cada um desses gêneros.

Em cada uma dessas três seções estão abundantes informações sobre as origens do gênero, os primeiros filmes que codificaram sua semiótica e as muitas figuras que o praticaram, dos produtores aos roteiristas, passando, claro, pelos atores e atrizes que consolidaram sua mitologia. Em alguns casos, os filmes mais importantes do gênero tratado recebem comentários especiais. O périplo recoberto vai da invenção do cinema, em 1895, ao final dos anos cinquenta. Não há uma bibliografia citada no final, mas percebe-se que Múcio Wanderley estava bem familiarizado com os historiadores de seu tempo, como os eminentes Jean Louis Rieupeyrout, Angel Zuñiga, George Sadoul e outros, alguns deles mencionados no corpo do texto. No final de cada uma dessas partes vai-se encontrar uma providencial filmografia essencial do gênero.

Cine Rex, da Companhia Exibidora de Filmes, em João Pessoa, PB.

No caso da primeira seção do livro, “Risos”, por exemplo, parte-se de uma referência a “O jardineiro regado” dos irmãos Lumière – a primeira “comédia” da história do cinema – para avançar para a Companhia Keystone na Hollywood primitiva, e então, para Mack Sennett, Mabel Normand, Zuzu Pitts, Marion Davis, Chaplin, Lubitsch, Buster Keaton, os irmãos Marx, o Gordo e o Magro… Ninguém que fazia rir fica de fora.

A segunda seção do livro, “Canções”, dedicada ao musical, começa tratando da passagem do cinema mudo ao falado, formulando a pergunta: “Afinal, o que é um filmusical?”. E, fora de ordem, a resposta, ou melhor, as respostas, vêm na prática: primeiramente os tenores, barítonos e sopranos, de Dennis King a Lawrence Tibbett, e mais adiante, a lista criativa dos iniciadores René Clair, Rouben Mamoulien, King Vidor e Ernst Lubitsch. Um trecho é dedicado ao papel do produtor Zanuck e um outro faz uma interessante incursão na relação do musical com o thriller. Um outro ainda relata o desempenho do musical no período da Segunda Guerra. E claro, seguem-se os nomes e as performances pessoais dos muitos que, por trás ou na frente da câmera, fizeram o melhor do gênero na Hollywood clássica: Busby Berkeley, Fred Astaire, Ginger Rogers, Jeanette McDonald, Nelson Eddy, Bing Crosby, Judy Garland, Mickey Rooney, Arthur Freed, Vincente Minnelli, Stanley Donen, Gene Kelly… até Doris day e Frank Sinatra.

A mais longa das três, esta seção sobre a comédia ainda inclui um longo apanhado sobre a Chanchada brasileira, desde seus primórdios nos anos trinta, até o final da década de cinquenta. Enfocam-se aí os anos de glória da Atlântida e ainda há um espaço para a companhia Vera Cruz. Como seria de se esperar, esta seção do livro se fecha com a pergunta: por que o musical morreu?

Coisas de Cinema – um dos livros publicados de Múcio Wanderley.

Finalmente, a terceira seção do livro, “Tiroteiro”, vai atrás do background do western, suas histórias verídicas e seus mitos, como Buffalo Bill, Buck Jones, Durango Kid e tantos outros. Um estudo actancial comenta os personagens, os cenários e suas características: o mocinho, o bandido, os índios e o meio ambiente. Embora curto, um trecho essencial é com certeza o que tem o subtítulo de “Ascensão e queda do filme de mocinho”. Reais ou ficcionais, alguns dos fatos e fatores que marcaram a conquista do Oeste americano vêm à tona, como: a caravana de Oregon, a grande jornada dos carroções, a figura ímpar do cavaleiro solitário, a curiosidade dos “cowboys de saia” como Anne Oakley e Calanmity Jane, etc… A seção termina com uma breve revisão do filme faroeste nos anos cinquenta.

“Risos, canções e tiroteios” é dedicado, não aos pesquisadores e especialistas, mas aos espectadores comuns: “a todos aqueles que um dia ocuparam a primeira fila” reza a sua afetuosa dedicatória. O que não nos impede de afirmar que, se publicado, teremos em mãos um livro de História do Cinema. Outros há e muitos, mas este foi escrito com paixão por alguém que, na condição de exibidor e cinéfilo, testemunhou essa história, e que soube reconstituí-la com precisão, carinho e elegância.

No prefácio que fiz para “Telas e palcos” comparo Múcio Wanderley ao proprietário do cinema “Splendor” do filme de Ettore Scola (1989), aquele exibidor bem mais interessado na tela do que na bilheteria. Aqui, com mais convicção que antes, repito a comparação.

E vamos aguardar o livro.

Livro de Múcio Wanderley que prefaciei – “Telas e Palcos” (1999).

Cadê Fellini?

19 dez

Um filme com um título desses, “Em busca de Fellini” (“In search of Fellini”, 2107), eu iria ver de todo jeito. Ainda que tivesse lido comentários desfavoráveis. Pois li e fui.

O argumento é igualmente convidativo: uma garota de uma pequena cidade interiorana de Ohio vai a Cleveland, e cai, por acaso, dentro de um Festival Fellini; apaixona-se subitamente pelo cineasta de “A estrada da vida” e, com o consentimento da mãe doente, se dana para a Itália no encalço dele.

Inspirado pela genial mistura felliniana entre realidade e fantasia, o filme do diretor novato Taron Lexton conta a história de Lucy (Ksenia Solo), apostando que pode fazer o mesmo: misturar realidade e fantasia. Ocorre que nem todo mundo é Fellini, e…

Lucy, a garota de Ohio, usa a camisa listrada de Gelsomina – personagem de “La Strada” – e quer ter a inocência da mesma, mas isso não ajuda muito. Literalmente, perde-se na Itália, e o filme junto com ela, também se perde. E vejam que, para o bem ou para o mal, é baseado “numa aventura real”… Pensando bem, talvez por isso mesmo se perca.

Que Fellini não será encontrado (vários sentidos para esta expressão!), a gente adivinha desde a chegada da moça a solo italiano. Onde posa o avião dela? Não em Roma, mas em Verona, a cidade de Romeu e Julieta. É, portanto, fácil prever o desenlace: a viagem vai lhe dar, não Fellini, mas, um amor. E é aí que o filme ganha a cara de “sessão da tarde”.

A sequência final, em que Lucy, já em Roma, tem, conosco, e por algum instante, a ilusão de estar na presença de Fellini, quando a figura masculina à sua frente é, na realidade, o namorado veronês, só não decepciona mais porque, como disse, já estava implícita desde sempre. Sintomática e convenientemente, a jornada de Lucy acontece em 1993, ano da morte de Fellini.

O filme é cheio de desperdícios, que os espectadores de maior boa vontade podem, se quiserem, chamar de ´pistas falsas´.

Um caso é o dos aparecimentos, em momentos e locais os mais variados, daquele rapaz forte com correntes amarradas no busto (para lembrar o Zampano de “La strada”)… aparecimentos que não vêm a dar em nada. Outro desperdício é a existência do segundo ´interessado´ em Lucy, aquele desconhecido que a conduz a uma orgia supostamente felliniana, e depois a maltrata…

Engraçado é que um problema que Lucy teve, também o teve o filme. Refiro-me ao fato de que não há um Fellini só: há muitos Fellinis, e aquele de “La strada” e “Noites de Cabiria” é bem diverso do de “A doce vida”, que por sua vez, é diverso do de “Satyricon” e “Roma”.

Mas, os atrapalhos semióticos do diretor Lexton, não ficam por aí.

Vejam bem: depois de meia hora de projeção, eu, pessoalmente, comecei a me indagar se um título mais apropriado ao filme não seria “Em busca de Capra”. Pois é, são tantas e tão enfáticas as cenas mostradas de “A felicidade não se compra” (1946) onde se veem a bela Donna Reed e James Stewart em conversas amorosas ou trocando beijos…

O que, aliás, me conduz a uma questão mais genérica, mas também pertinente ao filme de Lexton. Como casar o cinema clássico americano com o cinema de arte europeu? A dicotomia é um lugar teórico comum da crítica, mas que aqui, suponho, vem bem ao caso.

Lucy e a mãe doente, ainda em Ohio.

Em alguns momentos do filme, as personagens americanas tentam explicar aos outros o que é Fellini. Antes de viajar, Lucy faz isso para a tia, sem sucesso, e, mais tarde, essa mesma tia, tenta explicar à irmã, mãe de Lucy. O que ela diz é o seguinte: “Peitos, bundas, você sabe, arte”. Por sua vez, assistindo na televisão a “A doce vida”, a mãe de Lucy reclama: “Cadê o enredo?” E é consolada pela irmã: “Não há enredo”.

No momento em que redijo estas linhas me ocorre que a justificativa para a insistente presença intertextual de “A felicidade não se compra” seria para lembrar que o cinema clássico americano, ao contrário, tinha enredo e não tinha peitos e bundas… Será? Pode até ser, mas não melhora a impressão de confusão estilística e estrutural que “Em busca de Fellini” nos passa. Sem falar da impressão, mais grave, de inutilidade.

O cinema clássico americano, com suas regras e limites, e o cinema de arte europeu, com suas liberdades e ousadias, estão “casados”, e muito bem casados, nas obras concretas, consumadas e consumidas, de grandes diretores como Billy Wilder, Otto Preminger, Fritz Lang, William Wyler, e tantos outros.

Satisfaçamo-nos, portanto, com o que já foi feito.

Fellini, buscado, mas não encontrado…

A noite púrpura do paraíso

13 set

Tenho um amigo, Limeira, que é louco por cinema, vê um filme atrás do outro, se possível dez num dia, e, no entanto, estou em dúvida se posso chamá-lo de cinéfilo. Vou contar o caso, e vocês decidem.

Não o vejo sempre, mas, dia desses, nos encontramos e conversamos um bocado sobre cinema; ele, que fala mais que eu, foi logo me dizendo dos filmes que tem visto.

E qual foi o último que viu? perguntei.

E ele: Não lembro o nome, mas adorei aquela cena em que a Scarlett O´Hara está desnutrida e doente e Shane a arranca da cama e a põe na garupa do seu cavalo e vai pedir ajuda a Dr Jivago, que, irresponsavelmente, nada faz porque, na ocasião, está de transa com a bela Ilsa Lund, aquela que era casada com o Charles Foster Kane.

Se você não entendeu, não se preocupe: eu também não entendo quase nada que meu amigo Limeira fala.

Vivien Leigh como Scarlett O´Ohara.

Só tentando desembaralhar: Scarlett, como vocês lembram, é a protagonista de “E o vento levou”, filme de 1939, enquanto que Shane é o herói de “Os brutos também amam” (1953). Já “Dr Jivago” é um filme de 1965 sobre a revolução russa, onde não poderia estar Ilsa Lund, a heroína de “Casablanca” (1942), a qual nem conheceu o magnata da imprensa americana, chamado por Orson Welles, de “Cidadão Kane” (1941).

Tentando ordenar a memória fílmica de meu amigo Limeira, perguntei se ele sabia que “Um corpo que cai” estava sendo considerado o melhor filme do mundo pela crítica internacional. Ele disse que não sabia, mas que adorava esse filme. Não é aquele, de suspense, – perguntou – em que Elizabeth Taylor pula daquela torre alta, depois de saber que seu noivo, Montgomery Clift, tinha assassinado, afogada, a Shelley Winters?

Fi-lo ver que estava falando de outro filme, “Um lugar ao sol”, que nem torre nem pulo de torre tinha, e lembrei que a atriz de “Um corpo que cai” era Kim Novak. E ele emendou: ah, é mesmo. Então é aquele em que ela dança com William Holden, às margens do rio, numa noite de festa, mas, aí, o vilão do Robert Mitchum, que era vidrado em Kim, não gosta da dança e jura matar os dois, não sem antes tatuar nos dedos a palavra “hate” que significa ´ódio´…

Kim Novak

Tentei barrá-lo, mas ele, entusiasmado, continuou:

Ainda hoje eu vibro com aquela cena em que Mitchum estrangula Kim, naquele parque de diversão, a gente vendo o seu corpo desabar por cima da gente, até a grama, tudo mostrado pelos óculos dela, que tinham caído no chão.

E foi adiante:

Depois Mitchum foge, de trem, para uma cidadezinha do interior, para se juntar a um bando de malfeitores que o esperavam com o intento de matar o  Xerife, Gary Cooper. Com a ajuda da mulher, Rhonda Fleming, o xerife vence a querela e o episódio todo fica conhecido como ´O tiroteio no OK Curral´.

A essa altura, dei-me conta de que não adiantava consertar e que talvez fosse melhor mesmo deixar que meu amigo Limeira prosseguisse em suas viagens cinematográficas. Para ser franco, o nome dele é outro, e o chamo aqui de “Limeira” em associação ao nosso poeta do absurdo, Zé Limeira. Aliás, sua desorganização mnemônica, e talvez mental, pode ser surrealista, mas, confesso que, em certos momentos, admiro seus relatos, no mínimo, criativos.

Robert Mitchum

Gostei, por exemplo, quando ele me resumiu o roteiro de… Bem, vejamos.

Com o mesmo entusiasmo de antes, foi me contando este novo enredo: o filme agora se passa numa cidadezinha da Itália e o garotinho do lugar é ajudante do projecionista. O povo da cidade adora cinema, e a sala está sempre lotada. Pois uma certa noite, houve uma confusão danada porque – não se sabe como – o personagem do filme que estava sendo exibido, um galã hollywoodiano, simplesmente saiu da tela e foi namorar uma espectadora, uma mulherzinha pobre e desajeitada que trabalhava numa lanchonete, coitada, casada com um cara rabugento e mulherengo que só fazia explorá-la. Segundo meu amigo Limeira, o filme era dirigido por François Truffaut e, o tempo todo, a gente não assistia só ao filme; assistia também às filmagens sendo feitas na hora. Era muito interessante – disse ele – poder ver a câmera e os atores (ele lembrava bem a deslumbrante Jacqueline Bisset) em ação, e, afinal, no fundo, era uma aula de cinema em que ele próprio aprendeu, por exemplo, que certas cenas noturnas, em cinema, são filmadas durante o dia, com um filtro colocado na lente, para dar a impressão de estarmos à noite.

Quando lhe perguntei que filme era esse, ele disse que não lembrava bem o título, mas que era alguma coisa como… “A noite púrpura do paraíso”.

Jacqueline Bisset

Um filme de cinema

29 ago

Para o deleite dos cinéfilos está em cartaz, em todo o Brasil, o documentário de Walter Carvalho “Um filme de cinema” (2017).

“Por que fazer cinema?” “Para que serve?” Com perguntas como estas, Carvalho entrevista cineastas do mundo e, claro, nas respostas está um aula de cinema das melhores.

O projeto todo durou 14 anos e Carvalho lhe deu início ao tempo em que fazia fotografia de produções nacionais. Júlio Bressane, Ruy Guerra, Hector Babenco, José Padilha e Karim Aïnouz foram os primeiros cineastas entrevistados. Carvalho sentiu, porém, que o projeto pedia expansão e passou a entrevistar cineastas estrangeiros, entre os quais estão: o húngaro Bela Tarr, o chinês Jia Zhang ke, o inglês Ken Loach, o polonês Andrzej Wajda, o americano Gus Van Sant, o iraniano Asghar Fahradi, e a argentina Lucrecia Martel.

O cineasta húngaro Bela Tarr

Do nível técnico ao semiótico, passando pelo filosófico, praticamente todos os aspectos da arte cinematográfica são tocados e o filme se revela, mais que uma aula, um curso de cinema.

Conceitos de tempo e de espaço, criação de ritmo, emprego de som, função da montagem, noções de roteiro, papel do enquadramento, tipos de planos, ficção, narratividade, direção, estilo, expressão, sem falar em coisas mais transcendestes como a verdade ou mentira do cinema, ou a questão de “se é o cineasta que faz o filme ou se é o filme que faz o cineasta”.

Sente-se que Carvalho escolheu os cineastas – brasileiros ou estrangeiros – com quem tinha afinidade, e, no entanto, o resultado conjunto das respostas não é conceitualmente unívoco, monolítico, nem ele quis que fosse.

O inglês Ken Loach.

O que ressalta é a complexidade do fenômeno cinematográfico e as múltiplas formas pessoais como cada um pode dela dar conta e dela tirar proveito. “O inimigo do cinema é a verdade”, diz Lucrecia Martel: “A câmera é neutra”, afirma Ken Loach; “O cinema é eminentemente político”, assegura Ruy Guerra; “O cinema não precisa de convenções”, promete José Padrilha; “Expressar vale mais que narrar”, defende Karim Aïnouz. São, evidentemente, opiniões que, se bem pensadas, ou se complementam, ou dialogam entre si.

Mas, se “Um filme de cinema” é, como disse, um curso, ele tem mais, muito mais, do que um curso de cinema poderia oferecer: tem o encantamento que é próprio da arte cinematográfica, seja qual for a proposta estética do autor.

Assim, o filme abre e fecha com essa cápsula de encantamento onde reside o imaginário do espectador.

Jia Zhang Ke, da China, é um dos depoentes no filme.

Nas primeiras tomadas, antes de qualquer fala, vemos as ruínas de um cinema abandonado, no interior da Paraíba, o “Cine Continental”. Poeira, lixo, mato e insetos tomam conta do que fora, no passado remoto, um espaço de sonhos e mistérios. Pois Carvalho comete – no desenlace do seu filme – o milagre de restaurar o prédio, e ali mesmo, para uma população de idosos – que poderiam ter sidos os espectadores do passado – projetar um filme sobre as origens do cinema. Curiosamente, não os filmes dos irmãos Lumière, mas, um pouco antes disso, o “Horse in motion” do pioneiro Eadweard Muybridge, onde se vê o galope acelerado de um cavalo – pela primeira vez, na história da humanidade, uma fotografia em movimento.

Antes de chegar a essa restauração mágica, Carvalho já a preparara com uma outra.

Em certo momento, deixa de entrevistar cineastas e vai atrás do ator que fizera o papel do pequeno Totó, o ajudante do projecionista Alfredo em “Cinema Paradiso” (Tornatore, 1989). E aí, o hoje adulto Salvatore Cascio vai nos contar segredos das filmagens, além de nos mostrar aspectos do cenário desse filme que melhor resumiu o amor do espectador pelo cinema.

Abrindo esta matéria referi-me aos cinéfilos; pois me corrijo: acho que “Um filme de cinema” não foi rodado só para eles. O espectador comum está lá, muito bem cogitado, nesse filme feito, antes de tudo, com a alma.

Em ação, o cineasta Walter Carvalho.