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A “doce vida” gay em um filme afetivo

23 ago

Eu canto o corpo elétrico / Os braços dos que amo me envolvem e eu os envolvo / Eles não me largarão até que eu vá com eles, lhes responda, / E os liberte, e os preencha com a carga da alma.”

 

Com tradução minha, é assim que começa o longo poema “I sing the body electric”, do grande poeta americano Walt Whitman, poema que teria servido de inspiração para os realizadores do filme “Corpo elétrico” (2017), no momento em cartaz na cidade.

O filme do novato Marcelo Caetano mostra a vida diária e noturna de empregados de uma fábrica de confecções na São Paulo de hoje, com relativa concentração em um dos personagens, Elias (o paraibano Kelner Macêdo), um jovem de 23 anos que, morando só, se divide entre o trabalho e muitas aventuras homoeróticas.

Mas não esperem clichês: ao contrário da maior parte dos filmes que conhecemos sobre o mundo LGBT, “Corpo elétrico” não é um libelo, nem um panfleto. Não há protestos, nem denúncias, e tudo é muito leve, talvez leve demais.

Os conflitos são sutis e não há mesmo o desenvolvimento de um enredo, com esperados turning points, nem mesmo a progressiva e aprofundada construção de um protagonista. O que há mais é a descrição compassada de uma situação: a dessa comunidade de empregados de uma fábrica, seu cotidiano e seu lazer: só isso.

Apesar das muitas relações sexuais graficamente exibidas, “Corpo elétrico” é um filme em que, praticamente, nada acontece. Quando a gente se dá conta de que ele termina em aberto, com festa e, em seguida, no mar, não há como não lembrar certo filme de Fellini. Aqui, claro, um “La dolce vita” dos pobres. A diferença, obviamente, é que Fellini é crítico na descrição de sua sociedade, ao passo que Marcelo Caetano é afetivo, quase cúmplice.

E mais: grande parte da estrutura do filme se sustenta em lacunas. Por exemplo, sabe-se que o protagonista Elias é paraibano, mas só isso. Nenhuma informação sobre sua vida pregressa. Conversando com um colega novato, um imigrante de Guiné-Bissau, quando este lhe fala na importância da família, Elias escuta e, pensativo… cala. Seria este o momento de fazer referência à sua família, na Paraíba, mas o silêncio – para o colega e para nós – é a resposta.

Assim, evasivos, são também os seus casos amorosos. O caso com o vigilante do prédio vizinho começa com imagens (quando se conhecem), mas só temos o seu desenvolvimento em palavras, e mesmo assim ele fica sem paradeiro… O mesmo se diga do caso com o novato africano, tentado, sem sucesso… Para não falar do caso com o companheiro mais frequente – aquele com quem se abre o filme, os dois despidos na cama, depois de uma cópula – um relacionamento sem passado manifesto e sem futuro prometido…

Que essa ausência diegética de passado e futuro é chave no filme fica evidente no que seria o desenlace. Depois do ano novo na praia, Elias deveria voltar ao trabalho (como lhe lembra o companheiro), e no entanto, ele prefere o mar e seu mistério infinito – último fotograma que nossos olhos têm o direito de divisar.

Por estas e outras, o espectador é levado a cogitar se o filme faz a proposta de uma sociedade diversa, por exemplo, sem lugar para o conceito de família e de trabalho – uma espécie de utopia a alcançar. Mas, não queiramos ir tão longe: suave, descontraído, descompromissado, o filme não tem nada de assertivo.

Às lacunas diegéticas, de fato, pode se dizer que corresponde uma lacuna semântica, mas, cuidado, esta última é proposital, assumida, e o espectador fica livre para preenchê-la a seu gosto.

Só para voltar ao poema inspirador do filme: em Walt Whitman, materialidade (expressa na palavra “braços”) e espiritualidade (em “alma”) deveriam ser a mesma coisa. E são.

No filme de Marcelo Caetano essa simbiose é (só) uma promessa. Mas, suponho, uma promessa válida…

O ator paraibano Kelner Macêdo em cena do filme.

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Cinema Novo

13 mar

Já vai fazer um ano que, no último Festival de Cannes o prêmio “L´Oeil d´Or”, de melhor documentário, foi para um filme brasileiro: “Cinema Novo” (2016), de Eryk Rocha. Beleza. Ponto para nós, mas, e o filme? Onde foi possível vê-lo?

Se você não é porventura “barata” de festivais de cinema, teve que esperar que ele chegasse ao circuito comercial de sua cidade. Se é que chegou. Na maior parte dos casos, não. No meu caso, permaneceria como mais um “ilustre desconhecido”, não fosse a iniciativa do Canal Brasil de incluí-lo na sua programação.

O filme é um ensaio audio-visual, com imagens e sons do movimento de cinema que projetou o Brasil cultural e artístico para fora de seus limites geográficos e deixou uma proposta, estética e política, ainda hoje reverberante.

Como afirma o seu autor, não é um filme “sobre”, mas, “com” o Cinema Novo Brasileiro, e essa mudança de preposições é importante. Não há nele, por exemplo, depoimentos atuais de críticos ou historiadores – sequer de cineastas – que pudessem nos dar um, digamos, discurso revisionista desse movimento cinematográfico. Não. Todas as imagens (incluindo os depoimentos) são “de época”, ou seja, é o Cinema Novo Brasileiro falando dele mesmo.

E, para dizer a verdade, falando pouco (se entendermos falar como gesto verbal), pois o que predomina são as muitas imagens dos muitos filmes – somadas às imagens “periféricas” ao movimento cinemanovista, como as dos filmes de Humberto Mauro, Mário Peixoto, Alberto Cavalcanti, Linduarte Noronha e outros – tudo montado de uma maneira pessoal (sem créditos justapostos), conduzindo, menos à informação histórica que a um poema plástico.

Tanto é assim que o autor, em vários momentos, se dá ao luxo de brincar com isotopias visuais, como naquelas séries encadeadas de imagens de filmes diversos que mostram, ora pessoas correndo, ora dançando, ora discursando, isto independentemente das relações temáticas que possam ter existido entre filmes tão diferentes quanto, digamos, “Menino de engenho”, “Terra em transe”, ou “Macunaíma”.

Inspirado – segundo depoimento seu – no conceito de “cinema cachoeira” de Humberto Mauro, o autor buscou, de propósito, essa ressignificação que, propiciada pela edição criativa, transforma o enorme material disponível (cerca de 130 fontes) num novo filme, um filme atual. Como afirmou o autor em entrevista: “Cinema Novo quer falar de hoje, de agora”.

Já que quer falar de agora, fico pensando nos seus receptores. Inevitavelmente, há dois tipos de espectador para ele. Aquele mais coroa, que conheceu o cinema realizado no país nos anos sessenta e, portanto, viu os filmes mostrados dentro do filme; e o jovem de hoje, que só conhece o Cinema Novo Brasileiro de ouvir falar. Eu, que me ponho na primeira categoria, não duvido que o efeito poético pretendido valha para os dois, porém, com certeza, sua forma de acontecer, e mesmo sua intensidade, será diferente para cada caso. Ou estou enganado?

Ainda segundo Eryk Rocha (36 anos de idade, filho de Glauber), uma coisa que o filme retoma do Cinema Novo Brasileiro seria o seu “projeto de formação de público”.

O que nos remete aos anos sessenta, quando o Cinema Novo Brasileiro era novo, com a pergunta inevitável: até onde houve formação de público?

A propósito da questão, ocorreu-me consultar estatísticas que pudessem porventura ajudar na compreensão do fenômeno. Vejam bem, a produção brasileira de cinema, na década de sessenta – a década do CNB – foi exatamente de 442 filmes. Tive o cuidado de repassar, um a um, esses 442 títulos, para identificar quais deles caberiam na rubrica CNB.

Segundo minha observação, apenas 40 comportariam essa rubrica, o que significa dizer que todo o CNB constituiu cerca de 9% da produção realizada na sua década. Se considerarmos que nem todos, dentre esses 40 filmes, foram exibidos em circuitos comerciais, o que deduzimos? Que nos anos 60, o grande público, aquele chamado de espectador comum, conheceu mal, ou não conheceu o CNB. E que, portanto, se houve “formação de público” foi precária, muito precária. Sejamos realistas: o pessoal cinéfilo da época (onde me incluo) saiu de casa correndo para ver “Os fuzis”, “Vidas secas” e “Deus e o diabo na terra do sol”, mas, não consta (e mais estatísticas confirmariam isso) que o espectador comum tenha ido junto.

Sem coincidência, abri esta matéria falando da dificuldade que tive para ver “Cinema Novo”, o filme. E de como só cheguei a ele por interesse particular. Acho que não preciso explicar mais nada. Parece-me que, antes da questão de um projeto de formação de público, há um buraco mais embaixo: a distribuição de cinema brasileiro no Brasil. Formação pressupõe contato: simples assim.

Enfim, gostei do filme de Eryk Rocha, cheguei a emocionar-me em certos momentos, mas quem sou eu? Um cinéfilo solitário, que está muito longe de representar o espectador comum, aquele que realmente precisaria – para respeitar a concepção dos dois Rochas, o pai e o filho – ser “formado”.

O diretor Eryk Rocha, 36 anos, filho de Glauber Rocha.

Cicero Dias e Vladimir Carvalho

21 dez

Após exibição no Fest Aruanda, entrou em cartaz nos cinemas do Mag Shopping o belo documentário de Vladimir Carvalho “Cicero Dias – o compadre de Picasso” (2016).

Com depoimentos instrutivos de professionais do ramo, imagens de arquivo e outros recursos menos óbvios, o filme conta uma espécie de biografia poética do pintor pernambucano. Digo ´biografia poética´ porque o filme está longe de ser meramente informativo: ele próprio é também poético, até o ponto em que um documentário pode sê-lo.

Com efeito, parece ter ocorrido uma espécie de empatia entre assunto e direção, de tal forma que o resultado é – no bom sentido – uma obra híbrida, com traços estilísticos de ambos, Cicero Dias e Vladimir Carvalho – traços estes nem sempre claramente distintos.

Cicero Dias e Picasso, os compadres.

Cicero Dias e Picasso, os compadres.

Não há dúvida de que há, no filme, o desenho de uma linha temporal – do nascimento à morte do pintor – porém, esse desenho, como na pintura do biografado – é solto, livre, indistinto.

Para começo de conversa, o filme já se abre com o final, quando se mostra o túmulo de Dias, em Montparnasse, Paris, com a inscrição “j´ai vu le monde… Il commençait à Recife”, tradução para o francês do título de uma de suas obras mais famosas, o painel do Salão Revolucionário, de 1931.

De qualquer forma, é possível acompanhar a trajetória do pintor, do seu nascimento, no Engenho Jundiá, na pequena Escada, Pernambuco, até a definitiva consagração, no Brasil e no mundo, quando se torna – como diz o título do filme – o compadre de Picasso. E é óbvio que o termo ´compadre´ aqui não se restringe ao seu sentido literal: designa também a comunhão de estilos entre esses dois mestres das artes plásticas.

Baile no campo, 1937, de Cicero Dias.

Baile no campo, 1937, de Cicero Dias.

Mas vamos por etapas, ou melhor, por fases, e por enquanto, fiquemos no Brasil dos anos vinte e trinta, com o jovem Dias encantando a intelligentsia brasileira com sua pintura onírica, feérica, exuberante, sensual, cheia dos motivos nordestinos e mulheres desnudas – uma pintura que, malgrado as supostas raízes regionalistas, conquista facilmente os nossos cosmopolitas modernistas.

Em 1937 Dias muda-se para Paris e tem início sua fase internacional, e o diálogo com Braque, Léger, Matisse, Miró e, inevitavelmente, Picasso. Mais tarde, esse convívio crítico lhe fará abrir mão um pouco do figurativo e passará a assumir elementos da arte abstrata tão em voga.

A rigor, não adere completamente à abstração, mas, com ela vai ensaiar um namoro, como comprovarão alguns de seus quadros mais polêmicos dos anos quarenta, cujo melhor exemplo deve ser aquele “galo ou abacaxi”, em que, não apenas na imagem, mas também na conjunção ´ou´ do nome do quadro, deixa no ar a indefinição proposta, entre o figurativismo de sempre e a abstração namorada.

Como não podia deixar de ser, o filme refere episódios marcantes na vida do pintor, sobretudo os relacionados a sua arte.

Galo ou abacaxi - entre o figurativo e o abstrato.

Galo ou abacaxi – entre o figurativo e o abstrato.

Um dos mais marcantes deu-se durante a Segunda Guerra, com Paris ocupada, e ele, preso em Baden-Baden, para depois ser trocado por prisioneiros alemães. Junto com o escritor Guimarães Rosa, devia ser deportado ao Brasil, mas, opta por ficar em Portugal, país que considera uma rica fonte para estudo de nossas origens.

Um dos casos mais comoventes de sua vida europeia está na amizade com o poeta surrealista Paul Éluard. Exilado em Portugal, toma a iniciativa de enviar o seu poema “Liberté” (com aquele refrão “j´écris ton nom”, lembram?) a uma editora inglesa, que dele imprime milhares de cópias, e, com a ajuda da força aérea britânica, as lança no ar por sobre toda a França ocupada.

Outro episódio digno de nota é, já nos anos quarenta, o da Exposição na Faculdade de Direito do Recife – a primeira manifestação pública de arte de tons abstratos no Brasil – que tanto escândalo causou junto aos setores mais conservadores da sociedade, e mesmo junto à elite pensante e à imprensa.

Pessoalmente Cicero Dias foi um irreverente, espirituoso, descontraído, brincalhão, um boêmio mal comportado e mulherengo… e o filme não esconde nada disso, ao contrário refere suas peripécias e aventuras no viés sub-reptício de que vida e obra se assemelham.

Em suma, “Cicero Dias – o compadre de Picasso” nos mostra o esperado: um Vladimir Carvalho no topo de sua maturidade cinematográfica; elegante, sóbrio, equilibrado, refinado, e, mas mais que isso, nos seus oitenta anos de idade, com um saboroso viço de juventude.

Não percam.

O cineasta  documentarista Vladimir Carvalho.

O cineasta documentarista Vladimir Carvalho.

“Aquarius”: a música ao redor

5 set

Afinal em cartaz o tão esperado “Aquarius” (2016), filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho que, se não ganhou a Palma de Ouro, de todo jeito fez bonito no Festival de Cannes.

Estamos mais uma vez em Boa Viagem, Recife, e o cenário é um determinado edifício. Digo mais uma vez porque tivemos isto no anterior “O som ao redor” (2012). Agora, porém, o prédio é antigo e está à venda. Ou estaria, se uma moradora não estivesse mantendo o firme propósito de não vender o seu apartamento, o único ainda habitado no prédio todo.

A rigor, o filme é a estória dessa brava mulher, viúva e sexagenária, e começa anos atrás, em 1980, quando ela, ainda jovem, fora acometida de um câncer de mama. Ao câncer ela resistiu e, parece, trinta anos depois, resistirá à venda do apartamento.

A moradoura e seu edifício Aquarius

A moradoura e seu edifício Aquarius

A pressão é grande e vem de toda parte, até dos filhos, mas Clara resiste e, parece, resistindo fica mais forte. Naturalmente, a poderosa firma compradora – que quer construir um espigão modernoso no lugar – tem meios de atacar… e ataca. Uma figura expressiva desse poder é o jovem executivo Diego, (´mestrado em business nos Estados Unidos´) em sua juventude e agressividade, o principal antagonista de Clara.

Clara vencerá ou não? Bem, quem mais torce por ela é o roteirista do filme, construindo-a como uma verdadeira heroína, na acepção ´heroica´ da palavra. Como se não bastasse, a câmera (leia-se: o diretor) está “apaixonada” por ela, e não a larga, lhe dando todo o tempo de tela. E, a gente sabe que neste caso, roteirista e diretor são a mesma pessoa.

Para completar, a atriz é Sônia Braga, e o filme parece ter sido concebido para ela, que, depois de tanto tempo ausente das telas, soube, de fato, responder ao papel – diga-se de passagem – um papel, apesar do heroísmo, nada simples.

O cenário de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

O cenário de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

Com efeito, um dos pontos altos do filme está na sinuosidade dos diálogos, uma boa saída para evitar maniqueísmo nas caracterizações dos personagens. Em várias ocasiões, as falas contêm vai e vens intrigantes mas oportunos. Exemplos: ao amante gigolô Clara diz, quase ao mesmo tempo, ´vá embora´ e ´me coma´. Ao salva-vidas sugere uma atração e nega. O empregado que vem avisar sobre a devastação do prédio refere-se à beleza de Clara e recua, deixando-nos sem saber se era mesmo assédio ou não. Etc…

Essa boa recusa de ser retilíneo estende-se à estrutura do filme como um todo e deságua no desenlace. Mesmo vencendo a causa contra os empresários construtores, quem garante que Clara poderá permanecer residindo num edifício destruído pelos cupins?

Nesse ponto, o fotograma final é emblemático: os cupins em plena atividade, justificando o nome desta terceira – e não da primeira! – parte do filme, ´o câncer de Clara´. A sugestão, naturalmente, é que o câncer esteve para Clara, assim como o cupim está para o edifício Aquarius. Sugestão que, bem apropriadamente, iguala a personagem à sua residência. Clara é Aquarius. Aquarius é Clara. Aliás, a sua atitude de não sair do prédio é a única, no filme todo, que tem direito a ser retilínea.

Os comentaristas de “Aquarius” têm feito comparações com “O som ao redor, e quase todas vêm ao caso. Uma pertinente está no território da trilha sonora. Vejam bem, ou melhor, escutem bem. Antes o “som” era poluição sonora; agora ele é música, muita música. E esta é uma diferença fundamental entre os dois filmes. Sem coincidência nenhuma, a profissão da agora aposentada Clara é qual? Crítica de música! Seu apartamento está repleto de discos em vinil, e ela vive dando conselhos musicais aos parentes, como faz com o sobrinho, de namorada nova: “Leve Bethânia pra ela”.

Sônia Braga é Clara.

Sônia Braga é Clara.

O belo “Hoje” de Taiguara abre e fecha o filme, que está cortado por músicas brasileiras e internacionais em praticamente todas as sequências. E, não deixemos de notar, até no diálogo a música insinua-se. Lembro ao leitor/espectador aquele momento extremamente tenso em que mãe e filha discutem, e o tema da venda do apartamento conduz perigosamente a questões de natureza particular. No clímax da discussão, diante de uma tirada ferina da filha, Clara detém-se e começa a solfejar uma cançãozinha que diz assim: “Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração…” E ela mesma acrescenta: “É Lupicínio Rodrigues”.

Ainda a propósito de música, uma curiosidade minha: em “O som ao redor” os personagens de Mendonça cantam, para a aniversariante, não o comum “Parabéns pra você”, mas as “Canções de cordialidade” de Villa-Lobos e Manuel Bandeira, e fazem isso, todos juntos, na ponta da língua, como se em Recife isto fosse habitual, quando se sabe que não é. Aqui ele repete a dose e não é uma vez só.

Enfim, “Aquarius” é apenas o segundo longa de Kleber Mendonça, e, claro, deixa-nos na ansiosa expectativa de mais.

Kleber Mendonça dirigindo...

Kleber Mendonça dirigindo…

Chico

20 dez

Com chave de ouro fechou o Fest-Aruanda 2015 “Chico: artista brasileiro”, filme de Miguel Faria Jr sobre o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda.

Para quem conhece o trabalho de Faria Jr e o de Chico, o filme é o esperado, mas, o esperado que agrada. E muito.

O esquema é simples. O cineasta fez com o compositor uma longa entrevista em sua residência. Selecionou trechos dessa entrevista e correu atrás das fontes – iconográficas ou de outra ordem – que tivessem a ver com a fala. Em certos casos pode ter sido o contrário: fez perguntas a partir de material iconográfico disponível – o que dá no mesmo. Outra providência foi encenar gravações de performances de cantores interpretando Chico, e intercalá-las à narração. Algumas delas atuais, feitas exclusivamente para o filme, outras antigas, buscadas em arquivos. Os depoimentos de amigos e parentes são poucos, provavelmente para não alongar a projeção, já repleta de preciosidades imperdíveis.

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O resultado é, naturalmente, um passeio delicioso pela carreira e pela vida do compositor e cantor mais querido e mais admirado da MPB.

A ordem dos fatos é mais ou menos cronológica, com ligeiros ´retornos´, pedidos pela eventual recorrência de certos assuntos. A abertura é dada à última composição de Chico, “Sinhá”, cantada por ele mesmo, mas, depois disso, vai-se à infância e segue-se a linha do tempo até o momento presente, com a abordagem do Chico escritor. Seu último romance, “O irmão alemão”, passa, então, a ter destaque, quando o autor relata a relação da estória verídica com o que no livro está ficcionalizado, e o cineasta acompanha o autor em sua visita à Alemanha, à cata dos rastros desse irmão bastardo, já falecido, que, aliás, também era cantor.

Um dos poucos depoentes no filme, Edu Lobo, chama a atenção para o bom humor de Chico, lembrando como, em conversa com amigos, ele está sempre rindo. E é justamente o que se vê na tela: um Chico hilário contando coisas engraçadas e, em vários momentos, rindo aos borbotões, da forma mais descontraída.

Chico, sempre rindo...

Chico, sempre rindo…

Essa simplicidade não impede, contudo, que em dadas ocasiões, o cantor faça o charme que adoram fazer as pessoas famosas, que é o de surpreender os seus ouvintes com colocações desconcertantes. Eis duas dele. (1) Dizer que o seu métier é a literatura, e não a música. E (2) dizer que a música de hoje em dia é melhor que a do passado, exemplificando com a bossa nova, que seria coisa de elite, ao passo que a música de hoje seria realmente popular, e, portanto, melhor. E naturalmente, o espectador do filme, neste momento, se indaga: que música?

Em compensação, há revelações preciosas sobre o seu trabalho de compositor, como naquele momento em que, fazendo visível esforço conceitual, explica como as letras das canções podem, de modo inconsciente, remontar a dados biográficos que não eram aparentes no instante da criação.

Outra revelação a guardar diz respeito ao lado político de seu trabalho de compositor: quando, quase lamentando, explica como músicas compostas para denunciar situações políticas ou injustiças sociais, terminam por sofrer perda de significação quando o tempo passa e as coisas mudam.

O diretor Miguel Faria Jr em ação.

O diretor Miguel Faria Jr em ação.

Entre as cenas de arquivo, inclui-se uma entrevista dada a um canal de televisão em que o locutor pergunta a Chico se, criador de tantas personagens femininas, ele não seria homossexual. E ele retruca o que se esperava: que, no ato de criar as letras ele era tudo, homossexual, mulher, e marginal em todos os sentidos da palavra. A cena é circunstancial, porém, evidencia algo essencial no compositor de “Folhetim”: evidencia que o conceito de heterônimos não é exclusivo de Fernando Pessoa.

Como se sabe, a vida e a carreira de Chico se confundem com a história do Brasil no século XX, e o espectador tem a chance de fazer esse retrospecto, sobretudo – meu caso – se a sua faixa etária não diferir muito da do compositor. Os festivais de música da Rede Tupi, os movimentos estudantis contra a Ditadura, o peso da censura, o Roda Viva, a passeata dos cem mil, o exílio, a luta pelas diretas já… Tudo isso vem à tona, junto com as canções e com os sentimentos nelas envolvidos.

Falar em canções, saí do cinema ouvindo e vendo, e agora mesmo ainda ouço e vejo, a portuguesa Carminho performatizando “Sabiá”. Só não tão nítido porque, no meu lembrar, se superpõe a Laila Garin interpretando “Uma canção desnaturada”. Ou a Maria Bethânia recriando “Olhos nos olhos”. Ou a Ney Matogrosso reinventando “As Vitrines”. Ou… Bem vou parar por aqui.

Sugeri acima que o filme de Faria Jr é inevitavelmente previsível. Como se também não o fosse esta matéria…

Ney Matogrosso reinventando "As vitrines"

Ney Matogrosso reinventando “As vitrines”

Cinema brasileiro: os 100 melhores

4 dez

Quais seriam os melhores filmes brasileiros de todos os tempos? A Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos (ABRACCINE) resolveu fazer a lista dos 100 mais, que foi recentemente divulgada na imprensa.

Para tanto, a respeitada Associação convocou os seus membros (cerca de 100), aos quais pediu uma primeira relação de 25 títulos, dispostos na ordem de preferência. Somadas todas as listas de todos os membros, a comissão organizadora, levantou os mais votados e chegou ao que seria, por enquanto, uma espécie de ´cânone brasileiro de cinema´.

A lista dos 100 eleitos recobre quase todas as décadas do século XX e mais a quinzena deste novo milênio. Digo quase porque, nos resultados da votação, ficaram de fora as duas primeiras décadas do século, quando o cinema brasileiro supostamente não teria chegado a produzir obras de peso. Outra década sem votos foi a de quarenta, auge das chanchadas brasileiras, cujo sucesso de público, como sabemos, estendeu-se à década seguinte, a de cinquenta, que, na lista da Abraccine, só conseguiu cinco votos, dos quais apenas um se enquadra no gênero chanchada: “O homem do Sputnik”.

Imagem de "Limite", o melhor de todos.

Imagem de “Limite”, o melhor de todos.

Duas outras décadas com poucos votos são também os anos trinta (2 filmes) e os noventa (6). Na década de trinta teríamos, aparentemente, uma cinematografia em formação, e quanto à de 90, está marcada pelo golpe de Collor, que deixou a produção brasileira inativa por um tempo considerável. Já a década com o maior número de realizações por ano, a de setenta, não teve um número tão elevado de votos, apenas 15. Ocorre que, em sua grande maioria, essas realizações eram – como lembramos – porno-chanchadas sem muita qualidade.

A década mais votada (com 28 filmes) foi a de sessenta, época do Cinema Novo Brasileiro, onde atuaram, sem coincidência, também os cineastas mais votados: Glauber Rocha (com 5 filmes) e Nelson Pereira dos Santos (com 4). Com esta década só concorre o novo milênio, com nada menos que 24 títulos, um dos quais o atualíssimo “Que horas ela volta”, filme de 2015.

Se os cineastas mais votados foram os cinemanovistas Glauber Rocha e Nelson Pereira, não o foram sempre por filmes dos anos sessenta, casos respectivos de “A idade da terra”, de 1981, e “Memórias do cárcere”, de 1984.  Assim como outros cineastas com maior número de votos não se encaixariam propriamente no conceito de Cinema Novo: Carlos Reichenbach, com 4 filmes e José Mojica Marins, com 3.

"O homem do Sputnik", a única chanchada eleita.

“O homem do Sputnik”, a única chanchada eleita.

Para nós, a pergunta que não quer calar: houve filme paraibano listado? Sim, dois: “Aruanda” de Linduarte Noronha (1960) aparece no nonagésimo quarto lugar, e “O país de São Saruê” de Vladimir Carvalho (1971) situa-se um pouco acima, no octogésimo segundo lugar. A esse propósito, é bom observar que um filme colocado no privilegiadíssimo quarto lugar na lista tem assunto paraibano: o documentário “Cabra marcado para morrer” de Eduardo Coutinho (1984).

A lista da Abraccine, como todas as listas, é bastante variada e polêmica. Com certeza, vai gerar controvérsias, mas acho que valeu a iniciativa de cogitar de um cânone brasileiro, quando muitos outros já foram cogitados para o cinema universal. E a Abraccine não fez só a lista. Em acordo comercial com a editora Letramento, deverá ser publicado, no próximo ano, um livro com ensaios sobre cada um dos 100 filmes eleitos, escritos, naturalmente, pelos críticos votantes.

O segundo lugar para "Deus e o diabo na terra do sol".

O segundo lugar para “Deus e o diabo na terra do sol”.

Devo dizer que sou membro da Abraccine e fui votante na referida lista. Muitos dos filmes que escolhi estão na lista (não necessariamente nas posições que lhes dei), outros não. Por exemplo, votei em “Desmundo” (2002), lhe dando um honroso quinto lugar, e o filme de Fresnot sequer apareceu na lista. Em compensação, concedi o primeiro lugar a “Limite” (1931) e lá está ele, sim, no topo da lista da Abraccine, como o melhor filme brasileiro de todos os tempos… do jeito que eu queria.

Como não disponho de espaço para arrolar a lista completa, cito ao menos os dez primeiros colocados, que são:

 

Limite (Mário Peixoto, 1031)

Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)

Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)

Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)

Terra em transe (Glauber Rocha, 1967)

O bandido da luz vermelha (Rogerio Sganzerla, 1968)

São Paulo S/A (Luís Sérgio Person, 1965)

Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962)

Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969)

"O pagador de promessas" entre os dez mais.

“O pagador de promessas” entre os dez mais.

Grande sertão

24 set

Ao ler minha matéria “Cinquentões em 2015”, um amigo me perguntou por que, no parágrafo dedicado aos filmes brasileiros, não incluí “Grande Sertão” (1965), a adaptação do romance de João Guimarães Rosa.

Minha justificativa foi simples: não conhecia o filme.

Não sei em que plagas o amigo viu “Grande sertão”, mas, que eu saiba não foi exibido localmente, e não aparece como referência na bibliografia de cinema da época. Sequer está citado no fundamental “História do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos. Em suma não creio que essa realização dos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira tenha sido importante no contexto do seu tempo, o do Cinema Novo Brasileiro.

De todo jeito, depois do toque do amigo, fiquei atento a sua existência, até porque “Grande sertão: veredas” é um dos meus romances prediletos, sobre o qual, aliás, escrevi longo ensaio, analisando o seu uso curioso de foco narrativo, ensaio publicado no suplemento “Augusto”, do Jornal da Paraiba, com o título de “O narrador incauto” (2006).

Cena de "Grande sertão" (1965).

Cena de “Grande sertão” (1965).

Agora, afinal me deparo com cópia em DVD do filme “Grande sertão” e vejo a chance de, se fosse o caso, reparar uma lacuna.

Ora, depois de assistir ao filme, dou-me conta de que, ainda que já o conhecesse quando redigi a matéria sobre os cinquentões de 2015, não o teria incluído.

Irrisória é o mínimo que pode ser dito dessa adaptação, que tenta pegar duas caronas ao mesmo tempo: na força de um romance publicado havia apenas nove anos (o livro de Guimarães Rosa é de 1956), e no tema do cangaço que chamava a atenção para o cinema brasileiro, desde “O cangaceiro” de Lima Barreto (1953), passando por “Deus e o diabo na terra do Sol” de Glauber Rocha (1963), e outros mais.

Para casar as duas coisas, digo, importância literária do romance e apelo popular do tema, os roteiristas bolaram um enredo que só nos nomes dos protagonistas lembra o original adaptado.

Todo mundo sabe que o melhor do romance rosiano está na ambiguidade da situação Riobaldo/Diadorim, sustentada até o desenlace. Pois, no filme, essa ambiguidade se evapora no ar, junto com a poeira das muitas cavalgadas dos muitos jagunços que enchem a tela o tempo todo.

Vocês não vão acreditar, mas, bem antes da metade da projeção, Diadorim, ferido, (a atriz Sônia Clara) é socorrido por Riobaldo (Maurício do Valle) que, abrindo sua camisa para tratar do ferimento, lhe descobre os belos seios. E em todo o restante da estória – mais da metade do filme! – o par vira o casal comum, homem e mulher, como em qualquer filme de amor. Apenas Diadorim pede ao amado que não revele o seu sexo aos outros jagunços, e o segredinho é mantido até o final.

Final que é um pouco mais ridículo, quando a luta para vingar o pai de Diadorim, como num faroeste americano, toma o formato de um duelo: Diadorim e o rival mor se digladiam em praça pública em mal encenada luta de faca, enquanto Riobaldo, desfalecido, nada pode fazer para salvar a amada.

As cavalgadas intermináveis...

As cavalgadas intermináveis…

Eu sei, eu sei: em adaptação cinematográfica fidelidade não garante nada. Mesmo infiel ao livro, o filme poderia ter sido bem sucedido esteticamente. O problema é que não foi.

Uma curiosidade sobre o filme de Geraldo e Renato Santos Pereira: hoje quem lê os créditos de “Grande sertão” se intriga com o fato de que, rodado e lançado – não esqueçamos – em 1965, apresenta-se como uma produção da Vera Cruz, quando se sabe que a famosa companhia paulista estava aposentada, e supostamente de portas fechadas, desde 1954.

Pois esse dado termina sendo sintomático para entender o filme e, eventualmente, julgá-lo. Sua estética é, sim, em tudo uma “estética vera cruz”, o que significa dizer que, como o fez a companhia paulista, imitava de modo subserviente, o estilo hollywoodiano de fazer cinema.

Daí o seu ar meio démodé – certamente já notado na estreia – , que não deu certo com o espírito pretensamente revolucionário do Cinema Novo, e muito menos ainda com o espírito mágico e imaginativo do romance adaptado.

Para não dizer que não haja lucro no consumo do filme “Grande sertão”, digamos que consiste numa “curiosidade”.

Interessante para historiógrafos, mas um aborrecimento para o espectador comum.

Em tempo: na recente edição em DVD, o filme de Geraldo e Renato Santos Pereira foi reintitulado como o romance adaptado: “Grande sertão: veredas”.

A capa do DVD, com ênfase em

A capa do DVD, com ênfase em “Veredas”, palavra inexistente no título original do filme.