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Coisa mais linda

12 jun

Ao ler na imprensa, a semana passada, a notícia da morte de Maria Esther Bueno (1939-2018) me reportei, sentimentalmente, aos efusivos inícios dos anos sessenta, quando tudo, no país, parecia tão promissor.

A criação de Brasília, a Bossa Nova, as copas vencidas em 58 e 62, a poesia concreta, o prêmio em Cannes para “O pagador de promessa”, o Cinema Novo, a miss eleita Ieda Maria Vargas, o boxeur campeão Eder Jofre; ela, a tenista insuperável Maria Esther Bueno… Era tanta coisa boa acontecendo que nem dava – ainda – pra ter pressentimentos negativos. O que viria pela frente seria triste, só que ninguém tinha bola de cristal. Eu pelo menos, na minha ingenuidade, não tinha.

Menescal e Llyra em cena de “Coisa mais linda”.

Mas, pra dizer a verdade, antes de ler a nota de falecimento da nossa tenista maior, que tantos prêmios deu ao país, eu já estava no clima dos anos sessenta. É que, por coincidência, acabara de assistir, em um Canal de televisão paga, ao documentário de Paulo Thiago “Coisa mais linda – histórias e casos da Bossa Nova” (2005).

O filme é uma assumida e deliciosa homenagem à Bossa Nova, e, com simplicidade, mas com muito critério, nos conta os bastidores desse movimento musical que mudou a batida da Música Popular Brasileira. O título, naturalmente, vem da singela canção de Carlos Lyra, com letra de Vinicius de Moraes, que o mestre João Gilberto tão bem cantou – se também não viesse do lendário “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinicius.

A estrutura do documentário é convencional, mas quem se importa com isso? Se fosse para dissecá-lo, seriam quatro as instâncias em que se divide: (1) depoimentos de críticos e estudiosos da MPB, (2) testemunhos de músicos e compositores vivos (3) imagens de arquivos com músicos e compositores já falecidos, e, finalmente (4) as execuções das músicas pelas personagens em 2 e 3. Mas, claro, tudo isso misturado, numa ordem que tem a ver com a cronologia do movimento e – como diz o título do filme – com seus casos mais interessantes.

João Gilberto ao violão…

Esses casos são muitos e cito apenas os mais chamativos. Há o caso da produção de “Chega de saudade”, que está na origem de tudo. Há o caso do encontro Vinicius e Tom Jobim – um momento histórico em que o poetinha convida Tom para participar da peça “Orfeu de Carnaval”. Há o caso do famoso show na Faculdade de Arquitetura, o primeiro instante em que a Bossa Nova se organizou e virou publicamente um movimento musical. Há o caso do apartamento de Nara Leão – o local em que a turma bossanovista se encontrava para papear e dedilhar violões. Um dos casos curiosos é o da criação da canção “O barquinho”, segundo Roberto Menescal, motivado por um passeio marítimo verídico, com direito a pane no motor do barco, em pleno alto mar de Copacabana.

Entre os críticos que depõem sobre o movimento estão Artur da Tavola, Tarik de Souza, Nelson Motta e Sérgio Cabral. E um dos tópicos inevitáveis é, evidentemente, o diálogo da Bossa Nova com o jazz, como se sabe, tópico ainda hoje polêmico.

Joyce em depoimento.

Em imagens de arquivo, ou coetâneas, os compositores e músicos conversam sobre a Bossa Nova e nos encantam. Roberto Menescal e Carlos Lyra são os que têm mais tempo de tela, mas também vemos e ouvimos, falando ou cantando: Elizete Cardoso, Vinicius de Moraes, Nara Leão, João Gilberto, Tom Jobim, Silvinha Telles, Johnny Alf, Billy Blanco, Alaide Costa, Joyce, Kay Lira, e tantos outros. Um caso especial é o depoimento de Paulo Jobim, que revela características pessoais do pai e solfeja algumas de suas músicas. O único personagem ainda vivo que só aparece como imagem de arquivo, é o mestre João Gilberto, pois, segundo consta, ele, por alguma razão nada clara, teria se recusado a participar do filme.

Com relação aos espectadores jovens eu não sei dizer nada, mas, para o pessoal da minha geração que viveu a primeira fase eufórica e otimista da década de sessenta, o filme de Paulo Thiago é um bálsamo de saudade. Sobretudo quando você compara o marasmo musical de hoje em dia com a riqueza artística daquela época.

De vinte anos para cá, um número grande de documentários sobre a MBP vem sendo rodado no país, com relativo sucesso. Eu mesmo escrevi sobre muitos deles. Por mero acidente, “Coisa mais linda” me escapara e, agora que o vejo, constato que ele está nesse rol e muito bem colocado.

Bem que merece o título que tem.

A musa Nara Leão.

Cinema Novo

13 mar

Já vai fazer um ano que, no último Festival de Cannes o prêmio “L´Oeil d´Or”, de melhor documentário, foi para um filme brasileiro: “Cinema Novo” (2016), de Eryk Rocha. Beleza. Ponto para nós, mas, e o filme? Onde foi possível vê-lo?

Se você não é porventura “barata” de festivais de cinema, teve que esperar que ele chegasse ao circuito comercial de sua cidade. Se é que chegou. Na maior parte dos casos, não. No meu caso, permaneceria como mais um “ilustre desconhecido”, não fosse a iniciativa do Canal Brasil de incluí-lo na sua programação.

O filme é um ensaio audio-visual, com imagens e sons do movimento de cinema que projetou o Brasil cultural e artístico para fora de seus limites geográficos e deixou uma proposta, estética e política, ainda hoje reverberante.

Como afirma o seu autor, não é um filme “sobre”, mas, “com” o Cinema Novo Brasileiro, e essa mudança de preposições é importante. Não há nele, por exemplo, depoimentos atuais de críticos ou historiadores – sequer de cineastas – que pudessem nos dar um, digamos, discurso revisionista desse movimento cinematográfico. Não. Todas as imagens (incluindo os depoimentos) são “de época”, ou seja, é o Cinema Novo Brasileiro falando dele mesmo.

E, para dizer a verdade, falando pouco (se entendermos falar como gesto verbal), pois o que predomina são as muitas imagens dos muitos filmes – somadas às imagens “periféricas” ao movimento cinemanovista, como as dos filmes de Humberto Mauro, Mário Peixoto, Alberto Cavalcanti, Linduarte Noronha e outros – tudo montado de uma maneira pessoal (sem créditos justapostos), conduzindo, menos à informação histórica que a um poema plástico.

Tanto é assim que o autor, em vários momentos, se dá ao luxo de brincar com isotopias visuais, como naquelas séries encadeadas de imagens de filmes diversos que mostram, ora pessoas correndo, ora dançando, ora discursando, isto independentemente das relações temáticas que possam ter existido entre filmes tão diferentes quanto, digamos, “Menino de engenho”, “Terra em transe”, ou “Macunaíma”.

Inspirado – segundo depoimento seu – no conceito de “cinema cachoeira” de Humberto Mauro, o autor buscou, de propósito, essa ressignificação que, propiciada pela edição criativa, transforma o enorme material disponível (cerca de 130 fontes) num novo filme, um filme atual. Como afirmou o autor em entrevista: “Cinema Novo quer falar de hoje, de agora”.

Já que quer falar de agora, fico pensando nos seus receptores. Inevitavelmente, há dois tipos de espectador para ele. Aquele mais coroa, que conheceu o cinema realizado no país nos anos sessenta e, portanto, viu os filmes mostrados dentro do filme; e o jovem de hoje, que só conhece o Cinema Novo Brasileiro de ouvir falar. Eu, que me ponho na primeira categoria, não duvido que o efeito poético pretendido valha para os dois, porém, com certeza, sua forma de acontecer, e mesmo sua intensidade, será diferente para cada caso. Ou estou enganado?

Ainda segundo Eryk Rocha (36 anos de idade, filho de Glauber), uma coisa que o filme retoma do Cinema Novo Brasileiro seria o seu “projeto de formação de público”.

O que nos remete aos anos sessenta, quando o Cinema Novo Brasileiro era novo, com a pergunta inevitável: até onde houve formação de público?

A propósito da questão, ocorreu-me consultar estatísticas que pudessem porventura ajudar na compreensão do fenômeno. Vejam bem, a produção brasileira de cinema, na década de sessenta – a década do CNB – foi exatamente de 442 filmes. Tive o cuidado de repassar, um a um, esses 442 títulos, para identificar quais deles caberiam na rubrica CNB.

Segundo minha observação, apenas 40 comportariam essa rubrica, o que significa dizer que todo o CNB constituiu cerca de 9% da produção realizada na sua década. Se considerarmos que nem todos, dentre esses 40 filmes, foram exibidos em circuitos comerciais, o que deduzimos? Que nos anos 60, o grande público, aquele chamado de espectador comum, conheceu mal, ou não conheceu o CNB. E que, portanto, se houve “formação de público” foi precária, muito precária. Sejamos realistas: o pessoal cinéfilo da época (onde me incluo) saiu de casa correndo para ver “Os fuzis”, “Vidas secas” e “Deus e o diabo na terra do sol”, mas, não consta (e mais estatísticas confirmariam isso) que o espectador comum tenha ido junto.

Sem coincidência, abri esta matéria falando da dificuldade que tive para ver “Cinema Novo”, o filme. E de como só cheguei a ele por interesse particular. Acho que não preciso explicar mais nada. Parece-me que, antes da questão de um projeto de formação de público, há um buraco mais embaixo: a distribuição de cinema brasileiro no Brasil. Formação pressupõe contato: simples assim.

Enfim, gostei do filme de Eryk Rocha, cheguei a emocionar-me em certos momentos, mas quem sou eu? Um cinéfilo solitário, que está muito longe de representar o espectador comum, aquele que realmente precisaria – para respeitar a concepção dos dois Rochas, o pai e o filho – ser “formado”.

O diretor Eryk Rocha, 36 anos, filho de Glauber Rocha.

Cannes 2016

5 maio

Vamos falar de Cannes? Há pelo menos um bom motivo: é que este ano, na versão 2016 do famoso festival francês, um filme brasileiro está concorrendo à cobiçada “Palma de Ouro”.

O filme brasileiro é “Aquarius” (2016) do pernambucano Kleber Mendonça e tem no elenco, além de Sônia Braga, alguns paraibanos: Arly Arnaud, Daniel Porpino, Buda Lira e Fernando Teixeira. O filme compete com vinte outras realizações internacionais de peso e, evidentemente, as chances de ganhar são remotas, mas estar na competição já é muita coisa.

Fora da competição, os privilegiados frequentadores do Festival vão poder assistir a outro filme brasileiro, o documentário “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, este escolhido para uma mostra especial, chamada de “Cannes Classics”.

cannes2016

A versão deste ano estará acontecendo agora, de 11 a 22 de maio, e aqui aproveito para historiar um pouco o festival de cinema mais charmoso do mundo.

De guia me servirá o livro “Cannes et le cinéma” (Didier Roth-Bettoni, 2015) que acabo de ganhar de generosa amiga, recém chegada de Paris. Na verdade, trata-se de um luxuoso álbum, com todas as informações que se possa imaginar sobre o evento, desde sua criação até hoje, tudo ilustrado com belas fotografias. A cidade de Cannes, a organização do festival, o júri, os prêmios e os premiados, a política e o mercado, o passeio público, a Croisette, os hotéis, as cerimônias, as festas, o show business, os escândalos, a mídia,… está tudo lá. Não pretendo provocar inveja, mas, o álbum é tão chique que traz, na contracapa, um envelope com, entre outros artefatos, um pedacinho do tapete vermelho (juro!) da passarela pisada pelas estrelas e astros.

Mas vamos a informações mais gerais.

O Festival Internacional de Cannes teria começado em 1939. Teria. Estava tudo programado, toda a organização já montada, e, inclusive, o júri seria presidido por ninguém menos que Louis Lumière, como se sabe, um dos inventores do cinematógrafo. Eclodiu a guerra e… foi tudo desfeito. Os franceses teriam que esperar cerca de sete anos pelo nascimento de seu festival.

Cena de "Aquarius", o filme brasileiro concorrente.

Cena de “Aquarius”, o filme brasileiro concorrente.

Com muita pompa e circunstância, em setembro de 1946, acontece afinal o ansiado Festival, inaugurado naturalmente com execução estrondosa da Marseillaise. O filme “Quando fala o coração”, de Alfred Hitchcock, é escolhido para mostra especial, mas ocorre uma troca de bobinas e o efeito é desastroso. De qualquer forma, nesta primeira edição do festival, recebem prêmios de melhores atores a francesa Michèle Morgan por “Sinfonia pastoral”, e o americano Ray Milland, por “Farrapo humano”.

Desde então, o Festival de Cannes passou a ser uma data obrigatória na história do cinema mundial. Uma única interrupção aconteceu em 1968, quando os protestos no país inteiro levaram os cineastas participantes a suspender as atividades do Festival, o qual acabou não se concluindo.

Nos seus 69 anos de existência, o Festival foi sempre o mesmo, mas, claro, o tempo muda e as evoluções para acompanhá-lo são inevitáveis. Por exemplo, é interessante saber que a “Palma de Ouro” não existiu sempre: foi instituída em 1955, então desenhada pela artista Lucienne Lazon. Até então o prêmio máximo do festival chamava-se apenas ´grande prêmio´. Outro exemplo sintomático: na organização do Festival sempre estiveram os homens, porém, em 1965, pela primeira vez, uma mulher preside o júri, a veterana atriz americana Olivia de Havilland.

Sônia Braga e o diretor Kleber Mendonça nas filmagens de Aquarius

Sônia Braga e o diretor Kleber Mendonça nas filmagens de Aquarius

Nos primeiros tempos, o Festival ocorria em setembro; hoje – desde 1951 – em maio. Sua duração inicial era de quinze dias; hoje são doze. O número de filmes competindo caiu de quarenta e quatro, no início, para vinte, hoje. O júri dos primeiros tempos era constituído por pessoas dos países que competiam; hoje em dia, uma equipe especial de profissionais da área cinematográfica. No início, os filmes franceses eram escolhidos por membros do governo: hoje por profissionais da área. As atividades paralelas não existiam no início; hoje são pelo menos quatro: “Um certain régard” (´Um certo olhar´), “Quinzaine de réalisateurs” (´Quinzena dos cineastas´), “La semaine de la critique” (“A semana da crítica’) e “La cinéfondation” (´A cinefundação´). Até o local mudou: no início era o palácio La Croisette, hoje “Le palais des festivals”, ao pé da letra, ´o palácio dos festivais´. E o dado que talvez mais passe a idéia do crescimento do Festival de Cannes: o número de jornalistas credenciados para a cobertura: na origem, cerca de trinta; hoje em dia, mais de três mil.

Desde a criação do Festival, o Brasil concorreu várias vezes em Cannes, porém, nossa única Palma de Ouro foi “O pagador de promessas” (Anselmo Duarte, 1962). Vamos torcer para que o placar mude.

Em tempo: esta matéria vai para Cláudia Dias, a amiga que me permitiu tocar o tapete vermelho de Cannes.

A cidade de Cannes e La Croisette

A cidade de Cannes e La Croisette