Tag Archives: cinema nacional

O filme da minha vida

8 ago

Interessante notar como, no cinema de hoje em dia, está se tornando cada vez mais comum a referência ao cinema do passado. Quem faz isto, e o faz muito bem, é o filme de Selton Mello “O filme da minha vida” (2017). Nele o western clássico “Rio Vermelho” (Howard Hawks, 1948) desempenha o papel de intertexto, e um intertexto importante, uma vez que partilha uma porção de sua temática, a saber, o conflito entre pai e filho, no caso, feitos por John Wayne e Montgomery Clift.

Narrado em primeira pessoa, o filme conta a estória desse rapaz de 23 anos, Tony (Johnny Massaro), professor de francês na pequena Remanso, RG, que vive entre a saudade do pai desaparecido (o francês Vincent Cassel) e os conflitos sexuais de seus alunos, conflitos que também são seus, sempre indeciso entre duas irmãs, tão ambíguas quanto ele mesmo. Nessa busca de maturidade, ninguém o ajuda, muito menos o criador de porcos Paco (o próprio Selton Mello), amigo da família, figura sempre presente, meio “candidato a pai”, e que um dia, a contragosto, o leva à Fronteira, para uma experiência com prostitutas. Conduzido pelo trem de um maquinista meio filósofo (Rolando Boldrin), Tony termina por descobrir o paradeiro paterno e isso tem a ver com cinema, especialmente com o sempre citado “Rio Vermelho” de Hawks.

O filme adapta o livro do escritor chileno Antonio Skármeta, “Um pai de filme” (2010), porém, a adaptação é relativamente livre. Por exemplo, o filme referido no livro também é um western de Howard Hawks, mas não é o tão adequado à estória “Rio Vermelho”, e sim, “Rio Bravo” (1959) cujo título brasileiro foi, na verdade, “Onde começa o inferno”.

De qualquer forma, podemos dizer que ambos, livro adaptado e filme adaptador têm intertextos fílmicos. Para dizer a verdade, desconfio que em ambos, digo, no livro e no filme, há mais de passado cinematográfico do que a gente pensa.

Com o risco de fornecer spoilers, faço um breve resumo da estória, na perspectiva de um personagem que não é o narrador Tony. Vejam bem:

Um pai de família, que sempre foi querido e correto, comete, inadvertidamente, um grave deslize por causa de uma mulher, e, assim, desaparece do seio da família e vai viver, anônimo, noutro lugar. Ora, esse argumento está lá atrás, num filmezinho de 1940 que fez meio mundo chorar, chamado no Brasil de “Seu único pecado” e no original “The way of all flesh” (Louis King, 1940).

Em “Seu único pecado” o pai desditoso nunca volta à família, enquanto que no livro de Skármeta e no filme de Mello a narrativa providencia um final meio feliz para todos, porém, o argumento (digo, não o roteiro) é o mesmo.

Os atores Vincent Cassel e Selton Mello

O que desconfio é que, bem antes do filme de Mello, o livro de Skármeta teve, conscientemente ou não, influência de “Seu único pecado”, o que não é nada improvável, já que, ele próprio professor de cinema, Skármeta é um grande conhecedor do passado desta arte. Não é de admirar, portanto, que o filme de Mello – via livro adaptado – carregue um certo cheirinho de melodrama antigo. Vendo-o, senti esse cheirinho e foi ele que me trouxe à lembrança as lágrimas que derramamos, eu e toda uma gama de espectadores, quando assistimos a “Seu único pecado”.

Com esse passado nas costas, ou não, de todo jeito o filme de Mello agrada a todos pelas qualidades intrínsecas que possui. Uma delas é a primorosa fotografia de Walter Carvalho. Lembro que da fotografia de “Rio vermelho”, a crítica americana Pauline Kael dizia que “elevava a paisagem à categoria de personagem”. E eu pergunto, não acontece o mesmo aqui? Não me admiraria se me dissessem que Carvalho inspirou-se no preto e branco do fotógrafo Russell Harlan, pra fazer o seu colorido melancólico que nos encanta.

Em primeiro plano, Johnny Massaro no papel de Tony.

Como no livro, a estória do filme de Mello se passa em 1963, mas a direção não se preocupou muito com o rigor de datas. Alguns exemplos: uma das muitas canções que compõem a rica trilha musical do filme é “Coração de papel”, de Sérgio Reis, como se sabe um sucesso de 1967, quatro anos após o ano em que a estória ocorre. Francesas ou americanas, as outras canções tampouco obedecem a cronologias. E às vezes, assumido ou não, esse anacronismo está no diálogo: conversando com a amiga sobre cinema, Tony a escuta dizer que a atriz hollywoodiana Elizabeth Taylor já ia no terceiro casamento. Ora, o terceiro casamento de Taylor (com Michael Todd) acabou em 58, ou seja, cinco anos antes de 63.

No meu entender, esses e outros anacronismos têm uma justifica convincente. E ela ocorreu, ainda na elaboração do roteiro, no momento em que se teve o bom senso de substituir o “Rio Bravo” do livro por “Rio vermelho”. Como já dito, estória de conflito entre pai e filho, “Rio vermelho” tem tudo a ver com a temática de “O filme da minha vida”, ao passo que “Rio bravo” era, no livro, uma mera ilustração. O problema é que, enquanto “Rio Bravo”, sendo de 1959 era viável no tempo, “Rio vermelho” é de 1948, quinze anos antes da estória contada. Parece-me que essa distância temporal abriu caminhos para outras distâncias, retroativas ou prospectivas.

E, afinal de contas, nada disso atrapalha a curtição de “O filme da minha vida”, o terceiro precioso item na filmografia de um jovem talentoso cineasta que, cada vez mais, e merecidamente, conquista público e crítica.

O fotógrafo Walter Carvalho e o cineasta Selton Mello, durante as filmagens.

Anúncios

Cinema brasileiro: os 100 melhores

4 dez

Quais seriam os melhores filmes brasileiros de todos os tempos? A Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos (ABRACCINE) resolveu fazer a lista dos 100 mais, que foi recentemente divulgada na imprensa.

Para tanto, a respeitada Associação convocou os seus membros (cerca de 100), aos quais pediu uma primeira relação de 25 títulos, dispostos na ordem de preferência. Somadas todas as listas de todos os membros, a comissão organizadora, levantou os mais votados e chegou ao que seria, por enquanto, uma espécie de ´cânone brasileiro de cinema´.

A lista dos 100 eleitos recobre quase todas as décadas do século XX e mais a quinzena deste novo milênio. Digo quase porque, nos resultados da votação, ficaram de fora as duas primeiras décadas do século, quando o cinema brasileiro supostamente não teria chegado a produzir obras de peso. Outra década sem votos foi a de quarenta, auge das chanchadas brasileiras, cujo sucesso de público, como sabemos, estendeu-se à década seguinte, a de cinquenta, que, na lista da Abraccine, só conseguiu cinco votos, dos quais apenas um se enquadra no gênero chanchada: “O homem do Sputnik”.

Imagem de "Limite", o melhor de todos.

Imagem de “Limite”, o melhor de todos.

Duas outras décadas com poucos votos são também os anos trinta (2 filmes) e os noventa (6). Na década de trinta teríamos, aparentemente, uma cinematografia em formação, e quanto à de 90, está marcada pelo golpe de Collor, que deixou a produção brasileira inativa por um tempo considerável. Já a década com o maior número de realizações por ano, a de setenta, não teve um número tão elevado de votos, apenas 15. Ocorre que, em sua grande maioria, essas realizações eram – como lembramos – porno-chanchadas sem muita qualidade.

A década mais votada (com 28 filmes) foi a de sessenta, época do Cinema Novo Brasileiro, onde atuaram, sem coincidência, também os cineastas mais votados: Glauber Rocha (com 5 filmes) e Nelson Pereira dos Santos (com 4). Com esta década só concorre o novo milênio, com nada menos que 24 títulos, um dos quais o atualíssimo “Que horas ela volta”, filme de 2015.

Se os cineastas mais votados foram os cinemanovistas Glauber Rocha e Nelson Pereira, não o foram sempre por filmes dos anos sessenta, casos respectivos de “A idade da terra”, de 1981, e “Memórias do cárcere”, de 1984.  Assim como outros cineastas com maior número de votos não se encaixariam propriamente no conceito de Cinema Novo: Carlos Reichenbach, com 4 filmes e José Mojica Marins, com 3.

"O homem do Sputnik", a única chanchada eleita.

“O homem do Sputnik”, a única chanchada eleita.

Para nós, a pergunta que não quer calar: houve filme paraibano listado? Sim, dois: “Aruanda” de Linduarte Noronha (1960) aparece no nonagésimo quarto lugar, e “O país de São Saruê” de Vladimir Carvalho (1971) situa-se um pouco acima, no octogésimo segundo lugar. A esse propósito, é bom observar que um filme colocado no privilegiadíssimo quarto lugar na lista tem assunto paraibano: o documentário “Cabra marcado para morrer” de Eduardo Coutinho (1984).

A lista da Abraccine, como todas as listas, é bastante variada e polêmica. Com certeza, vai gerar controvérsias, mas acho que valeu a iniciativa de cogitar de um cânone brasileiro, quando muitos outros já foram cogitados para o cinema universal. E a Abraccine não fez só a lista. Em acordo comercial com a editora Letramento, deverá ser publicado, no próximo ano, um livro com ensaios sobre cada um dos 100 filmes eleitos, escritos, naturalmente, pelos críticos votantes.

O segundo lugar para "Deus e o diabo na terra do sol".

O segundo lugar para “Deus e o diabo na terra do sol”.

Devo dizer que sou membro da Abraccine e fui votante na referida lista. Muitos dos filmes que escolhi estão na lista (não necessariamente nas posições que lhes dei), outros não. Por exemplo, votei em “Desmundo” (2002), lhe dando um honroso quinto lugar, e o filme de Fresnot sequer apareceu na lista. Em compensação, concedi o primeiro lugar a “Limite” (1931) e lá está ele, sim, no topo da lista da Abraccine, como o melhor filme brasileiro de todos os tempos… do jeito que eu queria.

Como não disponho de espaço para arrolar a lista completa, cito ao menos os dez primeiros colocados, que são:

 

Limite (Mário Peixoto, 1031)

Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)

Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)

Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)

Terra em transe (Glauber Rocha, 1967)

O bandido da luz vermelha (Rogerio Sganzerla, 1968)

São Paulo S/A (Luís Sérgio Person, 1965)

Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002)

O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962)

Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969)

"O pagador de promessas" entre os dez mais.

“O pagador de promessas” entre os dez mais.

The gracious little daughter is back

10 set

Em cartaz “Que horas ela volta?” (2015), filme da diretora brasileira Anna Muylaert que já arrebanhou prêmios no Exterior, e agora vem tendo boa aceitação de público e crítica em território nacional. De minha parte, sou admirador de Muylaert desde o ótimo “Durval discos” (2002) e este seu filme atual só aumentou a minha admiração.

Em roteiro caprichado, trata da situação de Val, essa simplória empregada doméstica de origem nordestina que mora na residência dos patrões paulistanos, no chique Morumbi. Há 13 anos no emprego, Val é “uma pessoa da casa” que ajudou a criar o único filho da família, Fabinho, por quem nutre um carinho de mãe, e é plenamente correspondida.

1

Conflitos de classe não os há, ou se há, nunca vieram à tona. Isto até o dia em que aparece Jéssica, a filha de Val, que crescera em Pernambuco, criada por parentes. Moça instruída e esclarecida, vem a São Paulo para prestar vestibular e – a contragosto – fica no local de trabalho da mãe. Inevitavelmente, a sua presença “diferente” (palavra da mãe) acorda todos os conflitos de classe, antes convenientemente adormecidos em berço de ouro.

Tudo já começa no dia de sua chegada, quando ao invés de acomodar-se no pequeno e desumano quartinho de empregada, ela se instala no quarto de hóspedes da casa. Depois vêm o acesso à mesa da família, o consumo do sorvete mais caro, o banho proibido na piscina, e um monte de outros pequenos detalhes que insuflam indignações: as da dona da casa, e as da própria Jéssica. Até a inevitável ruptura.

Um ponto crítico está bem sinalizado no dia em que, não conseguindo o apartamento onde pretendiam morar, mãe e filha retornam, desoladas, à chique residência dos patrões. “The gracious little daughter is back”: é com esta sarcástica frase em inglês (´a graciosa filhinha está de volta´) que, na presença de Val, Bárbara comunica ao marido o retorno da moça. Val não entende inglês, mas deve ter sentido que falar língua estrangeira na presença de quem não entende é uma atitude deliberadamente hostil.

A piscina proibida

A piscina proibida

Mas os conflitos de ordem social não são os únicos no filme de Muylaert. Também há os conflitos interiores, especialmente aquele relativo às relações maternas e filiais, expresso na pergunta que intitula o filme. Vejam que há dois momentos bem diferentes em que a tal pergunta é enunciada no diálogo entre os personagens e sempre sem resposta. Uma sequência inicial, retrospectiva, mostra Val cuidando de Fabinho, ainda pequeno, lhe dizendo que a mãe está fora, e ele, então, formula justamente a pergunta “Que horas ela volta?”. Depois disso, quase no final do filme, quando mãe e filha já estão acomodadas em seu novo e próprio lar, um modesto apartamento de periferia, uma Jéssica rancorosa relata à mãe que toda vez em que esta ia visitá-la em Recife, e imediatamente retornava a São Paulo, ela, pequena e chorosa, perguntava aos que dela cuidavam: “Que horas ela volta?”. São, portanto, duas mães que, por razões pessoais, deixaram os filhos a mercê de outrem: Bárbara, a rica patroa, e Val, a pobre empregada.

Tudo indica que a estória do abandono filial se repetiria pós-tela, com a própria Jéssica que – nós e Val ficamos sabendo no final do filme – deixara um filho pequeno em Pernambuco. Digo, se repetiria, porque o filme termina com a decisão heróica de Val de criar o neto – uma espécie de compensação pelo involuntário e doído “abandono” da filha.

A família paulistana à mesa.

A família paulistana à mesa.

De qualquer forma, não há dúvidas de que Val, a empregada doméstica, é o personagem central do filme, aliás, a única que cresce ao longo da estória. Bárbara, a patroa, permanece igual a si mesma do início ao fim, e Jéssica, idem. É Val quem aprende a lição que o filme contém: é ela quem, no final, pode se dizer revolucionariamente, mete os pés na piscina proibida, e é ela quem furta o conjunto de talheres com que um dia presenteara a patroa irreconhecida. Se porventura era a sua postura sempre indistinta entre cumprimento de dever e submissão o que fazia os melhores efeitos cômicos do filme (excelente interpretação de Regina Casé), é o seu definitivo crescimento moral que vai dar ao desenlace o tom mais dramático, expresso em sua auto-demissão.

Na verdade, o filme de Muylaert é rico e permite muitas leituras. Uma delas pode ser política, se você quiser. E há pistas muito claras para isto. Por exemplo: logo após a chegada de Jéssica à mansão do Morumbi, D. Bárbara, um pouco admirada com o nível de esclarecimento da filha da empregada nordestina (que mais tarde seria aprovada no vestibular, e seu filho paulistano, não) comenta, quase de si pra si: “é, parece que o país está mudando mesmo…”.

Deixo aos mais aptos que eu o desenvolvimento desta leitura.

Regina Casé em desempenho premiado. (Sundance Film Festival).

Regina Casé em desempenho premiado. (Sundance Film Festival).