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RICHARD JEWELL, O HOMEM ERRADO

14 jan

É óbvio que, bem antes de rodar “O caso Richard Jewell” (2019), Clint Eastwood conhecia “O homem errado” (“The wrong man”, 1956).

No filme de Hitchcock, um humilde e inocente saxofonista é confundido com um temível assaltante de bancos e sua humildade e inocência em nada ajudam a resolver o problema – ao contrário, só o incriminam cada vez mais.

Com certeza um estudo comparativo acurado vai encontrar mais semelhanças entre os dois filmes, ambos baseados em casos reais.

Mas, claro, você não precisa ter visto “O homem errado” para apreciar “O caso de Richard Jewell”.

Beirando os noventa, o cineasta e ator Clint Eastwood continua incansável. Nem dá pra acompanhar sua atividade toda. Em 2018 rodou dois filmes, “A mula” e “Trem 15,17h para Paris” … e deste último nem notícia tive. Nem sei se foi exibido por aqui.

Neste “O caso Richard Jewell” (2019) Eastwood está mais que em forma, contando a estória verídica desse humilde e inocente cidadão de bem que foi falsamente incriminado por um atentado à bomba, num evento musical em Atlanta.

De alguma maneira, trata-se de um filme denúncia, onde ficam claros os capciosos meandros das leis e das instituições, somados ao papel pernicioso de certa imprensa sensacionalista.

Neste particular, ressalta-se o expediente da mídia de, ao invés de se limitar a dizer a verdade, “produzir a notícia” que vai dar dinheiro à empresa. Com efeito, aquela jornalista que vende o corpo a um membro do FBI para ganhar um furo lembra um certo Chuck Tatum que está lá atrás, num certo filme de Billy Wilder que, certamente, vocês lembram: “A montanha dos sete abutres” (1951).  E isto com arrependimentos posteriores e tudo mais.

Um aspecto curioso no filme é a fuga das ambiguidades. Desde a primeira cena já se sabe – ou se intui – que Jewell é inocente. E a narração tem o maior cuidado de manter essa verdade. Tanto é assim que a história, em sua maior parte, é narrada do seu ponto de vista, lhe dando o maior tempo de tela. Isto, antes do atentado no evento musical, durante e depois. De tal modo que a brusca mudança por que passa Jewell junto à opinião pública, de herói a vilão, dói muito mais do que doeria num filme que primasse pelo ambíguo.

Eastwood assume a versão do seu protagonista e não abre mão disso em nenhum momento. Dedica-lhe um filme parcial e carinhoso que, sem perder por isso a qualidade, vale como dedicatória. E faz, assim, um filme essencialmente actancial.

Sim, um dos encantos de “O caso Richard Jewell” está na construção dos personagens. Primeiramente do protagonista titular (desempenho perfeito de Paul Walter Hauser), tão docilmente fiel à Lei e tão vítima dela. Impossível não se comover com o modo como, mesmo correndo o risco de parecer mais suspeito do que já é, esse ex-polilcial não deixa de manifestar sua admiração pelos seus investigadores, os homens do FBI. E não para de desabafar suas crenças e motivações, quando o conveniente, ordem do advogado, seria calar. Este cidadão de boa vontade seguramente vai ficar como umas das personagens mais cativantes do cinema do novo milênio.

Uma segunda figura que se impõe é a da mãe, Bobi, interpretada pela sempre magnífica Kathy Bates. Um terceiro caso a citar é o do advogado Sam Rockwell (Walter Bryant) que retira as evidências da inocência de seu cliente, não tanto dos fatos, mas, sentimentalmente, da sua personalidade.

Sim, ao meio do pesadelo kafkiano que o filme narra, perdura a beleza do amor materno e da amizade… Um filme simples, convencional, direto, mas tocante e belo. Em vários sentidos da palavra belo.

“O homem errado” de Hitchcock é um filme sombrio que termina em desolação e desesperança. “O caso de Richard Jewell”, por alarmante que seja o caso narrado, parece apontar um caminho…

Cllint dirigindo Paul Walter Hauser

Filmes para homens?

10 mar

Parece que, depois do movimento feminista, os homens, meio na defensiva, ficaram menos seguros em relação ao que é ser homem. Deve ser isso que justifica a existência, na internet, de sites como este “The art of manliness” – traduzindo aproximadamente: ´a arte da masculinidade´. Tentando resgatar o conceito do masculino essencial, o site é interessante e reúne aspectos do comportamento dos homens que seriam fundantes desse conceito.

Há, por exemplo, listas de coisas que os homens preferem – ou deveriam preferir – e uma delas se refere ao cinema.

“Cem filmes obrigatórios para homens” é uma das listas que o site apresenta, certamente títulos votados pelos organizadores e dispostos na ordem de importância, do primeiro ao centésimo. Sem dúvida, um excelente objeto de estudo para os interessados, como eu, em Estética da Recepção no cinema.

No geral, são filmes que se centram na figura masculina, porém, curiosamente, nem todos veiculam aquele velho estereótipo do homem como sendo um ser forte, corajoso, decidido, violento, possessivo, autoritário, briguento, etc.

Por motivo de espaço, o meu comentário aqui vai limitar-se à metade da lista – os cinqüenta primeiros filmes – e aos citá-los, mencionarei sempre o diretor e o ano de produção.

Embora nessa lista estejam filmes fundados na violência como “Rambo” (Ted Kotcheff, 1983), “Duro de matar” (John McTiernan, 1988) e “Operação dragão (Robert Clouse, 1973), nela também estão outros, bem diferentes, como: “Ladrões de bicicleta” (Vittorio De Sica, 1948), “Se meu apartamento falasse” (Billy Wilder, 1960), e “Gandhi” (Richard Attenborogh, 1982), ou seja, filmes em que o protagonista está a léguas de distância do estereótipo tradicional acima referido.

É verdade que um número expressivo desses “filmes masculinos” trata de esporte – suposta preferência masculina. Citando dentre os nossos cinquenta: “Momentos decisivos” (David Anspaugh, 1986), “Sorte no amor” (Ron Shelton, 1988), “Campo dos sonhos” (Phil Alden Robinson, 1989) “Rudy” (David Anspaugh, 1993), “A luta pela esperança” (Ron Howard, 2005), “Desafio à corrupção” (Robert Rossen, 1961)”

Também previsivelmente, outro número considerável versa sobre guerra, a saber: “Fugindo do inferno” (John Sturges, 1963), “Sob o domínio do mal” (John Frankenheimer, 1962), “Das boot” (Wolfgang Peterson, 1981), “Nada de novo no front” (Lewis Milestone, 1930). Vejam, porém que um filme como “Os melhores anos de nossas vidas” (William Wyler, 1946) é muito mais sobre os efeitos da guerra, sobretudo os psicológicos. E que “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), só é um filme de guerra até certo ponto.

Entre os preferidos dos homens não poderiam deixar de estar os westerns da vida, que, dos nossos cinquenta, são: “Butch Cassidy” (George Roy Hill, 1969), “O último pistoleiro” (Don Siegel, 1976), “Os brutos também amam” (George Stevens, 1953), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952), “Os imperdoáveis” (Clint Eastwwood, 1992) e “Bravura indômita” (Henry Hathaway, 1969).

O mesmo se diga dos policiais ou filme de suspense: Perseguidor implacável (Don Siegel, 1971), “Intriga internacional” (Alfred Hitchcock, 1959), “Pacto de sangue” (Billy Wilder, 1944), “Relíquia macabra” (John Huston, 1941), “Operação França” (William Friedkin, 1971), “Os intocáveis” (Brian DePalma, 1987), “Bullit” (Peter Yates, 1968), “Um corpo que cai” (Alfred Hitchcock, 1958),

Surpreendentemente ou não, o gênero da ficção cientifica teve poucos preferidos: “Guerra nas estrelas” (George Lucas, 1977) e “O gigante de ferro” (Brad Bird, 1999). Os filmes históricos, ou épicos,  são três: “Gladiador” (Ridley Scott, 2000), “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960) e “O último dos moicanos (Michael Mann, 1992). Dois filmes tratam do tema vida em prisão: “Um sonho de liberdade” (Frank Darabont, 1994) e “Rebeldia indomável” (Stuart Rosenberg, 1967). E três enfocam a luta contra o racismo, a saber, “Malcom X” (Spike Lee, 1992), “Mississipi em chamas” (Alan Parker, 1988) e “No calor da noite” (Norman Jewison, 1968). O único documentário da lista toda é “The endless Summer” (Bruce Brown, 1969), sobre a prática do surfe.

Por fim, outros filmes há que não se classificam por gêneros, a não ser no sentido amplo de serem dramas – familiares, sociais ou existenciais.  “Vidas sem rumo” (Francis F Coppola, 1983); “Mar adentro” (Alejandro Amenábar, 2004); “A mulher faz o homem” (Frank Capra, 1939); “Juventude transviada” (Nicholas Ray, 1955); “Vinhas da ira” (John Ford, 1940) e “Uma rua chamada pecado” (Elia Kazan, 1951).

Não estou citando os atores, mas dei-me ao trabalho de contar, e os campeões de recorrência são, de fato, previsíveis: na ordem, Clint Eastwood, Kevin Costner e John Wayne.

Feita a leitura da lista, acho que a vontade do leitor é perguntar o que é, afinal de contas, um filme para homens. E, por antítese inevitável, o que seria um filme para mulheres.

O critério do Site, como dito, é o filme ser a estória de um personagem do sexo masculino, mas, quem foi que disse que uma estória sobre um homem só interessa a homens? Ou que uma estória sobre uma mulher só interessaria a mulheres? Eu, que sou homem, me sentiria frustrado se me proibissem de ver ou de gostar de – para citar apenas filmes com nomes femininos -: “Rainha Cristina”, “Stella Dallas”, Ana Karenina, “Ninotchka”, Joana D´Arc”, “Noites de Cabíria”, “Gilda”, “Laura”, “Sabrina”, “Irma La douce”, “Xica da Silva”, Adele H”, “Júlia e Júlia”, e tantas outras.

Sem contar que, em muitos casos, fica difícil dizer quem é mais protagonista do que quem. Em “Casablanca” seria Rick ou Ilsa? Em “E o vento levou”, seria Scarlett ou Rhett? Em “A princesa e o plebeu” seria a princesa, ou o plebeu? Nas muitas adaptações de Shakespeare, o protagonista seria Romeu ou Julieta?

Tudo bem, não sou ingênuo e sei que, na prática, as pessoas fazem a separação, e que os produtores e realizadores, para garantir bilheteria, reforçam a dicotomia recepcional entre os sexos, pondo mais ação em filmes para homens, e mais sentimento em filmes para mulheres, assim como, em casa, os brinquedos que os pais dão aos filhos são carros e armas para os meninos e bonecas e casinhas para as meninas.

O engraçado é que existe um filme, aliás, não referido no Site em questão, em que essa dicotomia recepcional está abordada, e de modo muito curioso. Acho que vocês se recordam da comédia romântica com Tom Hanks e Mag Ryan “Sintonia de amor” (Nora Ephron, 1993): em uma determinada cena alguém (naturalmente uma mulher) começa a rememorar o melodrama de Leo McCarey “Tarde demais para esquecer” (1957) e, na descrição da cena final entre a aleijada Deborah Kerr e o pintor Cary Grant, simplesmente desaba em pranto, ao ponto de não poder continuar. Nesse momento, incomodado, alguém (naturalmente um homem) alega que “Tarde demais” é um filme para mulherzinha, e, imediatamente, passa a descrever a cena final em um “filme para homem”, cheio de ação e adrenalina, “Os doze condenados” (Robert Aldrich, 1967). Ora, no meio da descrição, o marmanjo se emociona e … desaba em pranto.

A idéia na cena de “Sintonia de amor” seria a de que, se filmes para homens e filmes para mulheres são diferentes, a diferença não residiria na reação do(da) espectador(a), aqui, o mesmo jorro de lágrimas. Mas, atenção, não esqueçamos que o autor do filme – de qualquer filme! – também tem sexo e o sentido da cena foi dado por ele/ela. No caso presente, trata-se de uma mulher (Nora Ephron), mas, poderia ter sido um homem que, faria talvez a encenação com outra conseqüência semântica.

E ficamos na estaca zero da discussão.

Ao leitor ou leitora desta matéria, sugiro que repasse com calma a lista desses filmes para homens, relembrando o que assistiu e com que interesse, e, a partir de seu próprio gosto ou tirocínio, decida sobre a pertinência de uma lista de filmes – a aqui exposta, ou qualquer outra – que divida a recepção a partir da diferença sexual entre os espectadores.