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Losers we love (or Never mind the Oscar)

12 fev

Until 1989, the Hollywood Academy announced the Oscar results with the sentence: “And the winner is…”, which, from that year on, was changed to: “And the Oscar goes to…”

The linguistic change seems to have occurred out of a conscience crisis. The Academy suddenly realized that pronouncing the word ´winner´ implied, by inevitable contrast, the notion of ´loser´, a notion which is highly negative within the capitalistic and competitive context of American life.

Well, the sentence changed, but not the situation: the one who does not win is still a loser…

No Oscar for "It´s a wonderful life".

No Oscar for “It´s a wonderful life”.

The fact is: since the Academy foundation, in 1927, History has been giving Hollywood some rough lessons.

Take the case of “Citizen Kane”, for instance. Despite its high quality, Orson Welles´ 1941 movie had a single award for Herman Mankiewicz´ script; ironically enough, the movie gained the position, given by international criticism, of best movie ever made, and kept this position for half a century.

Another typical case is director John Ford, who always described himself as a ´western maker´. Ford won some Oscars throughout his career, but, never won any for the making of his great westerns, like, “Stagecoach”, “My darling Clementine”, “The searchers”, “The man who shot Liberty Valence”.

Kim Novak and William Holden in "Picnic"

Kim Novak and William Holden in “Picnic”

But I don´t intend to write about the mistakes of the Academy; I have done it already, so many times, and I don´t want to repeat myself.

I´d rather do as follows: since the word ´loser´ carries such a weight, I´d like to present here a certain list of movies which, although nominees at their times, were not awarded, were the elections fair or not. They are all great movies of the classical era which lost the Oscar for best movies of the year, but, in compensation, won in the category that matters most for the passionate moviegoer: the category of time, for, even today, we think of them as great unforgetable films.

Who would consider losers movies like, say, “It´s a wonderful life” (1946), or “Sunset Boulevard” (1950), or “Picnic” (1955)? And yet, the desired prize did not go to the hands of their respective authors, Frank Capra, Billy Wilder and Joshua Logan.

"Sunset Boulevard" (Billy Wilder, 1950).

“Sunset Boulevard” (Billy Wilder, 1950).

So, check here some of the ´losers we love´, which I list by decade.

The Forties:

“The great dictator” (Charles Chaplin, 1940); “The little foxes” (William Wyler, 1941); “Double indemnity” (Billy Wilder, 1944); “Great expectations” (David Lean, 1947); “The treasure of Sierra Madre” (John Huston, 1948); “The heiress” (William Wyler, 1949).

The Fifties:

“High Noon” (Fred Zinnemann, 1952); “Shane” (George Stevens, 1953), “Seven brides for seven Brothers” (Stanley Donen, 1954); “Giant” (George Stevens, 1956); “Twelve angry men” (Sidney Lumet, 1957); “Anatony of a murder” (Otto Preminger, 1959).

The Sixties:

“Elmer Gantry” (Richard Brooks, 1960); “America, América” (Elia Kazan, 1963); “Zorba” (Michael Cacoyannis, 1964); “Dr Jivago” (David Lean, 1965); “Who is afraid of Virginia Woolf?” (Mike Nichols, 1966); “Bonnie and Clyde” (Arthur Penn, 1967); “The graduate” (Mike Nichols, 1967).

And notice I have not mentioned all the losers of the period.

Ava Gardner, one of our dear ´losers´...

Ava Gardner, one of our dear ´losers´…

Well, I´d stop here, but, if you wish to be more extensive, you can think of the other Oscar categories. For instance, great actors and actresses who never won an Oscar at all. Here are some names of the classic era:

Ava Gardner, Marilyn Monroe, Natalie Wood, Janet Leigh, Richard Burton, Peter Sellers, Steve McQueen, Joseph Cotten, etc…

All this losing stuff reminds me of the Russian plot in Claude Lelouch´s “Bolero” (“Les uns et les autres”, 1981). In this French film, the one who deserves to have her life narrated all over is not the girl that wins the famous Ballet Contest, shown at the opening scene: this winner disappears from the screen in the next shot. The one who ´wins the film´ is exactly the girl who loses the Contest. For some reason, losers seem to be far more captivating than winners. Lelouch knew it when he conceived the scene.

So, on coming February 28, if your preferences are not favored, just don´t make a fuss about it.

A seven times nominee who never won the Oscar.

A seven times nominee who never won the Oscar.

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Jornalismo no cinema

8 out

Prometendo dar o que falar, o recém lançado livro de Paulo Henrique Amorim “O quarto poder” (Hedra, 2015) me faz lembrar a sempre fértil relação entre o jornalismo e o cinema.

O livro de Amorim nada tem a ver com cinema, porém, em uma de suas páginas, o autor registra que, em 1993, a televisão britânica exibiu o documentário “Beyond Citizen Kane”, sobre Roberto Marinho, onde o poderoso jornalista brasileiro era comparado ao protagonista do clássico de Orson Welles (1941).

Este dado em si remeteu meu espírito cinéfilo, por tabela, aos filmes que, ao longo de toda a história do cinema, tiveram o jornalismo como tema. No final desta matéria arrolo pelo menos dez filmes clássicos com esta temática, mas, por enquanto quero tratar de duas pequenas películas dos anos cinquenta que abordaram a profissão do jornalista de modo mais que interessante.

O primeiro é “Cidade cativa” (“The captive city”, 1952) do mestre Robert Wise, que discute a relação entre o poder e a liberdade de imprensa.

Cena de "Cidade Cativa".

Cena de “Cidade Cativa”.

Baseado em caso real, o filme de Wise mostra bem o drama de um editor de jornal que, mexendo daqui, mexendo dali, como lhe cabe, vai descobrindo uma rede de corrupção cujas teias recobrem praticamente a cidade inteira, no caso a pequena Kenninston. Na medida em que mexe e remexe, o bravo editor, ansioso por noticiar, vai constatando o envolvimento dos cidadãos mais respeitados do lugar – e isto para não falar da polícia! – e, na mesma medida, vai recebendo, primeiramente tentativas de suborno, e em seguida, ameaças de morte cada vez mais explícitas… até sua situação pessoal tornar-se completamente inviável… no posto que ocupa e, mais que isso, no lugar onde mora.

Bem roteirizado e bem dirigido, o filme começa pelo fim, com o editor e a esposa perseguidos, fugindo de carro para uma cidade vizinha onde, na delegacia local, ele relata a um gravador a trama toda, desde o começo, e, ao fazê-lo, a estória nos é mostrada em flashbacks cronológicos.

Curiosamente documental, o desenlace expõe o senador americano Estes Kefauver pronunciando um discurso verídico sobre o assunto, mas, nem esse ´prólogo pedagógico´ compromete a qualidade do filme, com certeza, um dos melhores no seu gênero.

O outro que destaco é uma comédia romântica de 1958, chamada “Um amor de professora” (“Teacher´s pet”, de George Seaton).

Doris Day e Clark Gable

Doris Day e Clark Gable

A estória gira em torno dos muitos percalços no caso de amor entre uma professora universitária de jornalismo (Doris Day) e um profissional da imprensa, veterano e tarimbado (Clark Gable), que é obrigado pela empresa onde trabalha a fazer um curso de atualização. Mas não se enganem com a faceta romântica do roteiro: nunca vi, em cinema, tão bem discutidas as relações entre a teoria do jornalismo e a sua prática.

O que vale mais, o aprendizado no batente, ou os muitos livros que se leem sobre os conceitos gerais de imprensa? De onde vem o talento que supera a mera obediência aos lides? Como se redige um texto jornalístico que transcenda a informação óbvia? Onde ficam os limites entre imparcialidade e compromisso pessoal com a notícia? Até que ponto a vida particular do jornalista interfere na sua atividade profissional? Praticamente todas as grandes questões relativas ao métier do jornalismo vêm à tona no enredo desta comediazinha de amor que, por trás de seu romantismo, esconde o enfrentamento sério de uma das profissões mais fascinantes do mundo moderno. Sem favores, um pequeno filme que pode ser extremamente útil a quem faz ou a quem ensina jornalismo.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em "Meet John Doe", de 1941.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em “Meet John Doe”, de 1941.

Resenhados estes dois títulos, faço seguir, em ordem cronológica, uma lista de dez outros filmes clássicos que abordaram o tema da imprensa.

 

A primeira página (The front Page, 1931, Lewis Milestone,)

Nada é sagrado (Nothing sacred, 1937, William Wellman)

Jejum de amor (His girl Friday, 1940, Howard Hawks)

Adorável vagabundo (Meet John Doe, 1941, Frank Capra)

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941, Orson Welles)

A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951, Billy Wilder)

A embriaguez do sucesso (Sweet smell of success, 1957, Alexander McKendrick)

Viver por viver (Vivre pour vivre, 1967, Claude Lelouch)

Todos os homens do presidente (All the president´s men, 1976, Alan Pakula)

O homem de mármore (Czlowieki z marmuru, 1977, Andrey Wajda).

"His girl Friday": Cary Grant e Rosalind Russell.

“His girl Friday”: Cary Grant e Rosalind Russell.

Orson Welles centenário

15 maio

Data importante para o cinema: neste ano de 2015 comemora-se o centenário de nascimento de Orson Welles (1915-1985), um dos maiores gênios da sétima arte, talvez o maior.

O Wonder Boy teve uma carreira atípica. Começou do topo e de lá foi caindo, sem nunca praticamente soerguer-se. Começou com a obra prima “Cidadão Kane” (“Citizen Kane”, 1941) e nunca mais fez nada tão grandioso, sequer parecido.

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A história de Orson Welles é bem conhecida e não vou detalhar. Em 1940, cheio da grana da RKO, o jovem dramaturgo e radialista (25 anos) chegou a Hollywood para fazer o filme que quisesse, com os recursos que quisesse, do jeito que quisesse… e fez. Teve opções (uma delas a filmagem de “No coração das trevas” de Conrad), mas, preferiu esse roteiro que, com um bocado de malícia, ficcionalizava a vida do magnata da imprensa americana William Randolph Hearst. O “rosebud” – a última palavra pronunciada pelo protagonista Charles Foster Kane – era só um pretexto para contar, toda em longos flashbacks, a estória de uma queda. E que queda.

Com a má “influência” de Hearst, o filme foi um fracasso de público, mas, em compensação, um sucesso de crítica. A Academia de Hollywood lhe deu apenas um Oscar de roteiro, mas isso não quis dizer nada, porque, “Cidadão Kane” logo se transformaria num cult. Infelizmente, também se transformaria numa maldição. Depois dele, Orson Welles nunca mais teve os privilégios que a RKO lhe dera de mão beijada, e nunca mais repetiu o milagre. Um pouco como a de Charles Foster Kane, sua queda foi definitiva.

O "rosebud" procurado...

O “rosebud” procurado…

Os primeiros sintomas vieram de imediato. O seu filme seguinte, “Soberba”, foi drasticamente cortado pelas tesouras de Hollywood, enquanto ele, meio perdido num país tropical, o Brasil, não sabia ao certo o que fazer com essa estória de jangadeiros cearenses que navegam até o Rio de Janeiro para falar com o presidente Getúlio Vargas (“It´s all true”, 1942). Farras no cassino da Urca e o afogamento do jangadeiro protagonista nas águas de Copacabana, afogaram o projeto que nunca foi completado…

Depois disso, triste ironia: enquanto um Welles sem prestígio peregrinava mundo afora tentando financiamentos para novos projetos, e, para se sustentar, trabalhando como ator em películas alheias, muitas das quais irrisórias, “Cidadão Kane” era considerado pelo consenso da crítica internacional “o filme mais perfeito já feito”.

Orson Welles é Kane

Orson Welles é Kane

A primeira votação da crítica foi em 1952. Com divulgação da revista Sight & Sound, gente de cinema de todo o mundo escolhia os melhores filmes de todos os tempos, e a lista, sempre de dez, tinha pertinência na ordem, ou seja, o primeiro citado era o melhor: sempre “Cidadão Kane”. Essa colocação se repetiria por meio século, de dez em dez anos, até 2012, quando o hitchcockiano “Um corpo que cai” (1958) tomou o seu lugar.

Claro que essa eventual descida para o segundo lugar, na lista da crítica internacional, não mudou nada no conceito mundial do filme.

Segundo o cineasta e cinéfilo François Truffaut, “Cidadão Kane” é o filme mais influente na história da sétima arte, em outras palavras, aquele que mais estimulou neófitos a partirem para fazer cinema.

Orson Welles e Joseph Cotten em momento dramático.

Orson Welles e Joseph Cotten em momento dramático.

E, afinal de contas, o dado mais importante, confirmado pelas estatísticas: trata-se da obra fílmica com a maior fortuna crítica do planeta, o que, em miúdos, significa dizer que é o filme mais estudado por scholars, historiadores, críticos e pensadores do cinema em geral – enfim, aquele sobre o qual mais se escreveu.

Querem mais? Mais que isso não há.

Mas, para não dizer que só falei de “Cidadão Kane”, acrescento uma seleção de dez títulos da breve filmografia de Orson Welles. Se porventura você não os conhece, eis um bom exemplo de como um gênio trabalha em condições adversas.

 

Soberba (The magnificent Ambersons, 1942)

Jornada do pavor (Journey into fear, 1943)

O estranho (The stranger, 1946)

A dama de Shangai (The lady from Shangai, 1947)

Macbeth, reinado de sangue (Macbeth, 1948)

Otelo (Othello, 1952)

Grilhões do passado (Mr Arkadin, 1955)

A marca da maldade (Touch of evil, 1959)

O processo (Le procès, 1962)

Verdades e mentiras (F for fake, 1973)

 

Fotograma famoso de "Cidadão Kane".

Fotograma famoso de “Cidadão Kane”.

Casablanca ou Cidadão Kane?

1 abr

A Semana Santa está aí e o casal arruma as malas para um feriadão na casa de praia da família, a essa época do ano desocupada e inteiramente disponível. Na maior parte do tempo, vão estar a sós, os dois pombinhos, curtindo o sol ou chuva – o que der e vier, pouco importa! – livres de compromissos e problemas.

Na quinta-feira santa, porém, já está combinado, receberão um grupo de amigos, que, segundo a promessa feita, vai levar – tudo já pronto pra servir à mesa – os ingredientes de uma ceia larga – vinho, pão, queijo, peixe e tudo mais.

Depois da ceia, um filme! – assim foi sugerido e ficou decidido.

Quando o casal perguntou, no telefone, que filme, a resposta dos amigos – todos, como o casal, cinéfilos de carteirinha – foi: “um clássico, claro”. E com uma alegação mais que justa: é que neste ano de 2015 a sétima arte está completando redondos 120 anos!

“Mas que clássico?”

“Vocês dois decidem: a surpresa vai ser o aperitivo” – responderam.

Depois de um papozinho privado, o casal concordou em que o filme a levar tinha que ser, no mínimo, marcante.

casablanca

Casablanca foi a opção dela.

Teria tudo sido fácil se a opção dele não fosse outra, bem diferente: Cidadão Kane.

E durante dias ficou o impasse.

Agora estavam de partida, arrumando as malas, e o impasse continuava.

Ela alegou que Casablanca agradaria à maioria. Ele alegou que não via por que Cidadão Kane não agradaria a essa maioria de que ela falava, afinal seriam apenas umas onze ou doze pessoas, todas apaixonadas por cinema.

Entre uma peça de roupa jogada na mala e outra, entre um par de sapato empacotado e uma escova de dente catada no banheiro, a discussão continuava.

Ela: Amor, apesar do lance da data comemorativa, a gente vai ver um filme pra se divertir, pra curtir, e não para racionar. Casablanca dá mais certo.

Ele: Pois Casablanca me faz refletir tanto quanto Cidadão Kane. Não vejo diferença. Aliás, se o critério é diversão, Casablanca me deixa mais pra baixo. O final sempre me dá vontade de chorar, com Ilsa indo embora e Rick sozinho no aeroporto com aquele delegado cretino”.

Ela: E Cidadão Kane, que já começa com morte? Não me diga que é alegre a estória de um homem que subiu na vida só pra despencar lá de cima, perdendo esposa, negócios, eleições, sei lá o que mais, pra viver com uma mulher que ele nem ama, só por teimosia, num castelo assombrado, sem amigos nem parentes.

kane

Ele: Acho que você só ´tá vendo os aspectos negativos da vida de Kane…

Ela: E você por acaso não ´tá fazendo o mesmo com Ilsa e Rick? Entre eles pelo menos houve uma grande estória de amor, mesmo que…

Ele: Essa conversa tá meio tola: nenhum dos dois filmes é melhor ou pior por causa das infelicidades dos personagens.

Ela: Pois é, e a gente volta ao mesmo ponto de partida.

Ele: O pior é que ´tá na hora de fechar as malas e não quero viajar de noite.

Ela: O que é que você sugere?

Ele: Um par ou impar?

Ela: Ah, não, isso não!

Depois de uma pausa para fechar portas e janelas do apartamento, novas arguições:

Ela: Francamente, eu acho que Cidadão Kane é uma escolha meio óbvia, sabe como é, (e falseando a voz para soar prepotente) “o filme mais perfeito já feito, segundo a crítica internacional”… essas coisas.

Ele: E Casablanca, que é o queridinho do público em todos os tempos e lugares, acho que o filme mais reassistido em toda a história do cinema… Isso não é obviedade? O filme mais selado em VHS, DVD e Blue Ray.

Ela: Tão selado quanto Cidadão Kane!

Ele: E daí?

Ela: É, assim a gente não chega a lugar nenhum.

Ele: Também acho. E a hora ´tá passando.

casablanca poster

Ela: Uma saída seria pensar noutro filme…

Ele: Outro filme? (e demorando a digerir a sugestão) tudo bem, e o que seria? Filme não falta…

Ela: Mas nada que se compare a Casablanca.

Ele: Nem a Cidadão Kane.

Ela: O que ´tou querendo dizer é que, para uma ocasião dessas, encontro de amigos, em data especial, os 120 anos do cinema…

Ele: Sim, isso mesmo. Cidadão Kane resume a história do cinema.

Ela: Casablanca resume a história do amor ao cinema.

Ele: Só se a gente fizer o seguinte: bota os dois filmes na mala. Na hora de assistir, a gente pede a opinião da turma toda.

Ela: Ih, isso vai dar zebra. A discussão vai se estender e a sessão vai começar de meia noite. Não dá certo, não. Além do mais, eu concordei em que ia haver o elemento surpresa.

Ele: E aí, o que é que se faz?

Ela, colocando na mala superlotada um par de calcinhas: Continuo achando que devia ser Casablanca.

Ele, enfiando no meio das roupas, um tubo de creme de barbear: Continuo achando que devia ser Cidadão Kane.

citizen kane poster

 

Em tempo: a Chico Vianna dedico esta crônica, que imita o seu estilo.

Vertigem no cânone

6 ago

Qual o filme mais perfeito já feito em toda a história do cinema, aquele que se daria como exemplar de um cânone cinematográfico? Para a crítica internacional, a resposta está na ponta da língua – “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) que, desde 1952, vem ocupando o topo da lista dos dez mais na eleição decenal que realizam o BFI (British Film Institute) e a revista Sight & Sound, uma eleição em que votam críticos, acadêmicos e profissionais da sétima arte em todo o mundo.

A resposta está na ponta da língua?? Estava! É que vem de sair o resultado da nova eleição, a do último decênio, 2002/2012, e – pasmem! – o melhor filme do mundo deixa de ser “Cidadão Kane” e passa a ser “Um corpo que cai” (“Vertigo”, Alfred Hitchcock, 1958).

Para o mundo da cinefilia, favorável ou desfavoravelmente, essa mudança no cânone vai, com certeza, repercutir e muita discussão vai surgir, em papos de amigos, ou mesmo em artigos, crônicas e ensaios. Mais relevante que o Oscar, a eleição do BFI + Sight & Sound é uma espécie de Nobel do cinema, que confere consagração artística a realizações cinematográficas, sem quaisquer concessões mercadológicas ou de outra ordem. Este ano, foram 846 votantes que escolheram entre 2.045 filmes, propondo, em ordem pertinente de importância, os dez que melhor corresponderiam a um conceito de perfeição artística.

Claro que constar da lista dos dez da Sight & Sound em qualquer posição já significa consagração, mas, como a humanidade adora competição, o primeiro lugar é sempre o mais visado.

Antes de prosseguirmos no comentário da subida do filme de Hitchcock para o topo da lista, vejamos a lista toda deste decênio, que, divulgada na Sight & Sound, reproduzo abaixo, indicando, após o nome do diretor e o ano de produção, a nacionalidade:

1 – Um corpo que cai (Alfred Hitchcock, 1958, EUA)

2 – Cidadão Kane (Orson Welles, 1941, EUA)

3 – Era uma vez em Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953, Japão)

4 – A regra do jogo (Jean Renoir, 1939, França)

5 – Aurora (F. W. Murnau, 1927, Alemanha/EUA)

6 – 2001: uma odisséia no espaço (Stanley Kubrick, 1968, EUA)

7 – Rastros de ódio (John Ford, 1956, EUA)

8 – Um homem com uma câmera (Dziga Vertov, 1929, URSS)

9 – A paixão de Joana D´Arc (Carl Dreyer, 1927, Dinamarca)

10 – Oito e meio (Federico Fellini, 1963, Itália)

A primeira eleição do BFI + Sight & Sound foi efetuada em 1952, e a deste ano é, portanto, a sétima, já que o périplo entre eleições é um decênio. Interessante seria cotejar o total das sete listas, porém, como não dispomos de espaço, vou me limitar, primeiramente, a comentar o desempenho eleitoral de “Um corpo que cai” que, vale dizer, não é a primeira vez que comparece ao cânone. Na verdade, apareceu pela primeira vez em 1982 como o sétimo colocado, e não parou mais de ser indicado, nem de subir: subiu ao quarto lugar em 1992, e subiu um pouco mais, para a segunda posição, em 2002; sua chegada ao topo da lista parece ter, digamos assim, uma certa lógica interna.

E há mais: o fato mesmo de “Um corpo que cai” não ter estado entre os eleitos antes de 1982 é explicável, já que, desde o início dos anos sessenta, o filme (num pacote de mais quatro) ficou, por questões de ordem jurídica, embargado, até a data da morte de Hitchcock, em 1980, quando só então pôde ser reprisado para o grande público. Naturalmente, sem ser visto, ou revisto, dificilmente seria votado.

Sobre outros filmes na lista, vai um breve comentário.

“Cidadão Kane” não esteve na primeira eleição (o primeiro lugar de 1952 foi “Ladrões de bicicleta”), provavelmente porque os entraves da Segunda Guerra retardaram sua exibição na Europa e no resto do mundo, porém, desde 1962, como já dito, tomou conta do topo da lista, como se nunca mais fosse dele sair (no total, cinco vezes). Um caso curioso é, com certeza, o do filme do francês Jean Renoir, “A regra do jogo”, o único a ter estado em todas as sete eleições da Sight & Sound, e isto em situação invejável: começou em décimo lugar em 1952, depois do que conquistou um quase invariável segundo lugar, bem coladinho a “Cidadão Kane”, de modo que, se fosse para julgar pela freqüência de segunda posição, o indicado atual seria ele, e não “Um corpo que cai”. Mas, de longe, o caso mais intrigante é o do documentário do russo Vertov, “Um homem com uma câmera” (1929) que, pela data de produção, poderia ter estado em qualquer das eleições anteriores, e nunca esteve, ou melhor, nunca tinha estado: é, assim, o grande novato, ocupando, como se vê, o oitavo lugar da lista atual.

Nesta lista talvez seja interessante observar a variedade das nacionalidades (sete em dez filmes) e, mais que isso, a inclinação para o passado: vejam que o filme mais recente é de 1968 e três deles são da década de vinte, quando o cinema ainda era mudo.

Mas, enfim, será que “Um corpo que cai” merece o lugar que ocupa? Bem, o mínimo a dizer é que “Um corpo que cai” e “Cidadão Kane” são dois grandes filmes e não faz sentido contrapô-los, mas, há, além da qualidade estética, uma coisa que têm em comum – a extensão da bibliografia crítica. Com efeito, junto com “Cidadão Kane”, “Um corpo que cai” é um dos filmes mais estudados em escolas de cinema e adjacências, e sobre o qual mais se escreveu.

À guisa de homenagem, aqui repasso alguns pontos críticos e interpretativos que, a essa altura, já não sei se são meus ou alheios.

Sobre a produção do filme, digamos primeiramente que tudo começou na França, em 1952, quando o escritor Pierre Boileau publicou o seu romance “Celle que n´était plus” (´A que não era mais´) e, no ano seguinte, ouviu dizer que Hitchcock teria lido e demonstrado interesse em filmar. Quem, dois anos depois, filmou foi o cineasta também francês H. G. Clouzot (Cf. “Les diaboliques”/“As diabólicas”, 1955), mas, o fato é que Boileau, um fã de Hitchcock, não perdeu as esperanças de ter uma obra sua vertida para a tela pelas mãos do mestre do suspense.

Para tanto, passou a redigir, junto com seu parceiro de escrita Thomas Narcejac, uma estória que pudesse se dizer a mais hitchcockiana possível. E inventou esse detetive que tem medo de alturas e por isso se torna presa fácil para um ardiloso plano de assassinato conjugal. A estória toda, chamada “D´entre les morts” (´dentre os mortos´), se passava em Paris, com um desenlace trágico: descobrindo a trama toda no final, o detetive estrangulava a mulher que o envolvera no caso e por quem se apaixonara.

E Boileau conseguiu o que queria: o livro chegou a Hitchcock que, comprado os direitos de filmagem, o “desenhou” (em termos modernos, lhe fez a ´storyboard´); segundo consta, o roteirista contratado para o processo de adaptação, Samuel Taylor, ao invés de ler o romance, bolou o roteiro em cima da storyboard de Hitchcock. De qualquer forma, na adaptação, muda-se o cenário, de Paris para São Francisco, e muda-se o desenlace, com a heroína – mais simetricamente – sofrendo a mesma morte da sua vítima: a queda da torre.

O filme foi mal recebido pela crítica americana da época e Hitchcock não hesitou em pôr a culpa no elenco. Para começo de conversa, ele nunca quis Kim Novak para o papel da protagonista. Sua musa da época era Vera Miles, que, engravidando no início do projeto, não pôde participar. Novak foi a opção da Paramount e contam que, durante a filmagem toda, o cineasta não lhe dirigiu a palavra uma só vez. James Stewart foi o outro culpado, pois, na opinião do cineasta, estava, aos cinqüenta anos, muito velho para um papel romântico desse porte (Novak tinha vinte e quatro).

De “Um corpo que cai” está fora um dos elementos mais recorrentes no estilo Hitchcock, que é o humor, fator sempre atenuante das tensões ou do pessimismo. É também o único filme do cineasta em que o criminoso não é punido e a estória se finda sem soluções morais. Inspirada no “Tristão e Isolda” de Wagner, a trilha sonora de Bernard Herrman lhe completa o clima sombrio, igualmente enfatizado pelo uso da luz, que varia de intensidade em momentos chaves, um dos quais é aquele em que Judy Barton, depois de longa insistência do amante, se veste completamente de Madeleine e, envolta em luminosidade difusa, se aproxima de Scott em câmera quase lenta.

A crítica mais competente tem destacado pelo menos três aspectos na estruturação de “Um corpo que cai” – a duplicação de situações ou personagens, cuja matriz reside na figura dupla de Madeleine/Judy Barton; o motivo gráfico recorrente da espiral, que, mais obviamente, está na abertura e no pesadelo de Scott, como também no formato da escada que conduz ao crime; e a freqüência de espelhos ou imagens refletidas, por exemplo, aquelas que confundem as figuras femininas: Carlota, Madeleine, Judy e a amiga de Scott, Midge. Tudo isso, evidentemente, homologando o tema da vertigem (titulo original: ´vertigo´) que, muito mais que um mero fator patológico, desencadeador da trama, adquire, no conjunto, uma dimensão metafísica.

Uma questão que se levanta com grande pertinência sobre “Um corpo que cai” é a sua qualidade onírica, de fato, um dos seus fascínios sobre a espectação.

Deve ser essa qualidade onírica que faz com que nós não nos incomodemos com as inverossimilhanças do enredo.

A primeira e mais óbvia é que um crime seja planejado e executado com sucesso nas circunstâncias em que foi – um homem lança, da torre de um convento, o corpo desfalecido da esposa e depois de todo o burburinho lá embaixo, desce acompanhado de uma parceira que se vestira tal e qual a esposa, para ludibriar um detetive que, sofrendo de acrofobia, não pudera subir até o topo da torre.

Ora, o senso comum nos diz que aquele lugar – o topo da torre de onde “se jogara” a suposta suicida – seria o primeiro a que acorreriam curiosos (para não dizer, a polícia)… e no entanto, nunca ouvi ninguém reclamando dessa falta de verossimilhança, e fico pensando o quanto é impressionante como o filme de Hitchcock ludibria o espectador e passa por cima de uma improbabilidade perigosa num gênero como o thriller. Sim, não há dúvidas: a lógica é a dos sonhos, que – se sabe – não precisam de lógica.

Outro caso é o do inexplicável desaparecimento momentâneo de Madeleine no quarto do hotel McKittrick. Naquela tarde, Scott, que a perseguia havia dias, a vê na janela do hotel, entra, sobe até o quarto dela, no terceiro andar… e lá, completamente estarrecido, não encontra ninguém, nem encontrara ao subir as escadas. Evaporação? Certo que, por enquanto, Hitchcock queria nos fazer crer (e a Scott também) que estávamos diante do sobrenatural, porém, quando o filme termina sabemos que não vimos um horror movie, e sim, um policial e a questão fica sem explicação. De novo, sonho!

De minha parte, tudo em “Um corpo que cai” me fascina, mas um aspecto que aqui quero destacar é o modo pelo qual a narração se processa, fornecendo e/ou sonegando informação diegética no momento certo, e disso retirando um grande efeito. Para tanto, vou mencionar três momentos especiais no enredo que, para fins de análise, chamo respectivamente de “A sós com Madeleine”, “A sós com Judy Barton” e “O colar no espelho”.

Como não tenho certeza se o leitor guarda na memória o filme como o guardo, reconstituo parte da estória.

O detetive aposentado John Ferguson, mais conhecido por Scott (James Stewart), é procurado por um antigo companheiro de faculdade, Gavin Elster (Tom Helmore), para seguir a sua esposa, Madeleine (Kim Novak), que, segundo consta, vem manifestando sintomas de loucura, com inclinação ao suicídio. Aparentemente Madeleine está sendo perseguida pelo espírito de uma ascendente sua, Carlotta, que se suicidara na mesma idade que ela tem agora.

Sofrendo de acrofobia, Scott reluta, mas termina aceitando o trabalho que, de início, consiste em seguir a mulher pelas ruas de São Francisco. Ocorre que, como temido, Madeleine tenta suicídio, jogando-se nas águas frias da Baía, sendo salva por Scott que a leva para casa, e, a partir daí, inicia-se e desenvolve-se entre os dois uma relação de amizade/amor… Até a próxima tentativa de suicídio da mulher, desta vez bem sucedida, quando ela se joga da torre do Convento São João Batista, sem que Scott tenha podido evitar: sua acrofobia não lhe permitiu escalar todos os batentes da enorme escada em espiral.

Scott entra em depressão e o tempo passa. Um belo dia, recuperado do trauma, mas nem tanto, ele encontra essa moça pobre e meio brega, que mora num apartamento modesto, muito parecida com Madeleine, que diz se chamar Judy Barton (a mesma Kim Novak).

Bem, creio que esta reconstituição parcial já foi suficiente para refrescar a memória do leitor, e com isso, passo a meu comentário do foco narrativo, naqueles três momentos que denominei acima.

Comecemos com “A sós com Madeleine”.

Scott salvara a esposa do amigo e a trouxera para casa; trocara-lhe as vestimentas e, no momento, ela repousa na cama, no quarto de Scott, que lhe explica o que houve. O telefone toca, Scott atende e, depois disso, sai, fechando a porta do quarto atrás de si. Neste momento, estamos ´a sós com Madeleine´ que – só saberemos bem mais tarde – não passa de Judy Barton, desempenhando o papel da suicida. O momento dura apenas segundos, e não muitos. Por que? Porque se durasse mais, desvendaríamos a trama no começo do filme. Judy fingia para Scott, mas, por que, a sós entre quatro paredes de um quarto fechado, continuaria fingindo? Resposta: porque, se Scott não a vê, nós a vemos, daí a pressa da narração em tornar o momento veriginosamente breve.

Segundo momento “A sós com Judy Barton”.

Scott acabara de avistar, nas calçadas de São Francisco, essa moça incrivelmente parecida com a falecida Madeleine e a segue até o seu modesto apartamento. Os dois conversam e, com alguma dificuldade, Scott a convence a jantarem juntos. Quando Scott vai embora, estamos ´a sós com Judy Barton´ e, para a nossa surpresa, este momento, ao contrário do anterior, não é breve. Rosto em close, Judy nos olha de frente e aí sua memória nos faz testemunhar, em linguagem visual, tudo o que realmente acontecera na Torre do Convento de São João Batista.

Agora o crime de Elster e a participação de Judy nos são conhecidos, mas, atenção, a informação nos foi generosamente fornecida, porém, não a Scott, que, depois de haver duramente transformado Judy em uma cópia fiel de Madeleine, continua ignorando a verdade. E é aqui que entra o terceiro momento, “O colar no espelho”.

Apaixonado e feliz, o casal se apronta para sair – mais um jantar no restaurante Ernie´s, onde Scott uma noite viu Madeleine, pela primeira vez – quando Judy pede a Scott que lhe ajude na tarefa de colocar o colar no pescoço. Ele se levanta, vai até a moça, que se olha no espelho, e por trás dela, tenta abotoar o belo colar. Abotoada a jóia, ele dirige o olhar para o espelho e, só neste momento, divisa pelo espelho, no colo alvo de Judy, a jóia em sua completude, o mesmo colar que um dia pertencera à falecida Madeleine. É neste instante, e nunca antes, que a informação, a nós fornecida pela memória visual de Judy, chega a Scott. E é só nesse instante que Scott descobre que sua acrofobia fora usada para a consumação de um mais que ardiloso plano de assassinato. Como ele, descartando o jantar no Ernie´s e de volta à torre fatídica, dirá mais tarde a Judy: ´algo que nunca se deve guardar é o souvenir do crime´.

Esses três momentos são chave (vários sentidos da palavra) dentro do filme e são eles que o tornam uma estrutura vertiginosamente tripartite, separando eles três seções bem distintas da narrativa, que, para fins didáticos, poderíamos chamar assim: (1) perseguindo Madeleine, (2) transformando Judy em Madeleine, e (3) desvendando o mistério. Como estamos cansados de saber, um sonho também é narrativo.

Teria um pouco mais a dizer, mas, fico por aqui, acreditando que este comentário eventualmente poderá ser útil aos que – por causa da Sight & Sound ou não – vão querer revisitar a obra prima de Hitchcock.

Em tempo: o título desta matéria é obviamente uma brincadeira com o título original de “Um corpo que cai”: “Vertigo”.