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A mulher da areia

10 mar

Que sensação estranha: ter sentido, cinquenta anos atrás, o forte impacto de um filme, e cinquenta anos depois, revê-lo e experimentar o mesmo impacto da primeira impressão, com a mesma intensidade.

Foi o que me ocorreu agora, revendo “A mulher da areia” (“Suna no onna”, 1964). O meu primeiro – e até há pouco, único – contato com o filme do japonês Hiroshi Teshigahara acho que foi numa das saudosas sessões de quinta-feira do ´cinema de arte´, no Cine Municipal, projeto organizado pela ACCP – Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba. Saí do cinema perplexo e com a certeza de que aquele seria um dos filmes da minha vida.

E foi, ou melhor, é. Em poucos filmes a plástica está embutida de significação da forma que aqui ocorre, e a temática dependente dessa mesma plástica. Em poucos filmes a diegese inteira funciona como um vasto símbolo, pulsante e medonho, e qualquer elemento do enredo, gráfico ou verbal, nos atinge como um signo a ser decifrado.

O cartaz internacional do filme de Teshigahara.

O cartaz internacional do filme de Teshigahara.

Redigindo estas frágeis linhas, me sinto impotente para passar ao leitor a grandeza e a beleza dessa obra prima de Teshigahara. Um resumo de enredo só me faria traí-la e o esforço de interpretação não me redimiria da traição.

Sem outra opção, corro o risco.

Entre as dunas de uma deserta praia japonesa, um jovem entomologista caça insetos raros para um trabalho que pretende publicar. Anoitece e os habitantes do lugar o conduzem a pernoitar num casebre que fica atolado num enorme buraco, todo feito de areia. Lá, sozinha, mora uma mulher que, todo dia, é obrigada a tirar a areia em baldes acionados por cordas, do contrário o buraco fecharia sobre sua casa. No dia seguinte, ao ver que a escada de corda fora retirada, o visitante se dá conta de que caíra (literalmente) numa armadilha.

Quase todo o restante do filme é sobre as muitas vãs tentativas de fuga desse prisioneiro inconformado e sua relação com essa mulher, ao contrário dele, resignada à sua sina.

Para os habitantes do lugar, é importante que aquele enorme buraco de areia seja preservado, pois, sua existência previne a abertura de outros na aldeia. Por isso, ajudam a mulher a conservá-lo.

Cena do filme: a rotina na cratera arenosa.

Cena do filme: a rotina na cratera arenosa.

Uma mulher e um homem presos num buraco de areia. Lembro que minha primeira impressão do filme foi que simbolizasse o casamento convencional, ou ao menos, qualquer modelo de relação a dois que seja fechada e sem saída. Hoje, revendo-o, noto que seu simbolismo é mais amplo, com tons existencialistas, que fazem a crítica – mas eu não – colocar Teshigahara no rol da chamada “nouvelle vague japonesa”.

O melhor do filme é mesmo a sua ambiguidade, em parte corolário de sua beleza plástica. Fascinam os muitos closes que igualam os corpos dos personagens à paisagem arenosa. Com a radical proximidade da câmera, grãos de areia e poros se misturam de um modo impressionante. Ninguém esquece, por exemplo, a cena da mulher dormindo, completamente nua, e o homem (e nós) espiando suas curvas, que são verdadeiras dunas. Aqui, como em outros momentos, o erotismo é uma necessidade temática.

Os caminhos interpretativos são tantos que o espectador, como os personagens, sente-se perdido. Com certeza, não é nada gratuito que o homem seja um entomologista, com seus insetos presos dentro de seu mostruário de cientista. Com o desenrolar da estória, cada vez mais preso ao buraco de areia, o homem vai sendo associado aos insetos que coleciona. Tanto é assim que, ao dar-se conta disso, ele, desiludido, os destroi a todos.

O fotograma mais famoso...

O fotograma mais famoso…

As suas tentativas repetidas e mal sucedidas de escalar as paredes de areia, subindo e descendo a cada vez, lembra, sim, o mito de Sísifo, que a crítica sempre aponta. Mas, claro, a mulher tem o mesmo estatuto, no seu eterno mister de varrer a areia para os baldes que os aldeões alçarão em cordas. Em determinado momento o homem, revoltado com o seu destino e o dela, lhe pergunta: “você varre para viver, ou vive para varrer?” – naturalmente, uma pergunta sem resposta.

A mim, o que mais me encanta em “A mulher da areia” é sua absoluta originalidade – um filme sem gênero, sem escola, sem modelo, igual a si mesmo e a nada mais.

Filho de família abastada, Teshigahara foi sempre criticado pelos seus pares, por ser um “filhinho de papai” que tinha dinheiro para cometer as extravagâncias que quisesse, sem passar pelos  habituais sofrimentos de ser cineasta, e sem pensar em consequências.

De fato, fez poucos filmes, todos projetos extremamente pessoais. No meu entender, se fez “A mulher da areia”, não precisava fazer mais nada.

WOMAN IN THE DUNES, (aka SUNA NO ONNA), Kyoko Kishida, Eiji Okada, 1964.

Kyoko Kishida e Eiji Okada em A Mulher da areia.

La dolce vita

26 ago

 

Era abril de 1953, dia 9, quando o corpo de Wilma Montesi foi encontrado. Seminu, era arrastado pelas ondas nas areias da praia de Torvaianica, a uma certa distância de Roma. Com 21 anos de idade, Wilma Montesi era uma moça humilde: filha de marceneiro, morava num subúrbio romano. Como fora parar naquela praia distante, e mais importante, de que morrera?

Em seguida veio o escândalo. Aparentemente a moça estaria envolvida com rapazes da elite que costumavam se divertir em orgias movidas a drogas. Um deles era o músico Piero Piccione, amante da atriz de cinema Alida Valli, e filho do ministro Attilio Piccione. Piero e um de seus companheiros de farra, Ugo Montagna chegaram a ser julgados, na Corte de Veneza, porém, por falta de provas, foram absolvidos, e o caso foi arquivado, tudo indica que para sempre.

Marcello Mastorianni e Anita Egberg em cena de La Dolce Vita.

Mas, claro, nem todo mundo esqueceu o caso: o cineasta Federico Fellini, por exemplo. Segundo consta, foi nele que pensou ao bolar, junto com Pasolini, o enredo de “A doce vida” (1960).

Assim, teria sido o dúbio papel da imprensa da época o que motivou a construção do personagem de Marcello Rubini (Marcello Mastroiani), esse jornalista que se divide entre o compromisso profissional com a informação e o fascínio pela ´doce vida´ da burguesia italiana.

De fato, várias cenas no filme costuram pobreza e riqueza de modo irônico. A primeira noitada de Marcello com a ricaça Madalena é bem sintomática: os dois dão carona a uma pobre garota de programa (certamente inspirada em Wilma) que termina abrigando-os por uma noite em seu mais que modesto casebre, usado pelo casal como motel.

Uma segunda cena a citar dessa mistura entre pobreza e riqueza é a da mocinha loira (parecida com um anjo renascentista, segundo Marcello) que o protagonista conhece quando se isola, com sua máquina datilográfica, para escrever o livro que nunca escreverá. No final, esse ´anjo renascentista´ vai reaparecer, na praia, mas Marcello não lhe escuta a voz, porque dele está distanciado, no espaço e, principalmente, no espírito.

A famosa cena Fontana di Trevi.

A famosa cena Fontana di Trevi.

Aliás, é nessa cena final, depois de uma noite de orgia com direito a striptease ao som de “Patricia”, que Marcello e seus companheiros de farra se dirigem ao mar e, nas areias da praia, se deparam com aquele peixe disforme que os fita com ar hostil. Para o resto do mundo nem tanto, mas para muitos espectadores italianos da época, esta cena era – se indiretamente o filme todo não já fora – uma remissão direta ao caso Wilma Montesi. Uma metáfora grotesca que fechava o filme com ar de indagação acusativa.

Com o passar do tempo, o intertexto Montesi foi ficando para trás no filme de Fellini… até quase que desaparecer. Hoje ninguém mais – se um dia dele teve notícia – o recorda. O filme foi, aliás merecidamente, ganhando estatuto de cult, e, por ironia, o lado atrativo, fascinante, da ´doce vida´ se sobrepujou ao seu caráter de crítica. E, inevitavelmente, o filme entrou no imaginário cinéfilo muito mais como um doce fornecedor de imagens amadas. Há muito tempo, o que vem à memória do espectador a propósito de “A doce vida”? Não são os seus eventuais pobres, mas os seus tantos ricos. Não é sem razão que a cena mais revisitada – aliás, uma das mais citadas na história do cinema – é a do banho de Anita Ekberg e Marcello Mastroianni na Fontana di Trevi.

Marcello e

Marcello e “o anjo renascentista”

Sim, a idéia de que o filme de Fellini fazia uma crítica à alta burguesia italiana, de óbvia, foi se tornando secundária. De algum modo, afinal de contas, o filme era a definitiva despedida do diretor do espírito crítico do neo-realismo e, com ou sem enfoque social, era o seu início de mergulho na fantasia que viria em seguida.

Para dar um toque pessoal a este comentário, a reprise atual de “A doce vida”, no programa “Cinema de Arte” do Cinespaço, me remete a sua estreia em João Pessoa, início dos anos sessenta. Foi a minha introdução ao chamado cinema de arte europeu. Como todos em meu convívio doméstico, eu estava habituado ao modelo de cinema de Hollywood, e o filme de Fellini me deixou confuso. Aliás, quase o perdia: um irmão mais velho, que o vira a contragosto, deu o aviso para todos de casa: “uma merda”. Apesar do diagnóstico escatológico fui ver e, depois, vi todas as outras maravilhosas “merdas” de Fellini; não apenas de Fellini, mas de quase todo o brilhante cinema italiano dos anos sessenta.

Rever “A doce vida” agora, em tela grande, é, confesso, uma experiência saudosista; mais do que qualquer outra coisa, uma viagem no tempo.

Um tempo que só se repete em coisas tristes, já que ainda hoje, a gente sabe, outras Wilmas Montesi, na Itália e aqui, são vítimas de garotos da doce elite. Enfim.

Anouk Aimée, Mastroianni e Fellini, durante as filmagens.

Anouk Aimée, Mastroianni e Fellini, durante as filmagens.

Espectadores (1) Joaquim Inácio Brito

1 out

 

Com esta matéria, dou início a um projeto sobre recepção cinematográfica onde pretendo entrevistar, como diz o título, espectadores de cinema. Não críticos, nem cinéfilos, nem profissionais da área, mas apenas espectadores, ou seja, pessoas que adoram assistir a um bom filme e que fazem, ou fizeram, disso um hábito especial, enfim, os chamados amantes do cinema.

Eventualmente, são pessoas que nunca leram um livro de teoria fílmica, que nunca estiveram por trás das câmeras, e que nunca escreveram sobre a sétima arte. E, para quem, no entanto, o cinema tem uma importância – ou influência – avassaladora em suas vidas.

Um dos objetivos do projeto é demonstrar o quanto a recepção cinematográfica é mais complexa, mais rica e mais interessante do que aparenta à primeira vista. Para que as entrevistas pudessem render mais, senti a necessidade de arguir espectadores que já conheço e cujas reações ao cinema – idiossincráticas ou convencionais – me inspirassem questões pertinentes. De tal forma que, não apenas das respostas, mas também das perguntas, pode se deduzir um perfil do entrevistado.

Assim, inicio a série com Joaquim Inácio Brito.

"Casablanca" é um dos filmes preferidos do entrevistado.

“Casablanca” é um dos filmes preferidos do entrevistado.

 

Entre amigos, você é conhecido por não gostar de filmes com final infeliz. No entanto, em enquete que fiz para o Correio das Artes sobre o cânone pessoense de cinema, você escolheu, como os seus três mais amados, “Casablanca”, “Pacto de sangue” e “Tubarão”, filmes que estão longe de um final feliz. Como explicar a contradição?

 

Realmente, não gosto e não assisto mais a filmes com temas tristes, que abordam dissolução de família, injustiças irreparáveis, sofrimento de crianças, isso nem pensar. Agora, os três filmes aqui citados não são tristes. Em “Pacto de sangue” o final é espetacular: o corretor tinha que pagar pelo crime e pagou; Em “Tubarão”, a fera é morta e o sossego volta à praia: Já no final de “Casablanca”, Bogart é acometido de burrice patológica. Deixar Ingrid Bergman ir embora daquela forma. Meu Deus!!!
Acho que se pode dizer que o gênero que você mais ama e conhece é o noir. Há razões especiais para isso? Alguma forma inconsciente, ou talvez consciente, de identificação? Enfim, o que é que o noir tem que os outros gêneros não têm?

 

O filme noir me proporciona 80, 90 minutos de puro deleite. Sem maiores pretensões (nunca um noir ganhou nada, prêmio algum) o filme tem tiro, bandido, detetive, cabaré, loiras belíssimas, sempre com enredos de fácil percepção e entendimento. Veja bem; os críticos em suas variadas análises, afirmam que ele veio do expressionismo alemão, entre outras complicações. Eu adoro filme noir; não sei o que é expressionismo alemão e nem quero saber…

 

Sobre o problema da adaptação cinematográfica você também tem uma posição bem definida: como leitor assíduo e apaixonado da grande literatura universal, você se recusa a assistir a filmes que adaptaram obras literárias. Fale um pouco sobre essa recusa.

O nosso entrevistado, Joaquim Inácio Brito, aqui visto ao lado do cronista Gonzaga Rodrigues.

O nosso entrevistado, Joaquim Inácio Brito, aqui visto ao lado do cronista Gonzaga Rodrigues.

 

Sua colocação é um tanto radical. Não me recuso a assistir a filmes que adaptaram obras literárias. Alguns romances que considero excepcionais, entretanto, prefiro mantê-los como os pintei na imaginação e guardá-los sem a reprodução de terceiros.

 

Muitas vezes você é pego justificando a boa qualidade de uma interpretação, ou de uma música, ou de uma direção, pela conquista que tiveram do Oscar. O prêmio da Academia de Hollywood é importante mesmo?

 

Vários amigos meus, que sabem ler e escrever, esnobavam a Academia Paraibana de Letras sob as mais diferentes justificativas. No entanto, quando convidados para a imortalidade, raríssimos não aceitaram. Guardado o devido tamanho, suponho que o mesmo se verifica com o prêmio da Academia de Hollywood.

 

Em conversa, você demonstra uma invejável familiaridade com música, inclusive, referindo sempre compositores que musicaram filmes. Como você conceituaria a importância que tem a música no cinema? Pode dar exemplos?

 

Vou responder com uma pergunta. O que seria de “Suplício de uma saudade” sem a canção de Alfred Newman “Love is a many-splendored thing”?
Você pertence a uma geração que foi jovem nos esfuziantes anos sessenta, em João Pessoa. Na época, você deve ter frequentado as famosas sessões de quinta-feira do Cinema de Arte no Cine Municipal, projeto da ACCP – Associação dos Críticos Cinematográficos da Paraíba. Que lucros retirou dessas sessões e desse convívio?

Nenhum.
Uma característica sua enquanto espectador é o desprezo pelo Cânone. Embora sejam do seu conhecimento as listas dos filmes canonizados pela Crítica Internacional, estes nunca conquistaram sua preferência. De alguma maneira, pode se dizer que você passa muito bem sem os “Encouraçado Potemkin”, “A regra do jogo” ou “Cidadão Kane” da vida. Há algo de proposital nesse desprezo, ou ele é apenas uma reação natural? Comente.

 

Diz o cachaceiro que beber é arte e comer é vício. Diz o crítico que cinema é arte e eu vejo cinema como diversão. Como posso, então, engolir “A Regra do jogo”, “Ladrões de bicicletas”, “A Fonte da donzela”? A Nouvelle Vague, o neo realismo e outros desses monstrengos alimentam sempre o meu bem querer pelo cinema americano das décadas de 40/50. Evoé!

 
Você é do tipo de espectador que elegantemente “dispensa” o cinema que se produz e exibe hoje em dia… Algo a dizer sobre esse aparente ´passadismo´ assumido?

Cena de "Pacto de sangue", citado pelo entrevistado.

Cena de “Pacto de sangue”, citado pelo entrevistado.

 

Vou tentar justificar esse “passadismo”. A violência em excesso, os diálogos sempre chulos, a falta de bons roteiros, os maus atores, dentre outras mazelas, mataram o bom filme. Um óbito assinado há dezenas de anos, sem qualquer tentativa de uma ansiada ressurreição.

 Se não lhe for incômodo, gostaria que citasse sete filmes que você, de coração e mente, recomenda a nossos leitores. Se quiser, pode justificar suas escolhas.

É sempre muito difícil listar os melhores. Ficam os três já citados (“Pacto de sangue”, “Casablanca’ e “Tubarão”) e acrescento três diretores: Alfred Hitchcock, Robert Siodmak e Friz Lang.

Essa relação não elenca vários dos mais importantes diretores do cinema americano. Concorda? Por que a omissão?

Realmente, você está certo. No início da nossa conversa sou apresentado como fã do cinema negro. Já agora, no final do papo, vem a pergunta sobre os melhores filmes que vi. Vou manter a coerência e me ater somente ao noir, excetuando Hitchcock, que é o maior dos diretores. Já Lang e Siodmak são os reis desse gênero: “Os assassinos”, “Baixeza”, “Fúria”, “A dama fantasma”, “Espelhos d´alma”, “Os corruptos”, “Um retrato de mulher”, “A gardênia azul”, “Silêncio nas trevas”, “Dúvida”, entre outros, não me deixam mentir.

Na lista dos preferidos de Joaquim Inácio está "Tubarão".

Na lista dos preferidos de Joaquim Inácio está “Tubarão”.