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“Meu Tio” faz sessenta anos

31 out

Quando assisti ao filme “Meu tio” (Jacques Tati, 1958) pela primeira vez, começo dos anos sessenta, fiquei sem saber o que pensar. Parecia sério para ser uma comédia, e cômico para ser um filme sério.

Premiado em festivais internacionais, acho que fora trazido a João Pessoa pelos críticos que, naquela época, organizavam o “Cinema de arte” e, portanto, devia ter coisas que a juventude dos meus olhos não via. E tinha.

À parte a influência da crítica sobre a minha impressão, o filme me pareceu encantador. No mínimo, era diferente de tudo o que eu conhecia e, na sua desconcertante originalidade, prometia nunca ser esquecido. E não foi.

Affiche

Tudo bem, de alguma maneira me lembrava Chaplin, mas um Chaplin com quem se risse menos e se pensassse mais. Como em Chaplin, a base era a pantomima, só que com um investimento muito mais radical na visualidade, digo, no espaço plástico da tela, de modo que, mesmo não sendo mudo, nele o diálogo parecia irrisório, acidental, decorativo.

Por isso, o enredo era frouxo, como se dependente do cenário e das pantomimas.

Digamos que havia um contraste básico que, mesmo eu, sem a ajuda da crítica, fui capaz de perceber. De um lado, ficava o mundo artificial e falso da burguesia que abraçara a tecnologia como um deus. Do outro lado, ficava o mundo natural e espontâneo das crianças, dos animais e, claro, do pobre e desajeitado Mr Hulot, o “tio” do título. Aquele primeiro mundo era descrito como caricatura, e este segundo, de modo direto, às vezes quase documental, como nas cenas de abertura e fechamento do filme, que mostravam os cachorrinhos se divertindo à vontade pelas ruas da cidade, ao som de uma lírica trilha sonora.

Quem viu o filme lembra comigo o quanto a residência da família burguesa consistia numa galeria de gadgets inúteis, cujo campeão devia ser aquela estátua de peixe ereto no jardim, de cuja boca jorrava um jato d´água, toda vez que a zelosa dona de casa apertava um certo botão, com o detalhe de que, pragmática, ela só o fazia quando havia visitas para ver o espetáculo.

Como dito, o contraponto desse mundo kitsch e ridículo era a vida simplória de Mr Hulot, coitado, um inadaptado a tudo que fosse regra, ordem, ou simetria. Posto dentro daquele mundo “perfeito”, cada gesto de Hulot era um desastre garantido.

Na verdade, ambos, burgueses tecnológicos e inadaptados como Hulot suscitavam o riso, porém, com uma diferença fundamental. Vendo os primeiros, ríamos “deles”, vendo os segundos, ríamos “com eles”. E essa diferença condizia com a mensagem do filme.

Agora que “Meu tio” completa sessenta anos, revejo-o em formato de DVD, e alegre, faço duas constatações que se completam: (1) as minhas impressões de juventude prevalecem e (2) o filme continua belo e cativante.

Como se sabe, o seu autor, o cineasta francês Jacques Tati (1907-1982) ocupa um lugar ao mesmo tempo singular e destacado na cinematografia, não apenas francesa, mas mundial. De alto nível, sua obra não se parece com mais nada que se tenha feito no planeta, de forma que transcendeu movimentos e estilos e, na própria França, não se atrelou a escolas e foi respeitada por clássicos e vanguardistas.

Extremamente caprichoso na execução de seus projetos, Tati terminou por rodar pouco e, em cinco décadas de atividade, não deixou mais que seis longas. Como está claro no seu divertido curta de 1947, “Escola de carteiros”, o seu impulso inicial para a criação veio mesmo da pantomima, que, com o passar do tempo, foi evoluindo para a gag visual, até o extremo da quase abstração plástica. Para citar dois dos seus filmes mais conhecidos, se a pantomima prevalecia em “As férias de Mr Hulot” (1953), a abstração visual era a dominante em “Playtime” (1967).

Ora, “Meu tio” jaz em um meio termo, ideal e equilibrado, entre as duas coisas, com a vantagem de exibir um elemento adicional, embrionário em “As férias” e já praticamente descartado em “Playtime”, a saber, o lirismo.

Por essas e por outras, concordando com o jovem que fui nos anos sessenta, não hesito em dizer que “Meu tio” é o meu melhor Tati.

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O amante duplo

19 jun

Um dos filmes do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano de 2018 que mais deu o que falar foi talvez “O amante duplo” (“L´amant double”, de François Ozon, 2017).

O nome do diretor (de “Franz”, “Dentro de casa” e “Oito mulheres”) levou um grande número de cinéfilos ao Mag Shopping e deu à primeira sessão deste filme aquele ar animado e otimista que é esperado de um festival. O ânimo, contudo, arrefeceu um pouco, na saída da sala.

Se porventura posso ser tomado como exemplo, diria que o arrefecimento foi gradativo, durante a projeção do filme.

Muito bem interpretado e muito bem produzido, o filme começa nos prendendo, com a estória dessa moça que, sentindo leves dores estomacais sem causa aparente, é aconselhada pelo médico a procurar um psicanalista. Procura e, conversa vai conversa vem, os dois se apaixonam e terminam indo morar juntos. Tudo vai mais ou menos bem até que um dia a moça avista, na rua, o que ela pensa ser o marido com outra pessoa, e, mais tarde, descobre ser um seu irmão gêmeo, dela escondido, este também psicanalista. Sem nada dizer ao marido, ela vai fazer análise com esse outro psicanalista, que tem métodos pouco convencionais e mais selvagens, bem diversos do irmão.

Quando o interesse do espectador está num pique, o roteiro começa a tomar rumos fantasiosos, extravagantes e mesmo absurdos, que não vou dizer quais são, até porque, como se sabe, todo absurdo é, em si mesmo, indescritível ou inenarrável. Ou, antes disso, incompreensível. Sem respeitar gêneros (ou melhor, misturando-os), o filme indaga sobre o que é real e o que é delírio, e investe nessa incógnita de modo radical, sombrio e incômodo. (Fiquei em dúvida se deveria usar o termo “absurdo” ou “surreal”: escolhi o primeiro porque a obra surreal descarta explicações psicológicos ou psicanalíticas – o que supostamente não seria o caso aqui. Outro detalhe: não há crítica no meu emprego do termo “absurdo”).

Naquele momento, supostamente dramático, em que o ventre da protagonista  aparentemente grávida começa a entumecer e explodir, ouvi risos na plateia, e houve até quem se retirasse, e eu entendo o porquê de ambas as reações: nesse instante, o filme parecia ganhar incabíveis tons de horror ou science-fiction do tipo “Alien”.

A suposta justificativa para toda uma diegese absurda seria a de que o que está se vendo na tela seria fruto da mente doentia da protagonista, mas, mesmo assim, todo mundo também sabe, absurdos, por ousados que sejam, devem se encaixar no universo semântico do filme, e, em alguma instância abstrata, fazer sentido.

Absurdos à parte, justificados pela doença da protagonista ou não, há outras coisas a reclamar. Com certeza, é desnecessária – dentro da estrutura semântica do filme – a cena em que a moça força o marido a ter relação anal passiva com ela, e usa, para tanto, um enorme “dildo”, que adentra o ânus dele. Sem falar em coisas menores, também pouco plausíveis. Por exemplo: suponho que nem na França uma vigilante de museu (profissão da protagonista) tem salário para pagar um psicanalista caro. Eu sei: o museu, seu design moderno e suas obras de arte perturbadoras funcionam como pretextos para dialogar com os delírios da vigilante, mas, a falta de plausibilidade permanece.

Enfim, o tema do adultério imaginário (se é este o do filme de Ozon) é antigo no cinema e, em muitos casos, desenvolvido e resolvido com mais clarividência.

Lembro, por exemplo, como ele funcionou bem no filme de Peter del Monte “Júlia e Júlia” (1987) onde Kathleen Turner fazia uma viúva que matava o amante (Sting) por imaginar, nos seus delírios culposos, estar traindo um marido ainda vivo.

Isto para não falar em filmes que tomaram a questão dos gêmeos como assunto. Um clássico que recordo com carinho é “Espelhos d´alma” (Robert Siodmak, 1946) em que a grande Olivia de Havilland desempenhava o papel duplo da irmã boa e da irmã má, um thriller no melhor estilo noir.

Ou, se for o caso ainda, para não falar na temática dos sósias, que está com tanta assiduidade em Alfred Hitchcock, mas não só nele: aqui lembro “A cicatriz” (“The scar”, Steve Sekeley, 1948) em que o personagem de Paul Henreid se aproveitava da semelhança física com um estranho para engendrar um plano criminoso.

Não vou afirmar que “O amante duplo” seja um filme com escassez de qualidade, mas, é, com certeza, um filme com excesso de pretensão. Assistindo ao seu desenlace, a sensação que experimentei foi a de que o roteiro perdeu-se, e o diretor, no seu afã de ser original e inovar, foi junto.

Ou fui eu que me perdi?

Louis Malle em Maio

16 maio

Cinquenta anos depois, o que ainda temos a dizer sobre o Maio de 68? Por enquanto, e à guisa de exercício conceitual, vejamos os filmes que trataram do assunto.

Um dos mais curiosos é, com certeza, este “Loucuras de uma primavera” (“Milou en mai”, 1990) do mestre francês Louis Malle, que, aliás, não se passa em Paris, mas no campo. Da distante mansão burguesa dos Vieuzac, não muito longe de Bordeaux, é que se recebem os efeitos colaterais dessa revolução que virou o país de cabeça para baixo.

Coincidindo com o estouro de Maio, o filme começa com a morte da idosa matriarca Vieuzac, que deixa o filho, Milou (Michel Piccoli), ele também adiantado em anos, vivendo só com a empregada Adèle. Bem, por enquanto nem tão só, já que logo chegam os outros membros da família para o velório, e o resto do roteiro vai nos contar, com muita graça e ironia, os seus conflitos e afagos, isto ao meio de duas crises: a privada (por exemplo: como dividir a herança?) e a pública (a revolução).

Como mantém a intitulação original do filme, Milou é o protagonista, mas sua autonomia tem limites. Isso fica claro com a chegada dos parentes: o irmão, George, correspondente do Le Monde em Londres, que vem com sua sensual esposa inglesa Lilly; Camille, filha de Milou, com três crianças, dois garotos pequenos e uma garota maiorzinha Françoise; Claire, a sobrinha de Milou, moça homo que comparece com sua namorada. Mais tarde ainda vão aparecer o sobrinho Pierre-Alain, rapaz esquerdista e entusiasta de Maio, e um motorista de caminhão, Grimaldi, que lhe dera carona no caminho, e aceita acomodação na casa, pois seu caminhão, carregado de tomates, não pudera, ao meio do caos reinante, chegar ao seu destino.

Uma complicação a mais é que o enterro não pode ser efetuado, já que as mortuárias também estão em greve, e, lá adiante a família precisará decidir que medida tomar. Nisso Milou vencerá, ao sugerir que a mãe seja enterrada nas terras da propriedade, como se fazia nos velhos tempos.

O fato é que os efeitos da Revolução vão se fazendo cada vez mais presentes e mais fortes na mansão dos Vieuzac, ao ponto de serem todos obrigados a fugir.

Mas antes da fuga o encontro da família é mais ou menos eufórico e vira piquenique bucólico, com direito a insinuações eróticas, inspiradas pelos boatos que se ouviam sobre os acontecimentos parisienses – um deles, o de que, na ocupada Sorbonne, a libertinagem era tão grande que “as pessoas deslizavam no esperma espalhado no piso”. É curioso como a família vai puxar o sentido libertário da Revolução para o exclusivo lado erótico e faz o excitante piquenique findar com o grito, ensaiado por Milou, de “Vive la révolution!” – isto acompanhado (e não só neste momento) pela trilha sonora do filme, que faz variações melódicas em torno da “Internacional”, o hino comunista.

Pensando bem, insinuações eróticas são quase uma regra no ambiente familiar: vejam que, na mansão, praticamente todos têm um caso, ou uma queda, por um outro. Milou transa com a empregada Adèle, a sua filha Camille flerta com um amigo de infância; a cunhada inglesa flerta com Milou; as duas moças lésbicas deixam traços de sua prática sado-masoquista na cama onde dormem; o sobrinho Pierre-Alain flerta com a amiga de Claire,  e esta com o caminhoneiro, com quem por sinal ensaia, para alegria de todos, uma cena de nudez e sexo selvagem em plena sala, não muito distante do féretro da falecida, e na presença de uma criança de treze anos, a neta de Milou, Françoise, aliás, esta também objeto do desejo do avô, como se vê no momento em que ela sobe no féretro para beijar a bisavó morta e sua saia curta lhe expõe as coxas infantis, sob o olhar de um Milou perverso. É essa pequena Françoise quem faz – sempre ao avô – as perguntas mais hilárias do diálogo, toda vez que escuta uma palavra que não conhece ou vê algo que não entende: “o que é esperma”? “Por que tia Claire amarra sua amiga na cama?” “O que é sapatão?”… E não esquecer que desse clima libertino fará parte uma dança carnavalesca com letra obscena, com todos em fila, dentro da mansão, rodeando o féretro da matriarca.

A disforia vem com a notícia da proximidade dos revoltosos e, naturalmente, com a fuga, francamente patética, quando se confunde o trabalho de lenhadores locais com o ataque dos revolucionários, e aí a família, perdida no meio da floresta, vai penar com cansaço, sujeira e fome… Em certo momento de desespero e desorientação é Milou quem dará a direção: (sintam a ironia!) “Vamos dobrar à direita”.  Essa agonia coletiva vai terminar quando Adèle, a providencial empregada, dá as caras, com a notícia de que De Gaulle – antes desaparecido – reapareceu e que tudo voltou à ordem normal.

Não admira que a Revolução de Maio tenha sido dada, mais tarde, por pensadores maliciosos, como “a revolta que mudou tudo sem nada mudar”. Pelo menos é uma das impressões que pode ficar do filme de Malle, se o propósito for porventura interpretar o Maio francês. Por exemplo: a morte da matriarca dessa família burguesa poderia sugerir ao espectador um símbolo da suposta derrocada da burguesia pela Revolução. Alguns elementos corroboram esse simbolismo, a saber: (1) a observação de Camille ao chegar na mansão: “Talvez a Revolução a tenha matado; ela detestava desordem”, diz ela da avó; e (2) mais tarde, aquela tomada sintomática em que se avista uma passeata de revolucionários em marcha e o velho empregado da família cavando a cova da matriarca, as duas coisas num mesmo quadro…  Bem, com o detalhe mais que irônico de que, no final, ela, a matriarca, reaparece na tela, como se viva estivesse, tocando piano e dançando com o filho deslumbrado. Ah, burguesia teimosa!

Simbolismos à parte, na mansão dos Vieuzac tudo permanecerá (quase) como dantes – apenas com o detalhe de que um quarto da herança, de acordo com o testamento da defunta, ficará para a empregada Adèle, que agora nos acena com o seu noivo e seu final mais do que feliz. O único sinal (ainda que duvidoso), de uma possível melhora para as classes inferiores – isto, se se quiser insistir em simbolismos.

No seu comentário do filme, o crítico americano Roger Ebert se indaga sobre quais teriam sido as intenções de Malle e seu roteirista Jean-Claude Carrière. O que me fez lembrar uma boutade do próprio Malle sobre sua forma de trabalhar. Diz ele: “quanto mais vivo, menos confio em ideias, e mais confio em emoções”.

Sejam quais tenham sido as intenções autorais, “Loucuras de uma primavera” é um filme gostoso de ver, meio amargo e meio doce, despretensiosamente franco sobre uma classe social decadente e seu nem sempre discreto charme.

Visivelmente, seus antepassados são pelo menos dois: o remoto “A regra do jogo” de Jean Renoir (1939) e o menos remoto “Cerimônia de casamento”, de Robert Altman (1978), ambos tratando de uma numerosa família burguesa reunida numa mansão de campo, este último contando também com uma matriarca falecida.

Hiroshima

11 jul

Sessão nostalgia – noite de domingo chuvoso e frio, no Cine Banguê, para rever, sozinho, “Hiroshima, meu amor” (Alain Resnais, 1959).

Claro que valeu a pena.

No viés nostálgico, reportei-me aos dois momentos, bem diferentes, em que havia visto o filme de Resnais.

O primeiro foi no Cine Bela Vista, no bairro de Cruz das Armas, comecinho dos anos sessenta. Soube depois que tinha sido uma das primeiras sessões do projeto “Cinema de Arte”, da então nascente ACCP, a Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba. Mas, na época, adolescente, eu era verde demais para entender dessas coisas. Apenas assisti àquele filme estranho com a impressão de que jamais o esqueceria. E nunca esqueci.

O segundo foi já nos anos oitenta, na ocasião do fechamento do Cinema Rex. Se não me engano organizada pelo setor cultural da ADUF, houve uma celebração do evento, uma semana de exibição de filmes clássicos, entre os quais “Hiroshima”.

Depois disso, não o revi mais e a oportunidade foi bem vinda. Na minha lembrança, o filme de Resnais era mais abstrato e mais vanguardista. Talvez eu estivesse influenciado pela sua associação com a Nouvelle Vague, ou com o seu realmente abstrato “O ano passado em Marienbad” (1961). Esta sessão me ajudou a corrigir uma impressão errônea.

Sim, afinal de contas, o filme relata uma estória com começo meio e fim. É cheio de flashbacks e contém muitas daquelas cenas em que a câmera “abandona” os protagonistas e vai passear pelas ruas e outros logradouros da cidade, porém, nada disso perturba a lógica da estória contada: o caso de amor entre um arquiteto japonês (Eiji Okada), casado, e uma atriz francesa (Emmanuelle Riva), também casada, no momento rodando um filme sobre a paz em Hiroshima.

A narração começa investindo forte na metonímia e acho que foi isso que me deu a impressão de “cinema abstrato”. Por um bom tempo, não se mostram os rostos do casal na cama, só partes de seus corpos nus, filmados tão de perto que a identificação é dificultada. E suas falas são todas em “voice over”, como disse, enquanto se veem as ruas de Hiroshima, ela insistindo em que viu tudo de Hiroshima, ele, contestando que ela não viu nada. Para completar, essas vozes soltas no espaço e no tempo, são articuladas como se se tratasse, não de um diálogo, mas, de declamação poética. E neste momento, a gente lembra que o diálogo ficou ao encargo de Marguerite Duras.

Mais de meia hora de projeção decorre assim, nisto que chamei de cinema abstrato, mas, em seguida, fica o filme mais – digamos – convencional, sobretudo a partir do momento em que nos são dados os rostos dos dois protagonistas, momento também a partir do qual eles começam a falar como se fala, sem recitação.

Esse tom de recitação só vai voltar na cena final, quando – depois de muita luta interior – o casal se reencontra entre quatro paredes e encerra o filme com a dedução inevitável, toda articulada devagar, sílaba por sílaba:

Ela: Hi – ro – shi – ma. C´est ton nom.

Ele: Oui, c´est mon nom. Et ton nom à toi est Nevers, Nevers en France.

No meio termo, digo, entre a parte inicial e este desenlace, fica uma estória de amor cheia de conflitos, com direito a todos os elementos que compõem um melodrama cinematográfico: um casal adúltero apaixonado e uma estória pregressa, de paixão e desespero. Não creio, por exemplo, que seja gratuito o fato de o hotel da protagonista se chamar CASABLANCA.

Um dos lances da narração que não posso deixar de anotar é o seguinte. Prestem atenção: na parte inicial, a voz over da mulher sempre se refere a um “tu” que deduzimos ser o homem a quem ela ama no presente, e com quem está fazendo amor no momento. Mais adiante, quando ela retrocede no tempo para, em flashbacks repetidos, contar a este homem de hoje, a sua estória de amor com o soldado alemão do passado, notamos que aquele “tu” era, o tempo todo, uma remissão ao passado. Um pouco mais adiante, vamos nos dar conta do melhor: é que esses dois “tus” – o referido ao passado e o referido ao presente – se confundem e se transformam, magicamente, em um mesmo “tu”. Esta fusão é o recurso fílmico maior para indicar que a atriz francesa está, sim, tão apaixonada pelo arquiteto japonês – esse que, de si para si, ela chama de “um desconhecido” – quanto estivera, durante a guerra, pelo soldado alemão. Genial.

Notei que ao terminar a exibição, com o “FIN” na tela e as luzes acesas, a jovem plateia presente ficou meio confusa, esperando, meio decepcionada, o que se tem hoje em dia: a longa lista dos créditos. Eu, que sou do tempo dos créditos no início do filme, ri comigo mesmo: de fato, eu era o único nostálgico da noite.

Em tempo: a exibição de “Hiroshima meu amor” não foi promoção da ACCP, mas do Cineclube Charles Chaplin, do Liceu Paraibano, conforme oportunamente nos informa o  estudioso de cinema Paulo Melo.Eem

 

 

Alice Guy-Blaché, a primeira cineasta

27 jun

Hoje em dia o número de mulheres dirigindo cinema no mundo todo é tão grande que nem faz sentido ir atrás de estatísticas. Mas não foi sempre assim, muito pelo contrário. Nos primórdios da história do cinema, e mesmo ao longo da era clássica – toda a primeira metade do século XX – mulheres na direção era coisa rara, raríssima. Nos Estados Unidos, por exemplo, apontam-se três nomes: Lois Weber para as primeiras décadas do século; Dorothy Arzner para os anos 30/40; e Ida Lupino para os anos 50/60. E só.

Mas, quem foi mesmo a primeira diretora de cinema do mundo?

Pois é, hoje não há mais dúvidas: foi a francesa Alice Guy, mais tarde Alice Guy-Blaché (1873-1968), não só a primeira a dirigir, como a primeira a roteirizar e produzir filmes.

Nascida em Saint-Mandé, Alice era filha de um grande livreiro, com ramificações comerciais no Chile. Com a falência dos negócios e a morte do pai, Alice, muito nova, fez curso de datilografia e foi trabalhar na empresa fotográfica de Leon Gaumont. Quando Gaumont, depois da invenção dos irmãos Lumière, mudou da fotografia para a película cinematográfica, ela sentiu-se em casa. Com o apoio do patrão, roteirizou e rodou um filmezinho curto (naquela época, fins do século XIX, todo filme era curto, com duração de minutos), chamado “A fada do repolho” (1896) que contava a lenda de como os bebês nasciam desse vegetal. O filme foi muito bem aceito pelo público e Gaumont não teve outro jeito, a não ser lhe abrir caminho para mais e mais.

Daí a pouco Alice estava produzindo e dirigindo dezenas de filmes, com uma vantagem sobre o seu concorrente George Méliès: é que, menos descritivos que os dele, seus filmes introduziam, de forma mais ou menos sistemática, o elemento que seria essencial no que veio, mais tarde, a se chamar de Sétima Arte, a saber, a narratividade. Em outras palavras: eram filmes que contavam uma estória com começo, meio e fim.

Dos curtas de poucos minutos, Alice partiu para metragens mais longas e, em 1906, lançou “A vida de Cristo”, com mais de meia hora de duração, uma produção cara, cheia de requintes técnicos, com mais de 300 figurantes, cenários próprios e efeitos especiais.

A fada do repolho (1896)

Até então ela era Alice Guy, mas conheceu um colega de trabalho, apaixonou-se e casou com Herbert Blaché, que representava os negócios de Gaumont nos Estados Unidos. Mudaram-se para Nova Iorque e lá fundaram, em 1910, a Companhia cinematográfica Solax, e Alice foi, assim, a primeira mulher no mundo a dirigir um Estúdio de Cinema – isto antes de Hollywood sequer existir. O sucesso do empreendimento foi tamanho que, logo mais, gerou uma extensão, ainda maior, da Solax Company, em Fort Lee, Nova Jersey.

Bem no topo do sucesso profissional, de repente, a coisa começou a desandar. Envolvido com amantes, inclusive com uma das atrizes da Companhia, Blaché revelou-se um empresário inseguro e desastrado, fazendo transações que começaram a dar errado. Enfim, a competição com o agora emergente cinema do Oeste, e fatores de ordem familiar, levaram a Companhia cinematográfica à falência, e o casal, ao divórcio.

Leiloado o Estúdio da família, Alice voltou a seu país de origem, a França, e nunca mais fez cinema. Em 1927, viajou à América e fez uma tentativa de realização, que não vingou, retornando à França mais uma vez. Em 1964 é que foi morar, com uma das filhas nos Estados Unidos, onde terminaria os seus dias.

A vida de Cristo (1906)

O último filme de Alice data de 1920, mas, hoje sabe-se que o total de sua filmografia supera a casa dos mil, entre os quais estão 22 longas metragens. Sem os cuidados de preservação, e muito menos ainda os de direitos autorais, a maior parte dessa produção se perdeu, e hoje os seus títulos disponíveis estão em torno de trezentos e cinquenta.

Afastada do cinema desde então, e mal reconhecida pela historiografia, Alice veio a falecer em 1968, aos 94 anos de idade, num asilo para idosos, em Mahwah, Nova Jersey.

A autobiografia de Alice Guy-Blaché, publicada na França nos anos quarenta, foi traduzida para o inglês e editada nos Estados Unidos nos anos oitenta – fator que convenceu estudiosos do ramo a revisar a importância de seu papel na história do cinema mundial, e hoje algumas Fundações e Festivais de cinema oferecem prêmios que levam o seu nome.

Uma coisa é certa: a estória de Alice Guy-Blaché daria um belo filme, daqueles para ganhar Oscar.

Alice Guy-Blaché, a primeira cineasta.

 

Em tempo: alguns dos filmes de Alice Guy-Blaché estão disponíveis no Youtube, inclusive um belo documentário sobre sua vida e obra, “The lost garden – the life and cinema of Alice Guy-Blaché” (Marquise Lepage, 1995), narrado em inglês, sem legendas.

“Frantz”, ou, anotações de um saudosista

13 jun

Quando a projeção de “Frantz” (François Ozon, 2016) começou tive a estranha sensação de estar no velho Cine Plaza – ou poderia ser no Rex – dos anos cinquenta.

A fotografia preto-e-branco, os primeiros delicados passos da estória, o modo suave, e ao mesmo tempo denso, de conduzir os atores e a mise-en-scène… essas coisas me deram essa ilusão, vaga e passageira. No fundo uma mentira que os saudosistas, como eu, às vezes produzem para se sentirem felizes.

Mais adiante, no desenrolar da estória, constatei que o filme também é sobre ilusões e mentiras salvadoras… mas vamos com calma.

Estamos no imediato pós-primeira guerra mundial, numa cidadezinha, Quedlinburg, da derrotada Alemanha. Com suas flores, a jovem Anna visita o túmulo do noivo, Frantz, morto em batalha. Faz isso sempre, mas um dia descobre que o túmulo também é visitado por outrem, um jovem francês, portanto, em princípio, um inimigo.

Os dois vêm a se conhecer, fazem amizade, e a presença desse jovem francês, Adrien Rivoire, termina conquistando o afeto, não só de Anna, mas dos sogros, com quem ela hoje reside. Adrien alega ter sido amigo de Frantz, em Paris, antes da guerra, e o que ele conta vira, para nós espectadores, imagem colorida em um filme preto-e-branco.

Quatro pessoas vivendo da memória de um ente querido cujo corpo sequer foi encontrado, o túmulo no cemitério local sendo só uma convenção. Por um tempo, o filme parece ser apenas sobre o trabalho do luto, que a gente sabe ser lento e penoso, mas que o tempo ajuda a abrandar.

Os pais do falecido Frantz cada vez mais se afeiçoam a esse frágil e melancólico Adrien, que, com o tempo, vai se configurando numa espécie de substituto para o filho perdido, e, por que não, um pretendente possível para essa solitária Anna, que desde a guerra não se interessa por ninguém.

Superado o luto, se não a felicidade, ao menos a paz – supomos nós – deverá voltar a reinar nessa família devastada. Mas não é assim, digo, não é este o rumo que a narrativa toma. Infelizmente, uma devastação mais lancinante está por vir.

Considerando que, no Festival Varilux, o filme ainda está em cartaz, e que nem todos os meus leitores o viram, não sei se devo contar o resto da estória. Acho que não. Digo, portanto, apenas, que no seu meio termo, o filme contém um turning point cruciante, que vem numa revelação a Anna, feita pelo amigo Adrien. O que ele contara até então, sobre sua amizade com Frantz era mentira, e a verdade é outra, bem mais dura.

E é a partir daí, então, que a mentira passa a ser uma estratégia de sobrevivência, a que me referi acima. Se Adrien mentira, agora é a vez de Anna.

E pensar que tudo gira em torno de um quadro de Manet! Belo filme sobre a violência da guerra, o peso da culpa, o luto, a dor, a mentira, o amor, o perdão e a inocência, sim, a inocência e a felicidade nela desesperadamente agarrada. Entre outras coisas, prestem atenção à fotografia, curiosamente e contra as convenções, preto-e-branco para o presente e a verdade, e colorida para o passado e a mentira.

No meu devaneio saudosista, vários filmes antigos me vieram à mente, filmes sobre os efeitos deletérios das guerras. Acho que todo mundo vai lembrar-se de “Jules et Jim” (1962), estória também da Primeira Guerra, também envolvendo dois ex-soldados, um alemão, o outro francês, e uma mulher entre eles.

Mas um que me veio com mais força é mais antigo: foi “Sagrado e profano” (“Desire me”, 1947) em que uma jovem viúva de guerra recebe a visita, e depois o cortejo, de um amigo do esposo morto na guerra. Ela não sabe, mas, nos campos de batalha, o esposo lia, para esse amigo, as cartas da mulher amada, e, de tanto ouvir essas leituras, o amigo se apaixonara pela remetente. Por isso, finda a guerra, a procura. Agora, quando um caso de amor está para se formar entre o visitante e a viúva, descobre-se a verdade mais improvável…

O fato é que a associação deste filme atual do cineasta François Ozon com filmes antigos fazia sentido desde o início.

Na verdade, “Frantz” é, sim, uma refilmagem de um clássico da Hollywood dos anos trinta, que, como esperado, teve outro título. Dirigido pelo grande Ernst Lubitsch em 1931, o filme recebeu o belo e sugestivo título original de “Broken lullaby” (“acalanto quebrado”) que os distribuidores brasileiros, com o mau gosto de sempre, re-intitularam de “Não matarás”.

Não conheço ainda o filme de Lubitsch, mas estou à procura. Saudosista viciado, quero voltar ao Plaza, ou ao Rex, ou talvez, quem sabe, mais para trás ainda, ao Cine São Pedro, ali perto da Praça da Pedra, onde assisti ao primeiro filme de minha vida, e onde, com certeza, “Broken lullaby” deve ter sido exibido.

Ainda Truffaut

3 nov

Um velho sonho do cineasta francês François Truffaut era rodar um filme sobre a França ocupada – tempo em que ele era criança. Outro sonho igualmente caro era rodar um filme sobre os bastidores do mundo teatral.

Como está contado em sua biografia (Conferir livro de Antoine de Baeque, Record, 1998) em 29 de abril de 1979, ele adentra o escritório de sua colega de métier, a roteirista Suzanne Schiffman, com dois dossiês debaixo do braço, um sobre a Ocupação, o outro sobre o Teatro, e vai proclamando, decisivo: “Vamos fazer um filme sobre os dois”.

A partir desse momento, as mangas arregaçam-se e, no ano seguinte, já estreava, nos cinemas de Paris e do mundo, o filme “O último metrô” (“Le dernier métro”, 1980) – recentemente exibido nos cinemas do Manaíra Shopping, na Mostra Truffaut, a que me referi em artigo anterior.

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O título deve-se ao fato de que, na Paris sob o jugo alemão, o cidadão não podia perambular tarde da noite, e onze horas era o horário do último metrô, que os espectadores de teatro e cinema, ou frequentadores de boates e bares, deviam tomar. De forma que os espetáculos deviam terminar bem antes das onze, para a comodidade de todos.

Esse cuidado com horários tem-se no Teatro Montmartre, dirigido pela Sra Marion Steiner (Cathérine Deneuve), desde que seu esposo, o judeu Lucas Steiner (Heinz Bennent), fugiu para a América do Sul. As atividades do teatro são observadas de longe e de perto pelo crítico germanófilo Daxiat (Jean-Louis Richard), porém, o que o crítico espião não sabe é que o Sr Steiner nunca deixou Paris: sobrevive escondido no porão do teatro, fato só conhecido da esposa, e mais ninguém.

Quando o filme inicia-se, a companhia teatral está ensaiando as primeiras cenas de uma nova peça, que promete ser um sucesso, “A desaparecida”. A atriz principal é a própria Marion, e um novo ator em ascensão foi contratado para o papel masculino, e acaba de chegar: o mulherengo convicto Bernard Granger (Gérard Depardieu).

Depardieu e Deneuve.

Depardieu e Deneuve.

A estória desenrola-se em três espaços: o palco onde encena-se a peça; o porão em que Steiner leva sua vida subterrânea de “prisioneiro”; e as ruas da cidade onde as fardas alemãs enchem a vista e onde o termo ´judeu´ é pronunciado como se obsceno fosse.

Embora, no grosso da estória, prevaleça o triângulo amoroso que será formado, mais tarde, por Marion (a esposa), Steiner (o marido) e Bernard (o amante), a narração abarca praticamente todos os envolvidos na atividade teatral, do iluminador ao garoto que é convidado para fazer uma ponta, passando pelo diretor sempre indeciso e pela figurinista lésbica que se envolve com uma das atrizes secundárias. E nisso, chega a ser uma lição de ribalta.

Sobre “O último metrô”, em entrevista à crítica Anne Gillain, Traffaut confessou uma vez que, depois de dezenove filmes realizados, era esperável que conceitos ou imagens dos anteriores recorressem. E, de fato, o filme em questão nos remete, de forma bem direta, a duas de suas realizações mais marcantes: “A noite americana” (1973), sobre os bastidores do mundo cinematográfico, e “Jules et Jim” (1961), sobre as ressonâncias emotivas de um idêntico triângulo amoroso.

A polícia nazista nos bastidores do Teatro.

A polícia nazista nos bastidores do Teatro.

Embora em cores, o filme traz uma fotografia escura (de Nestor Almendros) que reflete o clima de obscurantismo na França ocupada, com seu moralismo dúbio, onde, por toda parte, paira o fantasma feio do colaboracionismo. Neste sentido, o porão do Sr Steiner ganha foros simbólicos, com suas velas e seu silêncio obrigatório.

À parte a questão da fidelidade à história, no plano da expressão, verdade estética prevalece sobre realismo, como, aliás, é comum acontecer em Truffaut. Por exemplo: sabemos que, no verão europeu, os dias são mais longos, mas Truffaut faz noite logo cedo, pois a noite, no filme é um tema, e não uma mera etapa do dia. Outro exemplo: o dispositivo elétrico que Steiner engendra para, do porão, poder escutar tudo o que se fala no palco do teatro pode não convencer o espectador mais afeito ao realismo tout court, porém, Truffaut não resiste em, com ele, incrementar o drama amoroso que fará esse mesmo espectador aceitar, mais tarde, quando Steiner disser a Bernard que sua esposa, Marion, está apaixonada por ele, Bernard.

No geral, a vida dos franceses sob o jugo alemão parece ilusória, como ilusória é a ficção teatral, e, nesse aspecto, a roteirização soube criar um desenlace apropriado (não vou contar) que, por um tempo, “ilude” o espectador como um passe de mágica, para só depois lhe oferecer a verdade.

Belo filme que, no seu tempo, arrebatou nada menos que dez Césars. Mui merecidamente.

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