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Uma tarde em 1960

24 set

Nesse dia não houve todas as aulas e saímos mais cedo – coisa rara num Colégio rigoroso como o Lins de Vasconcelos. Na saída, ainda vi o sempre elegante Prof. Nery, diretor do Colégio, conversando com o sisudo Prof. José Maria; Dona Maria, a servente durona, admoestando alguns alunos mais insubordinados; e, lá fora, ao pé do Cruzeiro, Dona Creuza, a ´primeira dama´ do Colégio, trocando ideias com o jovem atleta Quinca Brito.

Deviam ser umas quatro horas e a tarde estava bonita. Ir pra casa,  não era o caso. Tomamos, eu e meu colega de turma, Aroldo, o rumo da Duque de Caxias, e fomos ver, só por curiosidade, o que estava em cartaz no Cine Rex. Nada de interessante, um tal de “As minas do Rei Salomão”.

Apressado, Aroldo me puxou pelo braço e descemos direto para a Visconde de Pelotas. É que seu pai – explicou-me ele, baixinho – podia muito bem estar ali na frente, na Sede do Clube Cabo Branco, jogando xadrez com aqueles velhotes de sempre, e ele não queria ser visto.

Trabalho deu foi cruzar a calçada do Pronto Socorro, pois, ali, uma multidão se acotovelava, certamente à espera da chegada de algum paciente muito famoso, que a ambulância viesse trazendo, notícia talvez anunciada pelo rádio.  Talvez o motivo do súbito cancelamento das aulas? Não sei.

Mas, numa tarde daquelas, quem queria saber de doentes, mesmo famosos? Fomos correndo aos cartazes do Plaza, que exibia um filme que, a Aroldo nem tanto, mas a mim pareceu interessante – “Imitação da vida”. Talvez pudesse vê-lo em outra ocasião. Bem melhor, agora mesmo, seriam os bancos da Praça João Pessoa, onde, com certeza, as garotas e os possíveis flertes nos aguardavam.

No Ponto de Cem Réis, os bondes faziam suas manobras barulhentas, mas, claro, hoje não iríamos pra casa de bonde, nem de ônibus. Tínhamos tempo livre e o dinheiro da passagem serviria pra ver mais filmes, ou para outros lances de igual atrativo.

Assim, ignoramos as marinetes na Praça 1817 e fomos direto para a tão ansiada Praça João Pessoa, que, pra nossa relativa surpresa, estava quase lotada, já que outros colégios também haviam dado folgas. Tanto é que tivemos que, num primeiro momento, sentar perto de uns jornalistas, empregados do Jornal A União, cujo prédio ficava no outro lado da rua. Um gordo e pálido, de cachimbo na boca, discutia com um magro, louro, alto e falastrão: falavam alto, mas não era assunto que entendêssemos.

Depois, por sorte, nos livramos daqueles vizinhos chatos, e fomos sentar noutro banco. Com a chegada de novos amigos, alguns também colegas do Lins, o papo foi longe, cada um contando as suas supostas aventuras amorosas, das quais, evidentemente, faziam parte estratégias mentirosas e tudo mais a que tinham direito adolescentes inexperientes e sonhadores.

Daí a pouco estava escurecendo. Melhor ir andando, que a tirada até Jaguaribe era longa. Tomamos, eu e Aroldo, o caminho do Mercado Central, cortamos a Pça Castro Pinto e pegamos a tortuosa Alberto de Brito. Deixando Aroldo em casa, na altura da Coremas, fiz a volta no quarteirão, para passar na frente do Cinema São José só pra checar o filme da noite, uma comédia chamada “Quanto mais quente melhor” – que prometia. Com certeza, viria vê-la, naquele mesmo dia ou num dia seguinte.

Segui, animado, pela Floriano Peixoto, porém, antes de dobrar a esquina da Primeiro de Maio, bem antes de alcançar minha casa… acordei. Acordei e, puxa vida, perdi a chance de rever meus pais, certamente vivinhos da silva, me esperando para um bom prato de sopa quente, com pão francês novinho, recém saído dos fornos da  modesta mas providencial padaria da família.

Pois é, acordei confuso, ainda misturando a euforia do passado com a disforia do presente. Por que será que fui sonhar, naquela noite, com a João Pessoa de 1960 e, assim, de modo tão intenso? Foi quando lembrei que no dia anterior, eu havia passado horas no computador, admirando – e salvando – as fotos antigas da cidade que certos obcecados pelo passado vivem postando nas redes sociais.

Sei não, viu, mas acho que preciso me afastar do Facebook, ou, ao menos, excluir Petrônio Souto de minhas amizades virtuais…

 

(Em tempo: esta crônica saudosista foi inspirada pela galeria de fotos antigas de João Pessoa que o jornalista Petrônio Souto vem, com impressionante assiduidade, postando no Facebook)

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Bullying e outros males

12 dez

Quando eu era criança e estudava no Grupo Escolar Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, me vi algumas vezes intimidado pelos colegas. Com uma hérnia escrotal congênita, fui um menino frágil, que nunca pôde, por exemplo, jogar futebol, ou praticar outras atividades físicas do gênero. Além disso, sofria de uma miopia igualmente congênita, que me obrigava a carregar na cara uns óculos tipo ´fundo de garrafa´. Magro e feio, fui, vez ou outra, ridicularizado por não exibir o comportamento saudável e viril da criançada da minha idade.

Ao me transferir, no ginasial, para o Colégio Lins de Vasconcelos, a coisa piorou. Era um colégio de ricos e eu, além dos maus predicados já citados, somados a uma timidez patológica, era pobre. Por causa dos óculos e do perfil todo, fui chamado pejorativamente de ´ceguinho´ e descartado do convívio da turma. Sim, inevitavelmente fui, aqui e acolá, vítima do que naquela época não tinha nome, mas, hoje se chama de bullying. Nunca bateram em mim, porém, os olhares de desprezo eram como pancadas que podiam doer mais.

Só mais tarde, já no segundo ano ginasial, quando um dos colegas ricos, descobriu que eu tinha um domínio razoável da língua inglesa, é que meu conceito mudou, e, surpreendentemente, virei quase um ídolo, sobretudo em dias de prova de Inglês. Claro que, a partir daí, usei o meu conhecimento para superar os percalços, mas confesso que não foi fácil

Por essas e outras, me comovi assistindo ao vídeo do professor Pedro Nunes “Escola sem preconceito” (2012), um documentário mais que pertinente e oportuno, sobre as difíceis e por vezes incontornáveis relações sociais dentro de um educandário. O exemplo tomado no vídeo é o do Lyceu Paraibano, mas, claro, poderia ser qualquer outro, na cidade ou alhures.

Pedro-Nunes1

Com depoimentos de alunos, professores, pedagogos e pesquisadores do assunto, o vídeo trata de praticamente todos os meandros no relacionamento entre docentes e discentes, incluindo a sua dimensão virtual. Preconceitos contra deficientes físicos, gays, lésbicas, transexuais; violência contra professores, violência entre alunos, etc: tudo vem à baila, sem censura e sem medo de tocar em tabus.

Ao lado de providenciais explicações teóricas que iluminam a problemática, ou encenações de casos típicos – como o da garota que, anonimamente, põe na internet o que pensa de uma colega lésbica – temos depoimentos comoventes que ilustram a dura realidade da sala de aula.

Dou destaque para um dos testemunhos mais contundentes do vídeo, o de Fernanda Benvenutty, que narra como a discriminação a sua transexualidade começava no transporte para a escola e tinha continuidade na sala de aula. Ia à aula a pé, para não sofrer chacota nos ônibus e, na escola, sentava na primeira fila para que, na hora da chamada, a turma não escutasse o seu nome masculino. Não frequentava o pátio no horário do recreio e só ia ao banheiro durante o período de aula, com receio de ser agredida. Como é sabido, Benvenutty formou-se e é hoje uma profissional respeitada.

Fernanda Benvenutty

O vídeo de Pedro Nunes é uma produção do “Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Ação sobre a Mulher e Relações de Sexo e Gênero” da UFPB, e, segundo consta, foi confeccionado para ser distribuído nas escolas do Estado, para a consideração de quem está no batente da sala de aula, professores, alunos e educadores de um modo geral. Neste sentido, a fala franca da atual Gestora em educação do Lyceu Paraibano, Francisca Vânia Rocha Nóbrega, é um dado particularmente significativo.

Em certo momento da projeção, um dos depoentes, o professor e ator Everaldo Vasconcelos, supondo que, na verdade, poucos diretores de escolas terão a coragem de exibir um vídeo assim polêmico e ousado, toma a iniciativa interativa de dirigir-se aos potenciais espectadores do vídeo e solicita, para aqueles cuja escola está tendo a coragem de exibi-lo, uma salva de palmas.

As minhas vão, antes disso, para esse empreendedor e destemido professor Pedro Nunes, guerreiro de muitas batalhas contra o preconceito.

Para retornar ao início desta matéria, sofri um pouco no Colégio Lins de Vasconcelos, mas houve quem tenha sofrido muito mais. Lembro-me de um aluno – Guilherme, se não me engano – que, por possuir trejeitos físicos nada condizentes com o comportamento machista preponderante, era chacoteado por todo mundo, ao ponto de, em nenhuma circunstância, ser levado a sério. Só algum tempo depois fui entender a gravidade do problema, quando vi, pela primeira vez, o filme de Vincente Minnelli “Chá e simpatia” (1955), mas, essa é outra estória, que fica para depois.

Em tempo: em sessões gratuitas “Escola sem preconceito” está sendo exibido no recém inaugurado Cine Funjope Linduarte Noronha. Uma boa pedida para quem pensa educação.

escola sem preconceito bastidores