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HORAS INTERMINÁVEIS

29 nov

Nos circuitos comerciais de cinema, há muito não se pratica mais aquele antigo e saudável procedimento da reprise cinematográfica. Assim, hoje fazemos nós a reprise que queremos. Ainda bem que a eletrônica nos permite.

Esta semana “reprisei” para mim o “Horas intermináveis” (“Fourteen hours”, 1951) de Henry Hathaway. Ah, que filmezinho gostoso de ver. Nada de grandioso, nada de espetacular, mas, tudo tão arrumadinho e dando tão certo; tudo pequeno e simples, mas muito bem encaixado.

Na verdade, nem sou fã do Hathaway, mas admito que quando ele acerta, acerta mesmo.

O filme é um thriller sobre um jovem indeciso suicida que, sem querer, cria um tumulto urbano ao se por na sacada do décimo quinto andar de um edifício em Nova Iorque.

Pula ou não pula? Como está no título original, são catorze horas de suspense que envolve muita gente e um punhado de susto, medo, desespero, surpresa, pasmo, culpa, e boas intenções.

As razões para o gesto drástico ninguém sabe ao certo, e nem a presença dos familiares (mãe, pai, namorada…) ajuda a desvendar os mistérios dessa jovem alma atormentada. A crítica moderna aponta um resquício de homossexualidade na psicologia do protagonista, mas não sei até que ponto essa leitura se justifica.

De qualquer forma, se alguma ajuda vem de fato, para esse jovem desesperado, é de quem menos se esperaria – um simplório policial de trânsito que mal sabe se expressar, e contudo, quase produz o milagre da salvação.

A simplicidade do enredo é grandemente enriquecida pelas interpretações.

Acho que os dois desempenhos mais notáveis são os de Richard Basehart, como o pretenso suicida, e o de Paul Douglas, como o policial escolhido para o papel do confessor. A tensa e delicada relação entre esse jovem angustiado e esse policial sentimental e despreparado para a missão é convincente e prende o espectador até o último momento.

Em seguida se destacam as boas performances de: Agnes Moorehead, como genitora histérica que, com seu bla bla bla descontrolado, quase provoca a tão temida queda do rapaz; a de Robert Keith, como o pai evasivo e ineficaz; e a de Barbara Bel Geddes, a jovem namorada, surpresa e confusa com a atitude do suposto futuro esposo. Vamos destacar ainda Howard da Silva, no papel rude do chefe de polícia durão que, com sua cara feia, quer resolver tudo na base do golpe baixo.

Mas, o elenco não fica por aí. Na ocasião parece que a Fox estava com vontade de botar seus empregados pra trabalhar, especialmente o pessoal jovem, ainda em começo de carreira. E como a história envolvia muita gente…

A primeira a citar é Grace Kelly em sua estreia na tela, linda no papel de uma esposa em vias de divórcio, que só está na proximidade do acidente por acaso. Só que – parece – esse acaso tem seus efeitos.

Depois vêm Jeffrey Hunter e Debra Paget, como, respectivamente, o rapaz e a moça que, assistindo ao espetáculo do suicídio, se conhecem no meio da multidão, iniciam um flerte, são separados pelas providências policiais, se reencontram e fecham a tela com uma espécie de símbolo alvissareiro de esperança. Aliás, num filme praticamente sem trilha sonora, sintomaticamente, é este momento final o único em que se ouve música.

E, se você procurar com cuidado, ainda vai ter relances rápidos de Richard Beymer, John Cassavettes, e até do veterano Leif Erickson, se não me engano, todos sem crédito…

Segundo consta, o roteiro foi bolado em cima de um caso real, acontecido na mesma Nova Iorque da história, catorze anos antes, em 1938 – uma modificação básica tendo sido a do desenlace, negativo na realidade, positivo no filme.

De qualquer modo, um filme compensador. Esteticamente falando, digo.

Antes de fechar, e pra quem não lembra, só algumas notas sobre o elenco.

(1) Foi por causa desse papel em “Horas intermináveis” que Richard Basehart foi escolhido por Fellini pra fazer o equilibrista de “Na estrada da vida” (1954); (2) A atriz Agnes Moorehead já era famosa pelo papel da mãe de Charles Foster Kane, na obra prima de Orson Welles, “Cidadão Kane” (1941); (3) No ano seguinte, Grace Kelly, a conselho de Gary Cooper, que vira o filme de Hathaway, foi escolhida para o papel da jovem esposa do protagonista em “Matar ou morrer” (1952). (4) Sete anos adiante, a atriz Barbara Bel Geddes seria um pretenso flerte de James Stewart em “Um corpo que cai” (1958); (5) Dez anos adiante, Richard Beymer seria o ator principal do musical “Amor sublime amor” (1960); (6) Nos anos seguintes, John Cassavettes iria se firmar como ator (“Um homem tem três metros de altura”, 1957) e mais tarde como o cineasta do chamado Cinema Independente Americano (Conferir: “Assim falou o amor”, “Os maridos”, “Faces”, e tantos outros).

A COCEIRA DO SÉTIMO ANO

15 maio

Das outras vezes que vi “O pecado mora ao lado” (1955) não me lembro de ter rido tanto. Reapresentado agora na tv paga, o filme de Billy Wilder me pareceu particularmente hilário.

Com seu espírito maldoso de sempre, Wilder faz gozação de tudo o que pode: dos comerciais de televisão ao uso de música clássica nos filmes românticos, passando pela psicanálise e outras coisas sérias ou nem tanto, nada escapa.

Ótimo no papel, Tom Ewell é o marido de meia idade que fica em casa quando a mulher e o filho vão aproveitar as férias de verão em Maine. Esse “solteirão temporário” entra em crise quando lhe aparece essa vizinha, loura sensual, com todos os atrativos de Marilyn Monroe. Ela está morando no andar de cima, e, da varanda dela, cai no terraço dele, um pesado jarro que quase o mata. Ele reclama mas, quando vê quem é, se desmancha em amabilidades e uma amizade perigosa começa a se formar.

Um detalhe, o jarro poderia conter flores, mas não: a plantinha era tomate, e o espectador anglófono lembra logo que “tomato” (em inglês) era a gíria que se usava na época do filme para ´uma moça sexy´.

Pois, logo em seguida, a moça sexy aparece na porta dele, pedindo gelo para aliviar o calor do verão nova-iorquino, e, ao ver que Ewell possui ar condicionado, faz o que pode para não ir mais embora. O que deixa o nosso Ewell nervoso, em grave crise de moral, coitado, tolhido entre o sincero propósito de se manter fiel à esposa ausente e a tentação de uma aventura amorosa com a bela vizinha.

Pra piorar, ele é funcionário de uma Editora e nas mãos lhe cai um livro incômodo de título “The seven year itch” (“A coceira do sétimo ano”). Segundo o autor, todo casamento passaria por uma fase crítica no sétimo ano da relação, quando os cônjuges, cansados de uma vida convencional, estariam tentados a dar um pulinho fora dos trilhos. Claro, a tese não tem sustentação científica, mas, com a ajuda da astúcia de Wilder, serve como pretexto dramático ao filme. Sem coincidência, faz justamente sete anos que ele casou, a esposa está fora, e aquela loura “tomato” está debaixo do seu teto, estirada numa poltrona com as pernas pra cima, a saia meio levantada, se refrescando no seu aparelho de ar condicionado.

O perigo aumenta quando ela, cheia de manhas, lhe pede para dormir lá e ele… embora em pânico, naturalmente consente. Nada acontece, até porque – diz ela – é muito legal que ele seja casado e tenha filho, pois não vai haver o perigo de lhe pedir em casamento, como fazem todos os homens com quem se relaciona.

Nada acontece, mas as sugestões maliciosas do roteiro são muitas. Quando Ewell decide abrir um champanhe que a moça trouxera para celebrar a amizade, o dedo dele fica preso na boca da garrafa e os dois, gastam um tempo tentando tirá-lo dali. Vejam bem, ele com o dedo enfiado no buraco do champanhe dela – a insinuação sexual é óbvia para qualquer espectador inocente.

Até o que eu antes não gostava em “O pecado mora ao lado” passei a gostar. Refiro-me ao capcioso emprego que Wilder faz do “Segundo concerto para piano” de Rachmaninoff como se fosse a trilha musical irresistível para engrossar uma relação amorosa. (E a gente sabe que, nisso, ele está criticando filmes como o “Desencanto” de David Lean).

Uma cena mostra Ewell ao piano conquistando sua vizinha com Rachmaninoff, porém, a cena é apenas fruto da fértil imaginação do personagem e logo se dissolve. A capciosa maldade com o compositor russo é, felizmente, aliviada numa cena seguinte, não mais imaginária, quando Ewell põe a mesma música na radiola e ela não surte efeito algum na moça, que prefere alguma coisa pop. Ou seja, a tese de Wilder é contradita por ele mesmo…

A cena mais lembrada do filme de Wilder é a do vento do metrô levantando a saia de Monroe numa rua da cidade, esquentando a cabeça de Ewell a um ponto máximo, mas, esta é uma cena direta, quase sem malícia.

As “malícias” de Wilder são melhores quando indiretas. Estas, como já sugeri, são muitas e não dá pra citar todas. Fechando, lembro apenas três casos: (1) em um dos seus muitos delírios eróticos, Ewell está na praia com uma colega de trabalho que o beija na areia, os dois lambidos pelas ondas do mar, dizendo ela que o amará “from here to eternity” (paródia de cena no filme de Fred Zinnemman, de três anos atrás, “A um passo da eternidade”); (2) em resposta a uma pergunta que lhe é feita, o grosseiro porteiro do prédio declama a letra de “Summertime” para justificar aventuras amorosas no verão nova-iorquino, as dele e as de Ewell; e (3) ao saírem da matinée, Marily Monroe faz uma interpretação toda romantizada da horrenda criatura de “O monstro da lagoa negra”, a qual Ewell, em sua dócil feiura, fica por tabela, comparado.

Risadas, o tempo todo.

RICHARD JEWELL, O HOMEM ERRADO

14 jan

É óbvio que, bem antes de rodar “O caso Richard Jewell” (2019), Clint Eastwood conhecia “O homem errado” (“The wrong man”, 1956).

No filme de Hitchcock, um humilde e inocente saxofonista é confundido com um temível assaltante de bancos e sua humildade e inocência em nada ajudam a resolver o problema – ao contrário, só o incriminam cada vez mais.

Com certeza um estudo comparativo acurado vai encontrar mais semelhanças entre os dois filmes, ambos baseados em casos reais.

Mas, claro, você não precisa ter visto “O homem errado” para apreciar “O caso de Richard Jewell”.

Beirando os noventa, o cineasta e ator Clint Eastwood continua incansável. Nem dá pra acompanhar sua atividade toda. Em 2018 rodou dois filmes, “A mula” e “Trem 15,17h para Paris” … e deste último nem notícia tive. Nem sei se foi exibido por aqui.

Neste “O caso Richard Jewell” (2019) Eastwood está mais que em forma, contando a estória verídica desse humilde e inocente cidadão de bem que foi falsamente incriminado por um atentado à bomba, num evento musical em Atlanta.

De alguma maneira, trata-se de um filme denúncia, onde ficam claros os capciosos meandros das leis e das instituições, somados ao papel pernicioso de certa imprensa sensacionalista.

Neste particular, ressalta-se o expediente da mídia de, ao invés de se limitar a dizer a verdade, “produzir a notícia” que vai dar dinheiro à empresa. Com efeito, aquela jornalista que vende o corpo a um membro do FBI para ganhar um furo lembra um certo Chuck Tatum que está lá atrás, num certo filme de Billy Wilder que, certamente, vocês lembram: “A montanha dos sete abutres” (1951).  E isto com arrependimentos posteriores e tudo mais.

Um aspecto curioso no filme é a fuga das ambiguidades. Desde a primeira cena já se sabe – ou se intui – que Jewell é inocente. E a narração tem o maior cuidado de manter essa verdade. Tanto é assim que a história, em sua maior parte, é narrada do seu ponto de vista, lhe dando o maior tempo de tela. Isto, antes do atentado no evento musical, durante e depois. De tal modo que a brusca mudança por que passa Jewell junto à opinião pública, de herói a vilão, dói muito mais do que doeria num filme que primasse pelo ambíguo.

Eastwood assume a versão do seu protagonista e não abre mão disso em nenhum momento. Dedica-lhe um filme parcial e carinhoso que, sem perder por isso a qualidade, vale como dedicatória. E faz, assim, um filme essencialmente actancial.

Sim, um dos encantos de “O caso Richard Jewell” está na construção dos personagens. Primeiramente do protagonista titular (desempenho perfeito de Paul Walter Hauser), tão docilmente fiel à Lei e tão vítima dela. Impossível não se comover com o modo como, mesmo correndo o risco de parecer mais suspeito do que já é, esse ex-polilcial não deixa de manifestar sua admiração pelos seus investigadores, os homens do FBI. E não para de desabafar suas crenças e motivações, quando o conveniente, ordem do advogado, seria calar. Este cidadão de boa vontade seguramente vai ficar como umas das personagens mais cativantes do cinema do novo milênio.

Uma segunda figura que se impõe é a da mãe, Bobi, interpretada pela sempre magnífica Kathy Bates. Um terceiro caso a citar é o do advogado Sam Rockwell (Walter Bryant) que retira as evidências da inocência de seu cliente, não tanto dos fatos, mas, sentimentalmente, da sua personalidade.

Sim, ao meio do pesadelo kafkiano que o filme narra, perdura a beleza do amor materno e da amizade… Um filme simples, convencional, direto, mas tocante e belo. Em vários sentidos da palavra belo.

“O homem errado” de Hitchcock é um filme sombrio que termina em desolação e desesperança. “O caso de Richard Jewell”, por alarmante que seja o caso narrado, parece apontar um caminho…

Cllint dirigindo Paul Walter Hauser