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CINE GLÓRIA, CRUZ DAS ARMAS

19 jul

Da minha nostalgia de cinéfilo faz parte sentir saudades dos cinemas antigos de João Pessoa; dos que frequentei, mas, estranhamente, também dos que nunca frequentei.

Sim, tenho que admitir, alguns cinemas da cidade me escaparam. O Astória e o Metrópole, em dois extremos, eram muito distantes do meu bairro, Jaguaribe. E o Filipeia, ali por trás do Palácio do Governo, este me perdeu por conta de sua proximidade aos principais cinemas do Centro: saindo de Jaguaribe, de ônibus, de bonde ou a pé, por que eu iria a ele, se os dois “lançadores” da cidade, Plaza e Rex, estavam logo ali?

Um outro cinema da cidade que nunca adentrei foi o Cine Glória, que ficava – vocês lembram? – na rua principal do bairro de Cruz das Armas. Nunca o adentrei, e, no entanto, lembro bem sua fachada. O problema é que, saindo de Jaguaribe, antes de chegar a ele, eu passava na calçada do charmoso Cine Bela Vista, na mesma rua, e já comprava ingresso.

Pois, estranhamente, no momento em que escrevo, me bateu uma saudade poeticamente inexplicável e inexplicavelmente poética desse cinema em cuja sala de exibição nunca pisei. É que, porventura, um certo anjo benfazejo trouxe às minhas mãos a fotografia rara de um cartaz dos velhos tempos, anos quarenta ou cinquenta, anunciando uma de suas sessões, na verdade, duas.

Nesse cartaz do Cine Glória o filme do dia é “Dillinger”, anunciado, para as 19:30 horas, como “a história do inimigo público número um, escrita com balas, sangue e loiras”. E o cartaz ainda garante que essa história “está fielmente descrita na tela deste cinema”. Em seguida, vem o elenco, resumido no nome do ator que faz o papel-título, Lawrence Tierney. E não se deixa de acrescentar a “natural” – como eram chamados os noticiários que costumavam anteceder a projeção – neste caso, uma que não conheci, intitulada de “A voz do mundo”.

O ator Lawrence Tierney no papel de Dillinger.

Logo abaixo vem o anúncio da “sessão das moças”, programada para a próxima terça-feira, que é o drama “Sublime abnegação”, e vejam só que pérola de registro dos costumes da época: “com três rótulos do afamado FUBÁ PÉROLA – assegura o cartaz – qualquer pessoa terá direito a uma entrada grátis”.

As sessões das moças eram comuns na época em outros cinemas da cidade: eram sessões em que as moças pagavam a metade do valor do ingresso, mas, não apenas elas iam ver o filme – por causa delas, a sala se enchia de rapazes, claro. O que não era comum – eu, pelo menos, não recordo – era esse curioso expediente descrito de os espectadores poderem levar rótulos de um produto qualquer (aqui o Fubá Pérola) e, com isso, terem direito a uma sessão gratuita.

De que ano seria esse precioso cartaz do Cine Glória? Não há, na foto, o registro de data, mas é possível supor. Os dois filmes anunciados são, respectivamente de 1945 e 1946. Como as películas estrangeiras demoravam a aportar em território brasileiro, e muito mais ainda, no Nordeste, é provável que o ano em questão esteja em torno de 1949 ou mesmo 1950.

Rosallind Russell interpreta a enfermeira Elizabeth Kenny em “Sublime abnegação”

“Dillinger”, o filme do dia, é um policial noir, dirigido por Max Nosseck que, além de Lawrence Tierney, ainda tem a bela Anne Jeffreys no elenco. Em 1950 eu tinha apenas quatro anos de idade, mas lembro-me que um irmão meu, dez anos mais velho, me falou, muito entusiasmado, dessa figura, vista na tela, do bandido Dillinger, ao mesmo tempo má e fascinante. Em que cinema meu irmão assistiu ao filme, não saberia dizer, porém, como o Glória, se não me engano, fazia parte da cadeia exibidora do Rex, o filme em questão pode ter sido exibido, ou reprisado, em qualquer dos três cinemas de Jaguaribe, onde morávamos, todos dessa mesma cadeia. Só vim vê-lo bem mais tarde, em formato virtual.

Quanto ao filme da sessão das moças, dirigido por Dudley Nichols, é a história verídica da enfermeira australiana Elizabeth Kenny (título original: “Sister Kenny”) que, sem reconhecimento da sociedade médica de então, lutou para salvar crianças vitimadas pela paralisia – papel desempenhado pela grande Rosalind Russell. Uma história de mulher heroica, bem apropriada para uma “sessão das moças”. (Em tempo: o filme também foi exibido por aqui com o título alternativo de “Sacrifício de uma vida”).

Esta crônica inapropriadamente saudosista eu dedico aos moradores do bairro de Cruz das Armas, especialmente aos mais antigos que, munidos ou não dos rótulos do Fuba Pérola, se emocionaram com as aventuras de Dillinger e as dores da enfermeira Kenny. De minha parte, me emocionei só de ver o cartaz do Cine Glória. E ao anjo providencial que me deu acesso a ele, agradeço pela impossível viagem no tempo…

O cartaz do Cine Glória, que inspirou esta crônica.

A noite púrpura do paraíso

13 set

Tenho um amigo, Limeira, que é louco por cinema, vê um filme atrás do outro, se possível dez num dia, e, no entanto, estou em dúvida se posso chamá-lo de cinéfilo. Vou contar o caso, e vocês decidem.

Não o vejo sempre, mas, dia desses, nos encontramos e conversamos um bocado sobre cinema; ele, que fala mais que eu, foi logo me dizendo dos filmes que tem visto.

E qual foi o último que viu? perguntei.

E ele: Não lembro o nome, mas adorei aquela cena em que a Scarlett O´Hara está desnutrida e doente e Shane a arranca da cama e a põe na garupa do seu cavalo e vai pedir ajuda a Dr Jivago, que, irresponsavelmente, nada faz porque, na ocasião, está de transa com a bela Ilsa Lund, aquela que era casada com o Charles Foster Kane.

Se você não entendeu, não se preocupe: eu também não entendo quase nada que meu amigo Limeira fala.

Vivien Leigh como Scarlett O´Ohara.

Só tentando desembaralhar: Scarlett, como vocês lembram, é a protagonista de “E o vento levou”, filme de 1939, enquanto que Shane é o herói de “Os brutos também amam” (1953). Já “Dr Jivago” é um filme de 1965 sobre a revolução russa, onde não poderia estar Ilsa Lund, a heroína de “Casablanca” (1942), a qual nem conheceu o magnata da imprensa americana, chamado por Orson Welles, de “Cidadão Kane” (1941).

Tentando ordenar a memória fílmica de meu amigo Limeira, perguntei se ele sabia que “Um corpo que cai” estava sendo considerado o melhor filme do mundo pela crítica internacional. Ele disse que não sabia, mas que adorava esse filme. Não é aquele, de suspense, – perguntou – em que Elizabeth Taylor pula daquela torre alta, depois de saber que seu noivo, Montgomery Clift, tinha assassinado, afogada, a Shelley Winters?

Fi-lo ver que estava falando de outro filme, “Um lugar ao sol”, que nem torre nem pulo de torre tinha, e lembrei que a atriz de “Um corpo que cai” era Kim Novak. E ele emendou: ah, é mesmo. Então é aquele em que ela dança com William Holden, às margens do rio, numa noite de festa, mas, aí, o vilão do Robert Mitchum, que era vidrado em Kim, não gosta da dança e jura matar os dois, não sem antes tatuar nos dedos a palavra “hate” que significa ´ódio´…

Kim Novak

Tentei barrá-lo, mas ele, entusiasmado, continuou:

Ainda hoje eu vibro com aquela cena em que Mitchum estrangula Kim, naquele parque de diversão, a gente vendo o seu corpo desabar por cima da gente, até a grama, tudo mostrado pelos óculos dela, que tinham caído no chão.

E foi adiante:

Depois Mitchum foge, de trem, para uma cidadezinha do interior, para se juntar a um bando de malfeitores que o esperavam com o intento de matar o  Xerife, Gary Cooper. Com a ajuda da mulher, Rhonda Fleming, o xerife vence a querela e o episódio todo fica conhecido como ´O tiroteio no OK Curral´.

A essa altura, dei-me conta de que não adiantava consertar e que talvez fosse melhor mesmo deixar que meu amigo Limeira prosseguisse em suas viagens cinematográficas. Para ser franco, o nome dele é outro, e o chamo aqui de “Limeira” em associação ao nosso poeta do absurdo, Zé Limeira. Aliás, sua desorganização mnemônica, e talvez mental, pode ser surrealista, mas, confesso que, em certos momentos, admiro seus relatos, no mínimo, criativos.

Robert Mitchum

Gostei, por exemplo, quando ele me resumiu o roteiro de… Bem, vejamos.

Com o mesmo entusiasmo de antes, foi me contando este novo enredo: o filme agora se passa numa cidadezinha da Itália e o garotinho do lugar é ajudante do projecionista. O povo da cidade adora cinema, e a sala está sempre lotada. Pois uma certa noite, houve uma confusão danada porque – não se sabe como – o personagem do filme que estava sendo exibido, um galã hollywoodiano, simplesmente saiu da tela e foi namorar uma espectadora, uma mulherzinha pobre e desajeitada que trabalhava numa lanchonete, coitada, casada com um cara rabugento e mulherengo que só fazia explorá-la. Segundo meu amigo Limeira, o filme era dirigido por François Truffaut e, o tempo todo, a gente não assistia só ao filme; assistia também às filmagens sendo feitas na hora. Era muito interessante – disse ele – poder ver a câmera e os atores (ele lembrava bem a deslumbrante Jacqueline Bisset) em ação, e, afinal, no fundo, era uma aula de cinema em que ele próprio aprendeu, por exemplo, que certas cenas noturnas, em cinema, são filmadas durante o dia, com um filtro colocado na lente, para dar a impressão de estarmos à noite.

Quando lhe perguntei que filme era esse, ele disse que não lembrava bem o título, mas que era alguma coisa como… “A noite púrpura do paraíso”.

Jacqueline Bisset

Montgomery Clift

15 ago

Catando filme velho por aí – não digo onde – encontro, esta semana, esse “Talvez seja melhor assim” (Raoul Levy, 1966), um filmezinho sem importância de um diretor idem.

E por que me dei ao trabalho de vê-lo? Só porque foi o último filme do ator americano Montgomery Clift (1920-1966), e não resisti a curiosidade de espiá-lo em seu derradeiro papel. Clift morreria nesse mesmo ano, em 23 de julho.

A estória se passa nos dois lados do muro de Berlim, com a guerra fria no auge, e o filme é bem típico da época, com todos aqueles ingredientes de espionagem, perseguições, micro-filme roubado, deserção, CIA, etc… Mas claro, sem a qualidade de “O espião que saiu do frio”, ou coisas assim…

Porém, não foi ao filme que assisti: assisti a Montgomery Clift, um dos meus atores preferidos, no tempo da Hollywood clássica, um ator cuja carreira acompanho desde sempre. Em “The defector” (título original do filme) ele está irrisório, burocrático, decadente, mas que importa? Por contraste, o filme serviu para eu remomorar sua brilhante carreira, antes e depois do acidente de automóvel, em 1956, que quase deformou o seu belo rosto.

E, na minha mente de cinéfilo viciado, fui relembrando os seus filmes, ao menos os que mais amei.

Lembrei o filho adotivo rebelde que ele foi em “Rio Vermelho”, contracenando com o pai durão John Wayne, nesse faroeste inesquecível de Howard Hawks, de 1948.

Veio-me à mente o seu papel em “Tarde demais” (Willliam Wyler, 1949) como o rapaz ambicioso que, com seu charme discreto, planeja um ´golpe de baú´ em cima da feiosa Olivia de Havilland, e quebra a cara, primeiro pela astuta oposição do futuro sogro, e depois, por um motivo bem mais desolador…

Com Liz Taylor em “Um lugar ao sol”.

Como esquecê-lo, ao lado de Elizabeth Taylor, em “Um lugar ao sol” (George Stevens, 1951), como o jovem Eastman, parente pobre dessa família rica, com ajuda da qual pensa ascender socialmente. E assim seria, se não tivesse engravidado uma das empregadas da empresa… e, vocês lembram, a estória dá em tragédia grega.

E ele como o padre Logan que, no confessionário, ouve uma confissão criminosa, e vai viver tolhido entre o dever sagrado do silêncio e a obrigação civil da delação? No hitchcockiano “A tortura do silêncio” (“I confess”, 1953) está um dos seus grandes desempenhos.

Em “Quando a mulher erra” (1953) ele faz um amante romano de quem a americana, casada, Jennifer Jones, não consegue se despedir na “Statioze Termini” (título original). Na verdade, não gosto muito desse filme de Vittorio De Sica, mas o elenco o salva.

Um dos seus desempenhos mais lembrados pelo grande público é, com certeza, o do melancólico soldado meio auto-destrutivo de “A um passo da eternidade”, drama de Fred Zinnemann sobre o ataque japonês a Pearl Harbor.

Em “De repente no último verão” (1959) ele faz o médico cirurgião que é quase comprado pela patriarca (Catherine Hepburn), para que ele proceda a uma lobotomia na sobrinha (Elizabeth Taylor) que vive tendo lembranças desagradáveis da morte do primo, filho da patriarca…

Em Tennessee, a construção de uma barragem vai inundar a ilha onde reside essa senhora idosa, mas firme e determinada a não se mudar (Jo Van Fleet): e Clift faz o papel do administrador que deve convencer a senhora a abandonar o local, em “Rio violento”: grande drama de Elia Kazan, 1960.

Com Donna Reed, em “A um passo da eternidade”.

Junto com Clark Gable e Eli Wallach, ele é, em “Os desajustados” (John Huston, 1960), um dos cowboys modernos que, com Marilyn Monroe metida em um caminhão, vão caçar cavalos selvagens no ensolarado deserto de Nevada.

Quem pode esquecer o seu testemunho em “Julgamento em Nuremberg” (Stanley Kramer, 1961), como o débil mental, vítima do nazismo, justamente por causa da debilidade? Seu desempenho é um exercício de interpretação que impressiona sempre.

E encerro a lista com o seu papel como o famoso psiquiatra austríaco, em “Freud além da alma” (John Huston, 1962), tratando, pela primeira vez, histeria feminina com hipnose e, noutra ocasião, com um paciente do sexo masculino, acidentalmente descobrindo o complexo de Édipo.

Montgomery Clift não rodou muitos filmes, apenas 17. Antes do cinema, trabalhou em teatro e foi ator destacado do afamado Actors Studio. Algum tempo depois de sua morte, a imprensa internacional incluiu-o no rol dos muitos astros clássicos que haviam sido homossexuais, mas, essa é outra estória que aqui não interessa.

Interessam o seu talento e o legado que deixou na tela.