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QUEM PODE DEIXAR DE LER UM LIVRO DESSE?

15 mar

 

Não sei mais quantos livros de cinema li na vida, mas o livro de Sérgio Augusto eu o li como se estivesse conversando com ele. Passava as páginas de “Vai começar a sessão – ensaios sobre cinema” (Objetiva, 2019) e me sentia, isso mesmo, batendo papo com o autor, trocando figurinhas de um álbum imaginário e fascinante. E olhe que nem nos conhecemos.

Não nos conhecemos? O amor pelo cinema e pela crítica nos une como se fôssemos velhos amigos – é esta pelo menos a sensação que alimento.

Li devagar, me detendo nos parágrafos, nas frases, e/ou nas palavras, vibrando com cada nova informação, confirmando as já conhecidas, e me deleitando com os temas escolhidos, os enfoques e as sacadas.

Que cinema está em “Vai começar a sessão”? O cinema dos cinéfilos. E inevitavelmente os cinéfilos da faixa etária do autor, ou, como eu, próximos dela. Embora os textos datem de 2001 ao presente, os filmes, eventos e personagens referidos são, em sua maioria, coisas, fatos e figuras do passado clássico, tempo da preferência do autor, que assim confessa várias vezes ao longo do livro.

No livro estão, de sobejo, sua erudição, seu conhecimento de causa, sua experiência, sua paixão, sua entrega, e, sobretudo, a leveza de seu estilo jornalístico, e, last but not least, sua esperta habilidade de concatenar o histórico com o pessoal, para usar uma categoria da teoria do cinema, o fílmico com o cinematográfico. Com efeito, uma das coisas boas do livro – e o livro está cheio de coisas boas – são os relatos pré e pós câmera, ou seja, os bastidores e os efeitos colaterais da sétima arte, com tudo que isso implica de gênio e de show business, de talento e de escândalo. Uma delícia.

O subtítulo diz “ensaios”, mas, a rigor este é um termo elástico – e ainda bem que é – onde cabem os conceitos de reportagem, crítica, e mesmo de crônica. Em muitos casos, os textos são depoimentos sobre eventos cinematográficos e, aí o autor nos mata de inveja com suas tantas viagens aos centros cinematográficos do mundo e seus encontros com gente famosa da área.

Para citar só alguns casos, morri de inveja de suas viagens pelos cenários hitchcockianos de “Ladrão de casaca”, e mais ainda, pela São Francisco de “Um corpo que cai”. Como também de suas conversas, no Rio dos anos sessenta/setenta com, por exemplo, François Truffaut, na estreia de “Jules et Jim”, e depois com Jeanne Moreau, na estreia de “Joana Francesa”.

O crítico Sérgio Augusto

Os assuntos dos 89 textos constantes do livro podem ser: a vida de um ator ou atriz, um filme, o métier de um diretor, a militância de um crítico, a participação de um escritor, uma fase do cinema, e/ou um gênero e/ou um dado técnico.

Na primeira categoria, alguns são: Greta Garbo, Marlene Dietrich, Bing Crosby, Bob Hope, James Dean, Jerry Lewis, Marilyn Monroe, Isabelle Hupert, etc. Na segunda: Matar ou morrer, Casablanca, Alamo, Curva do destino, O bouleverd do crime, Dr Mabuse, Terra em transe, etc. Na terceira: Jean Renoir, Ernst Lubitsch, Charles Chaplin, John M Stahl, Joseph Losey, Orson Welles, Dino Risi, Alfred Hitchcock, Fritz Lang, etc. Na quarta: Moniz Vianna, Pauline Kael, Susan Sontag, Paulo Emilio, etc. Na quinta: Faulkner, Lévi-Strauss, Nabokov, James Baldwin, etc. Na sexta: o cinema dos anos setenta, o western e seu cenário, a chegada do cinemascope, a qualidade fílmica de Nova York, etc.

Não resisto em fazer um destaque para três crônicas comoventes, escritas com especial inspiração: “O cinema de garfo e faca” sobre a cinefilia gastronômica; “A bela e o monstro”, sobre seu contato pessoal com Sharon Tate; e “Miséria de vida”, sobre o encanto de “A felicidade não se compra”.

Moniz Vianna

O trabalho de Sérgio Augusto, claro, eu já conhecia, pois o acompanho de longa data e sempre fui seu leitor atento. Costumava ler seus comentários críticos circunstancialmente no Estadão, Veja ou Isto é, mas a sua fase que mais me pegou foi a do Pasquim, onde sua escrita entrava no clima de descontração peculiar ao jornaleco carioca, ou assim era lida.

Se não for ousadia minha, diria que, pessoalmente, me identifico com sua forma de tratar o cinema e sua maneira de escrever. Fui no passado (como ele) leitor do insuperável Moniz Viana e do vasto Paulo Emílio, porém, é com Sérgio Augusto que mais me identifico e – enxerimentos à parte – é com ele que me acho parecido.

Inevitavelmente, eu e ele escrevemos sobre as mesmas coisas. Como não? O seu relato sobre a estada de Orson Welles no Brasil poderia ser confundida com a matéria que fiz quando da chegada de “Four men on a raft”. (Conferir, neste blog, o ensaio “A cara brasileira de Mr Welles”, constante do livro “Imagens Amadas”). Suas várias abordagens de “Casablanca” coincidem, em vários pontos e aspectos, com os meus textos, também disponíveis neste blog, “Casablanca setentão” e “Vertigem no cânone”, este último sobre a pernada que o filme de Hitchcock deu no “Cidadão Kane”, ao lhe tomar, em 2012, o seu primeiro lugar na lista internacional dos melhores filmes do mundo.

Mas, você não precisa fazer crítica de cinema para amar “Vai começar a sessão”. Basta amar o cinema.

Em tempo: a sedução do cinéfilo já começa pela capa do livro: em posição de confronto, as figuras de Judy Barton e Madeleine Elster, personagens feitas por Kim Novak em “Um corpo que cai”.

Enfim, quem pode deixar de ler um livro desse?

Obs: Nos créditos do livro, consta que a foto da capa seria de “Sunset Boulevard”. Problemas de edição.

Tarantino, cinéfilo como nunca

28 ago

Muitas leituras suscita o último filme de Quentin Tarantino, e não tem importância se elas não coincidirem. O que vale é a inquietação provocada.

Para começo de conversa, “Era uma vez em… Hollywood” (2019) é um filme abarrotado de intertextos, tantos que o espectador quase se perde ao meio das referências ao mundo do cinema, especialmente o dos anos sessenta. São tantas que ninguém de bom senso ousaria listá-las por inteiro. Só pra esquentar, menciono algumas, mais ou menos óbvias.

Tarantino e um poster do filme

De passagem por um dos cinemas de L.A. vê-se em cartaz um dos sucessos da época, final dos anos sessenta, o “Romeu e Julieta” de Zeffirelli. Em dado momento ouve-se no rádio a canção “Mrs Robinson”, do filme “A primeira noite de um homem”, da mesma época. Saindo da festa, as garotas de Charles Manson passam aos pés de um outdoor gigante de “Assim caminha a humanidade”, certamente reprisado na ocasião. Em suas eternas lamentações, Rick Dalton, o protagonista, vê-se a si mesmo (e assim nos é mostrado) desempenhando o papel que foi de Steve McQueen em “Fugindo do inferno”, sem contar que o próprio McQueen já aparecera ao lado de Sharon Tate, em cena anterior. Isto pra não dizer que a expressão inicial no título do filme relembra dois filmes do cineasta Sergio Leone, de quem Tarantino é um fã assumido. E ainda há o que nem os especialistas adivinhariam – que o Rancho Spahn, ocupado pelos hippies assassinos, foi, nos anos quarenta, locação do faroeste “O proscrito” (1943), cult movie do cinéfilo Tarantino…

Bem, encher a tela de referências fílmicas não faz milagre estético, mas aqui o efeito é particularmente benéfico para casar o clima da época (final dos anos sessenta) com o clima do filme – um ponto chave na concepção e realização da obra. Não é que Tarantino não tenha sido cinéfilo nos seus filmes anteriores, mas agora sua cinefilia é – no bom sentido – abusiva e, como se não bastasse, engraçada.

Esse abuso, se é deleite para o espectador igualmente cinéfilo, pode vir a ser um problema para aquele espectador sem idade, ou formação cinematográfica, que não curtiu os anos sessenta com a intensidade devida. Especialmente o final da década, quando Hollywood clássica capengava e um novo cinema surgia das cinzas. E se esse espectador não conheceu os escândalos da época, pior então.

Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, ator e dublê…

Para fazer o que ele mesmo chama de “uma saudosa carta de amor a Hollywood”, Tarantino conta, com humor e ironia, a história meio patética da grande amizade entre um ator canastrão de seriados de tv, decadente, melancólico e chorão, e seu fiel escudeiro, um dublê coroa, igualmente lascado, que vive conversando com seu cachorro, quando não está quebrando a cara de quem lhe faz cara feia.

Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) não tem mais o prestígio que tivera nos seus papéis televisivos, e hoje, o que lhe resta de bom é apenas ser vizinho do cineasta Roman Polanski e sua jovem e bela esposa Sharon Tate, vizinhos, aliás, com quem mal tem contato.

Um novo produtor que aparece a Dalton com novas propostas, um tal de Marvin Schwarz (Al Pacino), só agrava a sua crise e lhe provoca mais lágrimas. Uma dessas propostas é fazer “spaghetti western” na Itália onde ele, sem muita convicção, termina casando com uma italiana, e voltando para Hollywood mais deprimido que nunca, inclusive, sem condição financeira de manter o seu sempre tão providencial dublê, Cliff Booth (Brad Pitt). Este, por sua vez, se envolve com uma turma de hippies que fizera residência numa ex-locação de cinema, o afastado Rancho Spahn, o que desencarrilha um ataque violento à casa de seu patrão, só vencido com a ajuda de seu cachorro feroz e um lança-chamas que Rick Dalton usara um dia em um de seus seriados televisivos.

Resumido assim, o enredo parece porcaria, mas, juro, não é. Sim, tem a breguice proposital de Tarantino, com todos os seus ingredientes (personagens caricatos, violência, diálogos impertinentes, muita música, etc…), mas também tem o seu charme sedutor de sempre, e nos mantém interessados e atentos, perguntando, a cada cena, onde isso vai dar… E, claro, o que mais esquenta essa expectativa é a mistura que se constata de fatos ficcionais e … fatos reais, verídicos, históricos.

Rick Dalton e sua esposa italiana

Aparentemente disperso, o enredo conta várias estórias ao mesmo tempo, pelo menos três. A terceira é a da vizinha, Sharon Tate, vista em várias ocasiões diferentes, aparentemente sem qualquer relação ao caso Rick/Cliff, salvo a coincidência casual da vizinhança. Por exemplo, enquanto Rick se lamenta de seu fracasso, e Cliff enfrenta a turma de hippies no rancho, Sharon entra num cinema da cidade para assistir ao filme “Uma arma secreta contra Matt Helm”, que acabara de estrear, e onde ela trabalhara ao lado do astro Dean Martin, nessa estória hilária sobre esse herói do título, uma espécie de James Bond invertido.

Tudo, no entanto, vai se juntar no final, ou, eu diria melhor, mais do que no final, no pós-tela, pois, claro está que, após o massacre ficcional na casa de Rick Dalton, está na iminência de acontecer um outro massacre, este na mansão vizinha –  e quem nos diz isto não é o filme: é a História – a História da década de sessenta nos Estados Unidos. Esse segundo massacre nos é sonegado e essa lacuna diegética é um grande lance de roteiro. Depois de termos estado, várias vezes, em contato com a angélica Sharon Tate, o crime de Charles Manson e sua turma fica assim mais eloquente, do que se tivesse sido encenado onscreen.

Ou seja, a maior curiosidade – e talvez motivo de confusão no entendimento do enredo de “Era uma vez em… Hollywood” – é que as estórias ficcionais se fecham (têm desenlaces, por precários que sejam), enquanto que a história, real, não. Como a gente conhece a predileção de Tarantino pela violência, e lembra muito bem o caso Sharon Tate, o filme inteiro funciona como uma grande, uma enorme pista falsa.

O fato de que, num último momento, Rick Dalton seja convidado à casa de seus vizinhos, é uma maldadezinha a mais de Tarantino, caprichosa como as outras.

“Once upon a time in… Hollywood” – uma sacada fílmica genial, pra se ver muitas vezes.

Atores e diretor em Cannes

O Netflix e o conceito de clássico

5 set

Outro dia estávamos num restaurante, tomando um bom vinho e batendo papo sobre cinema, eu e um amigo, grande cinéfilo, que me perguntou se eu já tinha o Netflix. Ao ouvir que não, foi logo, munido de seu potente celular, me mostrando, entusiasmado, as maravilhas desse aplicativo de cinema.

“Tem filmes clássicos?” Perguntei, e ele: “Claro. Quer testar? Diga aí o nome de um clássico que você queira rever”. E eu: “Crepúsculo dos deuses”. Ele foi lá, cutucou daqui, cutucou dali, e nada… Não tinha. Ele: “Esse, por coincidência, não tem. Diga outro”. E aí eu apelei pro óbvio: “Casablanca”. Não tinha. Depois foi “E o vento levou”. Também não tinha. “Cantando na chuva”. Também não.

Com as negativas seguidas, o entusiasmo de meu amigo foi virando embaraço, e, sensatamente, mudamos de assunto, e passamos a comentar a boa qualidade do espaguete com molho de camarão servido, e principalmente o buquê especial do Chianti.

Ora, algumas semanas depois desse jantar que o amigo tão gentilmente me oferecera, o que me acontece? Ganho, dos meus filhos, o acesso ao Netflix, instalado no meu notebook – sintomaticamente – pelo meu neto de nove anos de idade.

Fiquei muito feliz com mais essa fonte de acesso ao cinema, que é realmente maravilhosa. Meu notebook é ligado ao meu aparelho de tv de 46 polegadas, e, assim posso ver os filmes do Netflix – que são de fato, em grande quantidade, e alguns, muito bons – na tela (mais ou menos) grande, com uma qualidade de imagem impressionante. Nesse dia, entendi o entusiasmo de meu amigo cinéfilo…

“Cantando na chuva”, um dos muitos clássicos fora do Netflix

Mas, voltemos aos clássicos. Na página principal do Netflix há um quadro com as categorias dos filmes disponíveis, e uma dessas categorias é CLÁSSICOS. Curioso, cliquei lá e – como já supunha que aconteceria – a decepção foi enorme.

Da totalidade dos filmes disponíveis nessa categoria, só consegui detectar cinco filmes que, a rigor, poderiam ser chamados corretamente de clássicos, que são: “Janela indiscreta” (1954), “Um corpo que cai” (1958), “Psicose” (1960), “Spartacus” (1960) e “Bonequinha de luxo” (1961)… Todo o restante são filmes lançados na segunda metade do Século XX, se estendendo até o ano 2000. Muitos são realmente filmes bons, alguns muito bons, mas, clássicos?

Ok, vamos considerar – e se for o caso, aceitar – que o pessoal do Netflix esteja, por conta própria, chamando de “clássico” tudo o que se produziu antes deste Novo Milênio em que estamos. A idade da maior parte dos seus jovens usuários deve justificar esse elastecimento do conceito de “clássico”.

Pois bem, mesmo assim, permanece o problema: se for “clássico” tudo o que o Século passado produziu, por que só está no Netflix a segunda metade? E a primeira? Não existe? A ironia é que, se for pelo critério de ´quanto mais antigo mais clássico´, essa primeira metade ausente é muito mais clássica que a segunda!

“Onde os fracos não têm vez”, como filme noir – parece piada.

A minha segunda decepção com o Netflix tem a ver com outra categoria, a de filme noir: fui checar os títulos e – desta feita não adianta acochambrar – não existe um só filme noir, dentre os filmes noir oferecidos pelo Netflix. Ocorre que o noir é um gênero historicamente datado, que vai de 1940 (com “Relíquia macabra”) ao final dos anos cinquenta (com “A marca da maldade”, 1958). São todos filmes preto e branco, com uma estrutura semiótica particular, com um estilo plástico e enredo bem particulares, com ingredientes diegéticos igualmente particulares. Aliás, diga-se de passagem, todos eles REALMENTE clássicos.

Mas, sosseguem: não estou aqui para meter o pau no Netflix. Como se trata de um Programa novo, pode ser que, com o tempo e aos poucos, venham a ser incluídos mais títulos antigos no seu repertório de clássicos. Aguardemos. Na verdade, estou curtindo um bocado tê-lo a meu inteiro dispor. É legal poder ver ou rever, com uma qualidade de imagem de fato excelente, grandes sucessos dos anos 70, 80 e 90, bem como os filmes da atualidade.

Contanto que não tenhamos que chamar “Uma linda mulher” de clássico, e “Onde os fracos não têm vez” de noir!

Rick e Ilsa (Casablanca, 42), provavelmente, se perguntando: por que não estamos no Netflix?