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“NAPOLEÃO” DE ABEL GANCE

4 nov

No dia sete de abril de 1927 estreava, com grande alarde, no Opéra de Paris, o clássico Napoleão, de Abel Gance. O filme nunca mais deixou de dar o que falar, conquistando um lugar quase cativo entre os melhores da crítica internacional.

Um crítico exigente como Leslie Halliwell lhe concede todas as estrelas de seu julgamento e lhe destaca a “velocidade narrativa e o faro de composição”; Jean Mitry lhe aponta a “exuberância genial”; Georges Sadoul chama atenção para a “pesquisa de movimento de câmera”. O crítico americano Tony Payne elogia a “poesia grandiloquente de sua narrativa puramente visual, que nenhum superlativo consegue descrever”. Para Leonard Maltin trata-se de um “épico mudo monumental” e para Steven Scheuer, “essa obra prima suprema é um dos maiores filmes já feitos, um evento que nenhum cinéfilo pode perder”.

Bem, se fôssemos catar encômios à obra de Abel Gance (1889-1981), esse “Victor Hugo do cinema francês”, não teríamos espaço para outras coisas. Digamos de início que o seu filme é, no mínimo, grande em todos os sentidos, inclusive o material. Concebido para cobrir a vida completa do imperador francês em seis longas partes, o que se tem em Napoleão é a mera primeira parte (as outras nunca chegariam a ser rodadas), que vai da infância à conquista da Itália, isso em mais de quatro horas de projeção.

O filme faz a apologia apaixonada de Napoleão Bonaparte e, claro, a sua inspiração cinematográfica não podia ter sido outra, senão o cinema épico e igualmente megalomaníaco e passional de D. W. Griffith, evidentemente o Griffith de Nascimento de uma nação (1915) e Intolerância (1916): do primeiro, Napoleão tem, digamos assim, a incorreção política (o mesmo fascismo assumido) e deste segundo, a ousadia plástica e estrutural, particularmente no que toca aos procedimentos de montagem e uso da câmera.

Rodado entre 1925 e 1927, quando o cinema ainda era mudo, Napoleão vem sendo refeito ao longo das décadas e já em 1934 o próprio Gance experimentou ousadias técnicas, como o adicionamento do som estereofônico e a colocação das falas dos atores. Nessas novas versões, (uma das quais, bolada em co-autoria com Claude Lelouch, se reintitulou Bonaparte e a revolução, 1970), elementos diversos têm sido cortados ou adicionados, mas com certeza, a mais satisfatória de todas é a versão que sintetiza as anteriores, a cuidadosamente restaurada, ao longo de vinte anos, pelo historiador inglês Kevin Brownlow, pela primeira vez relançada em 1981, com música de Carmine Coppola, sim, o pai do cineasta Francis Ford.

Esta é a versão que pode ser vista em vídeo, embora, lamentavelmente, a grandiosidade do filme se perca na telinha. Por exemplo, a tela tripla que está na meia hora final de Napoleão, precursora do futuro cinerama, resulta completamente ridícula no vídeo, e vejam que essa “polivisão” está muito longe de ser a única inovação técnica de Gance. Na verdade, em poucos cineastas a técnica esteve tão a serviço da estética. De todo jeito, ainda que a visão tacanha do vídeo prejudique os efeitos, é possível sentir o impacto de certos procedimentos, como, por exemplo, a sobreimpressão, a exploração da plástica e o uso da montagem.

Um caso exemplar é aquela cena em que o protagonista, ainda um mero tenente em Córsega, enfrenta, de frente e de perto, o olhar de seus inimigos políticos, que o circundam em corjas. Expondo o seu rosto destemido e ameaçador em primeiro plano, a montagem intercala, em ritmo célere, a imagem da águia que fora tão importante na sua infância, até sobrepor as duas coisas, numa visão monstruosa que assusta os presentes… e os espectadores.

Os comentadores adoram citar como momentos antológicos a cena inicial da luta com bolas de neve, no colégio, e a final, da retirada dos batalhões na Itália, em tela tripartite, mas com certeza, uma das sequências mais impressionantes do filme é aquela intermediária, quando Napoleão escapa de sua ilha natal num barco cuja vela é a bandeira da França, e em alto mediterrâneo é vítima de uma tempestade. Enquanto isso, no Reino de Terror de Paris, os políticos e o povo se desentendem na Vigésima Quinta Convenção e a narração faz a montagem intercalar a tempestade real de Napoleão com a “tempestade” figurada da população parisiense.

Pois bem, com um domínio de ação humana e física inacreditável, Gance, mostrando em plongée dinâmica, ora a superfície convulsa do mar, ora a “superfície” da multidão que se aglomera em torno dos políticos, cria uma simetria de movimentos onde o mar toma os contornos de gente, e a gente, os do mar. O efeito plástico, conseguido – segundo consta, com a câmera pendurada num balanço – é único em cinema, e inesquecível.

Aliás, por falar em multidão, não foi somente na frente da câmera que atuou uma verdadeira multidão, mas também por trás dela. Embora seja de Gance o roteiro, a direção e a montagem, e, sobretudo, a perspectiva estilística do filme, Napoleão é um trabalho de conjunto que envolveu um número enorme de profissionais em todas as instâncias: não só alguns, mas uma equipe inteira foi assistente de direção, uma outra fez a fotografia, e ainda uma outra cuidou do cenário.

Coordenando tudo, Gance nunca perdeu o fio da meada criativo e o forte sentido de individualidade para compor, a um só tempo e de uma maneira insuperável, epopeia e lirismo. O seu idiossincrático e inusitado (pelo menos até então) uso da câmera é um exemplo que vem ao caso, quando ele optou por colocá-la em lugares tão improváveis para a época quanto o dorso de um cavalo desgovernado e sem cavaleiro, ou simplesmente debaixo d’água.

Ainda hoje se contam anedotas sobre as suas extravagâncias, como aquela segundo a qual teria literalmente lançado a câmera no ar para obter determinado efeito, depois do que o aparelho, sob os protestos da produção, teria se esfacelado. No elenco está um Albert Dieudonné hipnotizante como o Napoleão adulto, e se procuramos com calma, ainda vamos achar um Antonin Artaud, e o próprio Abel Gance.

Dizem que Napoleão teria sido o filme preferido de De Gaulle e a inspiração pessoal para a construção de seu próprio perfil, mas esta é outra história, que não me cabe contar.

CREPÚSCULO DOS DEUSES – setenta anos

22 mar

Há filmes que são maiores que o cinema. Filmes que são grandes, não apenas na história da sétima arte, mas na historia da Arte como um todo. Acho que é o caso de “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950), que por sinal está, neste ano de 2020, completando setenta anos.

E de sobra é também um filme sobre a história do próprio cinema, ou ao menos uma parte dela. Conta o drama de uma grande estrela da era muda, há muito aposentada, Norma Desmond (Gloria Swanson), que, nos seus cinquenta anos de idade, ou seja, no auge do cinema falado, amarga a solidão, o oblívio e a decadência. Decadência que ela atribui, não a si mesma, mas ao cinema falado: “Eu sou grande – diz ela – os filmes é que ficaram pequenos”.

Ora, o acaso lhe põe dentro de casa (digo, dentro de sua luxuosa mansão do sofisticado bulevar Sunset) um jovem roteirista de Hollywood, e, de repente, ela vê nele a esperança de um retorno retumbante às telas. Eufórica com a alternativa desse retorno, ela literalmente compra esse jovem roteirista em dificuldade financeira, que deve transformar uma mirabolante estória, escrita por ela mesma, num brilhante roteiro de filme que deverá ser um sucesso de crítica e público.

Gloria Swanson é Norma Desmond

Mesmo a contragosto, ele, Joe Gillis (William Holden) passa a residir na mansão de Norma Desmond, que o mima com luxos que ele nunca conhecera. O rapaz, por sua vez, entra em crise no dia em que percebe que não é mais, para a velha estrela, apenas um empregado, e sim, um suposto amante. Numa noite de vinho e tango, os dois quase a sós na velha mansão, ele recusa esse amor, e o corolário inevitável é, da parte dela, uma tentativa de suicídio.

A partir daí, a situação se torna insustentável e o pior está por vir. Mas, ora, esse pior já nos havia sido mostrado na abertura do filme: o corpo de um jovem roteirista, boiando na piscina com três tiros nas costas. A cena é plasticamente impressionante, pois vemos tudo de baixo pra cima como se estivéssemos, nós espectadores, no fundo da piscina. E tem mais, como em Machado de Assis, quem nos conta a estória toda, em seus mínimos detalhes é esse cadáver.

Brilhante.

Billy Wilder e Charles Brackett escreveram o roteiro juntos, roteiro que vagamente se baseou num boato criminal antigo, do tempo do cinema mudo, em que a atriz Norma Talmage estaria, ou não, envolvida no assassinato do cineasta William Desmond Taylor. A estória do filme ficou diferente, porém, de todo jeito, o nome da protagonista – Norma Desmond – veio da mistura dos dois envolvidos nesse caso obscuro.

Holden e Swanson em cena do filme

A primeira ideia da dupla era começar o filme com uma cena numa mortuária, com dois cadáveres conversando, um contando sua morte ao outro. Por sorte, desistiram e bolaram a cena da piscina, que aliás, deu um trabalho danado ao diretor de arte, John Mehen, já que a câmera não poderia se molhar, e ele teve que usar de criatividade para inventar uma tomada dentro de um tanque, com a câmera envolta em vidro.

Tempos depois da consagração universal do filme, Wilder disse à imprensa que era para ter sido uma comédia, com Mae West e Marlon Brando no elenco, mas, pessoalmente, não acredito: Wilder, como se sabe, era mestre em gozações.

Na verdade, o elenco primeiramente pensado era outro. O primeiro nome para fazer Joe Gillis não tinha perfil de cômico, Montgomery Clift, que, por motivos pessoais, desistiu antes de as filmagens começarem. O papel de Norma Desmond era para ter sido de Greta Garbo, ou Mary Pickford, ambas estrelas do passado que recusaram, mas hoje ninguém tem dúvidas que a escolha de Gloria Swanson – ela também uma diva do passado mudo – deu muito certo. Seu desempenho apropriadamente afetado foi perfeito, e muitas de suas cenas se tornaram antológicas, a exemplo, da sempre citada tomada do final, em que a velha atriz enlouquece de vez e, na chegada da polícia (foi ela quem atirou nas costas de Joe Gillis, na borda da piscina) pensa estar sendo filmada pela Paramount e, arrebatada pelas luzes, solta sua frase definitiva: “Estou pronta, Mr DeMille, para o meu close up”. (Referia-se ao cineasta da Paramount Cecil B. DeMille).

Depois desse papel, Gloria Swanson realmente decaiu e praticamente não filmou mais. Os personagens que lhe ofereciam, depois disso, eram derivações canhestras de Norma Desmond, que ela, felizmente, teve a sensatez de recusar.

Já Billy Wilder e Charles Brackett brigaram furiosamente sobre o modo de efetuar a montagem, este tentando amenizar o sentido mórbido do filme (lembram o velório do macaco?) e aquele enfatizando justamente isso.  E nunca mais trabalharam juntos.

Mas, a glória de “Crepúsculo dos deuses” está aí, pra quem quiser comprovar. Depois de setenta anos, parece cada vez mais forte, mas definitivo e mais tragicamente belo.

Escritores que cometeram crítica de cinema

25 jul

Poetas ou ficcionistas, há escritores cujas obras lembram cinema. A poesia de João Cabral, por exemplo, ele mesmo insistia em dizer, tem muito de cinematográfica. Em alguns casos, até escritores do passado, quando a sétima arte sequer existia, já pareciam fílmicos. Dickens é um caso óbvio, citado pelo cineasta pioneiro D. W. Griffith, mas acho que Sthendal, Tolstoi e Balzac também.

Mas não é disso quero tratar aqui.

Aqui quero tratar de profissionais que, tendo se notabilizado como escritores, conheceram, sim, o cinema e, bem antes do ofício literário, e/ou científico, cometeram a crítica cinematográfica – geralmente uma crítica praticada no ardor da juventude, e de que hoje pouco se tem notícia.

Gabriel Garcia Marquez, crítico de cinema, antes de ser escritor.

São em número bem maior do que pensamos, ou sabemos, mas aqui me concentro em quatro ou cinco casos, suficientemente ilustrativos.

Comecemos como o autor de “Cem anos de solidão”.

Sim, você sabia que o colombiano Gabriel Garcia Marquez fez crítica de cinema na juventude? Pois é. Eu vim a saber disso muito tardiamente, décadas depois de ter lido seus romances e novelas, e de ter visto suas adaptações para a tela. Como soube? Foi o meu saudoso amigo e colega de labuta crítica Antônio Barreto Neto quem me passou a informação. Informação nada, ele me deu de presente o livro em que está editada toda a crítica cinematográfica de Garcia Marquez, este ainda um jovem jornalista, comentando as ´películas´ – quase todas americanas – exibidas nos cinemas locais de Bogotá. Quem quiser provas, o livro que Barreto me deu está aqui, na minha estante, me fitando de longe.

A essa altura dos acontecimentos, imagino que já foi feita alguma tese de doutorado, catando, nesses escritos sobre cinema, elementos que possam ter alimentado a ficção de Garcia Marquez. Se não foi, que se faça!

O pernambucano Josué de Castro.

O segundo caso que cito é brasileiro, o do nosso cientista e pensador social Josué de Castro. Bem antes de ficar conhecido como o teórico da fome, Josué de Castro foi um apaixonado pela sétima arte, cuja autonomia estética defendeu com unhas e dentes. Seus escritos de crítica datam do início dos anos trinta, quando o cinema acabara de ganhar o acréscimo do som, aliás, um acréscimo que ele abominava. Assim, gastou tempo e energia redigindo ensaios em que defendia a pureza da imagem. No seu entender, para alcançar a condição de arte pura, o cinema precisava livrar-se da herança do teatro e da literatura, e, por isso mesmo, o advento do som lhe era malsão. Seu posicionamento coincidiu com o de Chaplin, mas, ele nem precisou de endosso alheio para alardeá-lo.

Que relação essa posição terá com sua obra posterior eu não sei, mas é, sim, instigante rever o autor de “A geografia da fome” como um esteta radical a defender a imagem pura. Cá comigo, fico pensando se alguém não já teve a ideia de juntar os dois Josués e rodar um documentário sem som nem fala… sobre a fome.

Um terceiro caso que me vem à memória é o do romancista inglês Graham Greene. Tudo bem, seus romances quase todos viraram filmes e ele mesmo seria, mais tarde, convidado por Hollywood para ser roteirista. Nada disso, porém, impede que o inclua neste rol que aqui apresento, por uma razão simples – bem antes de ser romancista, ainda na juventude, ele fez crítica de cinema, e de modo sistemático. A coisa literária viria depois, como veio depois o métier de roteirista.

O inglês Graham Greene.

Dele possuo um livro que coleta sua produção de crítico cinematográfico, um belo volume chamado “Mornings in the dark” (“Manhãs no escuro”), com artigos publicados em jornais londrinos a um tempo em que ninguém, no âmbito literário, sabia quem era esse tal de Graham Greene.

Um quarto caso a citar é o do nosso Vinicius de Moraes, famoso pela poesia publicada e pelas músicas compostas e cantadas, porém, “um desconhecido crítico de cinema”.

Só os mais idosos vão lembrar as tantas “crônicas de cinema” que o nosso mais tarde embaixador e poeta veiculou com assiduidade profissional, nos jornais cariocas, nos anos quarenta. Como Josué de Castro, Vinicius também foi um defensor da tela muda, mas, o melhor de seus escritos está na simplicidade com que falava de seu amor ao cinema e daquilo que seria o perfil do espectador autêntico.

Por sorte, seu trabalho de crítico cinematográfico foi resgatado das velhas páginas de jornal e está no delicioso “O cinema dos meus olhos”, livro organizado e editado pelo jornalista Carlos Augusto Calil. É conferir.

Vinicius de Moraes, o crítico de cinema.